26 de abr de 2010

Quatro passos para uma nova mudança de paradigma

Mudança de paradigma

A ideia de paradigm shift foi popularizada por Thomas Kuhn, historiador americano da ciência. Para ele, paradigma seria “a constelação inteira de crenças, valores, técnicas, etc., compartilhados pelos membros de uma comunidade”. Quando se produz a substituição de um paradigma por outro, ocorreria uma transformação em bloco da perspectiva mais do que um desenvolvimento gradual.

Essa abordagem serve para explicar o fenômeno da demolição de princípios por conta da mutação dos costumes. Declara o ser humano incapaz de assimilar os valores subjacentes à cultura. Ora, uma árvore que perde as folhas no inverno não continua com seiva por dentro? Ou passa a circular pelo seu tronco outra substância? Por isso, penso que a transformação das formas de vida no último meio-século não sufocou as ânsias do coração humano e a transcendência dos ideias nobres.

Diagnóstico da situação

Consagram-se novidades insubstanciais e faltam propostas. A indústria do entretenimento e da frivolidade sistemática domina praticamente todo o público. Os poderosos da mídia e as vacas sagradas de um jornalismo pseudointelectual insuflam a histeria coletiva. Há um ambiente geral de ingenuidade simplista, de superficialidade e de escasso senso crítico e reflexão. Existe uma multidão amorfa à espera da última manchete sobre os namoricos e brigas de políticos, atores, modelos ou cantores da moda.

Tal vazio espiritual está na raiz do que, vira e mexe, se escuta por aí: “Estou em constante transformação”. “Gosto de aprender de mim mesmo”. “Preciso estar mais antenado”. “O tempo trará a solução”. Essa pataquada, no melhor estilo Raul Seixas, é uma conversa velha, que diviniza a própria fraqueza, que exorciza a mão amiga, que renuncia à reflexão, que vulnera o coração.

As condutas são pautadas basicamente duas linhas mestras: o hedonismo (prioridade para o prazer instintivo, material e imediato) e o permissivismo (tolerância indiscriminada, relativismo teórico e prático).

Soluções

Os efeitos colaterais dessa situação — fastio, sensação de vazio interior, mediocridade, perplexidade — são gritos silenciosos. E nossos aliados! Ninguém aguenta viver assim. Sugiro quatro remédios:

1. Propor uma melhora pessoal a cada amigo, individualmente. Claro que precisamos primeiro dar exemplo e ser amigo de verdade. Mas isso faz bem para nós e para o amigo. Para nós, pois exige altruísmo e autoavaliação. Para o amigo, pois as pessoas sentem falta de apoio e orientação. Além disso, todos agradecemos bastante as manifestações de interesse desinteressado. Por outro lado, convém dar esses conselhos em particular: dicas públicas soam muito mal e demonstram insensibilidade.

2. Educar o gosto pelo belo e o bom, recuperando o clássico nas artes, na literatura, na filosofia. Excelente forma de conhecer outras pessoas, de ter assunto para as conversas, de atrair os amigos para temas mais elevados, etc.

3. Mover a opinião pública e a atuar politicamente. Fazer barulho mesmo. Já que o megafone está na mão de qualquer imbecil, vamos usá-lo nós!

4. Apostar no serviço desinteressado aos outros (trabalhos sociais, voluntariado, etc.). Quando os ouvidos se fazem surdos, restam os olhos para ver. Ou seja, a sociedade pode recuperar seus princípios se vir a atuação eficaz e coerente de pessoas que se orientam por convicções.
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