A notícia de que São José entrou nas Orações Eucarísticas II, III e IV foi um motivo de grande alegria. E acabou confirmando a tendência dos últimos séculos de colocar o Santo Carpinteiro acima de todos os outros Santos.
A dúvida sempre ficou por conta de seu sobrinho, sobre o qual Cristo afirmou: “entre os nascidos de mulher, não houve maior que João Batista” (Mt 11,11a).
A iconografia, à direita e a esquerda de Jesus, traz às vezes Maria e João. E José, onde ficaria? Penso que os iconógrafos comeram mosca. Afinal, Maria é a Rainha Mãe e, como tal, deve estar junto de Cristo.
A Rainha Mãe era a mulher mais importante na corte real judaica e exercia a função de conselheira. Os reis tinham muitas mulheres, mas uma só mãe, à qual deviam ouvir e venerar, pois dividia o trono com ela (1Rs 2,13-21; 2Rs 24,12; 2Cr 22,3).
Assim, à direita de Jesus e Maria ficaria José e, à esquerda, João Batista, pois “o menor no Reino dos Céus é maior do que ele” (Mt 11,11b). Ou seja: José e João seriam os máximos representantes de cada um dos Testamentos.
Alguém poderia questionar se José — do mesmo modo que João — não deveria ser classificado como personagem veteritestamentário. Contudo, João Paulo II ensinou que “no limiar do Novo Testamento, como já sucedera no princípio do Antigo, há um casal” (Redemptoris custos, nº 7), pois “José é o primeiro depositário do mistério divino, juntamente com Maria. Simultaneamente com Maria — e também em relação com Maria — ele participa nesta fase culminante da auto-revelação de Deus em Cristo; e nela participa desde o primeiro momento. Tendo diante dos olhos os textos de ambos os Evangelistas, São Mateus e São Lucas, pode também dizer-se que José foi o primeiro a participar na mesma fé da Mãe de Deus” (ib., nº 5).
***
Que nada disso diminua o culto a São João Batista! Por sinal, boa Festa Junina a todos!
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25 de jun. de 2013
25 de mai. de 2013
As três montanhas de Moisés
O monte da Fé
Moisés foi apascentar as ovelhas do sogro madianita e chegou no Planalto do Sinai, no deserto de mesmo nome. Segundo uma tradição, alcançou o pico do Salgueiro (gebel Serbal), de 2.054 m de altura, que está quase a pique sobre um planalto a 1.500 m sobre o nível do mar, rico em águas.Deus então lhe fala, através de seu Anjo, desde uma sarça que ardia sem se consumir. Se era uma variedade de ditamo branco (que segrega uma essência facilmente inflamável com calor intenso sem consumir as plantas donde emana), ou uma lorantácea (parasita das árvores desses climas, cujas flores vermelhas parecem brasas sob o sol pleno), não importa. O fato é que Deus lhe comunica que se tinha lembrado de seu povo oprimido no Egito e o chama a ser o seu libertador.
De pés descalços, Moisés ousa indagar pelo Nome de Deus e obtém em resposta o que torna esse episódio a teofania fundamental de toda a história da salvação: Deus lhe revela — com uma aparente recusa, reveladora ao mesmo tempo que ocultando, a santidade e a transcendência divinas — o seu Nome inefável: “Eu Sou Aquele Que Sou”: JAVÉ (YaHWeH).
A noção divina que o Nome JAVÉ representa é distinta e elevada, superior ao nome com o qual Deus se revelara a Abraão (Gn 17,1; 28,3; 35,11; Ex 6,3; 1Rs 20,23; Ez 1,24; 10,5), pois “Ele é” significa primariamente “Ele vive”, contraposto aos ídolos mortos; “Ele é” o Deus presente que “será” com Moisés e com o povo, como o foi com os patriarcas ((Ex 3,6.12.15).
O monte do Amor
Enfim o povo chegou ao monte Sinai, também chamado Horeb pelas tradições eloísta e deuteronomista, termo que significa “árido, seco”. É o “Pico de Moisés” (gebel Musa), com 2.285 m de altura, até onde Egéria peregrinaria em 383 AD.Ao terceiro dia do mês de Sivã, Deus comunicou ao povo as suas “Dez Palavras” e transmitiu a Moisés o “Código da Aliança” (Ex 20,22–23,19), pacto selado com solene sacrifício de sangue (Ex 24,3-8) e Comunhão (Ex 24,9-11).
Aí nasceu Israel como povo livre (Lv 26,42-45; Dt 4,31; Eclo 44,21-23) e comprometido a observar os mandamentos e a Lei (Ex 20,1; 20,22–23,33; Dt 5,1-21). Em contrapartida, Deus prometeu fazê-lo seu povo particular e cercá-lo com sua proteção (Ex 19,4-8; Dt 11,22-25; 28,1-14).
A Lei de Deus (Js 24,26) é, pois, o conjunto das prescrições religiosas e civis colecionadas no Pentateuco, o qual, porém, contêm coleções (Ex 25–31; 36–40; Lv 1–16; 23–27; Nm 1–10; 17–19) diacronicamente incompatíveis que foram sendo acrescentadas pela tradição à legislação mosaica a fim de acomodá-la às novas circunstâncias da nação.
O monte da Esperança
“No final do caminho do Êxodo, destaca-se outro lugar elevado, o monte Nebo, donde Moisés pôde contemplar a Terra Prometida (cf. Dt 32, 49), sem a alegria de poder pisá-la, mas com a certeza de a ter finalmente alcançado. Aquele seu olhar a partir do monte Nebo é o próprio símbolo da esperança. Daquele monte, ele podia constatar que Deus tinha mantido as suas promessas. Uma vez mais, porém, devia confiadamente abandonar-se à omnipotência divina quanto ao pleno cumprimento do desígnio preanunciado.” (Bem-aventurado João Paulo II, Carta sobre a peregrinação aos lugares relacionados com a história da salvação, 6).
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21 de abr. de 2013
Papa não se compara
Falsas diferenças
Achei graça, pois Bento XVI fazia tal qual e os fiéis iam ao delírio do mesmo jeito. Eu mesmo estive em Roma há uns anos e o presenciei: quebramos várias cadeiras da Aula Paolo VI amontoando-nos uns sobre os outros, e as pessoas que conseguiram tocá-lo quase lhe furtaram o anel das mãos.
Concretamente, esse meu amigo é um católico de conversão recente. Para ele, como para a maioria das pessoas, a figura veiculada de Bento XVI é mais viva que sua figura verdadeira.
Não é aqui o lugar para analisar as possíveis razões desse fato: boicote interno, péssima comunicação institucional, preconceito latino-americano com os europeus, antipropaganda da Teologia da Libertação, má vontade e incompetência da imprensa brasileira, etc.
Aparentes diferenças
Outros tantos, em resposta bem intencionada, fizeram finca-pé na legitimidade de o novo Papa conduzir as cerimônias como lhe aprouver.
Outros, ainda, apelaram para a ação oculta do Espírito Santo por trás de toda essa história…
Contudo, acredito que a maioria das pessoas não percebeu nada de diferente, antes ficou muito contente com a boa acolhida que o novo Papa recebeu por parte da opinião pública.
Penso que, de fato, esse assunto não tem tanta relevância. Mas o fogo que foi disparado, tanto cruzado quanto amigo, oferece uma boa oportunidade para clarificar as ideias.
Verdadeiras diferenças
O Papa Francisco é um religioso (isto é: fez voto de pobreza) e, como tal, ele procura viver o desprendimento de forma ostentosa. Bento XVI, além de ser do clero secular, é um professor de teologia, por isso se valia de tudo que tivesse valor pedagógico para passar seu recado (até a cor do calçado!).
Segundo T. S. Eliot, o homem moderno prefere o onírico ao alegórico. Portanto, sofre de uma enorme ignorância diante do simbólico, mas se empolga com o histriônico. Daí que a pedagogia de Bento XVI nem sempre tenha sido assimilada…
Por outro lado, o Papa Francisco é um místico cuja sensibilidade o faz preferencialmente descortinar Cristo no pobre e no desvalido. Por sua vez, para Bento XVI, como ele mesmo afirmou, é na relação com a liturgia que se decide o destino da fé e da Igreja.
Por outro lado, o Papa Francisco é um místico cuja sensibilidade o faz preferencialmente descortinar Cristo no pobre e no desvalido. Por sua vez, para Bento XVI, como ele mesmo afirmou, é na relação com a liturgia que se decide o destino da fé e da Igreja.
Com relação a esse último aspecto, vale a pena recordar que o bem-aventurado João Paulo II propunha ainda outro caminho, pois para ele o homem é que “é a primeira e fundamental via da Igreja” (Redemptor hominis, 13).
Essas diferenças são úteis para abarcarmos as diferentes facetas da vida cristã.
Essas diferenças são úteis para abarcarmos as diferentes facetas da vida cristã.
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15 de set. de 2012
A Sibila do Reno
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| Hildegarda com sua pupila Richardis, no filme Vision |
Novos Doutores
Em outubro próximo, iniciará o Ano da Fé. Por essa ocasião, Bento XVI proclamará doutores a São João de Ávila, “Mestre de Santos e a figura de maior destaque num século de gigantes”, e Santa Hildegarda de Bingen, “a Sibila do Reno e Profetiza dos Teutões”.Os requisitos para que se proclame um Santo como Doutor da Igreja são: eminens doctrina, insignis vitæ sanctitas, Ecclesiæ declaratio (doutrina eminente, santidade insigne e declaração eclesiástica). Em termos práticos, a declaração como Doutor torna obrigatório para a Igreja universal o ofício e a Missa do Santo em questão, cujos ensinamentos são apresentados como uma referência.
Portanto, a decisão de inscrevê-lo nessa lista tão exígua (35 no total) é — eminentemente — pastoral. Essa intenção fica ainda mais patente com a escolha de Hildegarda, que nem mesmo tinha sido solenemente canonizada, embora seu culto fosse estendido na Alemanha. Com efeito, a Sibila do Reno cai nas graças de todo mundo, desde adeptos da New Age às feministas mais ideologizadas.
Nada melhor do que resgatar a mística medieval para o conhecimento dos nativos virtuais do nosso século.
Mulher polímata
Hildegard Von Bingen (1098-1179) é uma personagem muito peculiar: a mestra do mosteiro beneditino de Rupertsberg foi mística, fundadora, teóloga, pregadora, naturalista, médica, escritora, poetisa, dramaturga e compositora. Criou inclusive uma lingua ignota, com alfabeto igualmente desconhecido, com a qual descrevia suas fantásticas visões.Além de algumas referências esparsas, Bento XVI já lhe dedicou duas audiências, e o Bem-aventurado João Paulo II escreveu uma breve carta sobre ela, que foi uma das mulheres mais importantes da Idade Média e cujas obras podem ser lidas em latim (e em espanhol).
Dentre as suas obras enumeram-se também peças musicais, compostas por revelação divina. É possível encontrar na Internet uma boa seleção:
A Profetisa nas telas
Em 2010, foi lançado o filme Vision: from the live of Hildegard Von Bingen. A diretora, Margarethe Von Trotta, realizou um belo trabalho, doutrinal e moralmente ortodoxo, o qual vem maculado, contudo, por personagens caricaturescos e estereótipos sobre o feminismo, o naturalismo, a época medieval e as práticas penitenciais. A fotografia e o figurino são excelentes; há inclusive alguns pequenos trechos das músicas de Hildegarda. O resultado final é um tanto heterogêneo: o filme pode parecer pesado a alguns, mas vale a pena.Em compensação, a TV alemã ZDF produzira em 2008 uma série de documentários sobre as 20 maiores personalidades da história germânica, dedicando à Sibila do Reno um dos episódios. Estão disponíveis para download, mas sem legenda.
O verdadeiro feminismo cristão
A figura de Hildegarda é muito apropriada hoje para contestar a difundida falácia feminista de que a mulher teria sido humilhada e maltratada no decurso dos séculos cristãos. É fora de dúvida que, nas antigas civilizações (exceto em parte entre os judeus e os epicuristas), a mulher foi sujeita ao despotismo do varão, era moeda de troca, era vitimada por divórcios arbitrários, submetia-se à prostituição sagrada, etc.Pelo contrário, no seio do Cristianismo, a mulher encontrou uma defesa de seus direitos, obteve a proteção do matrimônio indissolúvel, recebeu um status até então inimaginável, e foi proposta como o mais sublime dos modelos na figura de Maria.
Hildegarda não é figura isolada. Helena e Teodora II, Teodolina, Clotilde e Radegunda, Catarina de Sena e Teresa de Ávila, entre tantas outras, exerceram mais influência do que qualquer mulher dos tempos modernos. Essa visão distorcida do desprezo cristão pela mulher provém da tendência atual a denegrir a Igreja histórica.
Curiosamente, os mesmos que atribuem à Igreja as “antigas faltas da Cristandade” também lhe atribuem as crises atuais, oriundas justamente do abandono que fizeram da mesma Igreja. Em suma: se para muitos não houve filosofia antes de Kant, para tantos outros não houve história antes da Revolução Francesa…
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13 de abr. de 2012
A noiva do Chucky
A intelligentsia brasileira é prisioneira de doxas. Segundo o Houaiss, doxa é “o sistema ou conjunto de juízos que uma sociedade elabora em um determinado momento histórico supondo tratar-se de uma verdade óbvia ou evidência natural, mas que para a filosofia não passa de crença ingênua, a ser superada para a obtenção do verdadeiro conhecimento”.
Um reflexo do doxa feminista radical ficou patente na recente decisão do STF quanto aos anencefálicos (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 54). A ocasião faz o ladrão e nada mais oportuno que aproveitar o ensejo para analisar retrospectivamente a evolução do pensamento feminista.
Embora tenha iniciado com anterioridade (vide, por exemplo
Uma Defesa dos Direitos da Mulher, de Mary Wollstonecraft, publicada em 1790), é possível localizar no século XIX o nascimento do feminismo, cujas origens ideológicas provêm de cinco princípios:
Origem no século XIX
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| Mary Wollstonecraft |
Uma Defesa dos Direitos da Mulher, de Mary Wollstonecraft, publicada em 1790), é possível localizar no século XIX o nascimento do feminismo, cujas origens ideológicas provêm de cinco princípios:
• a razão igualitária iluminista;
• a visão progressista da história;
• o socialismo utópico;
• o liberalismo;
• o cristianismo.
Rapidamente, o movimento assumiu duas derivações:
O feminismo igualitário: visava à imitação do status masculino na sociedade. Ou era liberal, da linha de John Stuart Mill, ou era socialista.
O feminismo reivindicatório: propunha um programa para elevar o nível cultural e profissional das mulheres.
No âmbito católico sublinhou-se o direito ao voto (temido pelos anticlericais e socialistas, pois as mulheres eram conservadoras) e o direito a uma melhor educação, a mais oportunidades profissionais e a um sistema jurídico protetor das famílias e da maternidade.
Contudo, o acesso aos campos de trabalho masculinos às vezes foi defendido desprezando-se o trabalho doméstico e, no bojo das reivindicações, foram incluídas exigências no âmbito da sexualidade. Nessa linha, o liberalismo propunha mormente o divórcio e a contracepção, enquanto o socialismo postulava o fim da família e o amor livre.
O início do século XX trouxe forçosamente as mulheres ao mercado de trabalho por causa das Guerras. E as ideias neomalthusianas difundiram a opinião de que a exclusão do aspecto procriador da relação sexual seria um “progresso” a ser almejado.
Com tal background, encontraram forte eco a partir dos anos 60 a psicologia freudiana e as teorias sociológicas da Escola de Frankfurt. O ícone desse tempo foi Simone de Beauvoir (1908-1986), companheira de Sartre. Ela defendia o rompimento das algemas biológicas que oprimem as mulheres através da contracepção e do aborto, levando-as à mesma liberdade sexual dos homens. É paradoxal, mas seu igualitarismo considera, portanto, o modelo masculino como normativamente superior.
As principais correntes feministas, agora de índole revolucionária, passam a ser, desde os anos 60:
• Feminismo radical: centrado na sexualidade, afirma que “o pessoal é político”. Sulamith Firestone fará uma interpretação marxista, segundo a qual as mulheres devem controlar os meios de reprodução. Kate Millet defenderá a destruição do patriarcado e das instituições. Muitas feministas radicais rechaçarão a heterossexualidade e defenderão o lesbianismo.
• Feminismo psicanalítico: centrado no combate ao complexo de Édipo, que relegaria a mulher a um posto secundário na sociedade. Nancy Chodorov advogará pela participação das mulheres em trabalhos masculinos. Linhas mais radicais também verão o lesbianismo como principal forma de escapar às consequências do complexo de Édipo.
• Feminismo marxista-socialista: a opressão feminina seria causada simultaneamente pela classe social e pelo sexo. Por isso, Juliet Mitchell defenderá a derrota do homem e de suas estruturas patriarcais e capitalistas.
• Feminismo liberal-reformador: trabalha dentro das instituições, na linha do antigo feminismo reivindicatório do século XIX, em prol de pretensos “direitos sexuais”. Betty Friedan fará sucesso com sua crítica desapiedada da dona de casa, que compara a um prisioneiro de um “confortável campo de concentração”.
• Feminismo teológico: oriundo do meio protestante, quis depurar o alegado “machismo” da tradição bíblica e defender o sacerdócio das mulheres, tornando-se bastante forte em algumas comunidades. Chegou até a propor uma “religião da deusa”, pós-cristã. Produziu seus reflexos negativos na teologia católica germânica e anglo-saxã, mas a Igreja soube reagir com firmeza doutrinal; entre outras coisas, figuras como a santa filósofa Edith Stein, a escritora Gertrud von Le Fort e São João Paulo II apontaram caminhos positivos para a mulher. (Abstenho-me de fazer aqui a necessária menção à problemática muçulmana, bem diversa da ocidental.)
Daí a defesa das “famílias alternativas” e a releitura heterodoxa dos direitos humanos. Segundo a metáfora leninista, todo comportamento seria mero papel cujo atores são intercambiáveis como as engrenagens de uma máquina.
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Evolução da questão no início do século XX
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| Simone de Beauvoir |
Com tal background, encontraram forte eco a partir dos anos 60 a psicologia freudiana e as teorias sociológicas da Escola de Frankfurt. O ícone desse tempo foi Simone de Beauvoir (1908-1986), companheira de Sartre. Ela defendia o rompimento das algemas biológicas que oprimem as mulheres através da contracepção e do aborto, levando-as à mesma liberdade sexual dos homens. É paradoxal, mas seu igualitarismo considera, portanto, o modelo masculino como normativamente superior.
As cinco correntes atuais
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| Sulamith Firestone |
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| Kate Millet |
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| Nancy Chorodov |
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| Juliet Mitchell |
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| Betty Friedan |
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| Gertrud von Le Fort |
Novas facetas
A ideologia de gênero é a nova cara do feminismo radical. Distingue sexo (biológico) de gênero (papel na sociedade). Transfere as funções femininas tradicionais (maternidade, etc.) para o gênero, que não é visto como algo natural, mas manifestação cultural “biologizada”, passível de evolução histórica.Daí a defesa das “famílias alternativas” e a releitura heterodoxa dos direitos humanos. Segundo a metáfora leninista, todo comportamento seria mero papel cujo atores são intercambiáveis como as engrenagens de uma máquina.
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Essa postagem nasceu depois desse tweet:
A #mulher reinventada por certo #feminismo é uma noiva do Chucky: gostosa pra brincar, feita pra matar, impossível de amar.
abril 12, 2012
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31 de jan. de 2012
Réplica à primeira carta ecumênica
Missiva que recebi em resposta à minha carta de 22 de março de 2010
São Paulo, 27 de março de 2010
João,
Primeiro, desculpe a enorme demora em responder. Planejei lhe escrever de volta no mesmo dia em que li, mas estive meio enlouquecida de tanta coisa pra fazer, e só parei um pouco agora que uma tosse (gripe? sei lá o que é essa coisa chata que tenho) horrível me pegou. Espero que me perdoe!
Pois bem: eu realmente fiz uma confusão de palavras. Queria mesmo falar de doutrinas, e não de preceitos, como você percebeu. Mas uma das razões de eu ter gostado de ler seus comentários e correções é porque os achei todos muito equilibrados — fiquei pensando esses dias e, cá entre nós, descobri que eu não tenho muito contato com católicos assim como você. De um lado, tenho amigos carismáticos ou só mais “moderninhos”, que não se diferenciam lá tanto assim dos evangélicos. De outro, amigos da FSSPX, a quem admiro em muitas coisas, mas ainda assim não consigo achar sadio o radicalismo briguento em que acabam caindo. Já conversei com alguns sobre essas coisas, mas sempre que via que não ia dar muito certo, mudava de assunto. Eu acho até curioso e engraçado que exista gente nesse mundo que ache que eu estou seguindo uma doutrina satânica, mas chega uma hora que cansa.
Bom, peço que releve o estilo ruinzinho e confuso com o qual estou escrevendo hoje (culpemos a gripe!) e vou comentar seus comentários. Concordando ou não concordando, eu não tenho muita coisa de importante pra dizer, tão bem você definiu as coisas.
Sobre bíblia/tradição: é verdade, todos optam por algum tipo de tradição. Entendi o princípio de palavra transmitida e faz bastante sentido. Eu só não sei até onde concordo com o tipo de tradição pelo qual a igreja católica “optou”. Creio também que a Palavra só se manifesta plenamente em Jesus Cristo, o verbo que se fez carne, e concordo com você quando diz que o cristianismo não é uma religião do livro. A coisa não se resume, de forma alguma, a uma supervalorização da letra, mas à confiança de que a bíblia é o parâmetro maior, pois é por meio dela que temos conhecimento da vontade de Deus — pois foi inspirada, logo, não contém ensinamento falível (como nós humanos). Isso tudo me levou a pensar nos crentes de Bereia, também. Anyway, eu acho que agora consegui entender bem o princípio por trás da doutrina.
O ponto sobre a Comunhão dos Santos é curioso porque eu estava lendo exatamente sobre isso, no volume III da História da Vida Privada. Já devolvi o livro à biblioteca (queria tê-lo aqui agora pra citar decentemente), mas o autor, falando dos processos de individualização que estavam se dando na Renascença, citou a visão protestante, que realmente é mais individual do que a católica. Acho que você está certo mesmo, dizendo que uma grande questão da Reforma está aí. Não acredito que a nossa influência, que a influência do amor fraternal mesmo (porque pelas palavras do Papa me pareceu que esta, a fraternidade, é a base da doutrina), se dê dessa forma. Mas lendo o ponto 48 da Encíclica, consegui entender melhor também essa questão — não é idolatria, ao menos para um católico que sabe as doutrinas e sabe o que está fazendo. Não é como o senso comum diz, e saber disso faz inclusive com que o meu respeito cresça.
A Transubstanciação é um caso especial: logo que li seu comentário fiquei com vontade de dizer imediatamente “eeeei, mas eu também não acredito que é só um símbolo!”. Hahahaha! Sendo um sacramento, eu acredito sim que a Eucaristia é uma forma especial, sobrenatural, que Deus usa para manifestar Sua graça à Igreja. O pastor da minha igreja lá em Suzano sempre faz questão de dizer que não é só um símbolo, não é só pra gente lembrar, e sim que há uma presença excepcional, uma manifestação especial da graça Divina no meio da Igreja naquele momento. A diferença é que pra nós é um ato físico gerando, SIM, uma realidade espiritual, mas não sendo necessariamente modificado (fisicamente) por ela. Ai, que confusa e redundante, mas dá pra entender, né?
Autoridade da Igreja: de novo, pensei nos cristãos de Bereia. Há uma diferença de hierarquia de conceitos, acho, entre os nossos pensamentos, e esse é outro ponto que toca em muito outros também. A Igreja só é coluna enquanto estiver firmada na vontade de Deus, que é expressa por meio da Palavra. Não acredito na Igreja como instituição de importância independente ou anterior à Bíblia, pois é composta de seres humanos, todos falhos e sujeitos a milhares de erros como você e eu. É claro que creio que o Senhor cuida de nós, e que enquanto nele estivermos não será a nossa vontade mas a dele — mas o único jeito de estarmos assim é conhecendo a bíblia, conhecendo e praticando o que lá está expresso. Entende o que eu quero dizer?
Também não acredito na legitimidade de uma interpretação exclusivamente pessoal, sem comunhão com a fé comum. Já vi isso destruir muita coisa — já estive em igrejas onde uma “iluminação pessoal” de um pastor causou divisão e contenda. Tenho horror a isso, sinceramente. Como Reformada, não creio que o intuito de dar a todo cristão a possibilidade de leitura e entendimento individuais da Bíblia seja que cada um isoladamente tenha a sua, única, exclusiva interpretação. É claro que devemos trabalhar em conjunto, com fé comum, senão a igreja perde a razão de ser. Acho justo que todos possamos ler, compreender e contribuir para que a igreja — que somos nós mesmos — se mantenha de acordo com a Bíblia, que é a palavra de Deus expressa. A diferença entre nossos pensamentos é hierárquica, eu acho — vocês colocam a Bíblia ao lado da instituição e tradição, enquanto nós a enfatizamos como revelação principal da vontade Divina.
Sobre a declaração conjunta… Uau! Adorei saber disso. Eu não sei como os Calvinistas ficam nessa história, porque confesso que não sei dizer exatamente até onde nosso pensamento é igual ao Luterano. Preciso estudar mais, bem mais. Mas confesso que não me importo tanto em ficar achando diferença, porque achei incrível a iniciativa de juntar as coisas em comum. É isso que deveríamos fazer, bem mais vezes, especialmente “não oficialmente” — como indivíduos, no dia-a-dia.
Ufs, acho que escrevi demais também. Guardei o link com material dos Padres da Igreja Primitiva (obrigada!) e vou ler, com certeza, pois gosto mesmo desse tipo de coisa. Acho que foi C.S. Lewis quem disse que algumas pessoas cresciam lendo devocionais e refletindo, mas que pra ele mesmo não tinha coisa melhor do que um cachimbo aceso e um livro de teologia. Eu sou, com certeza, desse segundo tipo: não sei quase nada ainda, mas o estudo teológico (doutrinário, histórico, etc.) por mais teórico e intrincado que pareça, é o que me fascina — e não só intelectualmente, porque não há coisa mais incrível e libertadora do que contemplar, meio abismado, que tudo isso que você está lendo trata só e simplesmente da verdade — da verdade mais fundamental que há, para todo o universo —, e que há ainda muito mais coisas fantásticas que a sua mente humana simplesmente não apreende, mas o Criador de todas elas é (pasmem!) seu Pai e Senhor. Ufs! Talvez eu esteja sendo meio poética/filosófica demais, mas é bem por aí, pra mim.
E bolas, você resumiu tudo perfeitamente: rezar muito, ter muitos amigos e estudar muito. That's it. There we go! Obrigada de novo, gostei muito de conversar com você.
São Paulo, 27 de março de 2010
João,
Primeiro, desculpe a enorme demora em responder. Planejei lhe escrever de volta no mesmo dia em que li, mas estive meio enlouquecida de tanta coisa pra fazer, e só parei um pouco agora que uma tosse (gripe? sei lá o que é essa coisa chata que tenho) horrível me pegou. Espero que me perdoe!
Pois bem: eu realmente fiz uma confusão de palavras. Queria mesmo falar de doutrinas, e não de preceitos, como você percebeu. Mas uma das razões de eu ter gostado de ler seus comentários e correções é porque os achei todos muito equilibrados — fiquei pensando esses dias e, cá entre nós, descobri que eu não tenho muito contato com católicos assim como você. De um lado, tenho amigos carismáticos ou só mais “moderninhos”, que não se diferenciam lá tanto assim dos evangélicos. De outro, amigos da FSSPX, a quem admiro em muitas coisas, mas ainda assim não consigo achar sadio o radicalismo briguento em que acabam caindo. Já conversei com alguns sobre essas coisas, mas sempre que via que não ia dar muito certo, mudava de assunto. Eu acho até curioso e engraçado que exista gente nesse mundo que ache que eu estou seguindo uma doutrina satânica, mas chega uma hora que cansa.
Bom, peço que releve o estilo ruinzinho e confuso com o qual estou escrevendo hoje (culpemos a gripe!) e vou comentar seus comentários. Concordando ou não concordando, eu não tenho muita coisa de importante pra dizer, tão bem você definiu as coisas.
Sobre bíblia/tradição: é verdade, todos optam por algum tipo de tradição. Entendi o princípio de palavra transmitida e faz bastante sentido. Eu só não sei até onde concordo com o tipo de tradição pelo qual a igreja católica “optou”. Creio também que a Palavra só se manifesta plenamente em Jesus Cristo, o verbo que se fez carne, e concordo com você quando diz que o cristianismo não é uma religião do livro. A coisa não se resume, de forma alguma, a uma supervalorização da letra, mas à confiança de que a bíblia é o parâmetro maior, pois é por meio dela que temos conhecimento da vontade de Deus — pois foi inspirada, logo, não contém ensinamento falível (como nós humanos). Isso tudo me levou a pensar nos crentes de Bereia, também. Anyway, eu acho que agora consegui entender bem o princípio por trás da doutrina.
O ponto sobre a Comunhão dos Santos é curioso porque eu estava lendo exatamente sobre isso, no volume III da História da Vida Privada. Já devolvi o livro à biblioteca (queria tê-lo aqui agora pra citar decentemente), mas o autor, falando dos processos de individualização que estavam se dando na Renascença, citou a visão protestante, que realmente é mais individual do que a católica. Acho que você está certo mesmo, dizendo que uma grande questão da Reforma está aí. Não acredito que a nossa influência, que a influência do amor fraternal mesmo (porque pelas palavras do Papa me pareceu que esta, a fraternidade, é a base da doutrina), se dê dessa forma. Mas lendo o ponto 48 da Encíclica, consegui entender melhor também essa questão — não é idolatria, ao menos para um católico que sabe as doutrinas e sabe o que está fazendo. Não é como o senso comum diz, e saber disso faz inclusive com que o meu respeito cresça.
A Transubstanciação é um caso especial: logo que li seu comentário fiquei com vontade de dizer imediatamente “eeeei, mas eu também não acredito que é só um símbolo!”. Hahahaha! Sendo um sacramento, eu acredito sim que a Eucaristia é uma forma especial, sobrenatural, que Deus usa para manifestar Sua graça à Igreja. O pastor da minha igreja lá em Suzano sempre faz questão de dizer que não é só um símbolo, não é só pra gente lembrar, e sim que há uma presença excepcional, uma manifestação especial da graça Divina no meio da Igreja naquele momento. A diferença é que pra nós é um ato físico gerando, SIM, uma realidade espiritual, mas não sendo necessariamente modificado (fisicamente) por ela. Ai, que confusa e redundante, mas dá pra entender, né?
Autoridade da Igreja: de novo, pensei nos cristãos de Bereia. Há uma diferença de hierarquia de conceitos, acho, entre os nossos pensamentos, e esse é outro ponto que toca em muito outros também. A Igreja só é coluna enquanto estiver firmada na vontade de Deus, que é expressa por meio da Palavra. Não acredito na Igreja como instituição de importância independente ou anterior à Bíblia, pois é composta de seres humanos, todos falhos e sujeitos a milhares de erros como você e eu. É claro que creio que o Senhor cuida de nós, e que enquanto nele estivermos não será a nossa vontade mas a dele — mas o único jeito de estarmos assim é conhecendo a bíblia, conhecendo e praticando o que lá está expresso. Entende o que eu quero dizer?
Também não acredito na legitimidade de uma interpretação exclusivamente pessoal, sem comunhão com a fé comum. Já vi isso destruir muita coisa — já estive em igrejas onde uma “iluminação pessoal” de um pastor causou divisão e contenda. Tenho horror a isso, sinceramente. Como Reformada, não creio que o intuito de dar a todo cristão a possibilidade de leitura e entendimento individuais da Bíblia seja que cada um isoladamente tenha a sua, única, exclusiva interpretação. É claro que devemos trabalhar em conjunto, com fé comum, senão a igreja perde a razão de ser. Acho justo que todos possamos ler, compreender e contribuir para que a igreja — que somos nós mesmos — se mantenha de acordo com a Bíblia, que é a palavra de Deus expressa. A diferença entre nossos pensamentos é hierárquica, eu acho — vocês colocam a Bíblia ao lado da instituição e tradição, enquanto nós a enfatizamos como revelação principal da vontade Divina.
Sobre a declaração conjunta… Uau! Adorei saber disso. Eu não sei como os Calvinistas ficam nessa história, porque confesso que não sei dizer exatamente até onde nosso pensamento é igual ao Luterano. Preciso estudar mais, bem mais. Mas confesso que não me importo tanto em ficar achando diferença, porque achei incrível a iniciativa de juntar as coisas em comum. É isso que deveríamos fazer, bem mais vezes, especialmente “não oficialmente” — como indivíduos, no dia-a-dia.
Ufs, acho que escrevi demais também. Guardei o link com material dos Padres da Igreja Primitiva (obrigada!) e vou ler, com certeza, pois gosto mesmo desse tipo de coisa. Acho que foi C.S. Lewis quem disse que algumas pessoas cresciam lendo devocionais e refletindo, mas que pra ele mesmo não tinha coisa melhor do que um cachimbo aceso e um livro de teologia. Eu sou, com certeza, desse segundo tipo: não sei quase nada ainda, mas o estudo teológico (doutrinário, histórico, etc.) por mais teórico e intrincado que pareça, é o que me fascina — e não só intelectualmente, porque não há coisa mais incrível e libertadora do que contemplar, meio abismado, que tudo isso que você está lendo trata só e simplesmente da verdade — da verdade mais fundamental que há, para todo o universo —, e que há ainda muito mais coisas fantásticas que a sua mente humana simplesmente não apreende, mas o Criador de todas elas é (pasmem!) seu Pai e Senhor. Ufs! Talvez eu esteja sendo meio poética/filosófica demais, mas é bem por aí, pra mim.
E bolas, você resumiu tudo perfeitamente: rezar muito, ter muitos amigos e estudar muito. That's it. There we go! Obrigada de novo, gostei muito de conversar com você.
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28 de jan. de 2012
Fala aí, Doutor!
Minha singela e bem-humorada homenagem ao Doutor Angélico, o mais sábio dos santos e o mais santo dos sábios.
Art. 1 — SE É CORRETO USAR A EXPRESSÃO “SÃO TOMÁS”.
O primeiro discute-se assim — Parece que a expressão “São Tomás” está errada.
1. — Pois chama-se cacófaton à expressão acidentalmente formada pela sílaba final de uma palavra e pela inicial da seguinte. No caso, o nome do Aquinate soará para muitos “Santo Más”.
2. DEMAIS — Vieira usa SANTO Tomás, como a maioria dos autores clássicos (Frei Luís de Sousa, João de Barros, Contador de Argote).
3. DEMAIS — Alegam os protestantes que não se deve chamar os homens de santos, por mais ilustres que pareçam, pois só Deus é Santo (cf. 1Sm 2,2).
MAS, EM CONTRÁRIO — Por uma regra de adaptação morfofonêmica, o padrão da língua portuguesa é utilizar santo antes de nomes começados por vogal ou por h, e são antes dos nomes que iniciam por consoante.
SOLUÇÃO — O sistema adotado pelo castelhano é diferente do português. O Dicionário da Real Academia Española ensina que a forma santo é exclusivamente usada antes de Tomás, Toríbio, Tomé e Domingo. Em todos os demais casos, utiliza-se san (San Antonio, San Roque, San Pablo, San Andrés). Portanto, devido à proximidade entre o castelhano e o português, deve-se atribuir o prurido para com a expressão “São Tomás” a um castelhanismo difuso.
Por outro lado, o uso da expressão “Santo Tomás” produz uma espécie de aliteração ou eco que, em última análise, também poderia ser tido por cacofônico: “São Totó Más”.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — O som feio, desagradável, impróprio ou com sentido equívoco, produzido pela união dos sons de duas ou mais palavras vizinhas, deve ser tido como verdadeiro cacófaton apenas quando gera expressão obscena, ridícula ou fora de contexto, o que não é o caso.
RESPOSTA À SEGUNDA. — A partir do séc. XVIII o padrão de adaptação morfofonêmica portuguesa veio se firmando, notando-se hoje a nítida preferência pela expressão “São Tomás”.
RESPOSTA À TERCEIRA — O costume de chamar os cristãos de santos vem de longa data e é atestado por São Paulo em suas cartas. Conforme o testemunho de São Josemaria: “‘Saudai todos os santos. Todos os santos vos saúdam. A todos os santos que vivem em Éfeso. A todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos.’ — Que comovente esse apelativo — santos! — que empregavam os primeiros fiéis cristãos para se designarem entre si, não é mesmo?! — Aprende a tratar com os teus irmãos” (Caminho, nº 469).
Art. 1 — SE É CORRETO USAR A EXPRESSÃO “SÃO TOMÁS”.
O primeiro discute-se assim — Parece que a expressão “São Tomás” está errada.
1. — Pois chama-se cacófaton à expressão acidentalmente formada pela sílaba final de uma palavra e pela inicial da seguinte. No caso, o nome do Aquinate soará para muitos “Santo Más”.
2. DEMAIS — Vieira usa SANTO Tomás, como a maioria dos autores clássicos (Frei Luís de Sousa, João de Barros, Contador de Argote).
3. DEMAIS — Alegam os protestantes que não se deve chamar os homens de santos, por mais ilustres que pareçam, pois só Deus é Santo (cf. 1Sm 2,2).
MAS, EM CONTRÁRIO — Por uma regra de adaptação morfofonêmica, o padrão da língua portuguesa é utilizar santo antes de nomes começados por vogal ou por h, e são antes dos nomes que iniciam por consoante.
SOLUÇÃO — O sistema adotado pelo castelhano é diferente do português. O Dicionário da Real Academia Española ensina que a forma santo é exclusivamente usada antes de Tomás, Toríbio, Tomé e Domingo. Em todos os demais casos, utiliza-se san (San Antonio, San Roque, San Pablo, San Andrés). Portanto, devido à proximidade entre o castelhano e o português, deve-se atribuir o prurido para com a expressão “São Tomás” a um castelhanismo difuso.
Por outro lado, o uso da expressão “Santo Tomás” produz uma espécie de aliteração ou eco que, em última análise, também poderia ser tido por cacofônico: “São Totó Más”.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — O som feio, desagradável, impróprio ou com sentido equívoco, produzido pela união dos sons de duas ou mais palavras vizinhas, deve ser tido como verdadeiro cacófaton apenas quando gera expressão obscena, ridícula ou fora de contexto, o que não é o caso.
RESPOSTA À SEGUNDA. — A partir do séc. XVIII o padrão de adaptação morfofonêmica portuguesa veio se firmando, notando-se hoje a nítida preferência pela expressão “São Tomás”.
RESPOSTA À TERCEIRA — O costume de chamar os cristãos de santos vem de longa data e é atestado por São Paulo em suas cartas. Conforme o testemunho de São Josemaria: “‘Saudai todos os santos. Todos os santos vos saúdam. A todos os santos que vivem em Éfeso. A todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos.’ — Que comovente esse apelativo — santos! — que empregavam os primeiros fiéis cristãos para se designarem entre si, não é mesmo?! — Aprende a tratar com os teus irmãos” (Caminho, nº 469).
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25 de jan. de 2012
Importância da Patrologia
Em comemoração da festa de hoje da conversão de São Paulo, tão importante para o ecumenismo, gostaria de falar sobre aqueles cristãos dos primeiros tempos, que viveram numa Igreja unida.
Além disso, por seu caráter teológicos, a Patrística e a Patrologia se distinguem da Literatura cristã antiga, disciplina não teológica e, pode-se dizer, literária, que estuda os aspectos estilísticos e filológicos dos escritores cristãos antigos (n.º 49).
Modernamente — segundo o tratado De locis theologicis, de Melchior Cano —, são considerados “Padres da Igreja” os cristãos que se distinguiram por:
a) ortodoxia doutrinal na orientação geral dos escritos;
b) santidade de vida;
c) reconhecimento ao menos indireto por parte da Igreja;
d) antiguidade: até Calcedônia (451) ou até S. Gregório Magno e S. João Damasceno.
O Bem-aventurado João Paulo II descreveu-os com precisão, apoiando-se no Commonitorium de São Vicente de Lérins (I, 3; PL 50, 641): Padres da Igreja são chamados com razão aqueles santos que, com a força da fé, a profundidade e riqueza dos seus ensinamentos, durante os primeiros séculos a geraram e formaram (Carta apostólica Patres Ecclesiæ, I).
O tema recobra grande importância com a perspectiva do próximo Ano da Fé, pois o esforço pela nova evangelização exige não só conhecer o conteúdo da Revelação bíblica, mas também saber transmiti-lo como os Padres da Igreja o fizeram
Constituindo um elo da Tradição “viva”, os Padres devem ser reconhecidos como mais próximos à pureza das origens, testemunhas iniciais, fontes tradicionais, expoentes da Tradição “constitutiva” (IEP 19).
Ademais, a pregação dos Padres evidencia a experiência que fizeram de Deus, ajudando a colocar a espiritualidade como finalidade da teologia. Tal alento determina o comportamento moral e estimula a evangelização.
Noção e conceito
Etimologicamente, Patrologia é a ciência que estuda os “Padres da Igreja”. A Instrução sobre o estudo dos Padres da Igreja na formação sacerdotal (IEP, 1989) distingue patrística (que se ocupa do pensamento teológico dos Padres) de patrologia (que tem por objeto a vida e os escritos dos mesmos).Além disso, por seu caráter teológicos, a Patrística e a Patrologia se distinguem da Literatura cristã antiga, disciplina não teológica e, pode-se dizer, literária, que estuda os aspectos estilísticos e filológicos dos escritores cristãos antigos (n.º 49).
Modernamente — segundo o tratado De locis theologicis, de Melchior Cano —, são considerados “Padres da Igreja” os cristãos que se distinguiram por:
a) ortodoxia doutrinal na orientação geral dos escritos;
b) santidade de vida;
c) reconhecimento ao menos indireto por parte da Igreja;
d) antiguidade: até Calcedônia (451) ou até S. Gregório Magno e S. João Damasceno.
O Bem-aventurado João Paulo II descreveu-os com precisão, apoiando-se no Commonitorium de São Vicente de Lérins (I, 3; PL 50, 641): Padres da Igreja são chamados com razão aqueles santos que, com a força da fé, a profundidade e riqueza dos seus ensinamentos, durante os primeiros séculos a geraram e formaram (Carta apostólica Patres Ecclesiæ, I).
Atualidade da Patrologia
A disciplina da patrologia estabeleceu-se no século XIX (Möhler, Funk, Harnack, Zahn, Bardenhewer, Duchesne, Batiffol) e teve notável renovação no século XX (Daniélou, De Lubac, Marrou, Dölger, cardeal Pellegrino, etc.), também por conta das descobertas de Qumran e Nag-Hammadi, assim como pelos estudos de filologia clássica e da Antiguidade tardia.O tema recobra grande importância com a perspectiva do próximo Ano da Fé, pois o esforço pela nova evangelização exige não só conhecer o conteúdo da Revelação bíblica, mas também saber transmiti-lo como os Padres da Igreja o fizeram
Os Padres como testemunhas da Tradição
A preeminência dos Padres voltou a ser evidenciada pelo Concílio Vaticano II, ao colocar a Tradição ao lado da Escritura (cf. Dei Verbum 9) e ao reclamar que se explique a contribuição dos Padres ao desenvolvimento de cada uma das verdades reveladas (cf. Optatam totius 16). Isso não impediu um considerável empobrecimento teológico nas correntes que prescindem da dimensão histórica dos dogmas ou se limitam a confrontar o dado bíblico com as realidades sociais.Constituindo um elo da Tradição “viva”, os Padres devem ser reconhecidos como mais próximos à pureza das origens, testemunhas iniciais, fontes tradicionais, expoentes da Tradição “constitutiva” (IEP 19).
Os Padres como modelos de inculturação
O zelo dos Padres pela revelação levou alguns deles a rechaçar em bloco as contribuições da cultura pagã; a maioria, porém, praticou a inculturação mediante o duplo processo de assimilação dos acertos e desassimilação dos erros de dita cultura. Assim, numerosos termos foram introduzidos na teologia trinitária e cristológica, servindo para plasmar algumas formulações dogmáticas e vindo a fazer parte do acervo teológico corrente.Ademais, a pregação dos Padres evidencia a experiência que fizeram de Deus, ajudando a colocar a espiritualidade como finalidade da teologia. Tal alento determina o comportamento moral e estimula a evangelização.
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21 de ago. de 2011
JMJ Rio 2013!
As Jornadas da Juventude reuniram a cada edição número recorde de participantes. Nunca houve tanta concentração de jovens de tantos países. A JMJ das Filipinas reuniu 4 milhões de jovens em 1995. Nenhum popstar conseguiu atrair tanta gente na história como os papas.
![]() |
| JMJ Madri 2011 |
| O papa no confessionário atendendo a um fiel |
Por outro lado, sejamos sinceros: as JMJs são um desafio apostólico para a Igreja. Faz falta ajudar essa juventude pós-moderna a trocar a rebelião do “paz e amor” pela rebelião da fé e da caridade. Porém Madri mostrou — com seus 200 confessionários ao ar livre — que o saldo de reconciliação mediante a Confissão foi excelente. Não há outro caminho para a maturidade senão o arrependimento das próprias culpas.
Peço perdão, pois escrevi a esmo, como num desabafo de ideias soltas.
Até 2013. O Rio receberá milhões de braços abertos.
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13 de jul. de 2011
Respostas em série para perguntas pré-fabricadas

Quæstiones disputatæ
Concluo a série de perguntas anônimas do extinto Formspring acerca da Sagrada Escritura, abordando as condições do diálogo com os anticatólicos.Vamos às perguntas
Sinto muito eventual rispidez, a intenção é diálogo cordial sobre a Bíblia, na medida de 140 caracteres p pergunta, e ilimitados p resposta.Para mim, cordialidade é mostrar a cara e não vir querer passar uma de que católico é otário.
não acho católico otário. acho, em geral, a proposta católica papista arrogante. Pe Ávila conheci pessoalmente e sua figura e legado são excelentes. Vc acha que a pressa na canonização de João Paulo II pode parecer marketing para recuperar público ?
Ótimo. Evoluí de otário para arrogante.
Ponhamos os pingos nos ii.
1) Arrogância é inventar a própria fé em vez de recebê-la com humildade.
2) Arrogância também é lançar perguntas ofensivas à fé alheia e depois dar uma de coitado.
3) “Basta ler, pinoia” é uma forma descolada de convidar meus interpeladores anônimos a lerem o texto bíblico globalmente antes de levantarem perguntas “espertinhas”.
Já disse q "sinto muito eventual rispidez", e já expus q 140 caracteres muitas vezes trunca o enunciado da pergunta, até aí foram dificuldades formais minhas, mas se vc puder especificar qual pergunta foi ofensiva me ajudaria a melhorar no diálogo.
Gosto de diálogos construtivos e perguntas que tentem descobrir pontos de contato, zonas de concordância. Isso pressupõe respeito recíproco e conhecimento mútuo, tanto do que eu penso, quanto do que você pensa. Nesse sentido, não me parecem justas perguntas anônimas “pré-fabricadas”, inspiradas em preconceitos e clichês anticatólicos, que pretendem descobrir equívocos onde não existem. Isso seria um diálogo corrosivo. Respostas a esse tipo de indagação são facilmente encontradas em manuais de apologética elementar.
Perguntas de "espertinho": Se Deus pode tudo, pode mentir? Se Deus pode tudo, pode multiplicar-se, ou seja, criar vários outros seres que sejam Deus? Deus criou o Diabo pra passarem a eternidade usando a Humanidade como objeto de disputa e/ou distração?
Se pudesse mentir, seria uma radicalização de Alá. Se pudesse multiplicar-se, seria semelhante ao mulherengo Zeus. Se caiu no dualismo, seria como Ahura Mazda do zoroastrismo. Nada disso é o Deus cristão, que é Logos e é Amor. Não confunda onipotência com onivolência.
a sua frase, sobre Deus, "Se pudesse mentir, seria uma radicalização de Alá" é bastante ofensiva a religião de terceiros, rapaz. Não daria pra vc voltar à sua proposta de "respeito recíproco"?
Absolutamente não.
Segundo أبو محمد علي بن احمد بن سعيد بن حزم (Abū Muḥammad ʿAlī ibn Aḥmad ibn Saʿīd ibn Ḥazm), Alá não estaria vinculado à sua própria palavra e nada o obrigaria a revelar-nos a verdade. Se fosse a sua vontade, o homem deveria inclusive praticar a idolatria.
Embora pudéssemos fazer uma interpretação benéfica do Corão, de fato várias de suas passagens propiciam esse tipo de pensamento:
— “Alá vos julgará. Ele perdoará a quem desejar e castigará a quem lhe aprouver, porque é Onipotente” (Sura 2:284).
— “Alá também conspirou, porque é o melhor dos conspiradores” (Sura 3:54).
— “Alá desvia quem quer, e encaminha pela senda reta quem lhe apraz” (Sura 6:39).
De qualquer modo, há uma boa intenção em exaltar exageradamente a transcendência de Deus; o erro consiste em negar a “linguagem da analogia”, pela qual podemos falar de Deus, ainda que suas diferenças sejam infinitamente maiores que as nossas semelhanças.
Eis mais uma consequência nefasta da ausência de um magistério, cujo vácuo leva qualquer um a chegar a qualquer absurda conclusão, mesmo que bem intencionada.
Tal radicalismo surgiu mesmo entre os cristãos: apesar de a Igreja afirmar uma verdadeira analogia entre a razão criada e o Λόγος divino, houve na Baixa Idade Média quem seguisse o voluntarismo, afirmando que só conhecemos a liberdade arbitrária de Deus. Justamente aqui o protestantismo veio beber os fundamentos da sua “fé fiducial”, que põe entre parênteses os conteúdos.
"perguntas 'pré-fabricadas', inspiradas em preconceitos e clichês anticatólicos, que pretendem descobrir equívocos onde não existem" foi tergiversação sua, como outras. Vc toma por pessoal questionamentos à religião q vc postula "aceitar humildemente".
Ora, “tergiversar” não é meu direito? Este Formspring é meu, e o anônimo aqui é você. Penso que não tenho feito rodeios, porém. Pode ser que eu tenha sido sucinto até agora: explico-me mais pormenorizadamente então.
1) É óbvio que temos pontos de vista irredutíveis. Portanto, se quiser me perguntar algo de modo razoável, conviria dar por supostos alguns princípios. Não ficarei reinventando a roda indefinidamente. Da Torre de Babel à Besta do Apocalipse já há muita coisa escrita por aí.
2) Criar uma dicotomia entre crença e religião é um direito seu, mas degenera em esquizofrenia. Sugiro ler essa postagem. Parece-me estranho e arriscado fabricar o próprio credo a despeito da fé recebida pela tradição autorizada. Nesse sentido é que eu falava da necessidade de “humildade”. Por trás do rechaço da Tradição não está o convencimento intelectual, mas uma atitude apriorística que inviabiliza o diálogo.
3) Grande parte das perguntas que me foram feitas centra-se numa análise externa do texto bíblico, patinando em passagens que sempre serão contraditórias sem o suporte da Tradição. Com efeito, a solução literalista — salva-vidas desesperado do Sola Scriptura, inventado pelos fundamentalistas protestantes do século XIX — é das piores, pois não respeita o próprio texto, coisa que você mesmo percebeu. Logo, concordamos neste ponto!
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15 de jan. de 2011
Sansão dos tempos modernos

Fiquei muito feliz com a notícia de que João Paulo II, o Grande, será beatificado no próximo Domingo da Misericórdia (1º de maio).
Não tenho nada a comentar. Apenas deixo aqui algumas frases, fotos, vídeos e ideias soltas!
*****
A interpretação da Sagrada Escritura ficaria incompleta se não se ouvisse também quem viveu verdadeiramente a Palavra de Deus, ou seja, os Santos.
De fato, «viva lectio est vita bonorum» (São Gregório Magno, Moralia in Job 24, 8, 16: PL 76, 295).
Realmente a interpretação mais profunda da Escritura provém precisamente daqueles
que se deixaram plasmar pela Palavra de Deus,
através da sua escuta, leitura e meditação assídua.
De fato, «viva lectio est vita bonorum» (São Gregório Magno, Moralia in Job 24, 8, 16: PL 76, 295).
Realmente a interpretação mais profunda da Escritura provém precisamente daqueles
que se deixaram plasmar pela Palavra de Deus,
através da sua escuta, leitura e meditação assídua.
(Bento XVI, Verbum Domini, n.º 48)
O maior funeral da história
E foram muito mais numerosos
os que Sansão matou ao morrer,
do que os que matara quando vivo.
(Jz 16,30c)
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26 de mar. de 2010
Evento, tradição, cultura, vivência
Espaço e tempo
Segundo Gabriel Marcel, o espaço e o tempo são as coordenadas vitais do homem. O tempo passa de modos diversos conforme cada psicologia o sabe captar, não se podendo afrontá‑lo como mera sucessão de instantes, mecanicamente. A vivência do tempo marca a experiência da temporalidade: se as diversas pessoas têm, inclusive em momentos variados, distintas experiências do tempo, tal sucede também nas diferentes culturas.Pode‑se falar de uma “estrutura hilemórfica” da história, pela analogia entre evento-tradição e matéria-forma. Dependendo da aplicação desta analogia, adotam‑se as mais variadas posturas filosóficas.
Concepção circular fatalista do tempo versus concepção cristã
A tese grega dos ciclos cósmicos, elaborada a partir do espaço e dos ritmos da vegetação — topicamente afirmada desde Nietzsche — é, porém, uma tênue percepção do único ciclo (cf. Hb 4,29) a que o homem é chamado a dar cumprimento sobre a terra: o qual, segundo a verdade revelada por Cristo, “cumpre‑se a si mesmo em Deus, que veio ao seu encontro mediante o eterno Filho”. “O tempo cumpriu‑se pelo próprio fato de Deus se ter entranhado na história do homem, com a Encarnação. A eternidade entrou no tempo: poderia haver ‘cumprimento’ maior que este? Que outro cumprimento seria possível?” (João Paulo II, Carta Ap. Tertio Millennio Adveniente, n.º 9, 1994)Concepção negativa e mecânica do tempo
Platão manterá uma visão negativa do tempo — degradação da eternidade hiperurânia —, do qual se deveria fugir pela morte, pois só pela libertação do cárcere corporal a alma seria livre do infortúnio do mundo da materia, fabricação do demiúrgo.Aristóteles, evitando a circularidade do tempo — definido por ele como “número e medida do movimento segundo o antes e o depois” —, explicará o movimento contínuo mediante um primeiro motor imóvel, Deus. A tese foi participada por Descartes, que deixou a herança filosófica do tempo como sucessão de instantes discontínuos, reduzindo a criação a uma “fabricação inicial”, origem das afirmações deístas acerca de Deus como “Arquiteto do Universo” e da imagem, largamente utilizada na catequese infantil, de Deus como um relojoeiro.
Historicismo e ucronia
No século XIX, por influência do romantismo, tradicionalista e cultor da consciência coletiva dos povos, desenvolveu‑se muito a linguística histórica, a história da política, da economia, da religião e da arte, da filosofia e da filologia.O historicismo, ao aprofundar na pesquisa das relações humanas condicionadas pelo processo temporal, negou a transcendência do homem à própria história, reduzida à sucessão de pathos, isto é, das estruturas psíquicas coletivas. A vivência histórica só poderia captar como os homens experimentaram interiormente os conceitos, não a verdade ou a falsidade dos seus conteúdos.
A presença do passado no presente é em forma de possibilitação. No presente histórico há algo mais que as determinações produzidas por um exercício de faculdades e algo menos que uma efetiva presença real do que já passou. Esse mais e esse menos é o âmbito das possibilidades. O passado não se perde, pois é realidade subjacente, antes se conserva, como possibilidade real, não como puntiforme atualidade real: torna‑se hábito ao passar.
A ucronia é justamente a negação dessa herança, o desprezo das possibilidades que tornam histórico o temporal, a antitude anti‑histórica com o passado. Renouvier (Ucronia: a utopia na história, 1944) tentou considerar o que poderia ocorrer se tivessem havido outras circunstâncias e possibilidades na história ocidental, mas omitiu muitas das condições que se deram efetivamente, inclusive excluindo o cristianismo. Toda a literatura política ativa está cega com propostas ucrônicas.
Visão realista
Teilhard de Chardin, ao falar de cosmogênese, defendeu a ideia de que a criação continua se realizando: não haveria solução de continuidade no sentido do cosmos, que apontaria para o “Cristo Universal”.Bergson, pretendendo ater‑se à realidade e salvaguardar a consciência e a sua irredutibilidade à matéria, introduziu a distinção de tempo espacializado ou mecânico e duração. Aquele seria reversível, externo, quantificável, passível de simultaneidade; o tempo como duração é o tempo da consciência, capaz de unir ao presente a memória do passado e a antecipação do futuro.
Essas tentativas manifestam a busca de uma visão realista do tempo, que encare o passado como condicionante — mas não determinante — do futuro, ao deixar de herança para o presente uma série de possibilidades reais.
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4 de fev. de 2010
Centos de livros para ler
Após tantas postagens sobre leitura, deixo aqui uma lista dos “obrigatórios” em minha modesta opinião.
Repare que tento fazer um apanhado geral, com base em gêneros, assuntos e culturas. Portanto, as obras seriam substituíveis por outras similares, conforme o gosto do freguês.
Como somos lusoparlantes, penso que livros de nossa lavra são também essenciais.
Bon appétit!
TEATRO
- Ésquilo, Oresteia
- Sófocles, Trilogia Tebana
- William Shakespeare: Hamlet, Macbeth
POESIA
- Dante Alighieri, Vita nuova
- T. S. Eliot
- Carlos Drummond de Andrade
- Manuel Bandeira
- Fernando Pessoa
- Bocage
EPOPEIA
- Homero, Odisseia
- Virgílio, Eneida
- Anônimo, Beowulf
- Anônimo, A Canção dos Nibelungos
- Dante Alighieri, Divina Comédia
- Camões, Os Lusíadas
- John Milton, Paraíso Perdido
ÉPICO
- Dom Quixote
- Anônimo, Lazarillo de Tormes
LITERATURA EM GERAL
- Machado de Assis: os livros da segunda fase (a partir de 1881)
- Raimundo Lúlio, O livro das bestas
- Jonathan Swift, Viagens de Gulliver
- Jane Austen, Orgulho e preconceito
- Lewis Carroll: Alice no País das Maravilhas, Através do espelho
- Leon Tolstoi, Ana Karenina
- Fiodor Dostoievsky: Crime e castigo, Os irmãos Karamazov
- Joseph Conrad, O coração das trevas
- Eugene Ionesco, O rinoceronte
- Thomas Mann, Doktor Faustus
- Constantin Virgil Gheorghiu, A vigésima-quinta hora
- Michael Ende, A história sem fim
- João Guimarães Rosa: Sagarana, Grande sertão: veredas
- Antoine de Saint-Éxupéry: O pequeno príncipe, Cidadela
- J.R.R.Tolkien: Silmarillion, O senhor dos anéis
ENSAIOS
- T. S. Eliot, Ensaios
- G.K.Chesterton, Ortodoxia
BIOGRAFIAS
- Agostinho de Hipona, As confissões
- John Henry Newman, Apologia pro vita sua
- Salvador de Madariaga, Hernán Cortés
- Marcelle Auclair, Santa Teresa de Ávila
- Stephan Zweig: Magalhães, Maria Stuart, Fouché, Maria Antonieta
- Emil Ludwig, Napoleão
- David Downing, C. S. Lewis, o mais relutante dos convertidos
FILOSOFIA
- Aristóteles: Metafísica, Ética a Nicômaco
- Platão: Fédon, Banquete
- São Tomás de Aquino: Suma contra os gentios, Suma Teológica
- Edith Stein: Ser finito e ser eterno, A mulher
- Miriam Joseph, O Trivium: As Artes Liberais da Lógica, Gramática e Retórica
ANTROPOLOGIA
- C.S.Lewis: Os quatro amores, Dor
- Viktor E. Frankl, Psicoterapia e sentido da vida
TEOLOGIA
- Bíblia (especialmente Gn 1–Ex 20; Livros Sapienciais, especialmente Jó, Sb e Eclo; Novo Testamento)
- Confúcio, Analectos
- Catecismo da Igreja Católica (especialmente a parte IV)
- Concílio Vaticano II, Gaudium et spes
- João Paulo II: Fides et ratio, Veritatis splendor, Centesimus annus; Cruzando o limiar da esperança, Memória e Identidade
- Bento XVI: Deus charitas est, Spe salvi, Charitas in veritate; Jesus de Nazaré (2 vol.); Fé, verdade e tolerância
HISTÓRIA E SOCIOLOGIA
- Régine Pernoud, Idade Média, o que não nos ensinaram
- Johann Huizinga, O declínio da Idade Média
- Christopher Dawson, A formação da Europa
- Jakob Burckhardt, A cultura do Renascimento na Itália
- Thomas More, Utopia
- A. Moorehead, A revolução russa
- Gilberto Freire, Casa grande e senzala
- Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil
Conto com sua ajuda para aprimorar esta lista!
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21 de jan. de 2010
Cinco motivos para ler mais
Já tinha feito anteriormente algumas considerações sobre as leituras. Nos próximos dias, que tal explorarmos outras de suas dimensões e vantagens?
1. Para ter fecundidade intelectual.
São Paulo, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino são bons exemplos. Sem muito estudo e leitura, não seria possível a veemência de seus escritos, a força de suas palavras, a penetração de seu pensamento.
2. Os homens se pescam pela cabeça.
3. Responde às necessidades do nosso tempo.
Antigamente, havia universalistas, como Poincaré.
Hoje, com a extensão e a intensidade da ciência moderna, é mais comum dividir o trabalho intelectual.
Contudo, diante das crises mundiais, da resposta insuficiente das ciências e do reducionismo intelectual de tantos e tantas, surge uma nova exigência de extensão e profundidade.
É premente aproveitar melhor os tempos livres para prestar um melhor serviço intelectual.
4. É uma proposta perene para velhos problemas.
A recuperação dos estudos humanísticos é uma afirmação da primazia do espírito sobre a matéria.
As propostas materialistas e utilitárias reduzem o alcance da vida intelectual e espiritual.
5. Resgata bons hábitos.
“O nosso tempo é vivido em contínuo movimento que muitas vezes chega à agitação, caindo-se facilmente no risco de ‘fazer por fazer’. É preciso resistir a esta tentação, procurando o ‘ser’ acima do ‘fazer’” (João Paulo II, Novo Millennio Ineunte, 15).
Além de fazer, também vale a pena contemplar e meditar: adquirir hábitos de contemplação estética e intelectual.
1. Para ter fecundidade intelectual.
São Paulo, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino são bons exemplos. Sem muito estudo e leitura, não seria possível a veemência de seus escritos, a força de suas palavras, a penetração de seu pensamento.
2. Os homens se pescam pela cabeça.
Ninguém persevera em algo sem reflexão; do contrário, não vislumbrando seu sentido, logo o abandona.
Uma nota característica de uma pessoa não massificada é o cultivo da inteligência e a preparação cultural.3. Responde às necessidades do nosso tempo.
Antigamente, havia universalistas, como Poincaré.
Hoje, com a extensão e a intensidade da ciência moderna, é mais comum dividir o trabalho intelectual.
Contudo, diante das crises mundiais, da resposta insuficiente das ciências e do reducionismo intelectual de tantos e tantas, surge uma nova exigência de extensão e profundidade.
É premente aproveitar melhor os tempos livres para prestar um melhor serviço intelectual.
4. É uma proposta perene para velhos problemas.
A recuperação dos estudos humanísticos é uma afirmação da primazia do espírito sobre a matéria.
As propostas materialistas e utilitárias reduzem o alcance da vida intelectual e espiritual.
5. Resgata bons hábitos.
“O nosso tempo é vivido em contínuo movimento que muitas vezes chega à agitação, caindo-se facilmente no risco de ‘fazer por fazer’. É preciso resistir a esta tentação, procurando o ‘ser’ acima do ‘fazer’” (João Paulo II, Novo Millennio Ineunte, 15).
Além de fazer, também vale a pena contemplar e meditar: adquirir hábitos de contemplação estética e intelectual.
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19 de jan. de 2010
New Age ou Next Age?
A New Age não é um movimento no sentido em que normalmente se emprega o termo, nem culto ou seita. Não é um movimento individual uniforme, antes um entramado amplo de seguidores cuja característica consiste em pensar globalmente e atuar localmente. Os que fazem parte não se conhecem necessariamente uns aos outros e raramente se reúnem, se é que chegam a fazê-lo. Seria um «ambiente» (milieu) ou um «culto de audiência» (audience cult).
É meramente um modo novo de praticar a gnose, isto é, a “postura do espírito que, em nome de um profundo conhecimento de Deus, acaba por tergiversar sua Palavra substituindo-a por palavras que são apenas humanas” (João Paulo II, Cruzando o limiar da esperança).
Nos começos dos anos 90, nos EUA, começou a crise da New Age, donde se quis falar de uma «próxima» era. Contudo, a vitalidade das suas manifestações parece desmentir tal crise. O idealismo dos anos 60 e 70 ainda sobrevive em alguns setores. Mas agora já não são os a adolescentes que estão implicados principalmente. Os vínculos com a ideologia política de esquerda se desvaneceram e as drogas psicodélicas não têm já a importância de então. Ocorreu tanta coisa que nada mais é revolucionário. As tendências “espirituais” e “místicas”, que antes se limitavam à contracultura, hoje formam parte da cultura dominante. A cultura ocidental está imbuída de uma consciência política e ecológica generalizada e essas mudanças exerceram enorme impacto no estilo de vida das pessoas.
O que a New Age apresenta de novo é a crença no progresso inevitável dos ciclos naturais e o sincretismo de elementos esotéricos e seculares. Isso gera a expectativa de uma mudança de paradigma (paradigm shift), pois o tempo estaria maduro para uma mudança fundamental dos indivíduos, da sociedade e do mundo: da física newtoniana à quântica, do racionalismo ao “emocionalismo”, do patriarcalismo à celebração da feminilidade.
Thomas Kuhn, historiador americano da ciência, popularizou o paradigm shift. Paradigma seria «a constelação inteira de crenças, valores, técnicas, etc., compartilhados pelos membros de uma comunidade». Quando se produz a substituição de um paradigma por outro, se trata de uma transformação em bloco da perspectiva mais que de um desenvolvimento gradual: uma revolução.
Kuhn pôs de relevo que os paradigmas rivais são incomensuráveis e não podem coexistir. Por isso, o paradigm shift no âmbito da religião e da espiritualidade não é uma simples maneira nova de formular as crenças tradicionais; é uma mudança radical de cosmovisão, que contesta não só o conteúdo, mas também a interpretação fundamental da visão anterior.
Talvez o exemplo mais claro disto seja a reelaboração da vida e o significado de Jesus Cristo.
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24 de out. de 2009
Livros bons versus livros inúteis
Bacon dizia que a leitura torna o homem completo, a conversação o torna ágil, o escrever o torna preciso. Quem não se cultiva um pouco, parece que não sabe desfrutar das satisfações inerentes à nossa condição de seres inteligentes. É lastimoso conhecer gente incapaz de sustentar sequer por uns minutos uma conversa sobre algo alheio à sua especialidade, porque nunca leu nada com um pouco mais de conteúdo.
Ao mesmo tempo que fomentamos a aquisição de uma cultura ampla e profunda, mediante o aproveitamento dos tempos dedicados ao espargimento e ao oportuno descanso, precisamos nos resguardar com prudência de tudo aquilo que ataque nossa fé ou seja moralmente perigoso.
Diante do perigo do excesso, da absorção contínua e indiscriminada de informação, deve‑se reconhecer que nem toda publicação, filme ou programa colabora na formação cultural. Faz falta ler mais e ler melhor. Sêneca dizia que não é preciso ter muitos livros, mas que sejam bons. Além da capacidade de leitura é necessário desenvolver a capacidade de discernimento, porque as propagandas publicitárias das editoras e o atrativo das encadernações não são garantia de qualidade.
Nesse sentido, vale a pena lembrar as seguintes palavras de João Paulo II, do seu livro “Levantai-vos, vamos!” (na altura da página 100):
Sempre tive este dilema: o que devo ler? Buscava escolher aquilo que fosse mais essencial. A produção editorial é tão vasta! Nem todos oslivros têm o mesmo valor e utilidade. É preciso saber escolher e pedir conselho a respeito do que merece ser lido. (...) Na leitura e no estudo, tentei unir sempre de maneira harmônica as questões de fé, de pensamento e de coração. Não são campos separados. Cada um deles se adentra e anima os outros.
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