14 de ago de 2009

A Clínica da Rua Dona Mariana


Esses meus vizinhos…
Até ontem, todo dia de manhã cedo eu via duas cenas nuas e cruas a poucos metros da minha casa.
Primeiramente, uma senhora alimentando os gatos da vizinhança (e que deixa a todos de cabelo em pé, pelo barulho que os felinos proporcionam ao longo da madrugada).
Em seguida, algumas garotas que se dirigiam à clínica de aborto (o que também deixava a vizinhança sensibilizada).

O que fazer com os gatos?…
O pessoal da rua já sugeriu de tudo. Uns querem pô-los num saco e jogá-los em Santa Cruz. Outros preferem envenená-los. Algum mais cruel já aventou a hipótese de torturá-los no recôndito do seu quarto.
Seria crime maltratar os animais? Mas e se o sujeito dissecar o bichinho privadamente, sem anestesia e sem ninguém ver?

O que fazer com as garotas?…
Todo dia eu cruzava pela rua com uma menina que ia para a clínica. Eu tinha de passar pela calçada e  via, em sua cara, que ela iria fazer aborto: fronte lívida, cenho franzido, olhos arregalados. Ao seu lado, ora era um senhor mais velho com pinta de resignado, ora era um garotão com ar de inconsequente.

A clínica é cínica
Ontem a polícia bateu lá e levou preso num ônibus um monte de gente. Saiu no jornal que houve muita investigação. Apesar de todos saberem que na Dona Mariana havia uma clínica há décadas. Alguém aventou a hipótese de que neste mês não pagaram a propina e então ocorreu a batida. Mas isso é intriga da oposição.
Eles se denominavam "Clínica Santo André". Por quê? Lá dentro havia um crucifixo na parede. Para quê?
Engraçado é que, no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, os crucifixos foram retirados pelo seu novo presidente, o maçom Luiz Zveiter.
Ou seja: no tribunal não se deve recordar aos juízes o perigo de uma execução injusta representada pelo Cristo morto. E na clínica, o crucifixo serve para alertar: "aqui matamos o Filho".

Aborto e opinião pública
Logo que o assunto foi noticiado, começaram as discussões a respeito de direitos, laicidade, liberdade, salubridade.

Teço observações:

1) A respeito da legislação vigente:
- No Brasil, o aborto é CRIME em todos os casos, mas não é PENALIZADO em dois deles. Isto é assim porque o legislador entendeu que muitas mulheres o realizam sob pressão e acabam sendo mais vítimas que algozes.
- A lei nesse sentido é falha: o médico não está sob pressão e sabe muito bem o que está fazendo. Ele deveria ser punido.
- O caso de preservação da saúde da mulher foi mal tipificado, pois inexiste. O que há são ações de duplo efeito (extração de útero por exemplo). Como não cabe à lei moderar as intenções, não há como um juiz avaliar se um médico realiza esses procedimentos terapêuticos com má ou boa intenção.

2) Quanto à campanha de legalização:
- Querer ampliar as exceções relativiza o delito e esvazia a lei de seu conteúdo pedagógico.
- O Estado não existe para legalizar e chancelar o que já se pratica, mas para ajudar as pessoas a alcançarem seus fins, dentro dos limites da lei. Do contrário, a corrupção no Congresso deveria virar lei!

3) A respeito da opinião religiosa:
- Aborto não tem nada a ver com religião. Várias religiões não versam sobre sua moralidade.
- Que a Igreja Católica seja contra é mera coincidência. Ainda bem que alguma instituição tem as ideias no lugar quando a sociedade está desvairada.

Aborto e âmbito privado
Um argumento recorrente é que a íntima e dolorosa decisão de uma mulher fazer um aborto estaria fora da alçada pública.
Lembremos do gatinho: se eu, em foro privado, o estripasse escondido no meu quarto, estaria fazendo algo errado. E se a polícia batesse em minha casa, eu ficaria em maus lençóis.
Então: por que a sociedade aceita que um ser humano seja massacrado, mas um animal não?

Só para não dizerem que me faltou argumento de autoridade:
"Aborto é coisa de Jack, o estripador" (Nelson Rodrigues)
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