20 de out de 2010

O doce sono da fênix

A fênix, ave fabulosa, cuja vida subsiste no rescaldo das próprias cinzas, representa bem nossos desejos de recomeçar.

Pois tantas vezes almejamos reempreender o caminho da vida, estrear novamente o amor, como um beijo virginal, sem mácula, que surta um frêmito, misto de pudor e desejo.

Porque viver é amar: amor traz intensidade. O mero suceder do tempo é desgaste, enfado, tédio.

Pobre fênix, que para renascer precisa aguardar seu período de dormição. Não estamos maduros para ressuscitar tão logo ao morrer. A morte chama o descanso. A vida sucede o leito. Antes do renascimento vem o esquecimento. Ao despertar precede o sono reparador.

Portanto, a morte da fênix supõe a morte de suas expectativas. Abandono. Deixar cair o pano da memória. Mas só o amor sabe abandonar-se nos braços amados, só por amor renuncia-se à memória de si mesmo.

Como reviveríamos com o lastro do passado? — Pois esperamos o que sabemos. É preciso esperar o que não vemos. Para reviver, necessitamos morrer de verdade.

Para ser fênix precisamos desejar a vida, mas também a morte; a ressurreição, mas também a cruz.

Tal é a sina humana: existir como um ser limitado num mundo limitado, mas com a razão aberta ao ilimitado, a todo ser. Que provação apalpar a própria finitude e contingência, reconhecer a cisão entre o temporal e o eterno, distinção real entre o ser e o nada, a grande diferença entre a fatuidade e a constância.

Como abraçar tal morte sem amor? Como fenecer assim sem ser de amor?
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