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1 de mar. de 2014

Quão longe é tão longe?


Sexo não é rito de passagem, nem uma experiência que transforme um moleque num homem.

Por outro lado, a avalanche pornográfica e o incentivo à promiscuidade tornaram toda uma geração imatura e amolecida.

Bom é que nem todo mundo é obcecado por sexo casual, embora o Doutor Correto e a Dona Direita não sejam fáceis de encontrar em cada esquina.

Estes são mitos comuns, que enganam muitas mulheres: “Ele nunca vai me querer se eu não fizer sexo com ele. Todo homem precisa de sexo para dar amor. Não encontrarei amor se não semear sexo. O sexo de hoje à noite é o relacionamento de amanhã de manhã”. Por isso, tantas pessoas guardam dores emocionais relativas ao lado físico das relações.

Para conhecer as intenções de alguém, é preciso — respire fundo — tirar o sexo de cima da mesa. Sexo não é ignição nem combustível do namoro: apenas embaralha as intenções. Para saber se alguém quer conhecer você, não será o melhor caminho oferecer-lhe benefícios físicos.

Nós homens sempre trabalhamos pelo que queremos. Presa fácil é presa descartável.

Nossas mentiras

“Se você me amasse, você dormiria comigo”. Significa o contrário de “se eu a amasse, respeitaria suas barreiras.”

“Tenho necessidades, e o sexo é uma delas”. Você conhece alguém que tenha morrido de continência?

“Eu amo você”. Às vezes isso é mentira, pois os homens gostam de dizer o que as mulheres querem ouvir.

“Não vamos saber se somos compatíveis se não fizermos sexo”. Esse papo de compatibilidade baseia-se em desejos e comparações. Ora bolas, estamos falando de amor ou de mercadorias?… Na verdade, somos sexualmente compatíveis com quem amamos de verdade, pois esse é nosso jeito de funcionar!

“Você vai acabar sozinha se não fizer concessões”. Simplesmente, você está procurando jeca, buscando amor no lugar errado.

“Qualquer coisa que você faça na viagem, na faculdade, etc., não importa, será uma única noite”. Somos a nossa memória. Qualquer decisão sexual permanece e aflora nos momentos mais inconvenientes.

“Quanto mais fisicamente unidos, mais gostarei de você”. Não necessariamente. Homem gosta de desafio; portanto, não ceda que ele gostará ainda mais!

“Nós nos amamos de verdade. É como se já estivéssemos casados”. Morar junto não é casar. Dividir quarto e dinheiro é coisa de república estudantil. E não era essa a história de amor com que você sonhava.

Algumas verdades

Para as mulheres: Seja elegante sempre. Nunca seja vulgar. Troque o sexo de fim de semana pelo sexo de uma vida inteira.

Para os homens: Todo jovem que toca a campainha de um bordel está inconscientemente à procura de Deus, já dizia Bruce Marshall. Quem deseja luxúria constata que seu coração está vazio, e que lhe faltam muitas virtudes, especialmente a da religião.

Para ambos: Casamento é contexto. Amor é projeto. Família é laço. Sem isso, o sexo é peça sem palco, história sem roteiro, diálogo sem ator.

Lembre-se: uma nota de 100 reais é sempre uma nota de 100 reais. A gente pode amassar, molhar, sujar, etc. Continua sendo uma nota de 100 reais. Ou seja: não importa o que tenhamos feito no passado. Importa o que fazemos hoje e agora. E importa muito mais quem somos. E somos muito mais que 100 reais!

12 de abr. de 2013

Cinco pressupostos da rasoura igualitária

A figura ao lado, publicada numa fanpage do Papa Francisco, foi recentemente denunciada ao Facebook como “agressiva” (pois vilipendiaria um símbolo pretensamente bom ao utilizá-lo para algo verdadeiramente bom).

Sem dúvida, todos somos iguais e temos os mesmos direitos, mas tem sido muito comum qualificar de “direito” toda sorte de reivindicação, ainda que antropologicamente falida.

Como um dos reclamantes me escreveu expondo a sua opinião contrária, recheada de críticas à Igreja — que entrou de gaiata na história —, enviei-lhe a seguinte resposta que penso ser útil reciclar aqui.

***

Primeiramente, creio ser preciso reconhecermos que você parte de alguns pressupostos “seus”. Assim, é forçoso que chegue a conclusões divergentes da doutrina da Igreja.


Pois bem, devido à solidez da doutrina católica, esses pressupostos devem ser bastante bem avaliados.

Em primeiro lugar você afirma, por exemplo, que a Bíblia “foi usada como objeto de dominação”, ou que o cristianismo justificou “atitudes horríveis”. É difícil entender a quê você se refere ao dizer isso. Afinal, a Igreja tem 2.000 anos e criou raízes em diversíssimas culturas.

Na verdade, a Igreja civilizou o Ocidente e tornou-se um referencial moral para todo o planeta, além de ser responsável por uma rede mundial caritativa, hospitalar e educativa, sem precedentes na história da humanidade. 

Outro pressuposto seu é que as instituições são obrigadas a se atualizarem de acordo com as mudanças culturais. É uma afirmação ambígua: concordo com você se essas mudanças forem boas e vinculantes. Fico em cima do muro se essas mudanças forem boas e indiferentes. Discordo de você se forem mudanças ruins. 

Seu terceiro pressuposto é que a Igreja tem sido lenta para acolher divorciados e homossexuais. Para afirmá-lo, faz referência a pastorais para separados que permitiriam a Comunhão eucarística.

Ora, não me parece cabível comparar rupturas matrimoniais com orientação sexual. 

Por outro lado, a situação dos divorciados é muito variada: há aqueles que simplesmente romperam seu casamento; outros que estão arrependidos do que fizeram; outros que foram traídos; outros que buscaram outro relacionamento afetivo; outros que contraíram responsabilidades decorrentes de novas uniões; etc. Portanto, reduzir a pastoral dos divorciados à possibilidade de comungar é um simplismo muito grande. 

Na verdade, a doutrina da Igreja é claríssima sobre isso: as pessoas que vivem ativamente em segundas núpcias não podem receber os sacramentos enquanto permanecerem nessa situação, pois suas vidas estão em desacordo com o ideal matrimonial proposto por Cristo. Mas isso não quer dizer que não possam ir à Missa, rezar, receber direção espiritual, etc. 

No fundo, a reivindicação dos sacramentos como se fossem “direitos usurpados aos fiéis” é de matriz marxista e não cristã. Quem assim pensa, não sabe o que são os sacramentos.

Seu quarto pressuposto é que a Igreja ignora o direito das pessoas a terem seus eventuais relacionamentos homossexuais reconhecidos civilmente.

Aqui percebo claramente a redução da noção de matrimônio. Se o matrimônio fosse apenas direito à sexualidade, ou tivesse uma finalidade meramente genital, ou nada tivesse a ver com filhos, ou nem tivesse seu conteúdo determinado pela natureza, então eu concordaria com você.

Por fim, seu quinto e último pressuposto é que os homossexuais seriam vistos pela Igreja como “cidadãos de segunda classe”.

Nada mais longe da verdade! Acima de tudo, a Igreja vê cada um de nós como pessoa humana. O epíteto “homossexual” é desnecessário para defender os direitos civis de qualquer um.

13 de ago. de 2012

A infidelidade no banco dos réus

Deserção não é solução para infelicidade: quem decai é infeliz precisamente porque decaiu.

O que explica a infidelidade? Não é o caso aqui de fazer referências a fatores sociológicos nem psicológicos — que não são verdadeiras causas —, enquanto o fator moral é ignorado. A origem do fenômeno da infidelidade está no âmago das decisões do indivíduo, é um problema moral, e opera em dois níveis.

Primeiramente, ocorre à pessoa infiel um empobrecimento do conceito de liberdade. Ela pensa que o homem é incapaz de conciliar seu livre-arbítrio com decisões incondicionais.

Em segundo lugar, ocorre-lhe uma desvalorização dos laços, como se fossem escolhas unilaterais ou sem consequências externas e sociais.

Em resumo: a infidelidade nasce da inflação da autonomia, da hipertrofia do individualismo.

O amor exige renovação, atualização, voluntariedade atual. Contra isso está nosso aburguesamento, nosso relaxamento, nossa preguiça. E a preguiça é pior que o ódio quando o seu oponente é o amor. O preguiçoso tende a orgulhar-se de ser assim; mas tal orgulho é extremamente nocivo, pois tende a criar um abismo entre as pessoas, um endurecimento interior e um afastamento que são grande ocasião de tentações.

O infiel em potencial, com a intenção de “evitar” seus (autoforjados) conflitos de consciência, começa a cogitar que nunca existiu o amor, retroagindo o mau momento atual para o início da relação, insinuando que então se era muito jovem ou sem o conhecimento suficiente do futuro ou que nunca se foi completamente feliz, etc.

Contra isso, é preciso ter presente que somos sim capazes de tomar decisões que orientem a vida numa direção determinada, definitiva e irrevogavelmente. Afinal, não é uma limitação da liberdade desconhecer os eventos futuros. Os condicionamentos advindos das novas situações não impossibilitam a felicidade, não a tornam impraticável por causa da decisão original. Se não pudéssemos ser consequentes até o fim é que não teríamos nem responsabilidade nem liberdade.

Por outro lado, a fidelidade não pode depender da possibilidade de realização efetiva dos sonhos, como se a infelicidade existencial procedesse da obrigação de se manter uma atual “situação indesejada”. O direito a esse tipo de felicidade seria insustentável para 99% da humanidade. O dever de cumprir as promessas é conditio sine qua non de toda sociedade e convivência. Os sonhos nos movem, mas nem sempre alimentam.

3 de fev. de 2012

Três saídas do gueto laicista

Certa mentalidade laicista,
e outras maneiras de pensar

que poderíamos chamar pietistas,
coincidem em não considerar
o cristão como homem íntegro e pleno.
Para os primeiros, as exigências do Evangelho
sufocariam as qualidades humanas;
para os outros, a natureza decaída
poria em perigo a pureza da fé.

O resultado é o mesmo:
desconhecem a profundidade da Encarnação de Cristo,
ignoram que o Verbo se fez carne, homem, e habitou entre nós.
(São Josemaria, Amigos de Deus, n.º 74)


Sair do gueto laicista significa sair do “próprio” gueto. Está encurralado quem voluntariamente foi para o canto do ringue. Por isso, os verdadeiros caminhos de saída são intraeclesiais.

Não há balas de prata que derrubem tais muros, pois as revoluções internas são mais difíceis que as externas. Basicamente, mais do que recuperar a língua latina, a Igreja precisa recuperar a linguagem da santidade.

O desafio lançado pela modernidade laicista reclama uma nova educação que resgate o homo religiosus aprisionado nas masmorras do homo modernus. Ora, a segurança de um crente lhe provém tanto da fé quanto da razão. Por isso, o “como” se transmite é tão importante quanto “o quê” se transmite.

Vejamos primeiramente três rotas de fuga, ou melhor, três pontes para fora do gueto. Numa próxima postagem, três insights cuja luz faz-se necessário difundir. As pontes equivalem ao “como” comunicar; os insights, a “o quê” comunicar.

Relançamento da santidade

À atrofia da liturgia sucede a hipertrofia da ética. O inefável é trocado pelo palpável. Isso é uma espécie de excentricidade eclesiológica.

Se ética é idioma universal, a santidade não o é. Aqui é que mora a diferença e disso não se pode fugir, pois ser só bom é muito pouca coisa.

Transversalidade política

Por hora, satisfaço-me transcrevendo o seguinte trecho de O Sal da Terra, págs. 113s:

“Os sistemas políticos desfazem-se e depois nada muda. (…) Sobretudo nos últimos anos da Democrazia Cristiana insistiu-se muito na unidade política dos católicos e considerou-se um objetivo principal que os católicos também tivessem de se mostrar unidos no domínio político, de acordo com a sua responsabilidade. Isso não impediu a Democrazia Cristiana de se desfazer, de modo que a Conferência Episcopal Italiana teve de desistir desse objetivo. Agora ela se volta mais para a neutralidade e considera como novo objetivo que os cristãos, em todos os partidos, atuem, de acordo uns com os outros, de modo “transversal”, como se diz aqui, para além das fronteiras dos partidos, no que diz respeito às questões éticas essenciais da política, a partir da sua responsabilidade comum. O objetivo é, portanto, um consenso político completamente novo que se deve formar nas questões éticas fundamentais para além dos partidos.”

Projeto generacional

A verdadeira política pró-vida é ter filhos.

Se só os islâmicos prezam a família, em breve o Ocidente será, se não árabe, islâmico. E não exagero. Vide a Holanda: as procissões de Corpus Christi voltaram a ser legítimas após 500 anos só porque cresceu a população muçulmana a ponto de derrubar a proibição a manifestações religiosas públicas do governo laicista local.

Para gerações perdidas, a melhor resposta é uma nova geração sadia.

7 de nov. de 2011

O amor contra a parede

O homem é seco e quente, enquanto a mulher é fria e úmida.
(Pseudo-Aristóteles, Problemas, IV, §26)

Um velho problema

São Jerônimo chegou a pensar que o semper orare (1Ts 5,18) anularia o débito conjugal (cf. 1Cor 7,13):

Oro te, quale illud bonum est, quod orare prohibet?
— Digo-te: que bem seria aquele que proíbe orar?
(Adversus Jovinianum, I, 7: PL 23, 220)

Seguindo a tendência, ainda na Idade Média, afirmava-se em alguns círculos que “quem ama sua mulher com excessivo ardor é considerado culpado de adultério” (cf. André Capelão, Tratado do amor cortês, Livro I, VI, G: pág. 131).

Tal ideia tinha suas raízes na ética neoplatônica e estoica, inspirada em Sêneca (PL 23,281): Adulter est, inquit suam uxorem amator ardentior (Diz-se que é adúltero quem ama sua esposa com excessivo ardor). Tão sinistra afirmação, com efeito, é retomada por Pedro Lombardo (Liber Sententiarum, IV, 31, 6).

A tentação do encratismo

É recorrente na história a propensão ascética a proibir o casamento e a abster-se de carne (cf. 1Tm 4,3). Taciano o Sírio (120-180 AD) é um expoente dessa tendência, pois se considera o fundador da heresia dos “encratistas” (“autocontrolados”), muito aparentada ao maniqueísmo e ao marcianismo.

Tal inclinação coalhou na moderna crítica ao amor cristão. Contudo, é preciso frisar que esse amor dissociado da carne só foi acolhido pela teologia protestante, como fica patente na obra de Anders Nygren.

E o amor, como sairá vivo entre a espada e a caldeirinha? …aguarde as cenas do próximo capítulo!

19 de dez. de 2010

Matrimônio virginal

Em vez de apresentar a prometida hipótese desenvolvida por D. Bernard Orchard OSB, achei melhor publicá-la na íntegra aqui.

Não obstante, gostaria de finalizar a exposição que venho fazendo sobre a virgindade de Maria, tecendo mais algumas considerações que me parecem pertinentes.

Dificuldades textuais

Os Evangelhos são ambíguos ao tratar dessa temática, ou pelo menos dão margem a dúvidas. Por exemplo, por ocasião da Anunciação Maria e José ora parecem noivos (Lc 1,27), ora casados (Mt 1,19s).

Outra fonte de questionamento são os citados “irmãos de Jesus”, como Tiago e José (Mt 13,55). Este problema é mais simples, pois além de a expressão ser um hebraísmo, a própria Bíblia atesta que esses parentes são filhos de “outra Maria” (Mt 28,1), discípula de Cristo.

Dentre todas essas passagens dificultosas, a que talvez tenha dado margem às especulações mais significativas foi a da pergunta de Maria ao Anjo Gabriel  (Lc 1,34):

— “Como se fará isto [a concepção de Cristo], se não conheço homem?”

Com base nessa frase, desenvolveu-se a interpretação tradicional segundo a qual Maria teria feito um voto de virgindade anterior à Anunciação.

Existem, contudo, outros entendimentos. Com efeito, parece que não havia no Israel da época um contexto sócio-cultural para que se fizessem votos de tal espécie:

a) Desde Caetano (†1534), alguns autores entendem o “não conheço homem” no sentido de “não conheço homem agora neste momento em que estarei concebendo”.

b) Outros intérpretes justificam a pergunta de Maria como mero recurso literário de Lucas para introduzir a explicação dada pelo Anjo.

O parto virginal na Tradição

A virgindade de Maria manifesta a gratuidade da Redenção e a filiação divina de Jesus. Sua virgindade é um sinal de aceitação dos planos divinos e de que os tempos chegaram à sua plenitude.

Por outro lado, o senso da fé explicita que, em atenção a tal disponibilidade de Maria, Deus correspondeu com um parto milagroso que lhe conservou a virgindade, pelo que Maria gerou sem dor quem concebera sem prazer.

Com efeito:

a) Se o Filho de Deus não corrompe o Pai ao ser gerado eternamente, também não corrompeu a Mãe ao ser gerado no tempo.

b) Se o Filho de Deus veio curar, não poderia ferir a Mãe.

c) Se o Filho de Deus manda honrar os pais, também santificou a Mãe.

Razões para um matrimônio virginal

“A compreensão que Cristo tem de si mesmo exige que viva célibe no mundo: os filhos no Antigo Testamento são uma bênção, porque significam a vida, o fruto e o caminho até a promessa. Mas Cristo é já ele mesmo a promessa, a vida e o futuro. Ele é o ponto final porque é a abertura àquela vida que está mais além da biologia e da morte. Por isso, ele mesmo define a existência escatológica como uma existência virginal. Agora tem a virgindade um sentido (que antes de Cristo não tinha): a realização direta da fé na vida eterna já presente” (Joseph Ratzinger, Zur Theologie der Ehe, Tübinger Theologische Quartalschrift, 149 [1969] 53-74 [PDF]).

Por isso, a Virgem Maria também foi virgem depois do parto, e viveu um matrimônio virginal com José:

a) Se Jesus é o Unigênito do Pai, devia ser também o Unigênito da Mãe.

b) Outros filhos nascidos de Maria ofenderiam o Espírito Santo que a fecundara.

c) Consumar o matrimônio depois da geração de Jesus teria sido indigno da santidade vivida por Maria e José.

A santidade típica dos “nazarenos”

Estudos recentes acerca das origens do Cristianismo apontam para a possibilidade de ter existido um movimento religioso na região da Galileia, de inspiração batismal, movido pela iminência do Reino de Deus e ligado à instituição do nazireato, antigo costume de Israel pelo qual as pessoas se consagravam a Deus (cf. Nm 6,1-21).

A cidade de Nazaré, nunca antes citada na Bíblia, pôde ter sido o berço ou o centro de difusão dessa tendência que serviu de matriz para o Cristianismo. De fato, o epíteto “nazareno” parece referir-se mais ao estilo de vida do que ao toponímico (cf. At 24,5).

Da mesma época são os famosos essênios (Flávio Josefo, Vida, II, 10-12), assim como os mandeusebionitas e alexaítas. Entretanto, as alusões aos antigos grupos “paracristãos” são tão abundantes quanto vagas. Perderam-se no vórtice da história, embora de quando em quando surjam seitas que pretendem recuperar a suposta pureza primitiva (batistas, judeus messiânicos, etc.).

Virgindade que ilumina o matrimônio

A eminência do Reino de Deus comporta uma urgência que tudo relativiza, inclusive o matrimônio. Mesmo assim, o matrimônio encontra seu sentido mais profundo no Cristianismo, pois se o celibato antecipa o futuro escatológico, o matrimônio cristão torna realidade o ideal passado no paraíso.

Sem dúvida, viver um matrimônio cristão — monogâmico e indissolúvel — hoje pode parecer difícil, mas realiza o casal de forma mais profunda, na medida que faz o homem e a mulher transcenderem o efêmero. O Cristianismo, vivido tanto no matrimônio quanto no celibato, transporta-nos da temporalidade.

Pode-se dizer que indissolubilidade do Matrimônio é o último aspecto do ideal da exclusividade amorosa. A monogamia vem se impondo e tende a ser aceita em todas as culturas. A fidelidade é prezada apesar de tristes experiências e até justamente por elas. A indissolubilidade, porém, parece menos evidente.

Embora a franca maioria das pessoas entenda a exclusividade amorosa como conveniente, muitos receiam projetá‑la ao longo do tempo. A cultura contemporânea imediatista vê dificuldades em compromissos de longo prazo, e enxerga a entrega irreversível como algo obscuro.

É preciso reconhecer a grandeza do ser humano: ainda que preso à vicissitude temporal, o homem não se rege pelo tempo, pois o transcende enquanto pessoa. Assumir um compromisso amoroso ad tempus, circunstanciado, é indigno de si, desleal para o outro, nocivo para a sociedade.

12 de out. de 2010

Amor em disjuntiva

Ἔρος designa o fogo ardente e o desejo unitivo que arrasta o homem para Deus. Indica o êxtase amoroso, conforme a descrição do Pseudo-Dionísio: “O amor de Deus é estático, porque não permite que os amantes permaneçam em si mesmos, mas os converte em posse dos amados” (De divinis nominibus, IV, 13).

Para alguns poderá parecer estranho falar de amor erótico por Deus. Mais: há quem não consiga compatibilizar o erotismo com o amor oblativo nem a nível humano, coisa bem palpável na letra da música Amor e Sexo, da Rita Lee.

Entre tantos fatores que favoreceram esse tipo de entendimento, encontram-se em pontos extremos: a obra mais famosa de Anders Nygren e certas visões defendidas por Jacques Lacan.

Anders Nygren (1890-1978)

Nygren tornou-se eminente professor da Universidade de Lund, na Suécia, e depois bispo luterano dessa cidade. Também foi presidente da Federação Luterana Mundial.  Filósofo da religião, exegeta habilidoso, historiador versátil, teólogo genial e pastor sensível, Nygren se valeu da filosofia kantiana em sua teologia. Ativo defensor do ecumenismo e ferrenho opositor do nazismo, fez-se internacionalmente reconhecido por seu livro Agape and Eros. Essa excelente obra, entretanto, não representa o cerne de seu pensamento.

No livro, Nygren explica que, segundo Platão, eros é o amor sedento do Belo transcendente, o que eleva o humano para o divino, o único capaz de saciar a ansiedade da alma aprisionada na matéria; mas, porquanto busca o êxtase da união, seria amor egocêntrico, cobiça. Com o correr dos séculos, o significado de eros teria sido abaixado até assumir notas meramente sexuais.

Jacques Lacan (1901-1981)

No lado diametralmente oposto, Lacan acusava o cristianismo de ter pervertido a vida e o amor. Segundo o psicanalista parisiense, a limitação da erótica à procriação faz do corpo vivo um corpo morto; e a fé na ressurreição da carne faz do corpo morto um corpo vivo.

Diferentemente de Nygren, cujas conclusões podem até ser combatidas com argumentos, Lacan é tão carente de rigor que dificulta a refutação do seu complexo sistema. Basta dizer que a ideia de que a Igreja reduz o matrimônio à procriação é um falso clichê inúmeras vezes repetido. Por outro lado, causa enorme estranheza a conexão feita por ele entre esse tema moral e a questão da sorte póstuma do corpo.

Abdico de abordar tamanha falta de senso e de conhecimento elementar da doutrina cristã. Em breve, porém, pretendo abordar a feliz solução que recentemente se deu à disjuntiva eros e agape.

29 de ago. de 2010

Amigo especial, único, ímpar, singular

Esta é a parte
1 | 2 | 3 | 4

Sejam numerosos os que te saúdam,
mas teu conselheiro, um entre mil.
(Eclo 6,6)

Amizade na Antiguidade

O mundo antigo era organizado por relações de parentesco e soberania. Por isso, as afinidades escolhidas espontaneamente eram coisa excepcional e tida, inclusive, como subersiva: Davi amava Jônatas apesar da resistência de Saul; Aquiles era mais sensível à sina de Pátroclo do que à causa grega.

Tanto para Aristóteles quanto Cícero, a amizade era um chamamento elevado que exigia qualidades extraordinárias de caráter, virtudes sólidas, desejo do bem. Como a amizade fosse vista igual ou superior ao matrimônio, sua expressão muitas vezes alcançava intensidade erótica. Por exemplo, fez-se famoso o Cântico do Arco, em que Davi afirma ter sido o amor de Jônatas “mais caro que o amor das mulheres” (2Sm 1,26).

Interpretações ligeiras e ideológicas procuraram aí uma justificativa para a patologia homossexual. Contudo, embora amigos como Aquiles e Pátroclo não pudessem viver separados, a ponto de dividir a mesma tenda, era com concubinas que dividiam suas camas.

Amizade no Medievo

O advento do Cristianismo eclipsou o ideal clássico da amizade ao transferir a dedicação do coração para o Deus Encarnado, para o amor a Jesus Cristo. Depois, com o surgimento do monaquismo, as “amizades particulares” seriam vistas como perigosas para a coesão da comunidade monástica.

Na sociedade medieval, a amizade revestiu-se de específicas expectativas e obrigações, muitas vezes formalizadas com juramentos: suseranos e vassalos empregavam o mesmo jargão da amizade nas suas relações. Mais especificamente nas sociedades católicas, o compadrio funcionou para estabelecer alianças entre famílias, às vezes mais do que entre afilhados e padrinhos, a ponto de compadre se ter virado sinônimo de amigo.

Amizade depois da Renascença

A noção clássica de amizade foi restaurada na Renascença, ao lado de outras formas antigas de sentimento. A virtuosidade das relações de amizade voltou a ser colocada acima de tudo: do matrimônio, da união sexual, até da paternidade. Afinal, a amizade não seria pautada pelo critério do interesse ou da necessidade: sobressairia diante do oportunismo por ser algo raro. Eis o pano de fundo para personagens como Horácio, de Shakespeare, e Sancho Pança, de Cervantes.

Este estado de coisas perdurou durante o Romantismo. Famosos amigos românticos foram Goethe e Schiller, Byron e Shelley, Emerson e Thoreau, entre outros. Mas o desenvolvimento da sociedade comercial fez com que tal ideal perdesse espaço novamente. David Hume e Adam Smith apontarão como o capitalismo tornou impessoais as relações comerciais, relegando as afinidades para a esfera privada: na vida econômica, contam pouco os vizinhos, os companheiros de paróquia, os colegas de escola e trabalho, os pais dos amigos dos filhos, os concidadãos, etc.

Somos o que escolhemos ser para os outros durante o tempo das nossas escolhas, nesta sociedade blasé.

4 de jul. de 2010

Momento & Casamento

Momento do futebol

A Copa do Mundo, centro e raiz da vida exterior, é época de muita filosofia, análises e considerações. Um amigo emendou:

— Futebol é momento.

De fato. O que importa ter tradição, craques, estatísticas, tabus, etc., se na hora H o time não está no seu “momento”?

A vida não é como o futebol. Pelo menos, não deveria ser. A vida não pode ser momento.

Talvez você não concorde comigo e me queira recordar que na vida existem sorte, berço, coincidências. Concedo. Mas momento é outra coisa.

Momentos da vida

Momento é fogo de artifíco. A vida é show pirotécnico.
Momento é instantâneo. A vida é longa-metragem.
Momento é trapo. A vida é seda.
Momento vai. A vida é.

Temos vivido muito de momentos. Esperamos demais por eles. Sua ausência nos frustra bastante e, não menos, sua ocorrência.

Há horas em que pensamos que tudo vai dar certo, que um relacionamento é infalivelmente harmônico, que uma iniciativa terá sucesso, que um sonho vai se concretizar. Às vezes, porém, o mundo parece conspirar para inviabilizar os projetos, mesmo sem culpa nossa ou alheia.

Tenho a impressão de que, dentre os âmbitos da vida, o casamento tornou-se alvo fácil desses “maus momentos”: incertezas, variáveis, prioridades, acidentes, incidentes, intromissões, traumas, necessidades, frustrações. São muitas as exigências para estarem ambos os interessados — o homem e a mulher — num “bom momento”.

Momento versus casamento

Recebi uma importante pergunta no extinto Formspring:

pq algumas pessoas juntam os trapos e não se casam no papel?

Primeiro, é preciso definir a que “papel” você se refere. Há os “papéis”do matrimônio sacramental e os “papéis” do casamento civil.

No caso de católicos, que desde o século XVI estão obrigados a casar-se segundo uma forma canônica determinada, o concubinato pode ocorrer por algumas das seguintes razões:
  1. Desconhecimento do Direito.
  2. Renúncia à publicidade do contrato matrimonial.
  3. Rechaço do Sacramento.
  ☛ Logo, casar pra quê?

No caso de simples cidadãos, burocratizados pela cultura pós-Revolução Francesa, o concubinato é preferido porque se tornou comum:
  1. Ver o direito ao matrimônio como simples direito à liberdade sexual.
  2. Entender a ordem tradicional como “fruto de uma cultura ultrapassada” e a sua impugnação como “vitória da liberdade”.
  3. Permitir o divórcio e ao mesmo tempo vedar o direito ao matrimônio indissolúvel verdadeiro.
  4. Reduzir o matrimônio a uma finalidade meramente unitiva, já que a finalidade procriativa foi banida pela mentalidade contraceptiva.
  ☛ Logo, casar pra quê?

Claro que todas essas razões aduzidas podem vir misturadas.

A questão é realmente interessante, pois os problemas matrimoniais repercutem negativamente na  sociedade e na própria vida da Igreja. Não à toa as igrejas estão cheias de jovens e de idosos: as pessoas em idade núbil e os casais maduros, porém, afastam-se da prática religiosa.

Com efeito, frequentemente muitos casais vivem em flagrante desacordo com o ideal cristão do matrimônio, que é mais do que “juntar os trapos”. Ainda que seu relacionamento tenha recebido reconhecimento civil, muitas vezes não foi reconhecido pela Igreja.

Momento jurídico

Estou cada vez mais convencido de que padecemos uma crise jurídica. Do ponto de vista teórico, faz-se preciso resgatar o valor das normas que protegem nossa vida das instabilidades de momento.

Por um lado — contrariamente a como pensam muitas pessoas —, o casamento cristão não é um rito religioso sobreposto ao matrimônio natural. É o próprio matrimônio natural que, enquanto contraído por cristãos, cai sob a alçada da Igreja. Portanto, o descuido e o desprezo pelo ordenamento jurídico canônico reflete uma mentalidade peculiar: a de que o matrimônio seria algo privado e não estaria tocado por uma dimensão sacral.

Por outro lado, Bento XVI, numa conversa aberta com o clero de Aosta, comentou que “é particularmente dolorosa a situação de quantos tinham casado na Igreja, mas não eram verdadeiramente crentes e só o fizeram por tradição, e depois, contraindo um novo matrimônio não válido, converteram-se, encontraram a fé e agora sentem-se excluídos do Sacramento [da Eucaristia]. Este é realmente um grande sofrimento e quando fui Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé convidei várias Conferências Episcopais e especialistas a estudarem este problema: um sacramento celebrado sem fé. Se realmente é possível encontrar nisto uma instância de invalidade, porque ao sacramento faltava uma dimensão fundamental, não ouso dizer. Eu pessoalmente pensava assim, mas dos debates que tivemos compreendi que o problema é muito difícil e ainda deve ser aprofundado. Mas considerando a situação de sofrimento destas pessoas, deve ser aprofundado” (leia a íntegra).

A ingerência do Estado moderno nessas questões, a recente crise de autoridade, a rarefação do Direito canônico, a revolução sexual, etc., são fatores culturais que dificultam a percepção do que é o verdadeiro matrimônio.

Momento para a solução

Tenho outro amigo que costuma dizer que quase todos os problemas pessoais se reduzem à falta de alguma virtude.

Efetivamente, as virtudes nos libertam dos laços do momento. Por falta de fortaleza, tantos não cumprem suas promessas em troca de bagatelas. Por falta de castidade, tantos são escravos do sexo e tentam dominar os outros. Por carência de simplicidade, tantos carregam o mundo nas costas.

Vejo a solução prática para a crise do matrimônio — a par da solução teórica que seria sua reafirmação jurídica — no resgate da formação nas virtudes. Pois não acredito que a nova ética conduza a bons caminhos; e, muito menos, a nova estética.

*****

E você? Seja franco:
— Tem vivido de momentos ou de virtudes?

15 de mai. de 2010

O céu é o limite?

Quando nasci veio um anjo safado,
o chato de um querubim,

e decretou que eu estava predestinado
a ser errado assim…

Sobre gêneros e spins

Um amigo meu, companheiro de outras histórias já narradas aqui, veio-me com uma pergunta inusitada:

— No céu ficaremos como os serafins, que recebem na cabeça a sementinha da alegria e ficam rodando e dizendo “Holy, Holy, Holy” para sempre?

Achei graça da descrição. Afinal, nunca tinha pensado nos serafins como peões do êxtase. Quem sabe seja o spin de cada um que determine o seu sexo!

Mas a dúvida é pertinente e inclui duas questões: a eternidade não é chata? ficar apenas adorando a Deus não será muito monótono ou alienante?

Cada um espera o céu que merece

Certa feita, fui ao velório do pai de um outro amigo. Apareceu por lá, pelas 3h da manhã, um fulano simpático. Como a conversa fosse ficando animada, o que não condizia com o clima reservado do evento, propus aos que estavam mais próximos irmos à cantina tomar alguma coisa e desfrutar de um bom papo.

Pois bem, o fulano, sem dúvida inspirado pela situação, começou a especular sobre a vida póstuma e indagou de cada um o que achávamos que ocorreria com a alma dos finados.

Depois de cada qual dar seu pitaco, aquela figura impar começou a descrever vivamente o que nos espera no além: explicou que as almas vibram, que a frequência da vibração determina o nível de cada alma, que as pessoas boas vibram mais e que as pessoas más vibram menos, etc.

Como eu lhe perguntasse de onde ele tinha tirado tamanha quantidade de ideias incríveis (no sentido literal da expressão), respondeu-me estar tudo “provado cientificamente”, conforme “experiências feitas nos laboratórios da USP” e minuciosamente explanado em tal e qual livros.

Minha pergunta seguinte foi fatal, embora sem querer:

— Quem é o autor desses livros?

— Sou eu! — respondeu ele.

Aquele cara-de-pau sempre me fez pensar que, ou eu estou demorando demais a publicar algo, ou que o mercado editorial brasileiro é dirigido por mentecaptos.

A você que me lê, indago apenas uma coisa: seria o céu apenas a ressonância das nossas ondas? — Eu espero mais do que isso!

Materialismo disfarçado

Ao lado dos que negam a vida póstuma e, por conseguinte, propõem que vivamos intensamente os prazeres do momento presente, parece-me que também vão, de mãos dadas, muçulmanos e espíritas.

Com efeito, promete o Corão em An Nissá, sura 4:57, “jardins, abaixo dos quais correm rios, (...) esposas imaculadas”. E, em Ar Rahman, sura 55:56, “aquelas de olhares recatados que, antes deles, jamais foram tocadas por homem”. Conta-se ainda uma infindável lista de passagens que descrevem jardins, frutas, honras, leitos, virgens, cálices, palácios, rios, tapetes, etc.

Decerto, tudo pode ser interpretado em sentido espiritual. Mas é gritante a diferença com a concepção cristã, segundo a qual não haverá matrimônio após a ressurreição da carne.

Quanto ao espiritismo, basta recordar a descrição quase física feita do além por Chico Xavier no best-seller Nosso Lar. Não vale minimamente a pena ler a obra. Contudo, se você ficou curioso, basta-lhe assistir ao trailer do filme: é um semicéu com hospital, ruas, coletivos, etc.

Ainda que se diga que ao céu só chegará propriamente após a última transmigração, há um acordo tácito em admitir que quase ninguém já esteja preparado para chegar lá e que são necessárias várias vidas nessa Terra para conquistar o prêmio definitivo, etc.

Ora, tudo isso é um grande materialismo. Afinal, a promessa é: fique tranquilo com a morte, pois você vai voltar para cá!

Amor e eternidade

A confusão do meu amigo acerca do “motor contínuo” dos serafins pode se desvanecer com essa descrição da eternidade feita por Joseph Ratzinger:

Que é o que estimula o homem a desejar durar mais? Não é o ‘eu’ isolado, mas é a experiência do amor: o amor quer que o ser amado seja eterno e quer, por conseguinte, sê‑lo igualmente. Aqui temos, portanto, a resposta cristã à nossa pergunta: a imortalidade não está no próprio homem; ela repousa sobre uma relação: a relação com o que é eterno e com o que dá à eternidade todo o seu sentido. Este elemento durável, que é capaz de dar a vida e de preenchê‑la plenamente, é a verdade, é o amor. Se o homem pode viver eternamente, é porque ele é capaz de se manter em relação com quem dá a eternidade. Aquilo que, no homem, é capaz de conservar tais relações nós chamamos de ‘alma’. A alma nada mais é senão esta capacidade de relações que o homem pode ter com a verdade, com o amor eterno. E, agora, podemos ver o encadeamento de tais realidades: a verdade que é amor, ou seja, Deus, confere ao homem a eternidade, e, como há matéria que esteve integrada ao espírito humano, à alma humana, a matéria atinge no homem uma capacidade de aperfeiçoamento que conduz à Ressurreição” (Entre a morte e a ressurreição in Communio, edição brasileira n.º 1, pág. 85).

De fato, falar de relação é muito importante. Todas essas concepções esdrúxulas sobre o céu — descrições mitológicas, promessas sensuais, reducionismo cientificista, caldo de ectoplasmas — ignoram que Deus é mais do que uma Energia Suprema ou um Motor Imóvel. Deus é Alguém, um Ser Pessoal com quem é possível entrarmos em relação.

Vou deixar de molho o problema pendente da suposta alienação dos cidadãos da pátria celeste. Mas lanço a você que me lê uma pergunta parecida: — Você é um cidadão alienado da pátria terrestre?

6 de mai. de 2010

Por favor, distingam ética de política e de religião

Teoricamente, quando os princípios fundamentais andam em jogo — vida humana, liberdade religiosa, dignidade do matrimônio e da família, educação —, os católicos atuariam conforme os princípios da lei moral natural nesses campos, por própria iniciativa, e não porque tenham sido mandados.

Essa atitude comum não é propriamente falando, política, nem pode ser confundida com mentalidade de partido único, pois a defesa e a promoção dos valores humanos fundamentias situa-se por sua própria natureza num plano superior ao dos juízos contingentes que são característicos da ação política, tal como se entende comumente esta palavra.

Nesse sentido, por exemplo, a defesa da vida humana não é uma “postura política” contra os que a manipulam e suprimem a seu arbítrio. É uma questal moral inegociável, situa-se numa esfera intangível.

A política, ou seja, a livre discussão no opinável, virá estabelecer quais são os meios mais oportunos — legislativos, informativos, educativos, assistenciais, etc. — para salvaguardar a vida humana e fomentar a cultura da vida; e nisso evidentemente cabem muitas opiniões diversas, igualmente razoáveis, e nas quais não há razão de os católicos coincidirem.

Por isso, entre outros motivos, tinha escrito um alerta aos “católicos oficiais” e um elenco de discursos, falácias, mentiras e táticas que podem ser úteis nestes tempos de eleição.

Também vale a pena recordar os pecados cerebrais e a questão da manipulação, pluralismo, tolerância.

10 de abr. de 2010

Casamento para quê?


A lente distorcida do amor romântico

Groucho Marx se perguntava: “O matrimônio é uma instituição maravilhosa, mas quem deseja viver numa instituição?” O comediante americano já utilizava naquele tempo a “nova lente” para entender o matrimônio: a afinidade do casal.

Tal afinidade é uma nova versão do amor romântico que tem sido corrosiva para a segurança e a estabilidade dos relacionamentos. Desde os anos 60, muitos passaram a considerar o matrimônio como um projeto individualista sem relação com a descendência, mas principalmente com a conquista da satisfação pessoal.

O ideal do amor romântico surgira em fins do século XVIII como reação aos casamentos impostos por convenção das classes altas ou procurados por interesse das classes baixas. Contudo, foi a partir da recente revolução sexual que se transformou numa bandeira para questionar a própria instituição matrimonial.

Esvaziamento legal do instituto matrimonial

O amor (sentimento de atração) e a fidelidade (compromisso moral e jurídico) se divorciaram.

Sartre, Wilhelm Reich e Marcuse apresentaram o casamento como o “cárcere do amor”. Essas mudanças culturais e ideológicas logo refletiram‑se no campo do Direito, de forma que, com a liberação do divórcio, seguiu‑se uma “desjuridificação” progressiva do matrimônio.

A nova forma de amor romântico não dá espaço para normas externas ao casal. Assim, alguns autores já dão por suposto que o casamento é um simples contrato de convivência, um compromisso de apoio mútuo, desvinculando matrimônio e descendência, autorizando inclusive uniões homossexuais.

Eis os cinco estágios do gradativo esfacelamento da legislação civil:

1. Ver o direito ao matrimônio como simples direito de liberdade e à sexualidade.
2. Entender a ordem tradicional como fruto cultural e sua impugnação como vitória da liberdade.
3. Criar um matrimônio que pode ser dissolvido e, ao mesmo tempo, vedar o direito ao matrimônio indissolúvel verdadeiro.
4. Reduzir o matrimônio a uma finalidade meramente genital ao acatar a mentalidade contraceptiva.
5. Negar a exigência da heterossexualidade: o matrimônio não teria seu conteúdo determinado pela natureza, mas apenas pela liberdade. (Esta é uma tendência em muitos países.)

Novas justificativas para a separação

A historiadora americana Stephanie Coontz constatou que, até meados do século XX, ninguém considerava o desapaixonamento um motivo razoável para o divórcio. Porém, contribuíram para isso as revistas femininas dos anos 50 e 60, que alentaram um discurso de descontentamento e promoveram o intimismo e a autorrealização como finalidades do casamento.

Três fatores foram mais responsáveis pelo pico de casamentos desfeitos nos anos 70 e 80: a crescente expectativa de realização pessoal, a liberação moral e a emancipação jurídica e econômica da mulher.

Os verdadeiros prejudicados

Desde então, muitos acusaram o divórcio de prejudicar os filhos. Contrargumenta‑se que o conflito precedente ao divórcio já causava o trauma. Visto que em ⅔ dos casos o divórcio não tem procedido de conflitos, tal argumento seria raramente válido, pois exigiria a exposição das crianças a elevados níveis de agressão. Na verdade, os filhos perdem a confiança no amor e no compromisso quando veem que seus pais se divorciam pelo mero fato de se terem distanciado.

Mas o divórcio também prejudica o próprio casal. Uma separação injusta pode levar a um declive emocional, a dificuldades no trabalho, à deterioração do relacionamento com os próprios filhos.

Dentro da lógica do amor romântico, os que possuem menos recursos — emocionais, sociais e econômicos — estão mais expostos a que se desfaça sua união. Com efeito, a taxa de divórcios, o grau de insatisfação dos cônjuges e o número de nascimentos fora do casamento são maiores nas classes baixas. Ou seja, a “democratização do amor” abriu um novo fosso entre ricos e pobres: a desigualdade matrimonial.

Soluções

Primeiramente, é preciso entender o caminho do “fracasso conjugal”. É curioso que, embora a preparação para a vida profissional, sacerdotal ou religiosa se estenda por muitos anos, a preparação para o matrimônio seja reduzida a uma afeição súbita e a um treino da cerimônia.

Contudo, preparação não é experimentação. Com essa desculpa, muitos namoram e permanecem noivos por anos a fio. Ora, um projeto de vida a dois não se reduz à hipotética “compatibilidade sexual”. A verdadeira preparação consiste na amizade.

Aristóteles distinguia três formas de amizade: pelo prazer, pelo interesse e pelo bem. A amizade pelo bem é a mais elevada, pois une os amigos pela virtude. As outras duas não costumam durar muito, pois se baseiam no sentimento de agrado ou na própria conveniência.

Ora, a amizade pelo bem só é possível entre pessoas virtuosas. Por isso o matrimônio é um convite para os cônjuges se transformarem em pessoas boas. Só um homem bom será fiel à sua esposa quando sentir atração sexual por outra. E só uma mulher boa ficará ao lado do marido apesar da doença ou da penúria.

Por isso o matrimônio é um bem: porque pode tornar o homem e a mulher pessoas boas.

Por isso o matrimônio é um ideal: porque exige busca e aperfeiçoamento constantes.

*****
E você? Sabe ser amigo? Tem muitos amigos?

3 de abr. de 2010

Obrigado pelo presente pascal!

No ano passado, fui almoçar com um amigo de infância que não via há muito tempo. Com a maior desfaçatez, ele se dedicou a achincalhar a Igreja e a citar Umberto Eco como “grande referência”. Eu não abri a boca durante a refeição, não porque estivesse com ela cheia de feijão, mas porque ele não me dava espaço para falar. E eu também não tinha ido com ele ao restaurante para falar desse assunto.

Fiquei pensando: ele agiu de má-fé, querendo me ofender? — Acho que não.

Acabo de receber um e-mail de uma amiga com um monte de frases azedas do Veríssimo contra a Igreja.

Fiquei pensando: ela tem preconceito religioso? — Acho que não.

Se o que todos dizem da Igreja Católica é verdade, então um católico praticante é um imbecil da cabeça aos pés, ou um foragido do manicômio, ou um cego tolhido de razão.

Eu me incluo com muito orgulho na lista desses retrógrados homens quixotescos, desses louco varridos, desses ignorantes fanáticos que vivem fora da realidade.

Curiosamente, esses ataques costumam ser feitos todo ano, geralmente na época da Páscoa ou do Natal. Como a imprensa se alimenta de trending topics e as pessoas vivem de modas ideológicas, tudo passará dentro de uma semana, quando ocorrer algum acidente aéreo ou outra catástrofe natural. Caso não ocorram, pelo menos haverá a Copa do Mundo! Então a mídia concederá sua Indulgência plenária, perdoando a todos os seus alvos, durante um mês.

Teço comentários a algumas frases do Veríssimo no Twitter:

O significado seguinte é o da condição antinatural do homem, obrigado ao celibato ou condenado à hipocrisia.
Ninguém está obrigado ao celibato. Quem quer se casar, que não se ordene. Todos conhecemos senhoras que não se casaram para cuidar da mãe doente. Será que por Cristo não se pode fazer essa mesma opção?
São “hipócritas” os 400 mil sacerdotes não pedófilos que, no mundo inteiro, se dedicam a ajudar as pessoas? Foram 300 casos de pedofilia no mundo inteiro em nove anos, 80% nos EUA. Casos lamentáveis, mas que não impugnam a vida sacrificada de tanta gente abnegada. E algo que convida a refletir sobre o que estaria acontecendo nos EUA.
Finalmente, o celibato foi instituído por Cristo, não pela Igreja.

Seguindo esses círculos sucessivos, fatalmente você chegará à neurose sobre o sexo, que está na base da nossa civilização.
Discurso de gente da época do Muro. Leu Marcuse demais e provou de tudo em 68.

A demonização do sexo e a misoginia são constantes da cultura judaico-cristã e o islamismo não fica atrás.
Demonização? A Igreja considera o matrimônio um sacramento, e a família, uma igreja doméstica!
Misoginia? A Igreja considera Maria a pessoa mais importante da história depois de Jesus! E as nossas santas e doutoras?

O celibato protege o padre do contágio do mal pelo contato com a mulher, descendente de Eva, a primeira desencaminhadora.
Essa heresia é nova! Ora, há padres católicos casados nas Igrejas de rito oriental.

Entre o acobertamento e a omissão, a hierarquia da Igreja tem muito a ver com os crimes praticados por seus sacerdotes.
Primeiro prove os crimes. Por exemplo, toda essa sanha começou quando o Wall Street Journal levantou o caso do padre indiciado em 1979 por abusar de um menino de onze anos na cidade de Essen. Pois bem, ele nunca foi julgado nem muito menos condenado pela Justiça comum. Não havendo a respeito uma sentença transitada em julgado, ninguém tem o direito de afirmar que houve crime. Se o crime não foi confirmado, como poderia sê-lo o seu “acobertamento”? Com base na séria suspeita, o então cardeal Ratzinger ordenou que o acusado fosse submetido a tratamento psiquiátrico e removido para um posto administrativo em Munique onde não tivesse contato com crianças.

Ela sobreviveu à Inquisição, à perseguição aos judeus, à resistência as revelações da ciência, à cumplicidade com tiranos, e pediu desculpas.

Não há espaço aqui para contradizer a tanta falácia em uma única frase.

Ainda hoje dita o comportamento sexual de milhões de pessoas, apesar da sua posição retrógrada na questão dos anticoncepcionais.
A Igreja não é antinada. Ela só propõe um elevado ideal matrimonial. Não quer vivê-lo? Fique à vontade! Problema seu.
Você acha mesmo que a Igreja “controla” a vida sexual das pessoas? Quem de fato parece controlar o imaginário das pessoas é a mídia, quando apresenta a falta de pudor e a promiscuidade como coisas normais.

Mas um dia pedirá desculpas por isto também.

Alguém pedirá desculpas à Igreja ou aos católicos? Afinal, não se pode falar mal de negro, de judeu, de homossexual, etc. Mas de católico, cuspam em cima até dizer chega!

*****
Lembra-se do filme Sexto Sentido? Lá tem um diálogo muito bom, que é o 44º mais citado do cinema, o qual representa bem o que está acontecendo:

Cole: I see dead people.
Malcolm: In your dreams? (Cole shakes his head no)
Malcolm: While you're awake? (Cole nods)
Malcolm: Dead people like, in graves? In coffins?
Cole: Walking around like regular people. They don't see each other. They only see what they want to see. They don't know they're dead.
Malcolm: How often do you see them?
Cole: ALL THE TIME.


Fiquei pensando: essas pessoas não percebem que estão cegas, que estão mortas? — Acho que não.

*****
Concluo com uma pergunta que me foi feita no extinto Formspring:

Como fugir dos esteriótipos e não ser rotulado?
Não sei. Mas geralmente, se você tem moral e sabe dar carinho e consideração, acaba passando incólume.

Na verdade, minha maior surpresa é como pessoas tão inteligentes podem conviver com estereótipos na maior naturalidade.

Muitos vivem no mundo da imaginação e se acham cercados de gente obtusa, sem perceber que os obtusos são eles mesmos.

São doentes que desconhecem a própria doença, anoréxicos que prosseguem em jejum.


*****
Feliz Páscoa!
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