12 de dez de 2010

Bendita gravidez



Agradeceria que, primeiro, você assistisse ao vídeo abaixo. É claro que Maria não contaria a José acerca de sua gravidez por e-mail. De qualquer forma, isso está condizente no contexto dessa brincadeira.



Saltou-me à vista que fosse apresentada Maria informando a gravidez para José. Particularmente, penso que foi o que de fato ocorreu, embora seja mais comum dizerem o contrário. Diversos autores reconhecidos afirmam que Maria, em sua humildade e discrição, não teria informado seu noivo sobre a embaixada do anjo e que José teria ficado alarmado ao vê-la retornar da casa de Isabel com uma barriga de três meses.

Tais autores costumam dizer que José sabia que Maria tinha feito um voto de virgindade e não duvidou em momento algum da integridade de sua noiva. Contudo, decidiu abandoná-la nessa ocasião, já que teria percebido na gravidez a ação de Deus e não se sentia chamado a implicar-se no caso.

Essa explicação pode ser piedosa e tradicional, mas me soa inverossímil. Não me parecem prováveis nem o silêncio de Maria, nem seu voto, nem os motivos alegados para a perplexidade de José. Prefiro compartilhar o entendimento de D. Bernard Orchard OSB.

Antes de apresentar minha justificativa na próxima postagem, gostaria de tecer uns comentários acerca do celibato. Afinal, a virgindade de Maria e José causam não pouca surpresa para o homem moderno, em especial desde a Reforma.

Paradoxalmente, apesar da tese protestante de que o homem e o mundo estão radicalmente corrompidos, os reformadores sempre foram grandes defensores da mundanidade da existência humana frente ao celibato, o sacerdócio e o monacato, mesmo à custa de pôr entre parênteses o ensinamento de Cristo. Com efeito, como já detectara Max Weber, a moral protestante do esforço e do êxito parece contradizer a tese original de não se poder alcançar a justiça pelas obras.

O enigma do celibato

Todas as inclinações sexuais estão hoje autorizadas. O celibato, porém, é alvo de estranha intolerância pública. Tornou-se supérfluo militar por orientações amorosas, mas o combate ao celibato está na pauta de qualquer estratégia que pretenda defender a liberdade.

A continência perpétua (nego-me a chamá-la “abstinência”, que se refere propriamente à comida) é uma decisão enigmática na era do efêmero. Como proibi-la pareceria repressão, os arautos do eros afirmam que o celibato deveria ser opcional.

Contrassenso! Quer você seja contra, quer você seja a favor, o celibato é sempre opcional. Afinal, ninguém é obrigado a abraçá-lo, ou a fazer-se sacerdote nem a professar votos. Mesmo os que se candidatam a tais vocações podem ser aceitos ou não pela autoridade competente. Por outro lado, já que também ninguém está obrigado a casar-se, tanto faz como tanto fez.

É preciso ter em conta que muitas pessoas vivem em “celibato compulsório”, devido a situações familiares que não escolheram. Não é todo mundo que consegue ter vida sexual ativa. Os celibatários voluntários são minoria frente à massa de abandonados e solitários. Embora não dê na mesma ser castos ou luxuriosos, é muito mais provável que estes durmam sozinhos do que acompanhados.

Vidas com sentido

Independentemente do que pense a respeito das opções nesse campo, fato é que o celibato é um estilo de vida que permite o desenvolvimento de potencialidades insuspeitáveis. Ilustra-o bem a emancipação feminina na Inglaterra do Entre-Guerras, quando quase dois milhões de mulheres ficaram sem pretendentes (veja aqui).

Com mais razão sejam lembrados os missionários, os dedicados à caridade, os empenhados na consecução de grandes ideais humanos e sobrenaturais. Digo sobrenaturais porque tal renúncia obtém seu máximo sentido quando motivada por valores para além da mundana realidade.

É natural que a miopia para os valores transcendentes torne amplos setores sociais incapazes de compreender a radicalidade dessa opção. É paradoxal que as pessoas casem cada vez menos, mas exijam o casamento dos célibes. O sim do celibato ao amor é a suma contradição do não da permissividade ao compromisso.

*****
Lutero devolveu ao sacerdote a relação sexual com a mulher, mas a veneração de que é capaz o povo, e antes de tudo a mulher do povo, repousa em três quartos na crença de que um homem excepcional neste ponto sê-lo-á também noutros pontos. E a fé do povo em algo sobre-humano no homem tem aqui seu advogado mais sutil e capcioso.
(Nietzsche, Gaia Ciência, pág. 252)

Quando a inteligência da fé olha um tema à luz de Maria, coloca-se no centro mais íntimo da verdade cristã. Na realidade, a encarnação do Verbo não pode ser pensada prescindindo da liberdade desta jovem mulher que, com o seu assentimento, coopera de modo decisivo para a entrada do Eterno no tempo.
(Bento XVI, Verbum Domini, n.º 27).
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