9 de out de 2012

Quatro olhares sobre o quotidiano

Um tema relevante para o atual diálogo entre crentes e descrentes é o conteúdo religioso da banalidade.

Tanto o materialismo de vidas fechadas à transcendência, quanto o desencanto de vidas em constante evasão, produzem uma opacidade que torna difícil ver a Deus por trás das coisas.

1) Segundo Eurípides, o quotidiano é exatamente aquilo que o herói abandona em busca da aventura. Na mesma linha, ainda hoje o quotidiano em geral é tido como uma realidade alienante.

2) Para Heidegger, já que a temporalidade seria a marca do nosso ser, a autenticidade está em viver para a morte, desprendido das variedades mundanas. Cria-se assim um dilema entre a autenticidade e a quotidianidade.

Edith Stein criticou essa “tristeza nocional” diante do banal, pois equivale a pôr o homem no centro do mundo; pior, significa negar ao homem uma fonte que o transcenda, para além da temporalidade.

3) Há, contudo, sociólogos como Alfred Schutz, Peter Berger e Thomas Luckman, que avaliam positivamente a rotina. Veem no tecido das vicissitudes quotidianas o setor mais real das experiências sociais.

4) No âmbito teológico, Karl Rahner esboçou a experiência de graça que supõe a existência quotidiana. Bernhard Casper fundou a espiritualidade do dia-a-dia na experiência da gratidão, no valor cooperante do trabalho e no anelo de redenção. Leo cardeal Scheffczyk viu no dinamismo da vida diária um canal para o progresso da imagem de Deus no homem.

Mas, acima de todos, São Josemaria criou uma autêntica e completa teologia do trabalho como meio para se alcançar a perfeição da caridade:

Eu lhes asseguro, meus filhos,
que quando um cristão desempenha com amor
a mais intranscendente das ações diárias,
está desempenhando algo
donde transborda a transcendência de Deus.
Por isso tenho repetido, com insistente martelar,
que a vocação cristã consiste
em transformar em poesia heroica a prosa de cada dia.
Na linha do horizonte, meus filhos,
parecem unir-se o céu e a terra.
Mas não: onde de verdade se juntam é no coração,
quando se vive santamente a vida diária...

E você, como encara o dia a dia?
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