10 de abr de 2010

Casamento para quê?


A lente distorcida do amor romântico

Groucho Marx se perguntava: “O matrimônio é uma instituição maravilhosa, mas quem deseja viver numa instituição?” O comediante americano já utilizava naquele tempo a “nova lente” para entender o matrimônio: a afinidade do casal.

Tal afinidade é uma nova versão do amor romântico que tem sido corrosiva para a segurança e a estabilidade dos relacionamentos. Desde os anos 60, muitos passaram a considerar o matrimônio como um projeto individualista sem relação com a descendência, mas principalmente com a conquista da satisfação pessoal.

O ideal do amor romântico surgira em fins do século XVIII como reação aos casamentos impostos por convenção das classes altas ou procurados por interesse das classes baixas. Contudo, foi a partir da recente revolução sexual que se transformou numa bandeira para questionar a própria instituição matrimonial.

Esvaziamento legal do instituto matrimonial

O amor (sentimento de atração) e a fidelidade (compromisso moral e jurídico) se divorciaram.

Sartre, Wilhelm Reich e Marcuse apresentaram o casamento como o “cárcere do amor”. Essas mudanças culturais e ideológicas logo refletiram‑se no campo do Direito, de forma que, com a liberação do divórcio, seguiu‑se uma “desjuridificação” progressiva do matrimônio.

A nova forma de amor romântico não dá espaço para normas externas ao casal. Assim, alguns autores já dão por suposto que o casamento é um simples contrato de convivência, um compromisso de apoio mútuo, desvinculando matrimônio e descendência, autorizando inclusive uniões homossexuais.

Eis os cinco estágios do gradativo esfacelamento da legislação civil:

1. Ver o direito ao matrimônio como simples direito de liberdade e à sexualidade.
2. Entender a ordem tradicional como fruto cultural e sua impugnação como vitória da liberdade.
3. Criar um matrimônio que pode ser dissolvido e, ao mesmo tempo, vedar o direito ao matrimônio indissolúvel verdadeiro.
4. Reduzir o matrimônio a uma finalidade meramente genital ao acatar a mentalidade contraceptiva.
5. Negar a exigência da heterossexualidade: o matrimônio não teria seu conteúdo determinado pela natureza, mas apenas pela liberdade. (Esta é uma tendência em muitos países.)

Novas justificativas para a separação

A historiadora americana Stephanie Coontz constatou que, até meados do século XX, ninguém considerava o desapaixonamento um motivo razoável para o divórcio. Porém, contribuíram para isso as revistas femininas dos anos 50 e 60, que alentaram um discurso de descontentamento e promoveram o intimismo e a autorrealização como finalidades do casamento.

Três fatores foram mais responsáveis pelo pico de casamentos desfeitos nos anos 70 e 80: a crescente expectativa de realização pessoal, a liberação moral e a emancipação jurídica e econômica da mulher.

Os verdadeiros prejudicados

Desde então, muitos acusaram o divórcio de prejudicar os filhos. Contrargumenta‑se que o conflito precedente ao divórcio já causava o trauma. Visto que em ⅔ dos casos o divórcio não tem procedido de conflitos, tal argumento seria raramente válido, pois exigiria a exposição das crianças a elevados níveis de agressão. Na verdade, os filhos perdem a confiança no amor e no compromisso quando veem que seus pais se divorciam pelo mero fato de se terem distanciado.

Mas o divórcio também prejudica o próprio casal. Uma separação injusta pode levar a um declive emocional, a dificuldades no trabalho, à deterioração do relacionamento com os próprios filhos.

Dentro da lógica do amor romântico, os que possuem menos recursos — emocionais, sociais e econômicos — estão mais expostos a que se desfaça sua união. Com efeito, a taxa de divórcios, o grau de insatisfação dos cônjuges e o número de nascimentos fora do casamento são maiores nas classes baixas. Ou seja, a “democratização do amor” abriu um novo fosso entre ricos e pobres: a desigualdade matrimonial.

Soluções

Primeiramente, é preciso entender o caminho do “fracasso conjugal”. É curioso que, embora a preparação para a vida profissional, sacerdotal ou religiosa se estenda por muitos anos, a preparação para o matrimônio seja reduzida a uma afeição súbita e a um treino da cerimônia.

Contudo, preparação não é experimentação. Com essa desculpa, muitos namoram e permanecem noivos por anos a fio. Ora, um projeto de vida a dois não se reduz à hipotética “compatibilidade sexual”. A verdadeira preparação consiste na amizade.

Aristóteles distinguia três formas de amizade: pelo prazer, pelo interesse e pelo bem. A amizade pelo bem é a mais elevada, pois une os amigos pela virtude. As outras duas não costumam durar muito, pois se baseiam no sentimento de agrado ou na própria conveniência.

Ora, a amizade pelo bem só é possível entre pessoas virtuosas. Por isso o matrimônio é um convite para os cônjuges se transformarem em pessoas boas. Só um homem bom será fiel à sua esposa quando sentir atração sexual por outra. E só uma mulher boa ficará ao lado do marido apesar da doença ou da penúria.

Por isso o matrimônio é um bem: porque pode tornar o homem e a mulher pessoas boas.

Por isso o matrimônio é um ideal: porque exige busca e aperfeiçoamento constantes.

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E você? Sabe ser amigo? Tem muitos amigos?
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