16 de abr de 2010

O ethos da utilidade

Uma nova ética

Antes de Descartes e Lutero, o filósofo debruçava-se na realidade para dela aprender. Desde o advento do imanentismo cartesiano e do individualismo protestante e, ainda mais, com a renúncia do filósofo à virtude, desde Maquiavel, o homem se vê a si mesmo como construtor da verdade e não seu descobridor. Essa revolução filosófica também reverberou nos estudos da ética. Com efeito, até Guilherme de Ockham (1285-1347) e, especialmente, até Francisco Suarez (1548-1617), predominava uma visão clássica da moral: virtudes e felicidade. A bondade como objetivo, as virtudes como meios, a lei como limite. Após esses pensadores e ainda mais com a moral do dever de Kant, a felicidade foi separada da perfeição moral e a lei foi exaltada acima da sua missão subsidiária e pedagógica.

Uma nova liberdade

A moral moderna entende a liberdade diferentemente da ética clássica. Naquela, é entendida como liberdade de indiferença e nesta, como liberdade de qualidade. Para os clássicos, liberdade é o domínio de si, capacidade de autodeterminação para o bem. É uma propriedade da vontade com raiz no intelecto. Contudo, para Ockham a liberdade é voluntarista, ou seja, em se expondo o bem e o mal à inteligência, a vontade seria indiferente para escolher tanto o bem quanto o mal. Ora, na verdade, a liberdade é limitada, pois não lhe cabe definir o que é o bem. Quando se deseja o mal, de fato se está desejando o bem aparente que a inteligência assinalou equivocadamente como desejável. Caberia saber se tal ignorância é culpável ou não.

O que torna bom a um homem

Os erros morais são efeito de uma escassa liberdade. A limitação fundante da liberdade procede de que o bem e o mal independem do querer humano. Entretanto, Ockham propõe uma isenção total da vontade, que seria limitada apenas extrinsecamente pela liberdade suprema e soberana de Deus, o qual arbitrariamente criaria leis. Para Ockham, a bondade consistiria na obediência a essa arbitrariedade divina. Para os clássicos, o homem torna-se bom pela educação. Para os kantianos, a bondade procede do voluntarismo, mediante o cumprimento de imperativos categóricos. É, portanto, patente que a ética moderna esqueceu o valor estético do agir moral e reduziu as virtudes a costumes ou condicionamentos.

Abismo teórico e prático

Esse estado de coisas só poderia criar dilemas. Para evitar o hedonismo, a moral moderna já caiu no estoicismo, rechaçando as paixões. Para evitar a rigidez, a moral moderna já caiu no emotivismo, abdicando da verdade. Ao mesmo tempo, a jurisprudência (capacidade de intuir a lei moral nas vicissitudes da vida) é confundida com a casuística (compilação exaustiva de casos da experiência). Tal ruptura entre liberdade e verdade tem um saldo: o utilitarismo.

Moral é igual à ética?

Talvez você se pergunte porque utilizei os dois termos indistintamente. Sendo os vocábulos equivalentes em latim e grego, considero-os sinônimos. A disjuntiva acima aludida entre liberdade de indiferença e liberdade de qualidade originou tristes matizes:

Ética laica x Moral religiosa
Ética pública x Moral privada
Ética de fins x Moral de princípios
Ética de âmbitos x Moral holística
Ética de consenso x Moral autoritarista

Por isso, penso ser bem cabível um resgate semântico do termo “moral”, indevidamente associado ao legalismo kantiano.
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