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5 de out. de 2011

Sexo dos anjos

Detalhe inferior da tilma de Juan Diego

Os mistérios de Guadalupe

Assisti a um documentário mexicano muito interessante sobre Guadalupe, 1531. Tem a forma de depoimento, e bons atores fazem as vezes dos entrevistados, emprestando sua voz àqueles homens que vivenciaram tão estrondoso milagre no século XVI.

Um dado que me admirou foi acerca do anjo que apareceu estampado na tilma de Juan Diego: é um varão idoso, com asas de águia, que segura com a mão direita o manto celeste da Virgem e, com a esquerda, seu róseo vestido. A razão aduzida no documentário foi a pedagogia divina.

São Juan Diego
A águia era considerada pelos aztecas ave divina, que levava o sangue dos sacrifícios humanos ao deus Sol; além disso, conta a lenda que uma águia lhes indicara onde deveria ser fundada a cidade do México. Por outro lado, a águia é o símbolo de João Evangelista, que justamente profetizou a aparição de “uma mulher revestida de Sol, com a Lua a seus pés” (Ap 12,1). “Águia que fala” é também o significado do nome indígena de Juan Diego, Cuauhtlatoatzin.

Por sua vez, o homem velho representava a sabedoria indígena. Assim, o anjo indica que a sabedoria de Deus conciliou o céu e a Terra, dando fim à guerra cósmica que tanto afligia a cultura azteca.

Íncubos e súcubos

Um íncubo apoderando-se da presa
Isso me fez considerar que os anjos costumam aparecer na Escritura de forma masculina. Mesmo na estranha interpretação literalista do relato dos Gigantes, que os entende como fruto do consórcio carnal entre anjos e homens (Gn 6,1-4), os eventuais seres celestes envolvidos eram íncubos, não súcubos. Ou seja: as mulheres eram suas vítimas.

O demônio feminino Lilit
Mas, justiça seja feita, há uma única passagem em que aparece citada uma “anja”: Lilit (Is 34,14). Seria originalmente um demônio feminino do mito assírio‑babilônico. A tradição rabínica tardia apresentou-a como a primeira mulher de Adão, anterior a Eva, madrasta dos filhos de Adão, a quem tenta matar em seus ciúmes.

Essa beldade com “perfume de enxofre” (Jó 18,15) deve ser a grande paqueradora dos homens maus.

Misandria e o masculino como norma

Quando o feminismo inflaciona, a masculinidade corre o risco de ir para o saco. Existe um sadio feminismo, mas às vezes tenho a impressão de que vivemos em tempos de misandria. Se a escalada da intolerância continuar, dizer que o normal é ser homem poderá virar crime.

Espetadas à parte, tornemos a questão do sexo dos anjos. Acredito que a representação preponderantemente masculina dos anjos tenha alguma relação com a norma bíblica de só atribuir títulos masculinos a Deus. O próprio Cristo é um homem. Embora Deus diga que, “como a mãe que acaricia os filhos, assim vou dar-vos meu carinho” (Is 66,13), por outro lado nunca é chamado “Mãe”, apenas “Pai”.

Isso não é machismo, como tentam defender certas abordagens ideológicas. Em primeiro lugar, as partes do corpo humano sempre serviram para caracterizar os sentimentos. Assim, os úberes, o seio, as entranhas, o regaço femininos representam a misericórdia. Por isso essas partes podem ser usadas para descrever analogicamente as atitudes de Deus para com os seres humanos.

Quanto à representação varonil de Deus, é uma forma de evitar o risco de sua assimilação às divindades telúricas. Vale citar a explicação de Bento XVI (Jesus de Nazaré, págs. 130-1):

“Naturalmente, Deus não é nem homem nem mulher (…). As divindades maternas (…) mostram uma imagem da relação entre Deus e o mundo que é inteiramente oposta à imagem bíblica de Deus. Elas incluem sempre, e mesmo inevitavelmente, concepções panteístas, nas quais desaparece a distinção entre o Criador e a criatura. O ser das coisas e dos homens aparece deste ponto de partida necessariamente como uma emanação do seio materno do ser, o qual se temporaliza na pluralidade dos entes.

“Em contraste com esta concepção, a imagem do pai era e é adequada para exprimir a alteridade entre Criador e criatura, a soberania do ato criador. Somente por meio da exclusão das divindades maternas podia o Antigo Testamento levar à maturidade a sua imagem de Deus, a pura transcendência de Deus.”

11 de jun. de 2011

Olhos de pomba

Oculi ergo devotæ animæ sunt columbarum 
quia sensus eius per Spiritum Sanctum 
sunt illuminati et edocti, spiritualia sapientes. (…) 
Nunc quidem aperitur animæ talis sensus, 
ut intellegat Scripturas. 
(Ricardo de São Víctor, Explicatio in Cantica canticorum, 15) 

Vento, sopro, espírito

O vento é realidade ativa, mas invisível, irreprimível e metamorfoseante. Considerado pela mentalidade antiga como princípio da vida é concebido, por isso, como dado por Deus. Mais: o “Sopro” de Deus é a origem de toda vida.

Criada do húmus, a pessoa humana é uma “alma vivente” em virtude do “espírito”. Mas “quem é que sabe se o espírito dos humanos vai para o alto e se o espírito dos jumentos vai para baixo, para a terra?” (Ecl 3,21) Com efeito, o mesmo hálito procedente dos lábios de Deus alenta tanto os homens quanto os animais, cuja vida está contida no sangue. Por outro lado, em oposição à carne, o espírito humano está destinado a um fim sobrenatural, pois é capaz de se fazer “um só espírito” com Deus.

O espírito dado ao homem desfalece ou revigora‑se, experimenta emoções, sentimentos e pensamentos, exprime‑se na oração. O espírito vem a ser, portanto, o que de alguma forma conduz o movimento do coração, da inteligência ou da vontade, e inclusive torna o homem presente onde ele não se encontra.

Discernimento dos espíritos

O espírito designa uma realidade que informa todos os aspectos da vida e não apenas alguma de suas facetas. Daí que se possam distinguir diversos espíritos, “hálitos mentais”, os quais ou animam a tal indivíduo a adotar certo comportamento, ou determinam a atitude de uma comunidade, ou o compromisso de um povo. Há espíritos de ciúme, de torpor, de prostituição, de mentira, do Egito, de Píton, ou ainda espírito nobre, espírito novo, espírito de sabedoria, de revelação, de profecia, de Elias, de fé, de mansidão. Todos os espíritos procedem de Deus, pois o Senhor, “que pesa os espíritos” (Pr 16,2), tem pleno domínio sobre toda a vida espiritual.

“Há espíritos que foram criados para a vingança e na sua fúria reforçam seus flagelos: quando vier o fim, desencadearão sua força e aplacarão o furor de quem os fez” (Eclo 39,33[28]). “Lançou contra eles o fogo da sua ira, a cólera, a indignação, a desgraça, todo um exército de anjos do mal” (Sl 78[77],49). Porquanto o Senhor “faz dos espíritos seus anjos, e do fogo flamejante seus ministros” (Sl 104[103],4), os espíritos também podem ser identificados com os anjos ou os demônios, ambos a serviço dos desígnios eternos. Aqueles recebem seu ministério por força de missão; esses, sua ação implica iniciativa própria e, da parte de Deus, permissividade. Satanás mesmo, para submeter os homens, vale‑se de espíritos imundos: espírito surdo‑mudo, espírito de enfermidade, espírito maligno.

Nesse sentido, deve ser provada a procedência dos espíritos que tocam e penetram o espírito humano, pois “a falsidade é a destruição do espírito” (Pr 15,4): Espírito de filhos adotivos ou de escravidão, Espírito de fortaleza, amor e sobriedade ou de timidez, Espírito de Deus ou do anticristo, Espírito da Verdade ou do erro.

Um da Trindade

“Quem determinou o espírito do Senhor, e que conselheiro lhe deu lições?” (Is 40,13) O Espírito de Deus, “que procede do Pai” (Jo 15,26), é também o “Espírito de Jesus Cristo” (Fl 1,19). Esse Espírito Bom e Santo é o autor da bondade e a fonte da santidade. O “Espírito Santo”, sendo um só Deus com o Pai e o Filho, procede de ambos e com eles é coeterno, consumando a Trindade como misteriosa essência da caridade divina.

A epifania do Novo Paráclito só se dá através das formas fluidas: o sopro, a água, o voo, o fogo, as metamorfoses. Tratam‑se apenas de sinais, que podem ser ambíguos, e aos quais o Espírito Santo não está ligado de forma substancial. O Espírito “Sem‑Forma‑através‑de‑Toda‑Forma” faz resplandecer o “Toda‑Forma”, que é o Verbo humanado, morto e ressuscitado, centro de todas as metamorfoses.

Ora, o Espírito de Deus invade tudo, pois o “Deus dos espíritos e de toda carne” (Nm 27,16) dispensa seu Espírito em todas as partes para cumprir seus desígnios, segundo o modo que convém às circunstâncias históricas e com o necessário vigor de irrupção. O Senhor “modela o espírito humano dentro do homem” (Zc 12,1b), imprimindo seu Selo na criatura, transmitindo‑lhe a intenção, a direção de sua vontade.

O Espírito é aquele pelo qual se completa a comunicação de Deus: é a possibilidade e a inclinação de Deus para existir como que fora de si mesmo. O Espírito “é a abertura da comunhão divina ao que não é divino. Ele é a habitação de Deus lá onde Deus está de qualquer modo ‘fora dele mesmo’. Também ele foi chamado ‘amor’. Ele é ‘o êxtase’ de Deus na direção do seu ‘outro’, a criatura” (C. Duquoc, Dieu différent, Paris, 1977, 121-2). No Espírito, a Graça e o Amor são hipostasiados.

Fonte de memória

O Espírito Santo purifica a memória do coração, ajudando a perdoar. Por isso, “não será perdoada a blasfêmia contra o Espírito Santo” (Mt 12,31): tal endurecimento — que se manifesta na recusa da graça, na desesperação da salvação, na presunção de se salvar sem merecimento, no renegamento da verdade, na inveja das mercês e na obstinação no pecado — conduz à impenitência final, à perdição eterna e ao rechaço do Espírito de amor.

Vindo à intimidade do ser humano — não à corporeidade ou à materialidade —, o Espírito está empenhado na realização da revolução espiritual através da conversão, como força e transcendência de Deus operante na história, mas além da história, irredutível à lógica mundana e instauradora duma outra lógica: a do amor ao próximo.

O Espírito é também a Memória viva da Igreja: dá o sentido e recorda o mistério de Cristo. É o princípio da presença do passado e do escatológico no presente da Igreja, convidando à vigilância do coração, e ao mesmo tempo uma força divina capaz de transformar o ser humano e o mundo.

6 de jun. de 2011

A mulher de Ló

Ló quis seguir seu tio e partiu com ele.
As tendas de Abraão estavam abertas a seu sobrinho.
As tendas de Ló sentiam-se apertadas pelas tendas do tio.
Abraão sacrificou a terra da promissão à escolha de Ló.
Ló levantou os olhos e escolheu a parte mais irrigada, na Transjordânia.
Abraão levantará os olhos para ver o fumo da destruição desse lugar.
Ambos se separam.

Abraão é visitado por Deus de manhã.
Ló é visitado por Deus à tarde.
Abraão esperava à porta da tenda.
Ló esperava à porta da cidade.
Abraão não precisa insistir para receber os anjos.
Ló precisa insistir para os anjos ficarem com ele.
Ambos oferecem hospedagem aos visitantes divinos.

Ao velho Abraão é anunciada a vida através do nascimento do filho.
Ao jovem Ló é anunciada a morte mediante a destruição da cidade.
Abraão tinha Ló na conta de irmão.
Ló pensava que os sodomitas o tinham na conta de irmão.
Ambos buscam raízes, pois são migrantes em terra alheia.

Por medo de morrer, Abraão cedera Sara ao faraó.
Em atenção a seus hóspedes, Ló oferece as duas filhas à chusma depravada.
Abraão indagara se o justo seria eliminado com o injusto.
Ló recebe a ordem de fugir para não ser eliminado com os culpados.
Abraão rira com a gravidez de Sara.
Os genros de Ló riem do seu grito de alerta.
Os habitantes de Sodoma tinham querido gratificar Abraão, mas este não aceitara a oferta.
Os habitantes de Sodoma quiseram agredir Ló, mas este é protegido pelos anjos.
Ambos são preservados da violência.

Abraão tinha partido imediatamente quando fora chamado por Deus.
Ló precisa ser instado a fugir de Sodoma, pois ainda hesita.
Abraão pedira que Deus poupasse as cidades em que houvesse justos.
Ló pede que Deus poupe a cidade de Soar, no distrito de Sodoma, por ela ser pequena.
Ambos são atendidos em suas petições.

A mulher de Abraão é atingida pela bênção e, ao olhar para o futuro, dará à luz Isaac.
A mulher de Ló é arrastada pelo desastre e, ao olhar para trás, converte-se numa estéril coluna de sal.

Abraão comprará uma cripta como propriedade funerária.
Ló abandonará Soar para viver numa caverna.
Abraão entrará morto na sua cripta.
Ló não sairá vivo de sua caverna.
Ambos se enraízam apenas ao morrer.

Abraão sabia o que fazia.
Ló não sabe o que farão com ele.
Abraão tentara descendência pela adoção e pela bigamia.
As filhas de Ló procurarão descendência pelo duplo incesto.
Para a esposa de Abraão, o problema era a esterilidade.
Para as filhas de Ló, o problema é a escassez de homens.
Ambos se frustram com as soluções humanas.

Ló queria sacrificar a virgindade das filhas por haver homens de mais.
Abraão quererá sacrificar seu único herdeiro por obediência à vontade de Deus.
As filhas de Ló sacrificam sua virgindade por haver homens de menos.
O herdeiro de Abraão será poupado por Deus, que sacrificará o Filho Unigênito em seu lugar.

Abraão é o pai dos que creem.
Ló é o pai dos que não creem.

29 de set. de 2010

Sete Arcanjos

Visto que a Pedra de YHWH tem “sete faces” (Zc 3,9), e que “as sete chamas são os olhos do Senhor que estão percorrendo o país” (Zc 4,10b), são igualmente sete os “Anjos da Face”, os quais assistem “diante da claridade do Senhor” e têm “acesso à sua presença” (Tb 12,15). Também são sete os entes venerados no Zoroastrismo como campeões da luta contra o mal, representantes dos sete astros maiores: o Sol, a Lua e os cinco primeiros planetas.

“YHWH, Deus dos exércitos, quem é como tu? És poderoso, YHWH, e tua fidelidade te circunda” (Sl 89[88],9). Entre esses defensores da Igreja e da doutrina da fé, a Tradição conta o arcanjo Miguel, “um dos Príncipes” (Dn 10,13), “chefe dos Exércitos do Senhor” (Js 5,14), que vai adiante do povo como líder e protetor.

O segundo é Gabriel, o Anjo da Revelação: “força de Deus” que vem nas suas asas explicar os sinais dos tempos e anunciar o nascimento do Precursor e advento do Messias. O terceiro é Rafael, o Anjo da Providência: “medicina de Deus” para os justos sofredores como Tobit; apresenta ao Senhor as orações dos piedosos e com seu poder a tradição relacionou a propriedade curativa da piscina probática de Jerusalém.

A curiosidade religiosa buscou os nomes dos demais, aliás, sem sucesso. Diz o filho de Sirac: “O nome de Deus não seja frequente em tua boca, nem o mistures aos nomes de seus anjos, pois não estarás imune de ofendê‑los” (Eclo 23,10).

Para perfazer a representação dos quatro pontos cardeais, pelo menos um arcanjo é majoritariamente reconhecido fora do cânon bíblico, encontrando aceitação inclusive na iconografia cristã e na liturgia (é celebrado pela Igreja Copta a 28 de julho). Oriundo da apocalíptica judia, tal arcanjo seria Uriel, o Anjo da Retribuição: “fogo” ou “luz de Deus” para interpretar as profecias (4Esd 4,1; 5,20). Identificado por alguns apócrifos com o querubim que guarda o Éden, também é confundido com o anjo que lutou com Jacó, talvez porque, em Henoc 40,9.17, Fanuel (cf. Gn 32,31s) tome o seu lugar. John Milton fá‑lo regente do Sol (Paraíso Perdido, III, 689).

Segundo o livro de Henoc, os demais arcanjos seriam Reguel (“desejo de Deus”), Sariel (“temor de Deus”) e Remiel (“exaltação de Deus”). Na literatura apócrifa e nas relações rabínicas ainda são nomeados muitos outros: Jerameel, Baraquiel, Judiel, Cedequiel, Selafiel, etc.

Devido a exageros na devoção aos anjos, a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé proibiu que sejam designados, até na devoção particular, com nomes que se julguem ser os seus nomes autênticos, mesmo com base em presumíveis revelações privadas, exceto Miguel, Gabriel e Rafael, que aparecem na Escritura canônica. Também se mandou rechaçar a ideia errônea de que o mundo e a vida estão submetidos a tensões demiúrgicas (cf. Congregação para o Culto divino e a disciplina dos SacramentosDiretório sobre a piedade popular e a liturgia, 217).

Isso não impede que possa haver discrepâncias entre os anjos por motivo de custódia; nesse caso, sem serem contrárias suas vontades e interesses, consultam a Sabedoria divina acerca de méritos contrários e incompatíveis entre si dos seus protegidos (Dn 10,13; São Tomás de AquinoSumma Theologiæ, Iª, 113, 8).

15 de mai. de 2010

O céu é o limite?

Quando nasci veio um anjo safado,
o chato de um querubim,

e decretou que eu estava predestinado
a ser errado assim…

Sobre gêneros e spins

Um amigo meu, companheiro de outras histórias já narradas aqui, veio-me com uma pergunta inusitada:

— No céu ficaremos como os serafins, que recebem na cabeça a sementinha da alegria e ficam rodando e dizendo “Holy, Holy, Holy” para sempre?

Achei graça da descrição. Afinal, nunca tinha pensado nos serafins como peões do êxtase. Quem sabe seja o spin de cada um que determine o seu sexo!

Mas a dúvida é pertinente e inclui duas questões: a eternidade não é chata? ficar apenas adorando a Deus não será muito monótono ou alienante?

Cada um espera o céu que merece

Certa feita, fui ao velório do pai de um outro amigo. Apareceu por lá, pelas 3h da manhã, um fulano simpático. Como a conversa fosse ficando animada, o que não condizia com o clima reservado do evento, propus aos que estavam mais próximos irmos à cantina tomar alguma coisa e desfrutar de um bom papo.

Pois bem, o fulano, sem dúvida inspirado pela situação, começou a especular sobre a vida póstuma e indagou de cada um o que achávamos que ocorreria com a alma dos finados.

Depois de cada qual dar seu pitaco, aquela figura impar começou a descrever vivamente o que nos espera no além: explicou que as almas vibram, que a frequência da vibração determina o nível de cada alma, que as pessoas boas vibram mais e que as pessoas más vibram menos, etc.

Como eu lhe perguntasse de onde ele tinha tirado tamanha quantidade de ideias incríveis (no sentido literal da expressão), respondeu-me estar tudo “provado cientificamente”, conforme “experiências feitas nos laboratórios da USP” e minuciosamente explanado em tal e qual livros.

Minha pergunta seguinte foi fatal, embora sem querer:

— Quem é o autor desses livros?

— Sou eu! — respondeu ele.

Aquele cara-de-pau sempre me fez pensar que, ou eu estou demorando demais a publicar algo, ou que o mercado editorial brasileiro é dirigido por mentecaptos.

A você que me lê, indago apenas uma coisa: seria o céu apenas a ressonância das nossas ondas? — Eu espero mais do que isso!

Materialismo disfarçado

Ao lado dos que negam a vida póstuma e, por conseguinte, propõem que vivamos intensamente os prazeres do momento presente, parece-me que também vão, de mãos dadas, muçulmanos e espíritas.

Com efeito, promete o Corão em An Nissá, sura 4:57, “jardins, abaixo dos quais correm rios, (...) esposas imaculadas”. E, em Ar Rahman, sura 55:56, “aquelas de olhares recatados que, antes deles, jamais foram tocadas por homem”. Conta-se ainda uma infindável lista de passagens que descrevem jardins, frutas, honras, leitos, virgens, cálices, palácios, rios, tapetes, etc.

Decerto, tudo pode ser interpretado em sentido espiritual. Mas é gritante a diferença com a concepção cristã, segundo a qual não haverá matrimônio após a ressurreição da carne.

Quanto ao espiritismo, basta recordar a descrição quase física feita do além por Chico Xavier no best-seller Nosso Lar. Não vale minimamente a pena ler a obra. Contudo, se você ficou curioso, basta-lhe assistir ao trailer do filme: é um semicéu com hospital, ruas, coletivos, etc.

Ainda que se diga que ao céu só chegará propriamente após a última transmigração, há um acordo tácito em admitir que quase ninguém já esteja preparado para chegar lá e que são necessárias várias vidas nessa Terra para conquistar o prêmio definitivo, etc.

Ora, tudo isso é um grande materialismo. Afinal, a promessa é: fique tranquilo com a morte, pois você vai voltar para cá!

Amor e eternidade

A confusão do meu amigo acerca do “motor contínuo” dos serafins pode se desvanecer com essa descrição da eternidade feita por Joseph Ratzinger:

Que é o que estimula o homem a desejar durar mais? Não é o ‘eu’ isolado, mas é a experiência do amor: o amor quer que o ser amado seja eterno e quer, por conseguinte, sê‑lo igualmente. Aqui temos, portanto, a resposta cristã à nossa pergunta: a imortalidade não está no próprio homem; ela repousa sobre uma relação: a relação com o que é eterno e com o que dá à eternidade todo o seu sentido. Este elemento durável, que é capaz de dar a vida e de preenchê‑la plenamente, é a verdade, é o amor. Se o homem pode viver eternamente, é porque ele é capaz de se manter em relação com quem dá a eternidade. Aquilo que, no homem, é capaz de conservar tais relações nós chamamos de ‘alma’. A alma nada mais é senão esta capacidade de relações que o homem pode ter com a verdade, com o amor eterno. E, agora, podemos ver o encadeamento de tais realidades: a verdade que é amor, ou seja, Deus, confere ao homem a eternidade, e, como há matéria que esteve integrada ao espírito humano, à alma humana, a matéria atinge no homem uma capacidade de aperfeiçoamento que conduz à Ressurreição” (Entre a morte e a ressurreição in Communio, edição brasileira n.º 1, pág. 85).

De fato, falar de relação é muito importante. Todas essas concepções esdrúxulas sobre o céu — descrições mitológicas, promessas sensuais, reducionismo cientificista, caldo de ectoplasmas — ignoram que Deus é mais do que uma Energia Suprema ou um Motor Imóvel. Deus é Alguém, um Ser Pessoal com quem é possível entrarmos em relação.

Vou deixar de molho o problema pendente da suposta alienação dos cidadãos da pátria celeste. Mas lanço a você que me lê uma pergunta parecida: — Você é um cidadão alienado da pátria terrestre?

1 de jan. de 2010

Poemas de Natal

Esta são as poesias que acompanham as demais gravuras de Wierix, de que não disponho, e que fazem jogo com a postada anteriormente, num total de cinco.
Mas ATENÇÃO: a gravura ao lado não é dele!


II
Dic, o Puer, Homo Bulla,
Res tam levis nos est ulla,
  Bulla nil fragilius.

Mater, Nati pro statura,
Ulna brevis est mensura,
  Est immensus Filius.

Tradução livre:

Dize, ó Menino, frágil Homem,
Não há coisa mais leve do que a bolha,
  nem mais delicada.

A Mãe, pelo tamanho do Menino,
Em breve abraço abarca
  o imenso Filho.

Ao que parece, a ideia de homo bulla, “homem bolha”, é oriunda do começo do tratado De Agricultura, de Marco Terêncio Varrão, significando o quanto o ser humano é efêmero: “hoje somos, amanhã não”.

III
O beatum pavimentum!
Te, qui fecit firmamentum,
  Verrit suis manibus.

Ferte ligna, fiet cibus,
De farinae satis tribus,
  Sed Amoris ignibus.


Tradução livre:

Ó feliz pavimento!
A ti quem fez o firmamento,
  Varre com suas mãos.

Traga-se a lenha, faça-se a comida,
Para satisfazer os três de trigo
  Mas com o fogo do amor.

IV
Animose finde Pater,
Animosa perge Mater,
  Fila trahens linea.

Est laborum consolatur
Mundi puer fabricatur
  Fruta legens lignum.


Tradução livre:

Com garra talha o Pai,
Animada coze a Mãe,
  puxando pelo novelo.

Distrai-se dos cansaços
O Menino que fez o mundo
  catando as lascas da lenha.

V
Ferro trabes vult secare,
Puer, terras, coelum, mare,
  Qui pugillo continent.

Mater fuso voluit
Angelorum qua regina
  Supra calos eminens.


Tradução livre:

Quer a trave serrar
O Menino que terra, céus e mar
  no punho os contém.

A Mãe quer ficar com o fuso
Mesmo sendo dos Anjos
  rainha supereminente.

30 de dez. de 2009

Gravuras de Natal (3)

É muito difícil encontrar as gravuras de Hieronymus Wierix digitalizadas. Há seis sobre o Menino Jesus, da qual só tenho a primeira. Nas próximas postagens, ficaremos somente com as poesias que as acompanham.

Nesta primeira, vemos Maria cozendo e José construindo um barco com a ajuda dos anjos. Mas o Menino não precisa disso, só de amor.



Frustra pater navem dabit,
Frustra caligas parabit
   Texens Mater filio;


Quando volet navigare
Ambulabit super mare
   Nulius auxilio.


Tradução livre:

Em vão o pai fez um barco,
Em vão a Mãe teceu calças
   para o Filho.


Quando quiser navegar
Andará sobre o mar
   sem nenhum auxílio.

3 de set. de 2009

Anjos, olhos e ouvidos


Recentemente, assisti ao filme alemão In weiter Ferne, so nah! (Faraway, So Close!), de 1993, que é a sequência de Asas do Desejo, de 1987. Conquistou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes e conferiu ao U2 a indicação de Melhor Canção Original no Globo de Ouro.

Peter Falk, que representou si próprio em Asas do Desejo, volta aparecer, e o roqueiro Lou Reed (responsável pela trilha sonora) e o ex-presidente soviético Mikhail Gorbachev também marcam presença no filme como eles mesmos.

A fotografia é impecável, mesclando a cor (a visão dos homens) com o preto e branco (a visão dos anjos).

Wim Wenders explorou um mundo desconhecido para nós: como os anjos nos veem. Apesar de serem incapazes de interferir diretamente na vida humana, Cassiel (Otto Sander) quebra esta regra quando uma menininha cai do terraço de um prédio e ele corre para a socorrer, tornando-se carne e osso. Damiel (Bruno Ganz), o companheiro de Cassiel que optou pela vida terrena no primeiro filme, trabalha agora numa pizzaria e vive com sua esposa, a trapezista Marion (Solveig Dommartin).

Um de vocês que me leem tinha me perguntado, na ocasião, em que o filme me fez pensar e o que ele me fez sentir. Cruel essa pergunta!

Sinceramente? Pensei na incapacidade de comunicação. Senti a tortura do silêncio. Anjos do amor que súplices contemplam homens surdos.
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