12 de out de 2010

Amor em disjuntiva

Ἔρος designa o fogo ardente e o desejo unitivo que arrasta o homem para Deus. Indica o êxtase amoroso, conforme a descrição do Pseudo-Dionísio: “O amor de Deus é estático, porque não permite que os amantes permaneçam em si mesmos, mas os converte em posse dos amados” (De divinis nominibus, IV, 13).

Para alguns poderá parecer estranho falar de amor erótico por Deus. Mais: há quem não consiga compatibilizar o erotismo com o amor oblativo nem a nível humano, coisa bem palpável na letra da música Amor e Sexo, da Rita Lee.

Entre tantos fatores que favoreceram esse tipo de entendimento, encontram-se em pontos extremos: a obra mais famosa de Anders Nygren e certas visões defendidas por Jacques Lacan.

Anders Nygren (1890-1978)

Nygren tornou-se eminente professor da Universidade de Lund, na Suécia, e depois bispo luterano dessa cidade. Também foi presidente da Federação Luterana Mundial.  Filósofo da religião, exegeta habilidoso, historiador versátil, teólogo genial e pastor sensível, Nygren se valeu da filosofia kantiana em sua teologia. Ativo defensor do ecumenismo e ferrenho opositor do nazismo, fez-se internacionalmente reconhecido por seu livro Agape and Eros. Essa excelente obra, entretanto, não representa o cerne de seu pensamento.

No livro, Nygren explica que, segundo Platão, eros é o amor sedento do Belo transcendente, o que eleva o humano para o divino, o único capaz de saciar a ansiedade da alma aprisionada na matéria; mas, porquanto busca o êxtase da união, seria amor egocêntrico, cobiça. Com o correr dos séculos, o significado de eros teria sido abaixado até assumir notas meramente sexuais.

Jacques Lacan (1901-1981)

No lado diametralmente oposto, Lacan acusava o cristianismo de ter pervertido a vida e o amor. Segundo o psicanalista parisiense, a limitação da erótica à procriação faz do corpo vivo um corpo morto; e a fé na ressurreição da carne faz do corpo morto um corpo vivo.

Diferentemente de Nygren, cujas conclusões podem até ser combatidas com argumentos, Lacan é tão carente de rigor que dificulta a refutação do seu complexo sistema. Basta dizer que a ideia de que a Igreja reduz o matrimônio à procriação é um falso clichê inúmeras vezes repetido. Por outro lado, causa enorme estranheza a conexão feita por ele entre esse tema moral e a questão da sorte póstuma do corpo.

Abdico de abordar tamanha falta de senso e de conhecimento elementar da doutrina cristã. Em breve, porém, pretendo abordar a feliz solução que recentemente se deu à disjuntiva eros e agape.
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