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23 de jun. de 2014

Para tempos como esses que vivemos

Os sentimentos são como o mar, afetados pela Lua, pela ressaca, pela poluição, pelas correntes, pelos bichos que o povoam e aterrorizam. O mar é traiçoeiro, no mar dá para surfar, pelo mar é costume singrar. Mas também se afogar.

O mar é salgado como o suor. O mar é cristalino ou turvo, suave ou encrespado, revolto ou sereno, refrescante ou enregelante. Mas o mar nunca mata a sede.

Tem gente cujo coração é de mar. Outros tantos têm o mar na cabeça, agitando pensamentos, refletindo à deriva, mergulhando nos sonhos. Uns e outros rodopiam nas marés que puxam a vida para longe da segurança da praia.

No mar da vida encontramos algumas boias, amigos e amores aos quais confiar nossa sobrevivência e respiração. Às vezes, sucumbimos com eles; outras, eles nos rebocam.

O mar é traiçoeiro, irmão. É forçoso nadar, e nadar com ânsias de sobrevivência.

22 de ago. de 2013

Quatro chaves para formar na liberdade

1) Fomentar a iniciativa: fazer que queiram, animando a fazer.

2) Forjar as convicções: transmitir princípios, mais que conclusões; ajudar a entender. Sedimentar ideias e razões antes das decisões. O verdadeiro estímulo vai além da exortação e da imposição negativas.

3) Abrir perspectivas: ajudar a manter o foco no fim e na causa, mais do que nos erros.

4) Mover pelo carinho: apostar nas pessoas, demonstrando-lhes confiança, fazê-las sentirem-se mais ajudadas que exigidas.

17 de ago. de 2013

Aprender a ser livre

A liberdade tem irmãs que parecem suas inimigas: a fidelidade e a prudência.

Fidelidade é felicidade

A fidelidade vive em simbiose com a liberdade, implica efeitos futuros, supõe estabilidade. A estabilidade é espaço criativo que independe das circunstâncias. A falta de compromisso cancela o futuro.

Virtude é a perfeição da liberdade, é um hábito eletivo, é uma autoconstrução. A virtude da fidelidade confirma a liberdade da escolha feita, vencendo a ferrugem do tempo.

Mas quem não se sente livre, atua como se não o fosse…

Liberdade libertada

Formação não é acumulação erudita, mas transformação sapiencial. Formar-se significa aprender a usar a própria liberdade. A formação cria homens de critério, não colecionadores de critérios.

Prudência não é manualística. A manualística por si só conduz à superficialidade, ao minimalismo, ao negativismo, à especialização. A prudência faz a ponte entre o fim e as escolhas, superando o voluntarismo.

Princípios firmes podem vir de fora (educação, vida em sociedade, etc.) enquanto não são pessoalmente assimilados. Mas depois, a experiência sozinha não forma. O que forma é a reflexão.

30 de jan. de 2013

Em defesa dos tabus marginalizados


Tabus

Gosto dos tabus. Eles podem ser barreiras de proteção da vida. É claro que podem existir tabus estúpidos, mas os melhores tabus são esses que protegem a vida. Tabu é um termo polinésio que se refere justamente a coisas sagradas que devem ser protegidas.

A vida é o que temos de mais sagrado. E a vida se manifesta de forma veemente na gravidez, no nascimento dos filhos, na passagem para a idade adulta, na relação sexual, nos banquetes, na doença e na morte. Assim, os tabus protegem esses momentos e os revestem de significado: passar sal no recém-nascido, purificar a mulher que deu à luz, dar festa de despedida de solteiro, organizar chá-de-panela, fazer formatura da faculdade, rezar pelos doentes, fazer luto pelos mortos, etc.

Pelo contrário, quando a sociedade despreza o sagrado, quebra todos os tabus: aborto dos nascituros, pedofilia, sexo extramatrimonial e antinatural, eutanásia, etc.

Tabu sexual

Talvez isso ajude a entender melhor o tema da sexualidade. Os cuidados que existem, os tabus, não são arbitrários, mas discricionários. Fazem sentido, justamente porque servem para proteger algo muito importante.

Contudo, nesse tema há algo mais. Reduzir as questões sexuais a mero tabu seria um grande reducionismo.

Virtude

Existe uma diferença entre fazer e agir: o agir implica um necessário uso da racionalidade, mas o fazer não. Por exemplo, um macaco pode fazer muitas coisas, mas um macaco propriamente não age. Ora, o que permite racionalizar a ação é a virtude.

E assim, em todos os âmbitos da vida precisamos viver alguma virtude: no trabalho vivemos a laboriosidade; na escola, a estudiosidade; na comida, a temperança; nos relacionamentos, a cordialidade; etc. O sexo não foge à regra, e para a boa vivência do amor, deve-se viver a virtude da castidade.

Virtude da castidade

O problema é que a revolução sexual dos anos 60 simplesmente aboliu a castidade. Isso não foi uma evolução, foi uma animalização. Pois bem: se antes se vivia a castidade por conveniência (pegava mal ser mãe solteira, ou pegar todas), hoje só se vive a castidade por virtude mesmo. E como qualquer virtude, a castidade se aprende a viver.

Portanto, é preciso entender o que é o sexo, o que é a solidão, o que é o casamento, quais são as manifestações de afeto proporcionais os graus de intimidade assumidos, como reagimos aos estímulos, etc. O normal era aprender isso dos pais e obter ajuda da escola, da Igreja e das leis civis. Hoje, contudo, muita gente está simplesmente à deriva, arrebentando a vida com experiências sexuais carentes de autêntico significado, e poucos alertam para isso.

Mas esses poucos é que farão a diferença. Você é desses poucos?

27 de nov. de 2012

Lembrar de cor

A memória sensitiva é como um armazém. Do seu arquivo tira a imaginação tudo aquilo que estimula a vontade e provoca a inteligência.

A memória intelectiva, pelo contrário, ignora os discursos e espicaça diretamente o coração.

Aplicada à oração, a memória sensitiva estimula à gratidão pelos benefícios recebidos de Deus.

Por sua vez, a memória intelectiva converte-se no orante em potência de evocação. É o canal dos suspiros e anelos. A virtude da esperança é para ela um fogo purificador.

20 de nov. de 2012

Treze manifestações de soberba

A soberba é o mais feio dos vícios. Consiste na idolatria de um bem aparente muito particular: o próprio eu.

Tão ou mais difícil que combater esse vício é perceber sua malícia. O amor próprio parece assaz natural, a ponto de prejudicar a frieza necessária para uma autoavaliação equilibrada.

Seus vícios conseguintes são o orgulho, a vanglória, a vaidade, a timidez, a vergonha, os respeitos humanos e, até, o desprezo de Deus.

A soberba é uma hidra com muitas cabeças, cujo veneno desgraça a vida. Identifiquemos algumas delas, façamos um elenco das suas manifestações:
  • Visão sistematicamente ácida e negativa acerca de tudo. 
  • Tristeza cultivada e defendida. 
  • Crises de consciência diante dos conselhos recebidos. 
  • Falta de vibração diante dos pequenos detalhes do amor. 
  • Explosões de ira. 
  • Criar uma teoria da conspiração. 
  • Achar que nos exigem muito. 
  • Endurecer com os próximos e conhecidos, e amolecer com os distantes e desconhecidos. 
  • Desprezo das amizades. 
  • Preferir a própria excelência à dos outros. 
  • Fazer os pensamentos, conversas e gestos girar vaidosamente em torno de si. 
  • Suscetibilidade enfermiça. 
  • Simular dor, tristeza e doença para obter consolo. 
Por outro lado, há cinco armas para se combater a soberba:
  • Considerar frequentemente a “ladainha do nada”: não posso nada, não valho nada, não sou nada… 
  • Conhecer a humildade, desejá-la, buscá-la e pedi-la a Deus. 
  • Encontrar alegria em servir abnegadamente os demais. 
  • Retificar a intenção muitas vezes ao dia, especialmente nos triunfos e fracassos. 
  • Ser agradecido, também e em particular nas humilhações.

13 de ago. de 2012

A infidelidade no banco dos réus

Deserção não é solução para infelicidade: quem decai é infeliz precisamente porque decaiu.

O que explica a infidelidade? Não é o caso aqui de fazer referências a fatores sociológicos nem psicológicos — que não são verdadeiras causas —, enquanto o fator moral é ignorado. A origem do fenômeno da infidelidade está no âmago das decisões do indivíduo, é um problema moral, e opera em dois níveis.

Primeiramente, ocorre à pessoa infiel um empobrecimento do conceito de liberdade. Ela pensa que o homem é incapaz de conciliar seu livre-arbítrio com decisões incondicionais.

Em segundo lugar, ocorre-lhe uma desvalorização dos laços, como se fossem escolhas unilaterais ou sem consequências externas e sociais.

Em resumo: a infidelidade nasce da inflação da autonomia, da hipertrofia do individualismo.

O amor exige renovação, atualização, voluntariedade atual. Contra isso está nosso aburguesamento, nosso relaxamento, nossa preguiça. E a preguiça é pior que o ódio quando o seu oponente é o amor. O preguiçoso tende a orgulhar-se de ser assim; mas tal orgulho é extremamente nocivo, pois tende a criar um abismo entre as pessoas, um endurecimento interior e um afastamento que são grande ocasião de tentações.

O infiel em potencial, com a intenção de “evitar” seus (autoforjados) conflitos de consciência, começa a cogitar que nunca existiu o amor, retroagindo o mau momento atual para o início da relação, insinuando que então se era muito jovem ou sem o conhecimento suficiente do futuro ou que nunca se foi completamente feliz, etc.

Contra isso, é preciso ter presente que somos sim capazes de tomar decisões que orientem a vida numa direção determinada, definitiva e irrevogavelmente. Afinal, não é uma limitação da liberdade desconhecer os eventos futuros. Os condicionamentos advindos das novas situações não impossibilitam a felicidade, não a tornam impraticável por causa da decisão original. Se não pudéssemos ser consequentes até o fim é que não teríamos nem responsabilidade nem liberdade.

Por outro lado, a fidelidade não pode depender da possibilidade de realização efetiva dos sonhos, como se a infelicidade existencial procedesse da obrigação de se manter uma atual “situação indesejada”. O direito a esse tipo de felicidade seria insustentável para 99% da humanidade. O dever de cumprir as promessas é conditio sine qua non de toda sociedade e convivência. Os sonhos nos movem, mas nem sempre alimentam.

4 de ago. de 2012

Três elos para uma fidelidade inoxidável

Às vezes, a vida “puxa o tapete”. Nessas horas, a gente percebe que castelos de areia não são um apoio confiável. A essas desoras, a gente constata a carência de apoio.

Conheci pessoas que, para justificar porque suspeitavam de todo mundo e não acreditavam na fidelidade, até citavam a Bíblia: Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, que na carne busca a sua força e afasta do SENHOR seu coração! (Jr 17,5).

Embora efetivamente não devamos buscar arrimo nas coisas desta terra, nem na vontade volúvel das pessoas, isso não significa que a fidelidade inexista. É possível a nossa fidelidade e é possível a fidelidade das pessoas. Todos precisamos do apoio uns dos outros, como as cartas do baralho se sustêm mutuamente num castelo. Afinal, não somos peças isoladas.

Vulneráveis castelos de areia e frágeis castelos de cartas. Mas continuam a ser castelos, construções comuns que apontam a um desejo maior de união.

Se a fidelidade é possível, convém imbuir-se dos meios pelos quais ela é forjada. Para sermos rocha firme, sólida, constante, em que os demais possam se apoiar e assim se sentirem à vontade para corresponder com igual dose de fidelidade, precisamos cuidar de três aspectos:

1) Não exigir nada para si. Gosto de dizer que, mais do que ter mentalidade de pai, devemos ter mentalidade de avô. É que avô a tudo se nega por amor dos netos. E geralmente, avô não tem “instância superior” a quem recorrer. A abnegação é uma grande mostra de maturidade.

2) Ir na vanguarda. É importante ter iniciativas, para que a passividade e a falsa humildade — que equivalem à pusilanimidade e ao comodismo — não esterilizem o amor.

3) Encarnar o valor da fidelidade. A fidelidade exige estudo, por incrível que pareça. Numa época tão triste como a nossa, em que os mais elementares princípios morais são bombardeados por indecente propaganda e modelos transviados, necessitamos de recursos intelectuais para não ceder a argumentos tão pífios quanto difundidos. Por exemplo, conhecemos quantos casos de infidelidade que começaram com a frase “tenho direito a ser feliz”? A mente deve estar livre dessas teorias furadas, dessas retrospectivas tendenciosas, dessas concessões à sensualidade.

***

Responda com sinceridade: você sabe onde buscar (e encontrar) boa literatura sobre o tema?

2 de jul. de 2012

Quem paga a conta?

Dizem que a mulher é vontade, e o homem, inteligência. Mas no restaurante da vida, quem paga a conta?

Antes de tentar responder a essa pergunta, vamos complicar essa mesa, acrescentando o coraçãoO coração é um certo laço entre a vontade e a inteligência, quase um filho de ambos.

Pois bem, para descobrir quem paga a conta, penso que nos pode ajudar a consideração de como a fé — misto de luz e moção interior, intuição e entrega — é acolhida pelo coração.

Fé e razão

Seguindo a Tradição cristã, que tem em Agostinho seu expoente, o homem deseja a Deus, ainda que não o saiba, e pode conhecê-lo através da contemplação do mundo ou de si mesmo.

Deus se revela mediante sua Palavra Criadora, a Palavra da Aliança, a Palavra Profética e, enfim, por sua Palavra Encarnada: Jesus Cristo. Como se deve ouvir a Palavra? Com a “obediência da fé” (CCE 144).

A fé é, simultaneamente, uma adesão pessoal a Deus e o assentimento à verdade que ele nos traz por Cristo no Espírito Santo. A cláusula “no Espírito Santo” é importante, pois indica que nossa fé se apoia na fé da Igreja, que é o locus do Espírito. Ou seja, não há fé fora da Igreja, mas mera opinião ou crendice, pois não se pode crer senão mediante um fiador ou garante do que se crê.

Embora o motivo da fé seja a autoridade de Deus que revela, e não a inteligibilidade do dado revelado, a fé não “está de mal” com a inteligência. Sem a compreensão da fé, facilmente se vai do pietismo à impiedade. Daí a necessidade de fazer mais inteligível o que se crê.

Contudo, ao longo da história, nem sempre houve uma harmonização satisfatória entre fé e razão. De fato, num primeiro momento, alguns Padres viam a filosofia com reserva, inspirados talvez em leituras bíblicas que dizem da ciência que “também é vaidade” (Ecl 2,15), pois “o temor de Deus é o princípio da sabedoria” (Eclo 1,16[14]). Posteriormente, mas em sentido contrário, alguns pensadores cristãos também se afastaram da racionalidade da fé cativados por teses filosóficas voluntaristas.

Erros históricos

Tertuliano (†220) defendia o paradoxo credo quia absurdum, contra Clemente de Alexandria (†215), que equiparava a filosofia para os gregos à Lei mosaica para os judeus.

Sigério de Brabante (†1284): foi o principal defensor do averroísmo latino, ou seja, da existência de dupla verdade, baseado numa interpretação equivocada de Aristóteles.

Bem-aventurado João Duns Escoto OFM (†1308): ensinava a potentia absoluta de Deus, fundamentando teoricamente as teses voluntaristas daqueles que o sucederam. De fato, ao apresentar a liberdade como qualidade fundamental da vontade, levou seus seguidores a considerar a liberdade como inata e absoluta e a negar à vontade a necessária colaboração do intelecto.

Guilherme de Ockham OFM (†1349): separou o âmbito da fé do da racionalidade, que só serviria para descobrir o que é provável.

Gabriel Biel (†1495): apoiava a salvação no querer de Deus, independentemente do mérito humano.

Martinho Lutero (†1546): seu pessimismo quanto ao homem o levava a pensar que o homem, conforme a natureza não faz nada senão pecar e, conforme a inteligência, nada senão errar. A graça e a fé seriam incompatíveis com a natureza e a razão.

Søren Kierkegaard (†1855): para ele, o cristianismo seria verdade por parte de Deus, mas não a intelectualizada.

Rudolf Butmann (†1976): segundo o teólogo protestante, a fé não diria como foi Jesus, mas qual seria a mensagem existencial do mito criado pela Igreja: a conversão.

Ser cerebral ou ser voluntarista?

O mistério da cruz, com sua exigência radical de fé, redimensiona toda essa questão. Tanto o intelectualismo quanto o voluntarismo caem por terra diante da entrega amorosa de Cristo.

Judas Iscariotes representa bem o intelectualismo. Homem frio, calculista, interesseiro, que só se preocupava com o dinheiro, a segurança, as coisas no lugar; ou então com uma preocupação social ineficaz, ou com um nacionalismo terreno. Não lhe entrava na cabeça o caminho da entrega, da generosidade, do esquecimento próprio. Por tudo isso, vendeu Cristo por trinta moedas.

Simão Pedro, porém, encarna o voluntarismo. Homem impetuoso, de coração grande, só se movia por entusiasmos passageiros, por sentimentos favoráveis, por caminhos fáceis e alegres. A renúncia, a abnegação, o passar oculto, custavam-lhe ao coração. Por causa de sua volubilidade acabou por negar Cristo por três vezes.

Só a fé é capaz de iluminar a mente e fortalecer o coração, tornando-se o fundamento da fidelidade.

*****

Afinal, quem paga a conta? Sou muito feminista. Por isso, se elas querem isonomia, penso que quem deve pagar a conta é a gatinha da vontade.

18 de jun. de 2012

Cinco segredos da JMJ

Como necessário complemento aos sete passos para uma bem-sucedida JMJ no Rio de Janeiro, apresento os cinco pontos auge da JMJ de Madri, analisados por Bento XVI em seu balanço de fim de ano (que vale a pena ler na íntegra).

Nova experiência de catolicidade

A JMJ é a nova evangelização ao vivo. Permite apalpar a catolicidade, isto é, a universalidade da Igreja: gente de todos os continentes que, sendo tão diferente pela língua, cultura, nação, compartilha os mesmos sentimentos e ideais. É uma verdadeira aula de pluralismo.

Nova forma de ser homem

Em Madri houve cerca de 20.000 jovens voluntários, indicando a perene vitalidade da caridade, que se reveste formas novas conforme os tempos. Através do altruísmo, da solidariedade e do serviço, muitos redescobrem o amor de Deus e do próximo, que é o verdadeiro motivo da ação humana.

Revalorização da adoração

A presença real de Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento da Eucaristia é o ponto focal da JMJ. Dali se alimenta a Igreja e aí encontra forças cada fiel. É a atitude que se tem diante da Eucaristia que define se uma pessoa está ou não comprometida com Cristo.

Redescoberta da Penitência

Não seria autêntico um encontro com Cristo que descuidasse a penitência. Jesus Cristo é exigente e a proposta de vida cristã tem como meta nada menos que a santidade. Por isso, o esforço penitencial de purificação, que todo batizado envida ao longo de sua vida, necessita da graça de Deus para chegar à perfeição. A confissão sacramental dos pecados pessoais ao sacerdote é o único meio ordinário, instituído pelo próprio Cristo, para responder ao esforço humano com o perdão gratuito de Deus. Quem frequenta esse sacramento, recebendo a absolvição de sacerdotes experimentados, enche-se de alegria, de segurança, de confiança em sua luta por ser uma pessoa melhor.

Refortalecimento da alegria

Segundo São Tomás de Aquino, a alegria é “certo ato e efeito da caridade”, já que “a mesma caridade inclina a amar, a desejar o bem amado e a gozar nele” (S. Th., IIa-IIæ, q. 28, a. 5, c). Se pela caridade os cristãos são reconhecidos, em toda parte onde estiverem seu traço característico será, portanto, o sorriso da alegria.

30 de mai. de 2012

Tweet budista ou teresiano?

Certa vez, twittei as seguintes palavras de Santa Teresa:

Quem está preso a alguma coisa, é sinal que a estima; se a estima, forçosamente terá pesar de deixá-la, e deste modo já anda tudo imperfeito e perdido. É o caso de dizer: perdido anda quem anda atrás do perdido. E que maior perdição, que mais cegueira e desventura do que ter em muito o que nada é?

Aí me veio o seguinte comentário:


Não entendi o que o Buda tinha a ver com o assunto, já que seu motivo do desapego era o nirvana (isto é, a extinção definitiva do sofrimento humano alcançada por meio da supressão do desejo e da consciência individual), o que nada tem a ver com o realismo e a pobreza cristãos.

Para fazer entender melhor, completei que há dois modos de se desapegar: ou largar tudo, ou usar bem.

Acho um tão difícil quanto o outro. Negócio é descobrir nosso caminho pessoal. Uns saberão usar sem possuir; outros sentirão a necessidade de jogar tudo pela janela para conseguir plena liberdade. Pois convenhamos que a pobreza não é fácil de entrar na cabeça.


Prefiro minha querida Teresa de Ahumada, mulher mística que não fugia da luta, embora o dela não seja o meu caminho.

*****

Qual é o seu caminho? Renunciar a tudo ou usar com desprendimento?

14 de mai. de 2012

Quatro doenças da alma

Alma burocrática é a dominada pela rotina. Os procedimentos a agrilhoam, os padrões a determinam.

Alma boêmia é vítima da lei do gosto, e contra ela não há anistia.

Alma rachada pela duplicidade é a que entra nos terrenos por dois caminhos.

Alma derramada é a fragmentada pela dispersão, esparramada na desatenção.

A primeira entregou sua liberdade às regras protetoras; a segunda, ao prazer egoísta; a terceira, ao interesse escuso; a última, à falta de compromisso.

A panaceia compõe-se de enfrentar riscos, aceitar o sacrifício, sondar as próprias intenções, assumir responsabilidades.

Como está a sua alma?

19 de abr. de 2012

A ouvido fechado, palavra aberta

Transcrevo trechos de uma mensagem que enviei a uma pessoa cheia de dúvidas, mas que não as resolve porque reluta em conservar seu ceticismo como um troféu.

É que ainda acredito ser possível o diálogo com quem começa a conversa dizendo que nunca vai mudar de ideia.


*****

É evidente que, se digo algo, é porque penso que posso contribuir com algo para sua vida, assim como quando você me diz algo é que quer compartilhar comigo suas convicções. Não é questão de um converter o outro. A conversão, que é um desandar o caminho andado na contramão, necessita de um meia-volta-volver que só Deus pode conceder àqueles que se dispõem a procurá-lo.

Tenho a convicção de que as atuais acusações, feitas à religião em geral (e ao Cristianismo em particular), procedem em grande parte de uma reação crítica ao protestantismo. Por exemplo: chamar os islâmicos de fundamentalistas é uma impropriedade, pois o “fundamentalismo” foi uma seita protestante americana do início do século XX.

Na mesma linha, como os pseudointelectuais de hoje desconhecem a existência de filosofia antes de Kant, é bastante comum que confundam a autêntica moral cristã das bem-aventuranças com sua versão (reduzida, protestante e kantiana) dos imperativos categóricos: daí que Nietzsche se insurja, com acerto, contra uma "moral de escravos". Mas o filósofo, apesar do bom faro, errou sua pontaria…

Explico de outro modo. A moral cristã não pretende simplesmente moldar bons cidadãos: isso é muito pouco. Também não é um código de prescrições: o mero sentido do dever não arrasta ninguém.

O Estado — ainda vale a pena falar dele? afinal, estamos entrando na era pós-estatal —, o Estado gosta é da religião gnóstica e alienante, que não leva seus adeptos a atuarem socialmente em conformidade com seu credo. A gnose é religião privada, sem repercussão pública. Mas uma ação social contundente incomoda a ordem constituída. Convenhamos: a reforma deve ser o estado habitual das coisas, pois cada geração precisa assumir a situação herdada, o que não se faz sem contribuir com sua própria visão. Repare que não estou propondo que se renegue a tradição, mas que ela seja acolhida criticamente por cada geração.

Todo este assunto é muito complexo e não pretendo fazer aqui um tratado. Apenas quis frisar uns pontos para compartilhar com você meu pensamento. Já escrevi sobre alguns desses pontos e deixei algumas aulas em http://audio.narajr.net/. Confesso que, do jeito que trato esses temas, pode ser uma verdadeira indigestão. Mas é o que tenho para falar.

Por que sou católico? Acho que a resposta é simples. É a mesma que deu São Pedro no ponto de inflexão da pregação de Cristo. Você deve se lembrar que, depois de Jesus anunciar que instituiria a Eucaristia, “muitos discípulos o abandonaram e não mais andavam com ele” (Jo 6,66). Então ele se dirigiu aos próprios Apóstolos e lhes propôs que eles fossem embora também. Mas Pedro respondeu: “A quem iremos, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68).

Faço minhas as palavras dele: A quem irei? A Maomé? A Lutero? A Alan Kardec? A Kant? A Marx? A Freud? A Nietzsche? A Marcuse? A Foucault? A Derrida?…

*****

Deixe-me agora lhe fazer umas perguntas:

A quem você procurou? A quem você pretende ir?

17 de fev. de 2012

Vida inteligente antes de Kant

Um amigo meu, professor de direito, contou-me como sentiu-se mal num debate de que participou na UniRio. Um dos debatedores — cujas ideias eram inconsistentes, ligeiras, imorais e pouco inovadoras —, a fim de desmoralizar meu amigo, acusou-o de ser kantiano.

A questão é que meu amigo não é nada kantiano. Ele simplesmente defende as virtudes.

Uma possível conclusão é que, por incrível que pareça, há quem pense nunca ter havido filosofia antes de Kant. Mas será possível que as pessoas só entendam as virtudes em termos de imperativos categóricos?

Virtude não é dever, é liberdade. Por isso, moral é a arte de viver.

Mas há quem pense que moral é viver sem arte. E que arte é ser imoral. De fato, (pouco) antes de Kant existiu o Marquês de Sade.

Quando o curador é o diabo, meu caro, a entrada pode ser gratuita, mas a saída…

18 de jan. de 2012

Leopoldina é que era mulher de verdade

A leitura das cartas da Imperatriz Leopoldina me fez saber de forma mais significativa que os príncipes eram preparados para o Estado mediante uma educação tão esmerada que faz parecer nossas melhores escolas uma brincadeira de criança.

Com efeito, a futura Imperatriz brasileira, da casa dos Habsburgos, aprendeu enquanto jovem as lides do campo e da pecuária, foi treinada para vencer a timidez através da oratória e da dramaturgia, capacitou-se para a diplomacia mediante o estudo de diversas línguas, compreendeu a importância das artes e das ciências pelo contato direto com seus métodos, etc.

Ao casar-se com Dom Pedro I, Leopoldina ressentiu-se da inferioridade da educação na corte portuguesa, agravada pela precariedade que supôs a vinda ao Brasil. Além disso, penou com a artificialidade que os lusos revestiam inclusive a piedade e a liturgia.

O fim da monarquia trouxe consigo o rechaço pela pompa. Mas não parou na repulsa à ostentação: seguiu-se uma gradativa diminuição do requinte, do esmero, da delicadeza, do tom.

Sem dúvida, a simploriedade, a pressa e a informalidade tornaram-se as indesejáveis companheiras das liberdades modernas.

16 de jan. de 2012

Da ecocultura à moralcultura

2012 é o ano da ecologia e este Depósito de ideias não pode ficar de fora.

O problema é que não tinha pensado em nada a esse respeito ainda… até que um amigo me contou a seguinte história:

Ele precisou dar uma conferência para professores e, falando dos três rr do consumo consciente, deixou sua plateia bastante incomodada.

Você já ouviu falar deles? Pois são:

REDUZIR
REUTILIZAR
RECICLAR

Aparentemente, os dois últimos são mais fáceis de praticar; o primeiro, porém, é um convite ao desprendimento, à frugalidade. Reutilizar e reciclar podem condecorar a vaidade dos ecologicamente conscientes, mas reduzir supõe algo mais íntimo.

De fato, ao falar de desprendimento aos professores da sua plateia, meu amigo percebeu que pisara no calo. Afinal, quem está disposto a reduzir o uso de celulares, computadores, internet, TV, música, condicionadores de ar, refrigerantes, cerveja, cigarro, combustível, viagens, etc.?

Tais incômodos nos fazem bem, pois o desconforto é uma zona em que os desafios morais se nos apresentam com mais glamour. Muitos assistentes depois agradeceram ao meu amigo pelo fato de lhes ter aberto os olhos para quanto estavam sendo consumistas.

Sem dúvida, quando o assunto é ecologia, o mais importante é o corolário moral.

13 de jan. de 2012

Lipoaspiração moral

Só suportando-se a si mesmo e libertando-se da tirania do próprio egoísmo é que o homem se encontra a si mesmo, a sua própria verdade, sua própria alegria e sua própria felicidade.

A crise do nosso tempo depende principalmente de que nos querem fazer acreditar que se pode chegar a ser homens sem o domínio de si, sem a paciência da renúncia e a fadiga da superação; que não faz falta sacrifício para manter os compromissos assumidos, nem esforço para sofrer pacientemente a tensão entre o que deveríamos ser e o que efetivamente somos.

A melhor lipoescultura é moral, e chama-se temperança.

21 de nov. de 2011

Consciência não é grilo

A voz da consciência é a norma próxima da moralidade. Mas é um juízo da inteligência, não um órgão da alma. Para que esses juízos sejam justos, faz falta conhecimento e conselho, pois fora da verdade não há conduta moral.

Dois perigos extremos consistem em deformar a consciência ou tê-la farisaica. O remédio é a humildade, que não se desculpa nem inventa teorias, antes pede conselho e medita.

Só são moralmente importantes os atos deliberados. O sentido do pecado enfraqueceu na consciência do homem moderno, mas o sentimento de culpa aumentou, com manifestações que beiram a patologia. O verdadeiro sentido do pecado é deturpado pela magia, que o reduz à mera quebra de um tabu que garantiria o êxito na vida.

Por outro lado, o sentimento de culpa pode inchar, confundindo o pecado com o pondus peccati, isto é, com seus efeitos: os homens sentem excessivamente a culpabilidade por erros invencíveis. Ora, se não houve uma renúncia voluntária à nossa verdade, não terá havido pecado formal, somente material.

Eis a gangorra ética: ou remorso ou presunção. Eis o fiel da balança: a verdade, e essa nua e crua.

19 de out. de 2011

Evangelho militante

Fides vera. | Spes firma. | Charitas perfecta.
(Medieval Latin, Kraus, Inschr. der Rheinlande II,
document 547, Back, O, 25)

Estender a mão

O voluntariado é hoje uma rede mundial que conta com milhões de colaboradores. A Internet nos deslumbra pela solidariedade com que tanta gente disponibiliza gratuitamente a informação. A filantropia é a marca registrada de uma série de grupos sociais empenhados na melhora das relações humanas, como o Rotary e o Lions Club, ou as comunidades espíritas de matriz kardecista.

O que há de comum entre essas iniciativas tão díspares? — O apreço pela alteridade. A gratuidade. A amizade como virtude chave para a construção da personalidade.

Mas essas atitudes procedem de uma raiz há muito esquecida pela consciência moderna, ou ao menos empequenecida a seus olhos. A origem extrema dessas condutas é a caridade cristã.

“Quem” é a Caridade

Etimologicamente, costuma-se referir o termo latino “caridade” (caritas, caritatis) à “carestia” e ao consequente encarecimento do custo de vida, de modo a indicar o valor elevado que uma pessoa teria para outra. Corresponde à forma grega κείρω, καρῆναι (“cortar curto, carecer”). A forma grega também pode ter o sentido mais raro de “cortar em fibras”. Κείρω , portanto, aponta para a carência, o anelo, a saudade.

Não obstante, a variante charitas parece remeter à outra forma grega, χάρις, a qual indica, segundo seu sentido mais objetivo, o semblante “gracioso” que desperta “favoritismo”.

No redemoinho da história das línguas, perdeu-se o rastro da palavra. Por isso, sinto-me no direito de ainda inventar uma terceira etimologia, mesmo que privada de fundamentação. É que caro, carnis significa em latim “carne”. Pois bem, gosto de interpretar a caridade como carnalidade, um “comungar da mesma carne”, um “fazer pacto de sangue”, um “irmanar-se”.

Se fosse real tal etimologia, seria possível dizer, com muita vivacidade, que o primeiro que viveu a caridade foi o Verbo feito carne. E o primeiro que levou a caridade ao extremo foi o mesmo Verbo cuja carne foi desfibrada na Paixão. Se “Deus é Caridade” (1Jo 4,8.16), no Verbo humanado a Caridade adquiriu um rosto: Jesus Cristo.

Mais do que ação

Voltar a dar o selo do cristianismo à identidade caritativa é urgente num momento histórico especialmente laicista e, por sorte, há muita gente trabalhando nessa seara. Em sentido contrário, porém, também existe uma necessidade premente de recuperar nos cristãos de hoje o ardor da caridade. Reconheço e aplaudo aqueles que sacrificam sua vida por amor — que são muitos, e que passam despercebidos —, mas a quantidade de braços cruzados (para não dizer algemados) ainda é tanta que surpreende.

Por desgraça, o laicismo encontra uma brecha onde menos se podia esperar. Depois de tantos anos após o Concílio Vaticano II, a visão que se tem da atuação dos leigos ainda é como a do século XIX. Só para dar um exemplo, sinto calafrios quando escuto a expressão “agente de pastoral”. Com efeito, ela oculta dois erros de fundo: a de que ser leigo é mero dado sociológico; e de que para atuar cristãmente é necessário ser um “engajado”. Nesse sentido, têm razão os laicistas quando impugnam a atuação dos “católicos oficiais”, acusando-a de ingerência eclesiástica.

Urge convencer os cristãos de que ser leigo é uma missão, não situação; e de que engajamento oficial é uma suplência de funções clericais, não ideal. Traduzindo em miúdos: a burocracia eclesiástica nunca poderá substituir a espontaneidade do amor. A caridade inventa, descobre caminhos, abre horizontes, flexibiliza, torna acessível com os braços abertos, arroupa com o calor da atenção. E quem tem de viver essa caridade é o povo cristão, não uma elite de “ortopráticos.

É claro que esperar tal atitude comprometida dos leigos supõe tê-los formado intensa e profundamente. E aqui a questão dá um nó: nada há mais distante da idolatria da práxis do que o estudo, a meditação e a oração.

3 de set. de 2011

Pecadores genuínos


Conclusão da conferência dada por André Louf, em que falava das influências negativas que pesam sobre a atual cultura religiosa.

Mais do que moral

O Espírito Santo procura expressar-se nas circunstâncias concretas, primeiramente na espontaneidade, liberdade e alegria. Em segundo lugar, por seus frutos. Por isso, a boa pedagogia moral auxilia a busca da experiência interior que torna sensível à ação do Paráclito. Os esquemas morais, porém, enquadram o comportamento humano num rol idealizado de regras, padrão ao qual o homem é convidado a aderir.

É claro que as normas éticas são necessárias; mas também convém reconhecer seus riscos, em particular o de separarem disposição interior de ação exterior. Isso resulta em dois perigos ulteriores: a quem não consegue manter o padrão moral, tornar-se cativo de uma espiral de culpabilidade; a quem tem consciência fácil, viver numa aparente perfeição que falsifica a liberdade de espírito.

Fazemos hoje muita confusão entre pecado e vida interior. Há pecadores que desistem da interioridade voltada para Deus; há pecadores que sonham com uma moralidade sem pecado; há justos incuráveis que olham de cima os pecadores. Esses três tipos são incapazes de aceder ao templo interior.

Os pecadores genuínos, por quem o Pai anela como pelo filho pródigo, são os reconciliados com a própria fraqueza, que se apoiam apenas na misericórdia de Deus. No perdão divino, seus corações são transfigurados e o pecado se torna uma porta para as profundezas do coração que conduzem ao conhecimento do Pai.
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