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18 de dez. de 2012

Três graus de silêncio

Voltar a si

Significa a cessação de todas as fantasias, imagens e figuras sensíveis. É o silêncio de todas as coisas criadas.

Seu fruto é o domínio das paixões, alheias então a quaisquer movimentos exteriores.

Entrar em si

Refere-se ao silêncio interior, de si mesmo.

Desperta a atenção para a presença de Deus e os seus mistérios. Torna mais metido em Deus do que em si mesmo.

Subir em si

Consiste na união transformante, em adormecer embriagado na alcova do amor, esquecido da fraqueza da própria condição e confiante do eudeusamento que lhe é concedido.

***
A riqueza do espírito é o raciocínio e conduz à confusão.
A pobreza da oração é o amor e conduz à união.

15 de dez. de 2012

Caminho do dia e caminho da noite

A escolástica convém mais ao entendimento; a mística, à vontade.

A primeira via é positiva e luminosa, pois conduz a Deus através da captação da qualidade das coisas, enchendo a mente de razões e desejo de buscar seu autor. Porque passa pelo conhecimento do criado, a via escolástica rebaixa o olhar para a terra e o amplia na pluralidade do que se contempla.

Por outro lado, a via mística, negativa e obscura, embora mais exigente pelo esforço de recolhimento dos sentidos e pela renúncia que supõe, é mais acessível e universal, pois é a via do querer, e mesmo uma pessoa simples e ignorante pode amar.

Por uma eminência maravilhosa, nega-se a Deus as parcas perfeições das criaturas com a afirmação de perfeição mais soberana; porque se vemos um leão forte, não dizemos que Deus é forte, mas a própria fortaleza. Assim, logo cessa o trabalho da inteligência, transformando-se a reflexão em admiração, e tal surpresa em atração que dispensa o pensamento.

E, de fato, é melhor aqui não pensar, para que tanta luz não cegue os olhos da mente. Pois se a finalidade que se busca é a união, porque frear o amor com considerações intelectuais?

Fechem-se os olhos para ver melhor! Tal noite é mais clara que o dia!

4 de dez. de 2012

Dilema espiritual

Ângelus (1857–59) de Jean-François Millet
É viável fazer oração e trabalhar ao mesmo tempo? É possível ter vida de oração e simultaneamente estar aberto às realidades mundanas e temporais?

Entendendo-se a oração como uma conexão vital e existencial com Deus, e uma forma de reconhecê-lo como o centro de toda a realidade, para um cristão que vive no mundo esse movimento para Deus implica, forçosamente, reconhecer que o mundo se integra na relação de Deus com ele e na sua relação com Deus. Ou seja: Deus lhe fala através do mundo e ele lhe responde através do mundo.

Isso parece contradizer uma longa tradição segundo a qual o recolhimento interior e a pobreza de espírito são condições ineludíveis para o diálogo com Deus. Ora, a oração requer, certamente, ir ao fundo e inclusive cortar o ritmo do acontecer quotidiano. Pois a fé só se sedimenta na alma e o sentido da presença de Deus só se faz mais intenso quando há serenidade de ânimo, nos momentos de quietude e silêncio.

Descortina-se, portanto, um caminho alternativo à fuga do mundo: é a via de aprofundar-se na realidade secular e temporal até perceber, com plenitude, seu sentido. Então se capta, com contornos mais claros, a missão que Deus outorga a cada um a respeito deste mundo.

27 de nov. de 2012

Lembrar de cor

A memória sensitiva é como um armazém. Do seu arquivo tira a imaginação tudo aquilo que estimula a vontade e provoca a inteligência.

A memória intelectiva, pelo contrário, ignora os discursos e espicaça diretamente o coração.

Aplicada à oração, a memória sensitiva estimula à gratidão pelos benefícios recebidos de Deus.

Por sua vez, a memória intelectiva converte-se no orante em potência de evocação. É o canal dos suspiros e anelos. A virtude da esperança é para ela um fogo purificador.

25 de jul. de 2012

Parece que há quatro tipos de ateus

Num mundo de rótulos ideologicamente atribuídos e de tribos urbanas minoritárias que demandam por espaço social, concedo-me a liberdade poética de fazer a taxonomia da irreligiosidade, tão agressiva quanto tola, que nos avassala. E assim, no reino do ateísmo, enumero quatro filos.

A grande maioria dos descrentes é a dos ateus práticos, isto é, a daqueles que, sem assumir a tese da inexistência do Absoluto, vivem do contingente como se no efêmero encontrassem a solidez da própria vida. Entrar a fazer parte desse grupo é uma tentação muito próxima para os cristãos à deriva

Em segundo lugar, vêm os ateus teóricos militantes. Multiplicam-se na mesma proporção que cresce o laicismo. Transformam a laicidade do Estado, ou a autonomia da ciência, ou as promessas da tecnologia, ou as reivindicações ideológicas, ou quaisquer outras metanarrativas, numa espécie de religião. São extremamente “clericais”, porquanto veneram bezerros de ouro feitos pelas próprias mãos, e prestam vassalagem a tristes gurus que pontificam sobre a areia movediça de vãs filosofias. A fileira desses ateus costuma ser engrossada por pessoas pouco afeitas ao estudo e com pouca capacidade especulativa, que confundem verniz cultural e ciência de jornal com erudição e sabedoria. 

Em terceiro lugar estão os agnósticos. Não têm a temeridade dos segundos para negar a existência de Deus, nem a desfaçatez dos primeiros para assumir uma vida frívola sem pensar nas consequências. Por isso, suspendem o juízo quanto à questão crucial de Deus, disfarçando a frivolidade com a máscara da ponderação e a temeridade com a máscara da tolerância. A tal grupo sentem-se atraídos aqueles que, diante do mistério de Deus — o qual sem dúvida supera a razão humana —, preferem negá-lo a aceitá-lo maior que sua própria capacidade intelectual.

Por último, existem os ateus “deslocados” ou “atormentados”. É um grupo bizarro, que pretende não ser confundido com os anteriores. Ele nasce da ganga das defecções. Advém do insucesso ascético e do desencanto espiritual. Assemelha-se à canalha que tenta limpar o local do crime. Sem dúvida, Deus não pode ser confundido com as imagens nem com os sentimentos que tenhamos dele, mas o fato de que a piedade autêntica não seja uma “piedade sensível” não implica que não deva ser uma “piedade sentida”.

Os primeiros ateus rezam ao próprio ventre; os segundos, aos próprios bofes; os terceiros, à própria vaidade; os últimos, ao próprio orgulho. Nenhum reza a Deus. Os ídolos que derrubam são o simulacro dos próprios fracassos. Tais posturas só podem ser superadas pela verdadeira oração.

Mas a verdadeira oração exige penitência:

Esse Cristo que tu vês não é Jesus. — Será, quando muito, a triste imagem que podem formar teus olhos turvos… — Purifica‑te. Clarifica o teu olhar com a humildade e a penitência. Depois… não te hão de faltar as luzes límpidas do Amor. E terás uma visão perfeita. A tua imagem será realmente a sua: Ele! (São Josemaria, Caminho, nº 212). 

***

Seja franco:
A quem você tem rezado? 
Quanto você tem rezado? 
Como você tem rezado?

22 de mar. de 2012

Quatro estágios do exílio espiritual

O exílio do homem contemporâneo começa com o lema “Cristo sim, a Igreja não”. O que supusera fratura eclesiológica (no caso do pentecostalismo) inclui também agora uma fratura teológica com base em novas revelações (mormonismo, adventismo, kardecismo, etc.).

O segundo passo é a declaração “Deus sim, Cristo não”, oriunda da Revolução Francesa, que relativiza o papel salvífico de Jesus, ainda mais com a influência das religiões orientais e de cultos orientalistas.

O terceiro estágio é alcançado com a negação de um Deus pessoal: “religião sim, Deus não”. Ou seja, o desenvolvimento de um pretenso potencial divino dentro do homem passa a ser o objetivo da “espiritualidade”. Nesse sentido, vide a cientologia.

O passo final é a negação do próprio sentido religioso: “sacro sim, religião não”. O contato com o sagrado é dissociado da piedade, da religiosidade; a reverência e o abandono são substituídos pelo domínio e a manipulação da esfera sacral. Isso se constata na magia e no espiritismo, porém é mais acentuado na moda New Age, que é mais uma network do que uma seita ou um movimento.

28 de out. de 2011

Seis atitudes contemplativas

A atitude contemplativa comporta seis aspectos:

I. Dedicação plena ao objeto dos olhares, sem instrumentalizá-lo.

II. Aplicar-se ao fim, desprendendo-se dos meios.

III. Visar ao objeto como fim em si mesmo. Equivale a admirar desinteressadamente: não é o mesmo que olhar uma vitrine. Do contrário, seríamos superficiais e vaidosos.

IV. Fruir do objeto hoje e agora, sem tensão pelo futuro e sem desejo de fazer mais nada.

V. Permanecer. Não é costume dizer-se na praia: “eu poderia contemplar esse mar a vida inteira”? Afinal, ele é imenso e nunca o captamos totalmente, sempre tem novidade e beleza.

VI. Reciprocidade. Deixar-se contemplar.

21 de out. de 2011

Deus é mistério, não enigma

Os homens desejam com ardor as coisas belas: gostam de saborear as grandes vitórias, de contemplar as paisagens, as obras sublimes, de se embevecerem com o rosto da pessoa amada, de se saciarem numa fonte ou de amor. Todos esses desejos se reduzem a um: “Ah, se eu pudesse ver a felicidade infinita! Ah, se eu pudesse ver a Deus!”, ainda que muitos homens não percebam a correlação das criaturas que o atraem com o seu criador.

O filósofo Ugo Spirito, falecido em 1979, dizia que Deus lhe faltava — ainda que estivesse convicto da sua existência — no sentido de que não sabia dar um rosto, refletindo aquele desejo de São Filipe que deixou a Cristo aborrecido: “Senhor, mostra‑nos o Pai e isso nos basta”. O Mestre lhe respondeu na última Ceia: “Filipe, há tanto tempo estou convosco e ainda não me conheces? Quem me viu viu o Pai” (cf. Jo 14,8-11).

O que é ver a Deus? O que significa pronunciar seu nome? — No mínimo, algo tremendo. Vejamos quatro exemplos:

1. São Tomás, depois de contemplar a Cristo num êxtase, diria ao seu fiel secretário Reginaldo, antes de morrer: “Tudo é palha perto do que vi”!

2. “E Moisés disse a YHWH: ‘Eis que tu me dizes: Faze subir a este povo; porém não me dizes quem enviarás comigo!’ Respondeu-lhe YHWH: ‘Meu Rosto irá contigo, e eu te descansarei’. Moisés disse ainda: ‘Rogo-te que me mostres a tua glória’. Respondeu-lhe YHWH: ‘Não poderás ver a minha face, porquanto homem nenhum pode ver a minha face e viver’” (Ex 33,12a.14.18.20).

3. Isaías, porém, veria a glória divina e se desesperaria: “Ai de mim… porque meus olhos viram YHWH!” (Is 6,5)

4. Jacó, por sua vez, comovera-se com um dom semelhante: “Jacó chamou ao lugar Fanuel — Rosto de Deus —, dizendo: ‘Vi Deus face a face, e a minha vida foi poupada” (Gn 32,30).

Conhecer a Deus não é, e nunca poderá ser, alcançar uma ideia. Se assim fosse, rebaixaríamos Deus ao nível do nosso pensamento e poderia ser misturado com as outras ideias do nosso mundo mental. Conhecer Deus é advertir a presença desse Pai vivo e atuante em nossa vida, perante o qual temos de tomar alguma atitude na vida.

O homem, quando se situa frente à realidade, percebe que o ser não se esgota no que sente, mas se apresenta como algo transcendente. Portanto, chegamos ao transcendente através do mundo, mas logo nos damos conta que o transcendente é mais real e perene que as coisas que sentimos (relativas e passageiras).

Esta descoberta é impactante. “O que é isto” — escrevia S. Agostinho — “que me traspassa de luz e bate no meu coração sem feri‑lo? Espanto‑me, porque não sou nada semelhante a isso, e me orgulho, porque sou semelhante” (Confissões, XI, 9, 1). A religião é justamente a resposta humana perante essa realidade que o ultrapassa. Mas nós cristãos, sabemos que o que o homem percebe não é um Deus-enigma, mas Deus-Pai.

3 de set. de 2011

Pecadores genuínos


Conclusão da conferência dada por André Louf, em que falava das influências negativas que pesam sobre a atual cultura religiosa.

Mais do que moral

O Espírito Santo procura expressar-se nas circunstâncias concretas, primeiramente na espontaneidade, liberdade e alegria. Em segundo lugar, por seus frutos. Por isso, a boa pedagogia moral auxilia a busca da experiência interior que torna sensível à ação do Paráclito. Os esquemas morais, porém, enquadram o comportamento humano num rol idealizado de regras, padrão ao qual o homem é convidado a aderir.

É claro que as normas éticas são necessárias; mas também convém reconhecer seus riscos, em particular o de separarem disposição interior de ação exterior. Isso resulta em dois perigos ulteriores: a quem não consegue manter o padrão moral, tornar-se cativo de uma espiral de culpabilidade; a quem tem consciência fácil, viver numa aparente perfeição que falsifica a liberdade de espírito.

Fazemos hoje muita confusão entre pecado e vida interior. Há pecadores que desistem da interioridade voltada para Deus; há pecadores que sonham com uma moralidade sem pecado; há justos incuráveis que olham de cima os pecadores. Esses três tipos são incapazes de aceder ao templo interior.

Os pecadores genuínos, por quem o Pai anela como pelo filho pródigo, são os reconciliados com a própria fraqueza, que se apoiam apenas na misericórdia de Deus. No perdão divino, seus corações são transfigurados e o pecado se torna uma porta para as profundezas do coração que conduzem ao conhecimento do Pai.

24 de jul. de 2011

Atalhos do coração, descaminhos espirituais

Caminhos da humildade

Além da humildade diante da própria miséria, há outros lugares e momentos na vida em que nos aproximamos dos produtivos mananciais interiores da oração. Dentre esses espaços privilegiados destaca-se a escuta da Palavra divina na Escritura, a qual tem o poder de chacoalhar, despertar e perpassar o coração, abrindo-o para que a oração jorre e se eleve.

Outras ocasiões favoráveis são: a enfermidade, a morte de um ente próximo, as calúnias, as tribulações, as privações; embora o coração se dilate mais por ser humilde do que por ser humilhado.

Na encruzilhada do coração

Encontramos todos esses momentos oportunos reunidos na Liturgia. A Igreja, perita em corações, soube harmonizar os ofícios dos templos de pedra com o “culto racional” (Rm 12,1: τὴν λογικὴν λατρείαν) dos corações de carne, ensinando-nos a rezar no contexto das nossas vidas e, inclusive, apesar desse contexto.

Mas os filhos da Igreja também são filhos da cultura contemporânea, e seus desejos conflitosos lhes causam não poucas dificuldades interiores. O bulício exterior ensurdece o ouvido interior, impedindo o acesso à voz do homem escondido do coração.

Obstáculos do caminho

Três são as influências negativas que pesam sobre a atual cultura religiosa:
  1. A redução do Evangelho a uma ideologia, orientando-o mais a padrões do que à vida.
  2. A redução do Evangelho a um ativismo, alienando da vida espiritual e transformando o anúncio em marketing.
  3. A redução do Evangelho à ética, cujo esquema moral impede a experiência interior.
O efeito comum de tais reducionismos é consagrar o homem exterior em detrimento do homem interior, é conferir caráter cultual e dimensão mística àquilo que ofusca a própria voz do coração.

2 de mai. de 2011

Castelo místico

Trânsito espiral, de Remedios Varo
Tradução livre de uma conferência dada por André Louf.

Metapsicologia

O coração é donde brota a oração (CCE 2562). Mesmo sem consciência, no coração de cada cristão o Espírito sempre reza “Abba, ó Pai” (Rm 8,26).

A oração pessoal é, portanto, fazer calar o homem exterior para poder ouvir a prece que já está sendo rezada em nós pelo homem escondido do coração. Quaisquer métodos e técnicas de oração, ou disciplina que fomente o silêncio interior, visam a tornar consciente a oração inconsciente.

Esse nível de inconsciência é mais profundo do que o estudado pela psicologia moderna, pois toca o espírito, isto é, o cume da alma. É algo metapsicológico, pois é terreno de Deus, domus interior em que a oração não cessa, templum interius em que habita a Trindade.

Repente, gradação, gratuidade

Se grande parte do tempo não reparamos nessa “liturgia interior”, às vezes o véu é descerrado e uma iluminação repentina nos clarifica aspectos ocultos da nossa existência.

Outras vezes, porém, a tomada de consciência  é um processo gradativo que, chegando à tona, desperta a sensibilidade para o “sentimento  acima de todos os sentimentos”, na expressão do Bem-aventurado Jan van Ruusbroek.

Embora haja circunstâncias que favoreçam esse processo, como o silêncio, a simplicidade e o ascetismo, a oração cristã nunca é determinada por tais preparações. A oração é totalmente gratuita, mesmo quando precisamos perseverar em sua tentativa.

Ainda há outro caminho, mais cruciante.

Coração apiloado

É perseverando na aridez e na crise — quando nossos esforços se manifestam infrutíferos — que experimentamos nossa fraqueza e reconhecemos nossa frágil condição.

Confusão e dúvida, διατριβή τὲς καρδίας, contritio cordis, coração partido, pulverizado, pobre: tal é o salário do orante. Qual é a tarefa do homem nesse processo, senão a humildade? Diz Isaac de Nínive:

Acredita-me, meu irmão, tu não compreendeste ainda o poder da tentação, nem a sutileza de suas artes. Um dia a experiência to ensinará e verás como uma criança que não mais sabe o que olhar. Todo o teu conhecimento será nada mais que confusão, como o daquela pequena criança. Teu espírito, que parecia estar tão ancorado em Deus, teu conhecimento preciso, teu equilibrado pensamento do mundo, tudo será submergido num oceano de dúvida. Somente uma coisa poderá ajudar-te a vencê-lo, a saber, a humildade.

Eis uma pedagogia dolorosa. Não é masoquismo trilhar tal caminho, antes vem a ser um convite para ingressar na vida verdadeira, mediante a transformação do coração de pedra no coração de carne.

A vitória da humildade

Se a tentação conduz à queda, não o é por falta de generosidade e empenho na luta, mas por falta de humildade. Ora, a pior tentação é a do desespero que sucede ao pecado. Assemelha-se a uma picada de escorpião a atormentar o coração. Porém, a humildade também é capaz de vencê-lo e libertar a memória desse transe.

vitória da humildade, que nos traz à nossa mais profunda interioridade, não pode ser predita, pois ocorre quando não estamos mais no controle. Notamos então uma nova sensibilidade, uma paz indefectível, uma unidade interior, a oração brotando da própria fonte.

O pecado, que aparenta ser o triunfo do “homem exterior”, oferece assim a oportunidade de descobrir a curta e pequena ponte que conduz ao Reino escondido dentro de nós, no centro do “castelo interior”.

29 de abr. de 2011

Na cripta do coração


O Sirácida sentencia: “Deulhes discernimento, língua, olhos, ouvidos e um coração para pensar” (Eclo 17,6). Ora, do coração (לֵב) — que é o “fundo do ser” (Jr 31,33) — procedem os pensamentos, assim como o movimento das paixões e as decisões morais (cf. CCE 368, 1764 e 2517).

“O coração é a casa em que estou, onde moro (segundo a expressão semítica ou bíblica: aonde eu ‘desço’). Ele é o nosso centro escondido, inatingível pela razão e por outra pessoa; só o Espírito de Deus pode sondá‑lo e conhecê‑lo. Ele é o lugar da decisão, no mais profundo de nossas tendências psíquicas. É o lugar da verdade, onde escolhemos a vida ou a morte. É o lugar do encontro, pois, à imagem de Deus, vivemos em relação; é o lugar da Aliança” (CCE 2563).

O coração é o cofre donde sai a vida (Pr 4,23), o bem e o mal (Lc 6,45).

O coração pode ser fraco (Gn 6,5), de pedra (Ex 7,3), de carne (Ez 11,19), brando e humilde (2Rs 22,19), contrito (Sl 51[50],17), confortado (Sl 147,3), incircunciso (Lv 26,41), receptivo (Pr 3,3), puro (Mt 5,8), meditativo (Lc 2,19), abrasado (Lc 24,32).

Mais: o coração é um templo (1Cor 6,19), no qual se oficia uma solene liturgia (Ef 5,19), e cujo oficiante é “o homem escondido do coração” (1Pd 3,4: ὁ κρυπτὸς τῆς καρδίας ἄνθρωπος).

Ora, contra tal homem escondido alça-se o “nosso homem exterior ” (2Cor 4, 16: ἔξω ἡμῶν ἄνθρωπος), a fim de lhe oferecer combate.

27 de mar. de 2011

Onfalópsicos sem peias


Os onfalópsicos estão à solta. Mais do que barrigas à mostra, isso quer dizer que a preguiça tem sido o álibi dos apáticos.

Os onfalópsicos eram membros de uma antiga seita quietista dos séculos XI e XII, cujos sectários se acreditavam iluminados e achavam que, contemplando e fixando o umbigo, podiam comunicar-se com a divindade e ver aquilo a que chamavam luz do Tabor.

O quietismo é uma forma de misticismo que sustenta poder a alma, conservando-se na mais total passividade de coração e de atitudes, atingir um estado contínuo de amor e de união com Deus.

Por esses tais de “onfalópsicos”, vê-se que o quietismo do século XVII — comum na Espanha, França e Itália de então —, fora uma tentação recorrente ao longo da história. Mesmo hoje, quem não se imagina ingenuamente justo e bom só porque experimenta um sentimento religioso que lhe faz cosquinhas, apesar de levar uma vida em flagrante contradição com o sentido da transcendência?
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