16 de out de 2012

Ração diária de pornografia

O coração da mulher encerra desejos de amor, de carinho, cuidado, beleza, entrega, confiança. A pornografia, por sua vez, é uma grande rival do sonho e da esperança de amor, pois os transforma em pura fantasia. E, como em todo carnaval, quando caem as máscaras, sobram apenas cinzas.

A pornografia pode ser experimentada de diversas formas, mas não importa como, sempre assusta e machuca.

Sinto-me empurrado a escrever isso por causa duas tristes coincidências: a frequência com que me deparei, recentemente, com mulheres adictas à pornografia, da qual sorvem tragos diários; e a difusão de formas sofisticadas de erotismo, como, por exemplo, a altporn (“baixaria alternativa” que inclui tatuagens, piercings, etc.).

É evidente que isso decorre da cultura permissiva, do feminismo mal entendido, das mentiras propaladas sobre a sexualidade, das facilidades da Internet, etc. Não cabe fazer aqui uma pesquisa de conjuntura ou averiguar o alastramento do problema. Gostaria apenas de traçar quatro linhas para análise.

I

Em primeiro lugar, estão livros como Comer, rezar, amar. Esse tipo de literatura vazia escorrega facilmente para coisas ainda mais deletérias, como a trilogia dos Tons de cinza. Para quem não sabe, é um romance sobre sadomasoquismo e bondage (tem gente que é amarrada em “amarração”, no sentido literal).

O último grito foi a recém-lançada obra de Regina Navarro Lins sobre o amor, em dois volumes, que é um muito mal intencionado monumento à ignorância. Em minha opinião, aqui se cumpre à letra a definição de Thomas Kuhn para mudança de paradigma, segundo a qual, quando se muda a mentalidade, incapacita-se para a compreensão da mentalidade anterior. Com efeito, a sexóloga reinterpreta toda a história da humanidade com a lente distorcida da libertinagem.

Com base na artificial distinção filosófica entre amor e sexo, a autora projeta essa altercação ao longo do tempo como um embate entre força ou fraqueza, virtude ou pecado, glória ou perdição, domínio ou liberdade, etc. Como não podia faltar, a Igreja sai chamuscada na fogueira inquisitorial da autora, que lhe atribui um pretenso rechaço da sexualidade.

II

O segundo volume do livro alcança o século XXI, ao abordar o sexo virtual ensejado pela revolução tecnológica.

Aqui nos deparamos com outra linha do problema. A camuflagem virtual pode levar a dedicar muito tempo a estranhos. Lindos avatares escondem carência de virtudes; e singelas trocas de mensagens podem se tornar intermináveis discussões inúteis e possessivas. A webcam tornou-se para muitos uma “webcama”. Desnecessário descer a detalhes a respeito.

III

Quanto ao consumo feminino de pornografia, é preciso apontar algumas especificidades bastante perversas.

A exploração do corpo (somatolatria) é algo que abala especialmente a mulher, pois lhe é inerente a preocupação pela aparência.

A ausência de contexto das cenas eróticas também lhe ferem mais a sensibilidade, que tenderia naturalmente à percepção das referências que dão suporte à relação amorosa.

E a imoralidade desse consumo amplia a vulnerabilidade da mulher, conduzindo-a a uma necessidade doentia de aprovação masculina.

IV

Por fim, é forçoso afirmar que sexo não é arte. Com a desculpa da estética, dos sentimentos, da contracultura, dos diabos, gente que se diz inteligente teima em apresentar a falta de pudor como algo natural.

Sexo não é arte porque o amor não é arte. Na verdade, esse tipo de comportamento irresponsável acaba encarando a maternidade e a família como arte mesmo, como peças de museu.

***

Para terminar de forma positiva, convém deixar aqui uma luz sobre os caminhos para a recuperação. A castidade é uma virtude belíssima, que enche de alegria o coração e purifica o olhar.

Um dos seus mais saborosos frutos é a amizade. Por isso, o altruísmo, a generosidade, o serviço, a criatividade operosa, etc., tudo isso pode ter caráter terapêutico na jornada rumo à harmonização do corpo, da mente e do espírito.
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