29 de dez de 2014

Postagem derradeira


Eu tinha feito um compromisso comigo mesmo de pôr um ponto final a este blogue quando chegasse à 500ª postagem. Faz tempo que parei de escrever, desde a 499ª, como que a esperar uma definição dos novos caminhos a seguir.

Penso que o blogue foi um excelente exercício retórico. Minha expectativa é que tenha agradado aos leitores. O Depósito de ideias me serviu de laboratório, viagem, treino e desabafo.

Sinto se ficou algum assunto pelo meio do caminho. Mas agora chegou o momento de novas frentes de batalha, outras linhas de atuação…

Portanto, um bom 2015 a todos, e muito obrigado!

27 de ago de 2014

Plágio sem creative commons

O plágio e seus tipos

Plágio acadêmico é a apropriação de ideias ou expressões alheias, sem referência aos seus autores. Tais referências podem ser diretas, com as devidas citações, ou indiretas, mediante a explicação e o pertinente comentário das fontes consultadas.

O plágio mais grosseiro é o integral, que reproduz a fonte de pesquisa como se fosse oriunda da própria lavra. Contudo, também são plágios duas formas mais sutis. Por um lado, há o plágio parcial, que mescla locuções de diversa procedência; por outro, há o plágio conceitual, que consiste na reprodução das ideias com a mera substituição das palavras.

Implicações éticas do plágio

A palavra define o homem. Ο homem é alguém que fala e que escuta. Seu universo discursivo baliza sua compreensão do mundo. O domínio da linguagem não só lhe permite entender seu entorno como interagir com as outras pessoas e atuar sobre elas. De fato, a interação com os demais comporta duas dimensões: o mimetismo e a influência, reproduzir ou produzir.

A Universidade tem uma missão especial: introduzir o homem na autonomia, conduzi-lo à capacidade autoral, à produção intelectual, para além da simples imitação.

Não obstante, o plágio acadêmico, tão facilitado pelos hipertextos, pela fragmentação do conhecimento e sua difusão massiva da informação, apresenta-se como uma chaga da produção intelectual universitária. Afinal, o plágio elude a responsabilidade pelo cultivo do saber e priva de autenticidade a produção acadêmica.

O conhecimento, tanto o gerado quanto o transmitido, comporta, portanto, uma dimensão ética. Não é inócua a forma de lidar com as palavras nem de criar pontes com elas. A proteção do direito autoral, reconhecida por lei, demonstra e expressa juridicamente a existência de exigências morais na gestão do conhecimento.

***

A UFF tem publicada uma cartilha bem interessante sobre o plágio acadêmico que merece a leitura: http://www.proppi.uff.br/portalagir/sites/default/files/cartilha_autoria_-_digital.pdf.

23 de jun de 2014

Para tempos como esses que vivemos

Os sentimentos são como o mar, afetados pela Lua, pela ressaca, pela poluição, pelas correntes, pelos bichos que o povoam e aterrorizam. O mar é traiçoeiro, no mar dá para surfar, pelo mar é costume singrar. Mas também se afogar.

O mar é salgado como o suor. O mar é cristalino ou turvo, suave ou encrespado, revolto ou sereno, refrescante ou enregelante. Mas o mar nunca mata a sede.

Tem gente cujo coração é de mar. Outros tantos têm o mar na cabeça, agitando pensamentos, refletindo à deriva, mergulhando nos sonhos. Uns e outros rodopiam nas marés que puxam a vida para longe da segurança da praia.

No mar da vida encontramos algumas boias, amigos e amores aos quais confiar nossa sobrevivência e respiração. Às vezes, sucumbimos com eles; outras, eles nos rebocam.

O mar é traiçoeiro, irmão. É forçoso nadar, e nadar com ânsias de sobrevivência.

2 de jun de 2014

Conexão & Química

Química é expectativa. Altura, cor de cabelo. Simpatia e atração recíprocas. Instinto. Desnecessária, puro bônus. 

Conexão foi soldada com a emoção. Convicção esculpida no coração. Segurança. Cumplicidade. Laço.

Química embriaga. Conexão abraça. Química destrói reputações. Conexão forja relações.

O livro Silmarilion descreve as joias nas quais foram encerrados os raios das árvores de luz. Da árvore solar e dourada em seu entardecer e da árvore lunar argêntea em seu alvorecer.

Química e Conexão concorrem juntas na confecção de uma joia rara que é o amor, como o brilho dessas árvores mitológicas.


30 de mai de 2014

Quatro formas de olhar

Olhar indiferente

A vida imita a arte porque a vida é monótona. A arte quando imita a vida é novela chata. Quero a surpresa, quero o inusitado. Falta sal, falta brinde.

Para que olhar? Seduza-me.

Olhar através

Triste olhar de quem perdeu a perspectiva. Miopia da vida que ignora o que vê, que se faz cega por fechar os olhos e não pelo ofuscamento de contemplar de frente o Sol.

A quem olhar? Hora de acordar.

Olhar detalhista

Olhar esparramado sem foco nem respeito. Sem peito para enfrentar a vida, que vai furtivo de flor em flor sem nenhuma visitar. A multidão dos detalhes desagrega, confunde, perde, desvia.

Para que olhar tanto? Procuro um quê ou procuro um quem?

Olhar abarcante‎

Meus olhos brilham para ti, canta Marisa Monte, porque a verdade é uma ilusão vinda do coração. O amor não idealiza, ele concretiza. Porque sem ele a realidade é cinza. Porque como vamos desejar o que é imperfeito se o olhar amoroso não conferisse a quem é olhado a visibilidade que lhe falta?

Para que olhar tudo? Basta olhar você.

5 de mai de 2014

Entender para crer

Narrativa e verdade

Ariano Suassuna contava um caso engraçado, de um homem que, narrando um fato divertido, era interpelado por seu ouvinte por causa de uma inconsistência da historieta. O contador lhe retorquiu: — Você quer saber a história ou quer saber a verdade?

Entre o texto e a memória, entre a imaginação e a história: o que é possível encontrar aí? Sem dúvida, seria ingênuo esperar alcançar o próprio objeto da narrativa, tal e qual, isento de interpretações. Mas também seria doentio pensar que o objeto de estudo é uma mera tela em que se projetam ideias pré-concebidas.

Razão e crença

Na maioria das vezes, os argumentos contra a historicidade de algum testemunho antigo advém da ignorância do contexto ou do estilo, e da desconfiança na fonte.

Nossa racionalidade está, em alguma medida, baseada em conhecimentos de cunho probabilístico; portanto, não faz sentido opor razão e crença. Afinal, o conhecimento humano é todo baseado em crenças razoáveis.

Mito e filosofia

O mito é um caso particular nessa problemática. Sem autor nem data, o mito explica a realidade, mas não se explica a si mesmo. A crítica filosófica pretende acabar com a referência mítica, atitude que pode causar fragmentação e degenerar no relativismo filosófico e moral. A partir daí, torna-se crime de opinião voltar a buscar referenciais absolutos. Nasce a batalha entre a filosofia mítica e os mitos filosóficos. É o que vemos, por exemplo, na pós-modernidade decepcionada com as caducas profecias modernas de prosperidade através da ciência.

Logos e história

O cristianismo apropriou-se do discurso filosófico, mas os cristãos terão conseguido superar tal ruptura entre tradição e razão? Com efeito, é muito frequente deparar-se com católicos incertos quanto às suas raízes históricas e empedernidos em sua incoerência intelectual.

Enquanto discurso, a história sagrada tem cunho literário parecido ao mitológico; enquanto síntese teológica, a profissão de fé tem caráter comunitário e normativo. A articulação desses polos tem sofrido bastante diante de uma cultura cética e descrente da razão.

Tradição e teologia

Faz-se necessário resgatar a confiança na razão. Carl Rahner dizia que o homem é um ouvinte da Palavra: de fato, de nada adianta Deus falar se não houvesse alguém capaz de ouvir. Portanto, a missão da fé é compreender o que ouviu, explicitar seu fundamento.

Se o objeto da fé é racional, a teologia consiste no esforço de compreensão do objeto da fé. Não há razão para o medo protestante de que a teologia seja uma racionalização indevida da fé, uma construção idolátrica que falseie a verdadeira face de Deus.

28 de abr de 2014

O triunfo das três feras

Freud, Marx e Nietszche são os três “mestres da suspeita”, na expressão de Paul Ricouer. Simbolizam a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e soberba da vida (cf. 1Jo 2,16), e assemelham-se às três feras que acossavam Dante na Divina Comédia: a pantera sensual, o lobo rapace e o leão orgulhoso (cf. Inferno, I, 31-60).

Terão triunfado? Ou apenas souberam exprimir o que o homem caído de todas as épocas concebeu no seu coração ferido? Sem dúvida, não fazem uma descrição da realidade, mas elegem uma dimensão humana (o sexo, a economia, o poder) como razão de transformação da realidade.

As ideias desses pensadores podem conter muita “lógica”, mas são tão “dogmáticas” quanto qualquer fideísmo. Em comum, racionalistas e fideístas afirmam que o mundo não é razoável, que o ser é caótico, que o seu sentido nós é que projetamos e plasmamos. Com efeito, Kant, em sua Crítica da Razão Pura, afirma que o ser em si é fundamentalmente não racional. Portanto, qualquer tentativa de filosofar (a nível verdadeiramente metafísico) conduziria a erros e criaria ídolos.

Daí que a metafísica tenha sido banida das escolas de filosofia, abandonada em prol de questões fragmentárias, substituída por fenomenologia, hermenêutica de textos ou análise crítica da linguagem.

Karl Barth
Daí também que o protestantismo tenha renunciado à filosofia clássica. Um de seus maiores expoentes, Karl Barth, chega a afirmar que a razão pela qual estaria errado ser católico é a aceitação da tese metafísica da analogia do ser. Para ele, qualquer analogia entre o ser divino e o ser criado seria uma falsificação de Deus.

Por isso é que o protestantismo resgatou a iconoclastia, aquela heresia empoeirada do século IX que proibia o culto de imagens. A iconoclastia protestante ataca não o gesso das estátuas, mas o simulacro de Deus que indubitavelmente conduziria o homem à idolatria. Como um namorado que fosse trocar sua namorada por uma fotografia dela.

***

A fé verdadeira exige a razão, pois a racionalidade é constitutiva do ser. Ao mesmo tempo, a razão saudável precisa do suprassensível, do transcendente, pois a verdade nos abre para algo que nos precede e nos liberta do nosso “eu” pequeno e limitado, aferrado a meras certezas, garantias e utilidades.

20 de abr de 2014

Crer para entender

Feliz Páscoa, queridos leitores!

Ontem, na solene Vigília Pascal, tive a oportunidade de novamente ouvir os relatos fundamentais — ou, melhor dito, fundantes — da visão cristã do mundo: a criação e o êxodo. Enquanto escutava o Hino dos Seis Dias (Gn 1,1–2,2) e a descrição da Travessia do Mar Eritreu (Ex 14,15–15,1), passaram-me pela cabeça muitas lembranças de conversas que já tive com pessoas céticas, as quais, imbuídas de um racionalismo superlativo, tropeçam escandalizadas no cunho mitográfico das primeiras páginas bíblicas.

Tal tipo de conversa tem crescido à minha volta nos últimos tempos. Por um lado, por causa do filme “Não É — a incrível história do homem que não é Noé” (esse midrash mal feito do Aronofsky sobre a história de Noé); por outro, devido à minha pós-graduação em arqueologia, ambiente favorável tanto para a crendice no caráter probatório dos achados arqueológicos quanto para a desconfiança doentia de tudo o que não seja empírico.

O dilema é simples: o Pentateuco é histórico ou é mitologia?

A resposta, porém, não é simples. Vejo o Pentateuco como narrativa de memória, não história. Ao mesmo tempo, vejo o Pentateuco como mitografia, não mitologia.

Geralmente, a história pretende rigor, precisão, método, na descrição de fatos passados. Ora, o Pentateuco pretende estabelecer para Israel a sua origem, não a sua história. E sua origem remonta à protologia, não à história! O mundo foi criado tendo em vista Israel, pois o mesmo ato criador de Deus que dominara o Oceano primordial é o ato que expõe o dorso do Mar “Limítrofe” (hebraico Sof)! Segundo a concepção antiga, o Mar Vermelho (egípcio Suf) seria a borda do mundo!

Uma comparação bem próxima a nós: os combatentes da Batalha de Guararapes (brancos, negros e índios) nunca imaginariam que, séculos depois, seriam considerados os fundadores do Exército Brasileiro e que à sua época teria nascido a alma brasileira, fusão das três raças. Ou seja, a batalha ocorreu de fato, mas seu significado só foi reconhecido e aplicado muito posteriormente. Isso é história? Isso é mito?

Geralmente, a mitologia conta a biografia dos deuses: seu nascimento (teogonia) e suas lutas (teomaquia). Não é o caso da Bíblia, em que Deus antecede as vicissitudes do cosmo e impera sobre ele. Se a cosmogonia bíblica fosse uma teogonia, não seria uma criação, mas uma emanação. A diferença entre essas concepções é grande.

Emanação significa que o mundo é “magma”, na expressão de Cornelius Castoriadis, cuja ordem lhe vem imposta de fora. Para Platão, seria a obra do demiurgo sobre o caos; para Aristóteles, influxo do motor imóvel.

Criação significa afirmar que Deus não precisa de causalidade material para atuar. Significa que seu Logos possibilita e funda a existência. Significa que a natureza não é só natureza, mas criação, isto é, está fundamentada na lógica do criador. A ciência moderna é fruto dessa fé. Não haveria ciência moderna sem o cristianismo, pois a razão sem fé enlouquece, fica cega.

Assim, para o homem moderno em sua cegueira, quem põe ordem no caos “sou eu”, pois num mundo pluriversal e fragmentário, a verdade é criada “por mim” e “para mim”. Adorno e Horkheimer analisaram o Iluminismo e reconhecem que ele se nutre da divinização da verdade. Contudo, se a verdade é um construto humano, não pode haver luz. Se não há metafísica, se não há fé, se não há transcendência, a razão é irracional.

O reducionismo da razão implica afirmar que só seria racional o que pode ser reproduzido como experiência. Assim, renuncia-se à verdade para ficar com a certeza, mas morre-se na dúvida cartesiana.

A missão da razão é abeirar-se ao mistério, não negá-lo.

Se não acreditardes, não compreendereis! (cf. Is 7, 9)
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