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1 de mar. de 2014

Quão longe é tão longe?


Sexo não é rito de passagem, nem uma experiência que transforme um moleque num homem.

Por outro lado, a avalanche pornográfica e o incentivo à promiscuidade tornaram toda uma geração imatura e amolecida.

Bom é que nem todo mundo é obcecado por sexo casual, embora o Doutor Correto e a Dona Direita não sejam fáceis de encontrar em cada esquina.

Estes são mitos comuns, que enganam muitas mulheres: “Ele nunca vai me querer se eu não fizer sexo com ele. Todo homem precisa de sexo para dar amor. Não encontrarei amor se não semear sexo. O sexo de hoje à noite é o relacionamento de amanhã de manhã”. Por isso, tantas pessoas guardam dores emocionais relativas ao lado físico das relações.

Para conhecer as intenções de alguém, é preciso — respire fundo — tirar o sexo de cima da mesa. Sexo não é ignição nem combustível do namoro: apenas embaralha as intenções. Para saber se alguém quer conhecer você, não será o melhor caminho oferecer-lhe benefícios físicos.

Nós homens sempre trabalhamos pelo que queremos. Presa fácil é presa descartável.

Nossas mentiras

“Se você me amasse, você dormiria comigo”. Significa o contrário de “se eu a amasse, respeitaria suas barreiras.”

“Tenho necessidades, e o sexo é uma delas”. Você conhece alguém que tenha morrido de continência?

“Eu amo você”. Às vezes isso é mentira, pois os homens gostam de dizer o que as mulheres querem ouvir.

“Não vamos saber se somos compatíveis se não fizermos sexo”. Esse papo de compatibilidade baseia-se em desejos e comparações. Ora bolas, estamos falando de amor ou de mercadorias?… Na verdade, somos sexualmente compatíveis com quem amamos de verdade, pois esse é nosso jeito de funcionar!

“Você vai acabar sozinha se não fizer concessões”. Simplesmente, você está procurando jeca, buscando amor no lugar errado.

“Qualquer coisa que você faça na viagem, na faculdade, etc., não importa, será uma única noite”. Somos a nossa memória. Qualquer decisão sexual permanece e aflora nos momentos mais inconvenientes.

“Quanto mais fisicamente unidos, mais gostarei de você”. Não necessariamente. Homem gosta de desafio; portanto, não ceda que ele gostará ainda mais!

“Nós nos amamos de verdade. É como se já estivéssemos casados”. Morar junto não é casar. Dividir quarto e dinheiro é coisa de república estudantil. E não era essa a história de amor com que você sonhava.

Algumas verdades

Para as mulheres: Seja elegante sempre. Nunca seja vulgar. Troque o sexo de fim de semana pelo sexo de uma vida inteira.

Para os homens: Todo jovem que toca a campainha de um bordel está inconscientemente à procura de Deus, já dizia Bruce Marshall. Quem deseja luxúria constata que seu coração está vazio, e que lhe faltam muitas virtudes, especialmente a da religião.

Para ambos: Casamento é contexto. Amor é projeto. Família é laço. Sem isso, o sexo é peça sem palco, história sem roteiro, diálogo sem ator.

Lembre-se: uma nota de 100 reais é sempre uma nota de 100 reais. A gente pode amassar, molhar, sujar, etc. Continua sendo uma nota de 100 reais. Ou seja: não importa o que tenhamos feito no passado. Importa o que fazemos hoje e agora. E importa muito mais quem somos. E somos muito mais que 100 reais!

2 de set. de 2013

O poliamor é a bola da vez?

Quando se amputa à realidade seu fundamento, qualquer invenção torna-se válida.

Depois de se legalizar por ativa (nas leis e julgamentos) e por passiva (na opinião pública) aberrações como o aborto, a pederastia, etc., provavelmente o próximo passo será a consagração do poliamor.

Quatro indícios:

Aceitação positiva na mídia

A cobertura jornalística sobre casas de swing e coisas afins é provocativa, mas positiva. Também há reality shows que trabalham sobre o tema da infidelidade.

Eu nasci assim…

Tem se costumado explicar o comportamento sexual humano com base no paradigma dos outros animais, diluindo os aspectos relacionados à liberdade, às virtudes, à comunhão dos espíritos, à comunicação, à relação interpessoal. Sabe-se muito de “técnica” sexual e pouco de amor.

A sexualidade é reduzida ao sexo, e o sexo é reduzido à pulsão, de origem genética, e destituído de sua dimensão pessoal. O homem agora é Homo sapiens polyamorensis, mera expressão de impulsos.

“O que importa é o amor”

União monogâmica e indissolúvel deixou de ser sinônimo de amor para muita gente. Isso lhes soa a restrição, manutenção, falta de criatividade. Muito mais “ético” seria a capacidade de amar sem fronteiras, a abertura de coração, a libertação das amarras dos ciúmes. Ou seja, o que antes se chamava promiscuidade, hoje deveria se chamar honestidade radical.

Em busca de reconhecimento

Como toda minoria reivindica seu direito a não ser discriminada, os poliamoristas estão trabalhando para que a sua opção seja reconhecida. Nesse sentido, já existem trabalhos acadêmicos a respeito.

***

É evidente que a redução do casamento à mera satisfação sexual adulta implica numa sociedade alheia às crianças. Como mais um objeto de satisfação, os filhos ficarão à mercê do estilo de vida de quem as adotarem ou gerarem.

Apesar desse panorama sombrio, há muitas coisas boas que se pode fazer para defender os valores familiares. Por exemplo, 2014 será um ano dedicado pela ONU à comemoração dos 20 anos do Ano Internacional da Família.

A maioria esmagadora das pessoas sonha com um amor limpo, com a castidade, com a família, com os filhos. O que temos feito para valorizar e fomentar em nosso ambiente a capacidade de comunicação, a honestidade, a confiança, a fidelidade, o respeito?

Se assim o fizermos, a família sim é que será a bola de vez!

30 de jan. de 2013

Em defesa dos tabus marginalizados


Tabus

Gosto dos tabus. Eles podem ser barreiras de proteção da vida. É claro que podem existir tabus estúpidos, mas os melhores tabus são esses que protegem a vida. Tabu é um termo polinésio que se refere justamente a coisas sagradas que devem ser protegidas.

A vida é o que temos de mais sagrado. E a vida se manifesta de forma veemente na gravidez, no nascimento dos filhos, na passagem para a idade adulta, na relação sexual, nos banquetes, na doença e na morte. Assim, os tabus protegem esses momentos e os revestem de significado: passar sal no recém-nascido, purificar a mulher que deu à luz, dar festa de despedida de solteiro, organizar chá-de-panela, fazer formatura da faculdade, rezar pelos doentes, fazer luto pelos mortos, etc.

Pelo contrário, quando a sociedade despreza o sagrado, quebra todos os tabus: aborto dos nascituros, pedofilia, sexo extramatrimonial e antinatural, eutanásia, etc.

Tabu sexual

Talvez isso ajude a entender melhor o tema da sexualidade. Os cuidados que existem, os tabus, não são arbitrários, mas discricionários. Fazem sentido, justamente porque servem para proteger algo muito importante.

Contudo, nesse tema há algo mais. Reduzir as questões sexuais a mero tabu seria um grande reducionismo.

Virtude

Existe uma diferença entre fazer e agir: o agir implica um necessário uso da racionalidade, mas o fazer não. Por exemplo, um macaco pode fazer muitas coisas, mas um macaco propriamente não age. Ora, o que permite racionalizar a ação é a virtude.

E assim, em todos os âmbitos da vida precisamos viver alguma virtude: no trabalho vivemos a laboriosidade; na escola, a estudiosidade; na comida, a temperança; nos relacionamentos, a cordialidade; etc. O sexo não foge à regra, e para a boa vivência do amor, deve-se viver a virtude da castidade.

Virtude da castidade

O problema é que a revolução sexual dos anos 60 simplesmente aboliu a castidade. Isso não foi uma evolução, foi uma animalização. Pois bem: se antes se vivia a castidade por conveniência (pegava mal ser mãe solteira, ou pegar todas), hoje só se vive a castidade por virtude mesmo. E como qualquer virtude, a castidade se aprende a viver.

Portanto, é preciso entender o que é o sexo, o que é a solidão, o que é o casamento, quais são as manifestações de afeto proporcionais os graus de intimidade assumidos, como reagimos aos estímulos, etc. O normal era aprender isso dos pais e obter ajuda da escola, da Igreja e das leis civis. Hoje, contudo, muita gente está simplesmente à deriva, arrebentando a vida com experiências sexuais carentes de autêntico significado, e poucos alertam para isso.

Mas esses poucos é que farão a diferença. Você é desses poucos?

16 de out. de 2012

Ração diária de pornografia

O coração da mulher encerra desejos de amor, de carinho, cuidado, beleza, entrega, confiança. A pornografia, por sua vez, é uma grande rival do sonho e da esperança de amor, pois os transforma em pura fantasia. E, como em todo carnaval, quando caem as máscaras, sobram apenas cinzas.

A pornografia pode ser experimentada de diversas formas, mas não importa como, sempre assusta e machuca.

Sinto-me empurrado a escrever isso por causa duas tristes coincidências: a frequência com que me deparei, recentemente, com mulheres adictas à pornografia, da qual sorvem tragos diários; e a difusão de formas sofisticadas de erotismo, como, por exemplo, a altporn (“baixaria alternativa” que inclui tatuagens, piercings, etc.).

É evidente que isso decorre da cultura permissiva, do feminismo mal entendido, das mentiras propaladas sobre a sexualidade, das facilidades da Internet, etc. Não cabe fazer aqui uma pesquisa de conjuntura ou averiguar o alastramento do problema. Gostaria apenas de traçar quatro linhas para análise.

I

Em primeiro lugar, estão livros como Comer, rezar, amar. Esse tipo de literatura vazia escorrega facilmente para coisas ainda mais deletérias, como a trilogia dos Tons de cinza. Para quem não sabe, é um romance sobre sadomasoquismo e bondage (tem gente que é amarrada em “amarração”, no sentido literal).

O último grito foi a recém-lançada obra de Regina Navarro Lins sobre o amor, em dois volumes, que é um muito mal intencionado monumento à ignorância. Em minha opinião, aqui se cumpre à letra a definição de Thomas Kuhn para mudança de paradigma, segundo a qual, quando se muda a mentalidade, incapacita-se para a compreensão da mentalidade anterior. Com efeito, a sexóloga reinterpreta toda a história da humanidade com a lente distorcida da libertinagem.

Com base na artificial distinção filosófica entre amor e sexo, a autora projeta essa altercação ao longo do tempo como um embate entre força ou fraqueza, virtude ou pecado, glória ou perdição, domínio ou liberdade, etc. Como não podia faltar, a Igreja sai chamuscada na fogueira inquisitorial da autora, que lhe atribui um pretenso rechaço da sexualidade.

II

O segundo volume do livro alcança o século XXI, ao abordar o sexo virtual ensejado pela revolução tecnológica.

Aqui nos deparamos com outra linha do problema. A camuflagem virtual pode levar a dedicar muito tempo a estranhos. Lindos avatares escondem carência de virtudes; e singelas trocas de mensagens podem se tornar intermináveis discussões inúteis e possessivas. A webcam tornou-se para muitos uma “webcama”. Desnecessário descer a detalhes a respeito.

III

Quanto ao consumo feminino de pornografia, é preciso apontar algumas especificidades bastante perversas.

A exploração do corpo (somatolatria) é algo que abala especialmente a mulher, pois lhe é inerente a preocupação pela aparência.

A ausência de contexto das cenas eróticas também lhe ferem mais a sensibilidade, que tenderia naturalmente à percepção das referências que dão suporte à relação amorosa.

E a imoralidade desse consumo amplia a vulnerabilidade da mulher, conduzindo-a a uma necessidade doentia de aprovação masculina.

IV

Por fim, é forçoso afirmar que sexo não é arte. Com a desculpa da estética, dos sentimentos, da contracultura, dos diabos, gente que se diz inteligente teima em apresentar a falta de pudor como algo natural.

Sexo não é arte porque o amor não é arte. Na verdade, esse tipo de comportamento irresponsável acaba encarando a maternidade e a família como arte mesmo, como peças de museu.

***

Para terminar de forma positiva, convém deixar aqui uma luz sobre os caminhos para a recuperação. A castidade é uma virtude belíssima, que enche de alegria o coração e purifica o olhar.

Um dos seus mais saborosos frutos é a amizade. Por isso, o altruísmo, a generosidade, o serviço, a criatividade operosa, etc., tudo isso pode ter caráter terapêutico na jornada rumo à harmonização do corpo, da mente e do espírito.

20 de ago. de 2012

Livros destrutivos

Engordar, idolatrar, fornicar
A gula, a ignorância religiosa e os desejos mais primitivos.
A bizarra aventura de uma mulher recalcada que, apesar de bem-sucedida e realizada, resolveu largar tudo e viajar para o fim do mundo, só para encontrar o que poderia conseguir na esquina: gastronomia, gurus e sexo.
Escrito com ironia, humor e esperteza, o best seller é um relato sobre a importância de colocar o próprio contentamento acima das responsabilidades familiares e profissionais e ao mesmo tempo declarar-se vítima da sociedade. É um livro para qualquer pessoa sem referências, ou que pensa que qualquer merda que fizer sempre será o caminho melhor, só por ser diferente.
Aclamado pelo The New York Times como um dos 100 livros mais rentáveis de 2006 e apontado pela Entertainment Weekly uma das mais lidas obras de não-ficção do ano, Engordar, idolatrar, fornicar originou o roteiro do filme homônimo.

Na margem do rio Piedra eu sentei e…
Quem se deixa levar pela paixão é vitorioso, mesmo que traia a Deus e o mundo. A verdadeira paixão leva ao suicídio moral. Este livro trata da importância desse suicídio. Os personagens fictícios simbolizam os muitos conflitos que nos acompanham na busca da Outra Parte (não me pergunte Parte do quê). Cedo ou tarde, temos de vencer nossos medos, já que o caminho espiritual se faz através da experiência diária da luxúria. — o Autor
A obra segue a linha esotérica cuja relação com o Caminho de Santiago de Compostela ainda não foi esclarecida. É um belo panfleto panteísta e feminista, no qual o protagonista masculino é tão mal descrito que se lhe atribuem três profissões diferentes ao longo da narrativa.
O relato flui como um rio de simplicidade: certo sujeito bem intencionado, que por acaso tem o dom de curas, resolve pedir à Virgem Maria que lhe retire o dom. Seu objetivo é ficar com a garota com quem ele dormiu, embora não se saiba o que tem a ver a cama com o dom medicinal. Letras grandes, gravuras sugestivas, transa bem contada. Digna obra de um Imortal da Academia!

28 de ago. de 2011

Pornochanchada intelectual

Embora frequentemente se afirme que existe uma distinção entre erotismo artístico e pornografia descarada, penso que a seguinte consideração é um bom contra-argumento: pornografia é a publicação (grafia) de qualquer conteúdo erótico, fora do seu contexto normal (porneia).

Perdoem-me uma digressão: não estou me referindo à sensualidade. Isso me parece tão banal quanto um musse de chocolate ser gostoso. Só faço este aparte para não confundir a discussão; afinal, a capacidade de atração feminina tornou-se uma “virtude” na boca de alguns pedreiros. Mas se virtude é algo perene e raras são as idosas que conservam tal prerrogativa, convenhamos que a sensualidade não deva ser virtude…

Em geral, a defesa dos pornógrafos é: “não somos puritanos”. Puritanismo é palavra mágica. Na verdade, é uma minissaia que mostra mais do que esconde acerca da inteligência e das convicções morais do interessado.

Talvez a linha de argumentação mais comum seja a seguinte: erotismo é revelar, pornografia é exibir. Mas será que há tanta diferença? O que fazemos é erotismo e o que os outros fazem é pornografia? Um é chuchu e o outro é pimenta? Ou ao contrário?

Como estamos em tempo de vale-tudo, parece que a única intenção inaceitável para certa opinião pública seria o erotismo gratuito para atrair audiência, o conteúdo vazio embalado a seio farto.

Ressalvando as mudanças históricas quanto ao pudor e as circunstâncias culturais e geográficas que influenciam a moda, dou minha opinião. O bem é condição metafísica da beleza: não vejo arte onde a técnica apurada seja serva de outras intenções. E como não é bom olhar para o que não é lícito desejar, tire o resto da conclusão.

Nada a ver, mas achei graça da definição do Houaiss para pornochanchada: subgênero de filmes popularescos de baixíssima ou péssima qualidade conceptual, formal e cultural, caracterizados por cenas de nudez, de sexo explícito e diálogos que mesclam pornofonia e humor frequentemente escatológico.

E para você, qual é a diferença entre pornografia e erotismo?

14 de jun. de 2011

Guru libertino

Entra o guru cinquentão em seu escritório sofisticado. Senta-se diante do notebook e começa a cuspir o que ele — insisto, cinquentão — pensa ser o pensamento teen. Ainda tem a pachorra de acrescentar apreciações acerca do comportamento global ou das “novas conquistas éticas”, como se fosse possuidor de uma bola de cristal pós-moderna.

Essa figura não é inventada. É o triste manipulador de mentes jovens que poderiam ser brilhantes mas estão enfraquecidas pela preguiça e que poderiam permanecer joviais mas estão envelhecidas por malfadadas experiências precoces. Difícil dizer o que veio antes: se tal galinha ou esses ovos. Afinal, o guru acaba por plasmar muitas mentes a quem ele atribui a origem das suas mesmas afirmações. O profeta da libertinagem apresenta-se como porta-voz de uma sociedade desgovernada.

Por sorte, nem todos se deixam levar pela preguiça intelectual. Uma parcela considerável de pessoas percebe que há algo errado nas “tendências” e procura resistir. E, dentro dessa parcela, uma nata procura reagir.

Imposição de desejos abstratos

O autodenominado “tolerante” guru — que pode ser o editor de uma revista ou um professor universitário — ignora sem dó os desejos concretos das pessoas concretas, propagando para uma sociedade abstrata sua agenda de delírios, criada nos laboratórios de ideologias escusas.

No Dia da Mulher ele cita uma infeliz: “Quero viver minha vida sozinha, por conta própria, e ninguém tem nada a ver com isso” — mas todos têm tudo a ver com isso! No carnaval, em vez de dizer “pule o carnaval sem pular a cerca”, ele agita a bandeira: “pule o carnaval fantasiado de camisinha”.

O guru lidera uma seita. No dizer do Luiz Felipe Pondé, é a seita que quer que os homens reais deixem de existir para dar lugar aos homens com “libido politicamente reordenado”. Seu credo principal é a ideologia de gênero, que engarça todas as aspirações contratulturais que hoje parecem ter triunfado: “direito” ao aborto, promoção do homossexualismo e da bissexualidade, divórcio expresso e casamento gay, fecundação artificial, etc.

Numa primeira etapa, a ideologia pretende separar sexo de sexualidade e afetividade. Noutro momento, nega a própria existência de masculino e feminino e estimula a promiscuidade desde a infância. O resultado desse processo ideológico é a anulação da identidade sexual e, portanto, da dimensão da complementariedade entre homem e mulher.

Falácias amorosas

A lista abaixo não perfaz um levantamento exaustivo de slogans sobre relacionamento, o que aliás não valeria a pena fazer:
  • Não somos uma opinião a mais. — Infelizmente! 
  • Precisamos experimentar. — Nunca entendi como mecânica corporal pode suprir experiência de vida. 
  • Usando preservativo, nada ocorrerá de mau. — Há riscos reais, mesmo com “proteção”. E gravidez nunca pode ser equiparada à doença. 
  • A gente só quer se divertir. — Sexo não é um esporte radical, ele afeta toda a psicologia.
  • Amor versus sexo é um dilema cristão.Mais falso que Judas
Obviamente, a disjuntiva cristã não se restringe ao campo da castidade, ainda que pareça ser o ponto mais gritante. A verdadeira batalha está se travando em torno ao marco da secularidade. Mas falemos disso posteriormente.

28 de jan. de 2011

Mandrágoras proibidas

Tudo tirado do extinto Formspring.

o que o corpo faz a alma perdoa?
 Nem sempre, nem sempre! E a recíproca é verdadeira!
  
tudo que é proibido é mais gostoso?
 Matar não fica mais gostoso por ser proibido.
Se fosse assim, seria melhor abolir a lei, não acha?
  
Só não pode dançar homem com homem?
 Já dizia o saudoso Tim Maia, que hoje seria preso pelas letras das suas músicas.

Big Tim Maia? (O Brasil é uma terra de mestiço pirado querendo ser puro-sangue)
 Quase caí na tentação de adicionar o aplicativo “Sabedoria de Tim Maia” ao meu Facebook.

sex, drugs and rock 'n' roll?
 Que cara antiquado, você… Ainda vive nos anos 60!

 virgindade é tabu?
 Prefiro os estudiosos que atribuem ao tabu algum sentido mais profundo.
 Como você deve saber, geralmente interpretam esse aspecto da cultura polinésia na linha de algo irracional, que deve ser guardado mesmo sem se saber a razão.
 Ora, os tabus costumam versar sobre as epifanias (positivas e negativas) da vida: o nascimento, a entrada na idade adulta, a alimentação, a iniciação sexual e o próprio ato conjugal, a geração, a doença, a morte.
 Os tabus tinham a função de revestir de sacralidade tais momentos em que o aspecto misterioso da vida se manifesta de uma forma mais contundente.
 Um dos sinais da perda do sentido do sagrado numa sociedade é a quebra dos tabus. Rechaça-se o costume, deixa-se de ver nele um sentido e deita-se por terra o bem precioso por ele salvaguardado.
 A questão não me parece ser se a virgindade é um tabu. O tabu atual é acreditar que as relações “antimatrimoniais” são garantia de um amor perene (para os mais conservadores) ou expressão de uma atração sincera (para os mais liberais).

faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço?
 Tá me chamando de hipócrita?

uma frase?
 Minha sedução será renunciar a seduzir.

Catuaba conhece?
 E mandrágora, já comeu?

o que eh mandragora?
 É uma planta afrodisíaca que se puxar berra, se cheirar fede.

Pq brasileiro adora falar de sekxoo no formspring?
 Porque brasileiro adora falar de sexo. Só por isso.

22 de nov. de 2010

Órfãos de lar, estranhos de casa


Os tempos que nos tocam viver parecem tirar às virtudes humanas todas as conveniências. Mais do que uma crise ética, sofremos uma crise de valores: com efeito, alguém pode atuar eticamente em sua profissão (cobrando o justo, evitando a propina, sem falsear dados, cumprindo o horário, honrando os contratos) e carecer de valores (chegar em casa tarde, desatender aos familiares e amigos, etc.).

O contraste evidencia-se sobremaneira nos âmbitos inflados por valores menores (por exemplo, o antitabagismo transformou o fumo praticamente em pecado mortal) ou, pelo contrário, nos campos rarefeitos pela perda total dos mesmos valores (por exemplo, tolerância com a maconha porque não se vê mal na evasão mental).

Ora, um bom modo de recuperar as virtudes é o resgate dos valores que as motivam. A perda dos condicionantes sociais que facilitavam a prática das virtudes apresenta-se-nos como uma grande oportunidade de praticá-las não por conveniência, mas por convicção.

Uma das virtudes que mais se vê desamparada hoje é a castidade. Perdeu sua razão de ser. Antes, servia aos egoístas e mesquinhos como método profilático contra a gravidez. Ela garantia aos preocupados com a própria fama um verniz de honradez. Agora que ninguém se envergonha de mais nada e publica suas indecências para todos ouvirem; agora, que está ao alcance da mão uma profilaxia mais cômoda feita à base de pílulas e borrachas flavorizadas; agora... para que ainda serve a castidade?

Dentro de pouco tempo, pela primeira vez uma grande massa de órfãos de pai vivo chegará à maturidade. O mais provável é que repliquem o modelo aprendido dos genitores: não o modelo de família, que não conheceram e lhes é apresentado como demodée, mas o modelo da “produção independente”, do “casar de penalty”, dos “acidentes de percurso”, dos preservativos ditos 100% seguros mas que furam numa certa porcentagem de casos…

Família se faz com virtudes, não com filhos por aí. Família tem vontade própria e comum, não a vontade egoísta e independente de cada um que vai para o seu canto quando a satisfação começa a minguar.

Por tudo isso, acho que a salvação da castidade virá pelo resgate dos valores familiares. Estará ao alcance da mão desprezá-la, será um sonho de consumo vivê-la. A orfandade do lar será sentida de forma lancinante pelas próximas gerações e recomendará esta virtude como o verdadeiro elixir do amor.

Com uma vantagem: a castidade não tem preço, não é preciso pagar por ela, não está à venda em farmácias nem sexshops.

Lembre-se: você pode começar agora.

3 de out. de 2010

Nua de gravata

Queres ser filósofo? Cultiva as virtudes

Há gente que se justifica alegando consciência reta, mas reduz o âmbito da moralidade. Com isso, uma bela teoria lhe serve para restringir o escopo da própria consciência.

Nossa visão de mundo sempre carrega algo de nossa bagagem vital, experiências, temperamento, inclinações, etc. Por isso, o filósofo deve cultivar as virtudes como última garantia de retidão intelectual.

Por outro lado, o verdadeiro filósofo não causa distúrbio ou desconforto. Tais coisas são próprias de anarquistas intelectuais.

πειραστική (crítica dialética) é um recurso socrático legítimo para examinar a validez das opiniões não consagradas dos ignorantes presumidos. Contudo, não esgota a verdade nem pode ser considerada uma ferramenta suficiente para alcançar a verdade.

Os anarquistas intelectuais alardeiam erudição e aparentam sabedoria com a multiplicidade de suas perguntas. Alegam humildade perante a verdade, cortejam-na sem nunca abraçá-la. São monótonos.

Em resumo: parece-me que nossos pensadores estão adoentados: moralmente mancos, presumem-se de sábios por serem bons retóricos.

Virtude tabu

Vale a pena entender por que a doutrina das virtudes desapareceu do universo intelectual contemporâneo, mas o tentaremos depois.

De momento, interessa citar duas virtudes, dentre tantas, escanteadas da vida prática e, consequentemente, das inteligências:

Prudência: para muitos, soa a cautela. Sua definição clássica é: recta ratio agibilium (reta razão no agir). Supõe três passos: estudo, petição de conselho e decisão. Entretanto, o homem moderrno prefere agir sem pensar, renegar a tradição e protelar as decisões vivendo ao sabor das emoções.

Castidade: para tantos, a sexualidade não entra no campo da moralidade. Se talvez a gula (excesso à mesa) ainda se reconheça como algo grotesco e por isso imoral, o mesmo não se dá com a luxúria. Excessos à cama até são vistos como virtude. Castidade é a integracão da sexualidade na personalidade. Mas grande parte das pessoas tem sido educada para ter uma personalidade erotizada.

Agora pensemos num filósofo tarado e inconsequente. Que fruto pode advir de uma tal inteligência? Que mestre cego é este, senão um charlatão, um pobre coitado que publica suas próprias dúvidas numa desesperada tentativa de justificar-se?

Tire-se a gravata da presunção. Fique nua de verdade. A verdade nua não necessita de aparato. É casta como a Vênus Capitolina, é mais conselheira que os Sete Sábios da Grécia.

4 de jul. de 2010

Momento & Casamento

Momento do futebol

A Copa do Mundo, centro e raiz da vida exterior, é época de muita filosofia, análises e considerações. Um amigo emendou:

— Futebol é momento.

De fato. O que importa ter tradição, craques, estatísticas, tabus, etc., se na hora H o time não está no seu “momento”?

A vida não é como o futebol. Pelo menos, não deveria ser. A vida não pode ser momento.

Talvez você não concorde comigo e me queira recordar que na vida existem sorte, berço, coincidências. Concedo. Mas momento é outra coisa.

Momentos da vida

Momento é fogo de artifíco. A vida é show pirotécnico.
Momento é instantâneo. A vida é longa-metragem.
Momento é trapo. A vida é seda.
Momento vai. A vida é.

Temos vivido muito de momentos. Esperamos demais por eles. Sua ausência nos frustra bastante e, não menos, sua ocorrência.

Há horas em que pensamos que tudo vai dar certo, que um relacionamento é infalivelmente harmônico, que uma iniciativa terá sucesso, que um sonho vai se concretizar. Às vezes, porém, o mundo parece conspirar para inviabilizar os projetos, mesmo sem culpa nossa ou alheia.

Tenho a impressão de que, dentre os âmbitos da vida, o casamento tornou-se alvo fácil desses “maus momentos”: incertezas, variáveis, prioridades, acidentes, incidentes, intromissões, traumas, necessidades, frustrações. São muitas as exigências para estarem ambos os interessados — o homem e a mulher — num “bom momento”.

Momento versus casamento

Recebi uma importante pergunta no extinto Formspring:

pq algumas pessoas juntam os trapos e não se casam no papel?

Primeiro, é preciso definir a que “papel” você se refere. Há os “papéis”do matrimônio sacramental e os “papéis” do casamento civil.

No caso de católicos, que desde o século XVI estão obrigados a casar-se segundo uma forma canônica determinada, o concubinato pode ocorrer por algumas das seguintes razões:
  1. Desconhecimento do Direito.
  2. Renúncia à publicidade do contrato matrimonial.
  3. Rechaço do Sacramento.
  ☛ Logo, casar pra quê?

No caso de simples cidadãos, burocratizados pela cultura pós-Revolução Francesa, o concubinato é preferido porque se tornou comum:
  1. Ver o direito ao matrimônio como simples direito à liberdade sexual.
  2. Entender a ordem tradicional como “fruto de uma cultura ultrapassada” e a sua impugnação como “vitória da liberdade”.
  3. Permitir o divórcio e ao mesmo tempo vedar o direito ao matrimônio indissolúvel verdadeiro.
  4. Reduzir o matrimônio a uma finalidade meramente unitiva, já que a finalidade procriativa foi banida pela mentalidade contraceptiva.
  ☛ Logo, casar pra quê?

Claro que todas essas razões aduzidas podem vir misturadas.

A questão é realmente interessante, pois os problemas matrimoniais repercutem negativamente na  sociedade e na própria vida da Igreja. Não à toa as igrejas estão cheias de jovens e de idosos: as pessoas em idade núbil e os casais maduros, porém, afastam-se da prática religiosa.

Com efeito, frequentemente muitos casais vivem em flagrante desacordo com o ideal cristão do matrimônio, que é mais do que “juntar os trapos”. Ainda que seu relacionamento tenha recebido reconhecimento civil, muitas vezes não foi reconhecido pela Igreja.

Momento jurídico

Estou cada vez mais convencido de que padecemos uma crise jurídica. Do ponto de vista teórico, faz-se preciso resgatar o valor das normas que protegem nossa vida das instabilidades de momento.

Por um lado — contrariamente a como pensam muitas pessoas —, o casamento cristão não é um rito religioso sobreposto ao matrimônio natural. É o próprio matrimônio natural que, enquanto contraído por cristãos, cai sob a alçada da Igreja. Portanto, o descuido e o desprezo pelo ordenamento jurídico canônico reflete uma mentalidade peculiar: a de que o matrimônio seria algo privado e não estaria tocado por uma dimensão sacral.

Por outro lado, Bento XVI, numa conversa aberta com o clero de Aosta, comentou que “é particularmente dolorosa a situação de quantos tinham casado na Igreja, mas não eram verdadeiramente crentes e só o fizeram por tradição, e depois, contraindo um novo matrimônio não válido, converteram-se, encontraram a fé e agora sentem-se excluídos do Sacramento [da Eucaristia]. Este é realmente um grande sofrimento e quando fui Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé convidei várias Conferências Episcopais e especialistas a estudarem este problema: um sacramento celebrado sem fé. Se realmente é possível encontrar nisto uma instância de invalidade, porque ao sacramento faltava uma dimensão fundamental, não ouso dizer. Eu pessoalmente pensava assim, mas dos debates que tivemos compreendi que o problema é muito difícil e ainda deve ser aprofundado. Mas considerando a situação de sofrimento destas pessoas, deve ser aprofundado” (leia a íntegra).

A ingerência do Estado moderno nessas questões, a recente crise de autoridade, a rarefação do Direito canônico, a revolução sexual, etc., são fatores culturais que dificultam a percepção do que é o verdadeiro matrimônio.

Momento para a solução

Tenho outro amigo que costuma dizer que quase todos os problemas pessoais se reduzem à falta de alguma virtude.

Efetivamente, as virtudes nos libertam dos laços do momento. Por falta de fortaleza, tantos não cumprem suas promessas em troca de bagatelas. Por falta de castidade, tantos são escravos do sexo e tentam dominar os outros. Por carência de simplicidade, tantos carregam o mundo nas costas.

Vejo a solução prática para a crise do matrimônio — a par da solução teórica que seria sua reafirmação jurídica — no resgate da formação nas virtudes. Pois não acredito que a nova ética conduza a bons caminhos; e, muito menos, a nova estética.

*****

E você? Seja franco:
— Tem vivido de momentos ou de virtudes?

23 de jun. de 2010

Sexo red bull, amor cachorro morto

Um estimulante

Todos corremos o risco de “sexualizar” nossas necessidades. Com efeito, o sexo é um intensificador. É uma das mais intensas experiências pelas que passamos. E tudo o que é marcado pelo sexo se torna mais vívido.

O sexo potencia os sentimentos. Torna mais colorido o mundo e sensíveis as impressões. Não à toa, aparece nas propagandas apelativas associado aos produtos mais díspares, desde óleo de soja até chumbinho de espingarda.

O sexo é uma experiência relacional. Carrega consigo uma promessa de realização e remédio para a solidão. Seu apelo é grande, entre outras razões, porque nossas necessidades são fundamentalmente relacionais.

O sexo tem caráter semiótico. Evoca qualidades simbólicas mediante um simples toque, a representação do controle sobre outra pessoa e o cultivo de uma relação.

Contudo, em vez de suprir carências, o sexo reduzido a um estimulante produz um vazio ainda maior. Isso ocorre tanto através da pornografia quanto através da exacerbação do aspecto “mecânico” da relação sexual, passando pela ânsia de maximizar o prazer e desfrutar de todas as possibilidades.

Algumas pessoas conseguem, após experiências turbulentas, reconhecer que tinham sexualizado suas necessidades existenciais. Outras tantas, porém, prosseguem adictas, penetrando cada vez mais fundo num deserto interior.

Viver a sexualidade à margem do compromisso matrimonial, de costas para o amor ou cegando as fontes da vida, equivale a comprar um título podre, dar chocolate belga pro hamster, pôr um vaso Ming no banheiro.

Dependência

Pode parecer excessivo falar de “dependência” sexual, como se o sexo fosse um narcótico. Mas é preciso admitir que os sintomas são bastante semelhantes: fantasia acentuada, emoções fortes, sensação de autocontrole, tendência à autodosagem e, finalmente, autodegradação.

A pornografia não é má apenas porque mostra muito. Sua ruindade é complexa: além de exibir demais, também não mostra o suficiente: apresenta o sexo sem o contexto. Falta a referência às pessoas envolvidas e ao comprometimento amoroso que tornaria real e significativo o encontro sexual. Pelo contrário, transforma as pessoas em objetos úteis ao deleite privado.

A pornografia, portanto, deforma a visão que se tem dos demais. A cerração da nuvem pornográfica impede ver as necessidades alheias e conduz, invariavelmente, ao desprezo das pessoas de carne-e-osso com quem se convive e à violência.

Castidade

A quem ficou preso nesse charco, o caminho para a libertação é reconhecer que se tem tal problema, contar com a ajuda de outra pessoa de confiança, eliminar todo tipo de conteúdo inconveniente, rezar pela cura e ter paciência com os retrocessos. Afinal, se a dependência levou tempo para se desenvolver, levará outro tanto para ser superada.

Por outro lado, não basta desfazer a ligação artificial entre o sexo e as necessidades existenciais. Tais anseios subsistem e exigem resposta. — Mas isso já é assunto para outra postagem!

A castidade torna o homem viril e audaz; enche o coração de compreensão e misericórdia; permite concentrar-se no trabalho e garante a disciplina; atrai as pessoas e facilita a amizade; possibilita a oração. Esta virtude, que é uma afirmação gozosa de amor, precisa ser revalorizada e reproposta com urgência, pois o amor anda doente.

  The Stats on Internet Pornography
Via: Online MBA

1 de fev. de 2010

A menina que lutava boxe e os garotos frouxos

Minha musa inspiradora me deu mais um toque. Dessa vez, um soco de boxe.

*****

Na sexta passada, após quatro semanas de tentativas, consegui almoçar com certa pessoa. Naturalmente, ela chegou uma hora e meia atrasada. Tive de trocar vários telefonemas com ela, pois ela esquecera o dinheiro, não sabia se voltava em casa para pegar, mas aí tinha o problema do estacionamento, pois o carro já estava lá, etc.

Estávamos azuis de fome quando chegamos ao Spoleto da rua do Rosário. Entrementes, eu tinha batido perna por livrarias e adjacências.

Tudo parecia correr bem. Após o almoço, fomos realizar um pagamento. Deferência pela doce companhia. Então os problemas recomeçaram: “não aceitamos cheque de empresa”, disse a moça do guichê.

Fomos ao banco no último dia útil do mês (outra deferência pela aflita companhia). Fila homérica. — “Você está sério. Está pensando em quê?” (péssima pergunta a se fazer quando nós homens entramos na caixa do nada).

A bem da verdade, eu não estava na caixa do nada. Estava pensando em como ia recuperar as horas perdidas em tantas transações.

Nada sendo resolvido no banco, o pagamento ficou para hoje. Mas aí já não é comigo. Mais tarde vou ligar para perguntar se deu certo. Contudo, os problemas da sexta passada ainda não terminaram.

Um colega, com quem a azarada pessoa em questão ia fazer um trabalho naquela tarde, telefonou dizendo que estava de cama e não poderia mais aparecer. — “OK, vamos a (mais) uma livraria e de lá tomamos um sorvete, já que está um calor do peru e com isso nossa sexta laboral acabou”, tive de dizer.

Depois da Livraria da Travessa, que só serviu para sentar numa poltrona, fomos ao McDonald's. Casquinha para mim, milk shake para ela. Azar? Talvez, pois o milk shake caiu no chão. Não fiz menção de conter-lhe o choro. Apenas me levantei, comprei outro e, calmamente, enquanto sugava minha casquinha, fiz certo comentário depreciativo sobre unhas cor de laranja meio vermelhão.

*****

Lições? Estamos numa geração frágil, frouxa. Qualquer doença põe de cama, qualquer escorregão estraga tudo, qualquer coisa é motivo para atrasos, qualquer mudança de procedimento causa esquecimento. Até pais responsáveis correm o risco de largar seus filhos ardendo nos carros!

Paradoxo? Mulheres jogam bola nas quadras e lutam boxe nas academias. Faz-me lembrar de Brunhild, da Canção dos Nibelungos. A Bromilda, rainha da Islândia, era a paixão de Gunther, rei dos burgúndios. O galho é que a docinho de coco tinha uma queda por esportes bascos e só estava disposta a se entregar a quem demonstrasse uma truculência à altura da sua.

Depois de algumas malandragens e falcatruas de Gunther, eles se casam, mas as núpcias não foram nada fáceis para o noivo apaixonado. Não vou contar o que aconteceu (leia o livro, que vale a pena mesmo!); digo apenas que toda aquela fortaleza da donzela só ruiu depois da árdua consumação do matrimônio.

Conclusão? Existe uma curiosa relação entre sabedoria, fortaleza e castidade. Já o dava a entender Catarina de Alexandria.

E você? Anda bobo? Anda fraco? Anda murcho?

25 de nov. de 2009

Cinco vitórias de Santa Catarina de Alexandria

quadro de Caravaggio
O livro Legenda Áurea é extremamente peculiar. Mas aprendi algumas coisas lendo a vida de Catarina de Alexandria, cuja festa é hoje.
Tenho devoção por ela, devido ao carinho que alimento pelo estado brasileiro que recebe seu nome e pela cidade de Florianópolis, sediada na Ilha igualmente nominada.

Catarina era um desbunde. Tanto que o Imperador Maximino ficara louco por ela. Contudo, a heroína, além de bonita, não era burra. Mas ela deu-lhe o fora, e ainda por cima confundiu todo mundo com sua inteligência.

De fato, Catarina era uma princesa da família dos selêucidas e estudava filosofia, coisa inusitada na época. Tendo-se feito cristã, recriminou o Imperador, que derramava abundantemente o sangue dos mártires.

Após vinganças e peripécias, o Imperador, que não conseguiu tê-la por concubina, acabou por fazê-la morrer, sendo decapitada.

A Legenda Áurea traz um elenco das cinco provas em que a castidade comumente sucumbe, mas que Santa Catarina de Alexandria soube vencer:

1) abundância que amolece (ela era rica);

2) oportunidades que incitam (ela morava sozinha);

3) juventude que estimula a lascívia (ela morreu com 18 anos);

4) liberdade irrefreada (ela tinha serviçais que lhe faziam todas as vontades);

5) beleza provocante (ela poderia ser a Miss Egito).

O que essa história nos pode dizer hoje?

2 de out. de 2009

Uma linguagem fake para o amor

Depois de ter falado do chinelo e da roupa, decidi falar do linguajar. A língua é a roupa de dentro. A língua é o espelho da alma.

O idioma é um bastião importante nas conquistas culturais. Os povos vencedores, intencionalmente, ou por osmose, verteram sua língua nos ouvidos e bocas dos vencidos. Nas batalhas de hoje, revolucionar o idioma faz parte da estratégia para dominar a opinião. Depois opinarei acerca da tácita campanha em prol da assim chamada linguagem inclusiva.

Por enquanto, basta dizer que existe uma — para usar uma expressão joanina — linguagem mundana que se tem disseminado abundantemente. Não me refiro apenas a termos de calão ou à falta de vocabulário, o que é ponto pacífico.

Josef Pieper comentava que a nomenclatura relacionada à moral (virtudes e vícios) é a que mais costuma se deteriorar em tempos de crise, em quaisquer lugares e épocas. Nesse sentido, é sintomático que se tenha criado entre nós uma rica terminologia referente aos relacionamentos amorosos em que o sentido de compromisso não é o forte. Há uns anos, não me lembro se li na Folha ou no Estadão, saía uma lista que tentava facilitar o entendimento do vulgo:
  • Pegar: envolvimento passageiro carregado de erotismo, em geral de um único encontro.
  • Ficar: envolvimento passageiro com carícias, menos agressivo que o “pegar”.
  • Rolo: “ficar” de semanas, mas sem compromisso.
  • Relação: amizade íntima luxuriosa sem exclusividade, comum entre adolescentes.
  • Namoro: com um princípio de compromisso, envolvimento afetivo e projetos em comum.
  • Grude: faz‑se tudo junto, numa espécie de controle recíproco.
  • Relacionamento informal: compromisso de encontros eventuais, pois os projetos pessoais estão acima da vida em comum.
  • Semicasamento: vive-se separado, mas com hábitos de casado.
Penso que é muito vulgar e deseducado fazer uso de tais expressões. Além disso, corre-se o risco de fazer parecer normais comportamentos que apenas se tornaram mais frequentes ou são modas efêmeras. Por outro lado, usar de vulgaridades para bancar o simpático, fazer-se entender ou mostrar-se “por dentro” torna ridículo a quem fala e tira peso ao que se diz.

Que língua você fala? Qual é a língua do amor?

25 de mai. de 2007

Como foram os dias da visita do Papa ao Brasil em 2007

Aqueles dias foram inesquecíveis!

Desde segunda-feira, 7 de maio, já estavam em São Paulo alguns grupos de estrangeiros latino-americanos.
Tínhamos reservado para eles alojamentos e preparado alguns voluntários para guiá-los em passeios pela cidade. Na quarta, que foi o dia que o Papa chegou, a coisa pegou fogo. Depois de levar 60 argentinos pelas ruas do Centro de São Paulo, mostrando-lhes o Teatro Municipal, a Sé, o marco zero, a casa número 1, a casa da Marquesa de Santos, o Pátio do Colégio e o impostômetro, tudo sob gritos de "Pelé!" (da parte dos brasileiros nos bares) e de "Argentina! Maradona!" (da parte do grupo de 60 argentinos), chegamos ao Mosteiro de São Bento, que já estava quase cheio, com umas 5.000 pessoas, às 15h. Dei-lhes a comer carambola, que eles nunca tinham visto. Levei-os a um restaurante, deixando assustados os demais comensais. O menorzinho dos argentinos, um garoto, derrubou o prato no chão e as cozinheiras ficaram cheias de pena e de xodó, dando-lhe uma nova refeição, sem cobrar.

Às 18h o Papa chegou: 10.000 pessoas espremidas na exígua praça defronte do Mosteiro berravam até que Bento XVI subiu aos seus aposentos e deu a sua primeira bênção desde a sacada. Na praça era uma festa: a multidão de adolescentes chilenas cantavam o seu famoso grito de guerra: "Ce-ache-i... Chi! Ele-e... le! Chi-chi-chi! Le-le-le! Viva Chile!" E o argentino ao lado me lembrava todas as derrotas de times brasileiros para equipes do país de Maradona.

Para de noite, eu tinha organizado uma tertúlia de mais de 200 pessoas com um Cardeal. Foi espetacular, pois ele foi jogador da seleção peruana de basquete, é uma pessoa muito inteligente e descortinou muitos horizontes a respeito da recristianização da sociedade e da manipulação operada pelos meios de comunicação. Tudo explicado com mil exemplos, pois ele vai à TV toda a semana e tinha acabado de ter uma coletiva com repórteres brasileiros na véspera.

Na quinta, depois dos passeios matinais, tivemos o encontro com o Papa no Estádio do Pacaembu. Depois desse primeiro contato com o Papa, a cidade já estava em festa. Aqueles que, mal influenciados pelos meios de comunicação, achavam que o Papa Ratzinger era um "cara mau", já estavam eletrizados por ele.

E assim, no dia seguinte, ele presidiu a concelebração da Missa de Canonização de Frei Galvão, o primeiro santo brasileiro. Na homilia, o Papa falou de Confissão, castidade e santidade. Já tinha falado de castidade na véspera e, em todas essas vezes, foi muito ovacionado. Durante a tarde do dia 11, sexta-feira, o Papa teria um encontro privado com os Bispos do Brasil. Então lá fomos nós para um show que tínhamos preparado para os estrangeiros no Centro Educacional e Assistencial de Pedreira.

Fizemos uma apresentação de músicas internacionais para mais de 600 pessoas, em que participaram, além dos brasileiros lá presentes, uruguaios (17), paraguaios (10), argentinos (150), chilenos (130) e equatorianos (80). No fim, D. Rafael Llano, Bispo de Friburgo, pregou uma meditação para todo esse pessoal, metade em português e metade em castelhano. Ele gritava aos brados que vale a pena ser fiel à própria vocação, que cada um de nós é a Igreja, que devemos transformar a sociedade com a nossa fé bem vivida, que o apóstolo deve vogar para águas mais profundas em vez de ficar "pescando num aquário", que muitos que deveriam ser "pescadores com cheiro de mar e coração jovem" infelizmente são "peixeiros com cheiro de água podre e coração de velho".

O fato é que, quando acabou tudo, o pessoal foi ao delírio: já tinham visto o Papa, estavam conhecendo o Brasil, tinham assistido a um show espetacular e ainda por cima assistiram a uma meditação tão eletrizante e desafiadora... Quase sufocaram D. Rafael tentando agarrá-lo e depois voltaram gritando no ônibus: "Vale la pena, vale la pena!"

No sábado todos viajamos a Aparecida, pois à tarde rezaríamos o terço com o Papa na Basílica Nacional, que por sinal estava linda. Esse foi o ponto alto, por assim dizer. Só 35.000 pessoas cabiam lá dentro. Chegamos cedo na fila. Lá dentro, muita intimidade. O discurso do Papa durou 35 minutos e foi interrompido por nossos aplausos 31 vezes. Dava para ouvir de dentro o povo aplaudindo fora, o que fez até o Papa achar engraçado. Ele estava visivelmente emocionado. Parece que ele descobriu no Brasil uma coisa que a Europa perdeu: a fé simples, o carinho pelo sucessor de Pedro, pelo Vice-Cristo na Terra.

Sem dúvida, o Papa não deixou de ser claro diversas vezes: no Brasil é urgente uma catequese capilar que forme os católicos, para que a sua fé não seja superficial, sentimental, ingênua, despreparada. Só entusiasmo não é suficiente, embora ajude bastante. Deu para notar que ele percebeu isso. O Papa insistiu em que as pessoas tenham uma vida moral coerente (respeito pela vida nascente, castidade no namoro, pela instituição do matrimônio, honestidade) e uma vida sacramental intensa (Comunhão e Confissão frequentes). Sem isso não se pode ser cristão.

À noite, fomos dormir no chão da esplanada, diante da Basílica de Aparecida. A noite na esplanada foi um show. Durante toda a madrugada os grupos mais diversos, vindos de todo Brasil e América Latina se encontravam, cantavam, dançavam. Houve um momento que parecia que ia dar briga: uma roda de brasileiros se aproximou a uma de argentinos... e ambas se juntaram... e com outras... e com outras... De repente virou uma espécie de bloco carnavalesco! Todos ao som dos pandeiros, bumbos, cornetas, iam marchando e se abraçando. O número de jovens era muito elevado. Também houve confusão, sem dúvida, pois muitos queriam estar o mais perto possível do altar enquanto outros já ocupavam os melhores lugares deitados em sacos-de-dormir.

Ao amanhecer, tivemos a Missa de abertura do CELAM (reunião dos Bispos latino-americanos). Pude ver o Papa a dois metros, no papamóvel, com a janela abaixada, duas vezes. Da segunda ele olhou para mim e me abençoou, pois tive a sorte de me encontrar sozinho numa rua alternativa pela que a os seguranças conduziram o papamóvel de surpresa.

E então foi a hora de voltar para casa. Todos exaustos, os estrangeiros com uma viagem enorme pela frente. Ainda que uns portenhos tenham ido para o Guarujá e os de Guayaquil para o Rio...
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