21 de out de 2010

Querer o mal é fazer o bem?

Ditaduras modernas

Temos sofrido as consequências de duas graves tendências culturais: o subjetivismo, que coloca o interesse ou enfoque pessoais acima da necessidade objetiva; e o relativismo, que nivela a importância e as diferenças das coisas.

Ambos apoiam‑se em aspectos parciais da realidade, que são verdadeiros: sem dúvida, a pessoa é mais que suas circunstâncias; e todas as coisas são relativas entre si.

Mas também ambos partem de um erro de fundo acerca do pluralismo, na compreensão do mundo e do posicionamento do homem no mundo.

Medos e confusões

Existem duas corrupções do pluralismo. A primeira é a pluralidade relativista. Não consegue fazer o discernimento de que plural significa muitos, não todos.

A segunda corrupção é a dogmatização da peculiaridade. Aspectos secundários ou minoritários são defendidos como fundamentais, em nome de uma pretensa liberdade e do direito à “diversidade”. Ao mesmo tempo, as opiniões contrárias são rudemente patrulhadas.

Ora, nem todas as opiniões têm o mesmo valor: o que tem o mesmo valor são as pessoas (e os fracos merecem maior respeito!).

Um novo critério

O diabo conseguiu meter em boa parte do povo cristão o temor de parecer intolerante, reacionário, pouco aberto ou fechado (São Josemaria Escrivá, Carta, 19/3/1967, n.º 45). Como resposta a esse problema, fez‑se famosa a homilia do então cardeal Ratzinger pronunciada na Missa Pro Eligendo Romano Pontifice, celebrada a 18 de abril de 2005:
Todos os dias nascem novas seitas e cumpre-se assim o que São Paulo disse sobre o engano dos homens, sobre a astúcia que tende a induzir ao erro (cf. Ef 4, 14). Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, é frequentemente catalogado como fundamentalismo, ao passo que o relativismo, isto é, o deixar-se levar ao sabor de qualquer vento de doutrina, aparece como a única atitude à altura dos tempos atuais. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que não reconhece nada como definitivo e que usa como critério último apenas o próprio “eu” e os seus apetites.
Nós, pelo contrário, temos outro critério: o Filho de Deus, o verdadeiro homem. É ele a medida do verdadeiro humanismo. Não é “adulta” uma fé que segue as ondas da moda e a última novidade; adulta e madura é antes uma fé profundamente enraizada na amizade com Cristo. É essa amizade que se abre a tudo aquilo que é bom e que nos dá o critério para discernir entre o que é verdadeiro e o que é falso, entre engano e verdade.
O verdadeiro pluralismo, portanto, tem uma referência: Jesus Cristo. Contudo, aos ouvidos de muitos, Jesus soa a divisão. Como falar dele numa sociedade laica?

Voltarei à diferença entre laicidade e laicismo. Por hora, basta distinguir laicidade de mundanismo.

Secularidade e humanismo

São Josemaria Escrivá — que dedicou sua vida a “abrir os caminhos divinos da Terra” — sugeria: Com a tua conduta de cidadão cristão, mostra às pessoas a diferença que há entre viver triste e viver alegre; entre sentir‑se tímido e sentir‑se audaz; entre agir com cautela, com duplicidade – com hipocrisia! —, e agir como homem simples de uma só peça. — Numa palavra, entre ser mundano e ser filho de Deus (Sulco, n.º 306).

Secularidade, portanto, é amor ao mundo redimido. Mundanismo, porém, é amor ao pecado. Mas o verdadeiro homem não precisa pecar para ser homem (cf. Bento XVI, Homilia, 8/12/2005):
Manifesta-se em nós a suspeita de que uma pessoa que não peque de modo algum, no fundo, seja tediosa; que falte algo na sua vida: a dimensão dramática do ser autônomo; que faça parte do verdadeiro ser homem, a liberdade de dizer não, o descer às trevas do pecado e o desejar realizar sozinho; que somente então seja possível desfrutar até ao fim toda a vastidão e a profundidade do nosso ser homens, do ser verdadeiramente nós mesmos; que devemos pôr à prova esta liberdade também contra Deus, para nos tornarmos realmente nós próprios. Em síntese, pensamos que o mal no fundo seja bem, que dele temos necessidade, pelo menos um pouco, para experimentar a plenitude do ser. Julgamos que Mefistófeles, o tentador, tem razão, quando diz que é a força “que deseja sempre o mal e realiza sempre o bem” (J.W. v. Goethe, Fausto I, 3). Pensamos que pactuar com o mal, reservando para nós mesmos um pouco de liberdade contra Deus, em última análise, seja um bem, talvez até necessário.
Contudo, quando olhamos para o mundo à nossa volta, podemos ver que não é assim, ou seja, que o mal envenena sempre, que não eleva o homem mas o rebaixa e humilha, que não o enobrece, não o torna mais puro nem mais rico, mas o prejudica e faz com que se torne menor.
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