16 de out de 2010

Descrição de raros sentimentos

A dor ausente

Há perdas que ocorrem antes de que ocorram. E quando chegam encontram o velório vazio, o túmulo abandonado. Nem uma lágrima, nem um vagido. — Falta dor, falta amor? Não: é que, de tão pungente, sobrepuja qualquer clamor.

Desiderato inexitente

Existem saudades de fatos não ocorridos. Sente-se falta do céu que não se viu. De-sidério. Desbotado céu. Sem espaço sideral. “Nosso céu tem mais estrelas”, entende? Memória de terra não palmilhada, de águas não vertidas, de beijo não colhido, de viagens nem planejadas.

Fadiga da alma

Vagas imponentes que se chocam a recifes inexpugnáveis. A alma, como frágil embarcação, singra lançada pelas ondas de encontro aos diques. Dilacerada, exangue, retesada, qual vela açoitada pelo vendaval, rende-se às forças contrárias, entre vontades contraditórias, entre vícios e virtudes, inclinações e convicções, entendimentos e concessões, paixões e razões. Prefere abdicar, esquecer, suspender a batalha a resolvê-la. Renuncia ao veredito por medo às consequências.

O gosto da contravenção

Como Agostinho no furto, a impulsividade é famélica de curiosidade. Crente de que a autonomia supõe uma dimensão dramática, o adicto de contravenções deseja desfrutar a profundeza da malícia como se fosse o bem que falta para sua liberdade alcançar a perfeição.
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