21 de out de 2012

A chamada de Abraão

Conforme prometi por ocasião do início do Ano da Fé, passarei a comentar acerca de alguns personagens importantes para nossa compreensão da fé como resposta do homem aos apelos de Deus.

Começo obrigatório é evocar a figura de Abraão, nosso pai na fé, de quem já pude escrever alguma coisa. A descrição abaixo baseia-se numa harmonização de dados bíblicos, historiográficos e arqueológicos.

***

Para fazer frente à vaga de invasores arianos, Hammurabi (1728-1686 a.C.) buscou a unificação dos semitas amorreus: pôs Babilônia por capital, propugnou Marduc como único deus, promulgou suas “decisões de justiça” (um código moral talhado em pedra) e sufocou as insurreições locais. Por essa causa, Mári seria totalmente destruída e a região de Ur seria perturbada por agitações políticas e bélicas, até a deportação de seus habitantes.

Nessa época, nos arredores de Ur vivia acampado, à maneira dos seminômades, um clã arameu oriundo de Harã, cidade da Mesopotâmia Setentrional. Taré, o patriarca, tinha três filhos: Abrão, Nacor e Sarai. A família praticava a agricultura, mas se deslocava a cada estação, com sua pequena grei e seus jumentinhos, às zonas incultas em que as chuvas abundavam e os poços de água eram mais numerosos. Serviam às divindades sumérias locais, semelhantes às de Harã: o deus Lua Sin e a deusa Lua Nin‑gal.

Taré gerou outro filho, Arã, o qual morreu lá mesmo em Ur, talvez por conta das pilhagens sofridas pela cidade, deixando órfãos seus filhos Melca, Jesca e Lot. Melca foi desposada por Nacor e Abrão adotou seu sobrinho Lot, pois sua esposa e meia‑irmã Sarai era estéril.

Como a cidade não garantia segurança e a religião do novo império estava sendo imposta, Taré sentiu‑se forçado a deixar Ur.

A partir daí Abrão começou a ouvir a palavra do Deus vivo, que o arrancava da sua terra, do seu povo e, em certo sentido, de si próprio. Contudo, ainda era meramente uma palavra que o interpelava desde as vicissitudes da vida aldeã: acaso até Ilu, o abstrato Deus supremo dos semitas, que na mitologia se hipostasiava em Ea, pai de Marduc, deveria inclinar‑se diante do próprio filho, que segundo a vontade de um imperador usurparia o posto da única suprema divindade? A partir de então, Abrão abandonou os ritos de seus ancestrais que honravam múltiplas divindades e passou a adorar o Deus único do céu.

Então toda a família partiu rumo ao norte com seus rebanhos, seguindo o curso do Eufrates, cobrindo um percurso de mais de mil quilômetros, com o intuito de depois chegar a Canaã, já fora do domínio babilônico.

Chegaram à sua cidade natal, Harã, em Padã‑Aram. O empório babilônico — entroncamento obrigatório das caravanas nas colinas próximas aos Montes Tauros —, que tinha bons pastos irrigados, de flora exuberante, apresentou‑se‑lhes, contudo, muito propício para a instalação. Lá se adorava o deus Lua Nanna.

Mas em Harã Abrão ouviu uma chamada explícita e exigente de Deus, o início do desígnio divino salvador, que lhe reclamou uma resposta de fé: “Deixa tua terra, tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que eu te mostrar. Farei de ti uma grande nação; eu te abençoarei e exaltarei o teu nome, e tu serás uma fonte de bênçãos. Abençoarei aqueles que te abençoarem, e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem; todas as famílias da terra serão benditas em ti” (Gn 12,1ss).

Tomando a esposa e o sobrinho Lot, seguiu ao sul, indo buscar na terra dos cananeus mais do que uma pátria, a voz que o chamava. Passando por Damasco, onde talvez tenha encontrado seu mais fiel e antigo criado, Eleazar, atravessou o Jordão junto ao Jaboc.

Morou no Negueb, imensa região de estepe, própria para pastagem periódica, junto ao carvalho de Mambré, passando por Siquém e Betel, onde erigira um altar. Os altares de terra ou pedras, que em geral serviam para oferecer sacrifícios, tornaram‑se também monumentos comemorativos dessas experiências religiosas dos patriarcas. Siquém ficaria na memória como o primeiro santuário onde Abrão recebe a promessa de posse da terra em Canaã.

Mas além das dificuldades impostas pelos povos locais a respeito de pastagens, poços d’água e assaltos, parecia que até o Deus da sua vocação não lhe facilitava as coisas: a fome o levou a uma estadia no Egito, que quase lhe custou a esposa e ainda a própria vida, quando o faraó quis fazer de Sarai sua concubina. Essas viagens ao Egito eram comuns naquela época e sabe‑se que um tal de Ibsha com seu clã inquietou os funcionário da XII dinastia. Por intervenção divina, Abrão voltaria a Canaã com Sarai sã e salva. Provavelmente traria de lá Agar, a escrava.

Chegando de novo a Betel, o novo clã de Abrão já sofre sua primeira divisão, indo seu sobrinho Lot habitar junto ao Mar Morto, próximo às cinco cidades cananeias não muito afamadas devido à imoralidade e corrupção geral: Sodoma, Gomorra, Adama, Seboim e Segor.

Após tantos reveses, Deus lhe recompensa prometendo‑lhe a posse da terra de Canaã. Com a bênção divina e com a terra prometida, falta-lhe apenas uma descendência.
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