6 de dez de 2010

Tipologia dos silêncios


O bulício atrai, mas levamos grande parte da vida a repelir o silêncio, procurando, sem descanso, os lugares agitados e turbulentos onde ele não impera.

O silêncio permite escutar, mas são poucos os que conseguem morigerar os ímpetos opinativos.

Onde se encerra o pecúlio precioso do silêncio? — No vazio interior, descabido vácuo da mente? Na traiçoeira calmaria que antecede a agressividade de palavras conturbadas?

Silêncios descabidos


Silêncio ignorante em que o insensato habilmente mergulha, engolfado numa profunda taciturnidade que nada significa.

Silêncio de assentimentoqui tacet videtur — de quem cala consente e se omite.

Silêncio administrativo da autoridade débil que prefere evadir a decidir, condescender a governar.

Silêncios calculistas


Silêncio maquiavélico da palavra represada, mas que oportunamente desconcerta o golpe de surpresa no interlocutor, tirando partido daquilo que escutara.

Silêncio irônico que se pratica ao desfrutar, com secreto prazer, o rol de asneiras oriundas de uma alma vazia.

Silêncio esmagador do homem que se considera senhor de si e do próprio destino, e que dispensa aos demais meras partículas de silêncio, por não os achar credores de admiração.

Silêncio mudo, pano de fundo de gestos ambíguos, que não se descobre serem amáveis ou agrestes.

O beijo do silêncio


O verdadeiro silêncio pode ser de dois tipos: a palavra do silêncio ou o silêncio da palavra. São como lábios pelos quais trocamos beijos com o mistério.

Silêncio da palavra é o silêncio místico (de μύω, mudez da boca e oclusão dos olhos) que se concentra no único necessário, que abre os ouvidos, que se recolhe, que apazigua o coração.

Palavra do silêncio é o silêncio de morte, cujo sentido é difícil reconhecer e cuja obscuridade é árdua de aceitar.

Palavra é tempo, silêncio é eternidade.


*****

«Palavra da cruz».
O Verbo emudece, torna-se silêncio de morte,
porque Se «disse» até calar,
nada retendo do que nos devia comunicar.
(…)
O silêncio de Deus prolonga as suas palavras anteriores.
Nestes momentos obscuros,
Ele fala no mistério do seu silêncio.
(Bento XVI, Verbum Domini, n.os 12 e 21).
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