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1 de fev. de 2014

O beijo não vem da boca

Já dizia Ignácio de Loyola Brandão que o beijo não vem da boca. Mas será que ele vem sempre do coração?…

Além disso, nem tudo que sai do coração é bom. O problema é que a mesma boca que te beija pode ser a boca que te escarra.

O problema também é que Deus é amor, mas o amor não é Deus. Ou seja: o amor não coonesta tudo. Quanto vale um amor sem sinceridade? Tanto quanto a liberdade sem a verdade. Podem chamar quaisquer afetos de amor, mas o amor verdadeiro envergonha-se do que a natureza veda, já dizia Andreas Capellanus.

Mas voltemos ao beijo. Existem três tipos:
  • basium, entre conhecidos (são as formas de se cumprimentar socialmente);
  • osculum, entre amigos (ósculo, aquele que faz biquinho);
  • suavium, ou beijo dos amantes, cujo pudor exige discrição.
O cumprimento pode ser hipócrita como o de um fariseu; o ósculo pode ser traidor como o de Judas; e o beijo pode ser mentiroso como o de uma prostituta.

Olavo Bilac pedia:

Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!,
Ferve-me o sangue, acalma-o com teu beijo,
Beija-me assim!

Total: pode-se compor odes ao amor e elogios ao beijo, mas nem sempre encontrá-los, ou buscá-los onde não se encontram. Também o amor e suas manifestações necessitam de purificação!…

12 de jun. de 2013

Três coisas de que o homem tem medo

O domínio da mulher é inimigo da liberdade

A típica fantasia romântica masculina consiste no autossacrifício sentimental. Diante de um ideal que obriga, o varão abre mão de seu amor.

Ou seja, esse romantismo peculiar consiste em renunciar ao amor por uma causa nobre. É como rasgar o coração para salvar a cabeça. Exemplos são dados nos longa‑metragens Casablanca, Os Brutos Também Amam ou Homem‑aranha 2.

Mas a nobreza da autoimolação contém algo de malandragem aventureira. Afinal, porque os descobridores ficavam tanto tempo longe de casa, senão porque temiam mais as suas esposas do que os riscos das expedições?

Desaparecer na fusão amorosa

John Milton soube bem retratar o caráter destrutivo da fusão:

Porém… seja o que for! hei de contigo
Sofrer a mesma sorte, a mesma pena:
Se me é dado sofrer contigo a morte,
A morte para mim é como a vida.
Dentro em meu coração sinto com força
A vívida atração da Natureza
Para meu próprio bem que em ti reside,
Para ti que esse bem me constituis:
Não pode separar-se a sorte de ambos,
Ambos possuímos nós uma só carne;
Se te perdesse a ti… era eu perder-me!
(…)
Mas no futuro eu vejo outros sucessos:
Não morte, porém vida em grau mais alto.
Novos prazeres, novas esperanças,
Claros os olhos, paladar tão grato…
Que tudo, quanto saboreara dantes,
Insípido ou amargo lhe pareça.
Adão, descansa na experiência minha:
Dos lindos frutos livremente come.
E esse medo da morte entrega aos ventos

(Paraíso Perdido, IX, 1260-70; 1302-1310)

Não ser perdoado

O que é mais desafiador conseguir de uma mulher, seu amor ou seu perdão? Dizem que a facilidade que as mulheres têm para amar é proporcional à dificuldade que elas têm de perdoar.

Com tal temperamental senhoria, qualquer homem treme.

Era assim que eu sonhava a mulher. Era assim:
Corpo de fascinar, alma de querubim;
Era assim: fronte altiva e gesto soberano,
Um porte de rainha a um tempo meigo e ufano,
Em olhos senhoris uma luz tão serena,
E grave como Juno, e bela como Helena!

(Machado de Assis, Crisálidas, Versos a Corina, I, 19-24)

11 de jun. de 2012

Quatro sintomas literários

Reúno algumas ideias expostas por Alcir Pécora na Academia Brasileira de Letras a 3/4/12.

Segundo Bill Readings, autor de A Universidade em Ruínas, a literatura ocupava na virada do século XVIII para o XIX um posto central na cultura, entre outros motivos em virtude dos nacionalismos e do seu enfrentamento com a ciência.

Na era do pós-Estado (já que estamos na pós-era: a pós-modernidade é isso!), não há mais porquê a literatura manter tal centralidade. Por exemplo, desde os anos 60, a literatura vem marcada pela crítica da representação, pela crítica dos paradigmas. Ela sofre uma espécie de sanha iconoclasta, graças à esterilidade do relativismo literário que desautoriza a crítica literária.

Quatro são as consequências desse estado de coisas:

1. “Epifania linguageira”: centralidade da linguística no diálogo cultural, com um ufanismo míope e repetitivo. É o neossubstancialismo da linguagem, que a apresenta como mais um objeto entre as demais coisas.

2. Viver à época dos estudos culturais: rechaço da tradição normalizadora, com seus cânones dependentes da hierarquia política (raça, gênero, religião, etc.). Aceitação da literatura de testemunho, em que o trauma é nuclear e se faz, paradoxalmente, a última esperança ontológica do escritor. Interpreta-se a sustentação de cânones como tradicionalismo não revisionista. Cultura e minoria tornam-se os personagens de uma nova épica.

3. Doença do “presentismo”: a crítica do cânone inflacionou o corriqueiro e levou ao apogeu do arquivo, pois tudo parece valer a pena. “Se Vieira não anotar a profecia, ela ocorrerá antes de ser dita”. É o “museu de tudo”. Todos se sentem na necessidade de profetizar a própria experiência. Os eventos são patrimonializados. Sofre-se a vontade de mapear. É a abolição da hierarquia. O passado deixa de ser a infância do presente para se tornar a oportuna rapina do hoje. Enseja-se a positivação da multiplicidade e da diversidade. O coetâneo se justifica sem argumento e debate.

4. Literatura feita mera ilustração da teoria literária: impõe-se aos pesquisadores a química porca de ter de ler as obras com lentes pré-concebidas. A alienação se faz tamanha que se pensa poder extrair de grupos de obras “poéticas” e “teorias”.

Para superar tal fim de linha intelectual, é preciso dramatizar os aspectos dessa crise. O democratismo, em que cada um se faz artista de si mesmo, tem na internet uma aliada e na indústria cultural uma fonte de desvarios.

Por isso, abdicar de juízos de valor implica perder-se ao começar. Literatura é noética, sem o que só merece riso e patrocínio. Não se deixe levar pela indústria de sequestros literários. Seja crítico, mas um crítico exigente.

25 de mai. de 2012

Masters of disaster

Li, mas não suportei, o seguinte elenco de vacas sagradas:

Quintana, o poeta. Almodóvar, o cineasta, pois joga na cara da sociedade tudo o q acontece na realidade e ela esconde hipocritamente. Nietzsche, o filósofo. Maquiavel, o pensador. Clarice e Nelson Rodrigues estão no time. Shakespeare é um emocionalmente afetado.

Acabei contestando:


Shakespeare não pode ser água com açúcar, pois tudo nele é escatológico. Em cada ato, em cada gesto, joga-se a vida. Além disso, muito provavelmente Quintana não é o maior poeta brasileiro.

Mas essa história de jogar na “cara da sociedade sua hipocrisia” é uma bela desculpa para a grosseria. Quem disse que a sociedade como um todo é hipócrita? Por que ninguém disse ainda que Almodovar joga na cara das pessoas suas próprias mazelas?

6 de jan. de 2012

Três perguntas aos Magos

O Natal foi à meia noite?

De fato, quando um tranquilo silêncio envolvia todas as coisas e a noite chegava ao meio do seu curso, a tua Palavra todo-poderosa, vinda do céu, do seu trono real, precipitou-se (Sb 18,14s).

Esse tipo de interpretação faz lembrar o início da Divina Comédia, quando Dante se refere aos seus 35 anos dizendo nel mezzo del camin di nostra vita…

Por que haveria no presépio um boi e uma mula?

Se o local do Natal foi num estábulo, por que lá não haveria uma vaca? E se o carro da época era o burro, porque São José não o teria estacionado lá dentro?

O boi entende o seu proprietário, o burro conhece o cocho de seu dono; só Israel não tem conhecimento, só o meu povo não entende! (Is 1,3).

Quantos eram os Reis Magos?

O número dos Magos é variado nas representações dos primeiros tempos. Algumas imagens mostram apenas dois, mas na catacumba de Santa Domitilla, em Roma, aparecem quatro. Podem chegar a doze em representações medievais, opção preferida pela tradição oriental.

O número de três faz referência às prendas oferecidas (ouro, incenso e mirra), assim como às três raças descendentes dos filhos de Noé, semitas, camitas e jafetitas (asiáticos, africanos e europeus). Os nomes de Gaspar, Melchior e Baltazar aparecem pela primeira vez nos mosaicos da Basílica de San Apollinare Nuovo, em Ravena, e assim os Magos são referidos a partir do séc. VII. Já os sírios e os armênios adotam outros nomes.

29 de dez. de 2011

Cinco revelações sobre a data do Natal

vide número 3 abaixo
1) O imperador Aureliano estabeleceu, além do tradicional festival de inverno, em 274, a festividade do nascimento do Sol Invictus a 25 dezembro. Daí nasceu a teoria de que os cristãos teriam deliberadamente cristianizado a festa. Apesar de bastante aceita, é uma hipótese não atestada pelos autores cristãos daquele tempo, mas só defendida a partir do século XII. Foi o comentarista bíblico siríaco Dionísio bar Salibi que, numa nota marginal a um manuscrito, afirmou a transferência da festa de 6 de janeiro para 25 de dezembro. As reminiscências pagãs nas festas cristãs atuais são, quando muito, empréstimos medievais da Europa do Norte e do Leste, não de festas pagãs da Antiguidade. 

2) Em dezembro inicia-se a estação das chuvas, o inverno rigoroso (cf. Esd 10,9; Jr 36,22; Jo 10,22). Seria mais provável que os pastores tivessem seus rebanhos recolhidos e abrigados, e não nos campos (cf. Lc 2,6-8). Mas um martirológio romano do século IV diz a 25 de dezembro: natus Christus in Betlehem Judeæ. E Santo Agostinho afirma que os conservadores donatistas celebravam o Natal a 25 de dezembro, mas não a Epifania a 6 de janeiro, para eles uma data inventada.

3) Liturgicamente, 25 de dezembro faz sentido com relação à data em que se comemora a Natividade de São João Batista (24 de junho). Seu pai Zacarias, que era “da classe de Abias”, concebeu-o após exercer suas funções sacerdotais (Lc 1,5.8s). Ora, consta que tal classe servia no Templo a partir de julho, de modo que o Batista pode ter nascido a partir de abril e Cristo a partir de outubro. Não é possível ter certeza, pois o calendário judaico incluía um 13º mês a cada três anos mais ou menos.

4) Os professores Louis Duchesne (França) e Thomas Talley (EUA) defendem que a data litúrgica do Natal depende da data da Paixão porque, para o entendimento medieval e também judaico, toda a salvação se opera conjuntamente, em unidade. O dia da Criação também é o dia da Salvação: a Páscoa. Por isso, Cristo teria sido concebido no mesmo dia do seu Mistério Pascal (cf. At 13,33; Sl 2,7), isto é, no plenilúnio do equinócio da primavera. De fato, Tertuliano calculou que o dia 14 de Nisã do ano em que morreu Nosso Senhor correspondeu então a 25 de março do calendário juliano. Santo Agostinho também fala disso em sua obra De Trinitate.

5) Por outro lado, no Oriente a Igreja Ortodoxa fez a equivalência com o calendário grego, a 14 de Artemisios (primeiro mês da primavera), isto é, 6 de abril. Santo Epifânio diz que em 6 de abril “o Cordeiro foi depositado no imaculado útero da Santa Virgem, ele que tirou e tira em perpétuo sacrifício os pecados do mundo”. Por isso comemoram o Natal a 6 de janeiro.

7 de jun. de 2011

Opinião de um pilantrinha sobre o modernismo literário

Tenho um amigo mafioso que, com toda a franqueza, me falou cruamente das tentativas de imitação da desconstrução literária da “Semana de Arte Moderna” e seus sequazes posteriores:

— Não consigo nem ler isso direito. Quanto mais entender.

Mesmo eu, com minha veia polêmica, me surpreendi com ele. Considero não pouca coisa a capacidade de brincar com as palavras. Por outro lado, é real o risco por ele apontado de só brincar com elas, sem comunicar.

Esse risco é duplo. Em primeiro lugar, porque a poesia torna-se hermética e de difícil compreensão. Remete a experiências muito subjetivas e excessivamente elaboradas. Em segundo lugar, porque a poesia deixa de comunicar a experiência de forma direta, já que seus recursos estéticos são empregados mais para “gritar” do que para “dizer”.

Leitura de qualidade é a que ajuda a penetrar nas situações reais da vida. Esse é um critério útil para expor a saúde moral dos escritores. Penso que se lhes aplica, embora em menor medida, o que eu já afirmara acerca dos filósofos fanfarrões: nossos pensadores estão adoentados: moralmente mancos, presumem-se de sábios por serem bons retóricos.

20 de mai. de 2010

Provençal, langue d’oc



Muito antes dos trouvères (poetas e jograis do norte) — que usavam o francês (langue d’oil, no dizer de Dante Alighieri) —, os trovadores foram os brilhantes consagradores da langue d’oc através de uma poesia lírica extremamente refinada e desvinculada dos ciclos épicos e gloriosos de França. O provençal dos trovadores se destacava, tanto no conteúdo como na forma, com uma versificação e uma prosódia de grande riqueza, acompanhadas por melodias de caráter litúrgico.

Esses elementos, assim como seu ideário romântico, tornaram a lírica trovadoresca um dos pontos altos da poesia e do pensamento universais, atraindo os talentos poéticos europeus de toda a França, da Península Ibérica, da Itália e até mesmo da Alemanha. Por isso, nos séculos XI, XII e XIII, o provençal é a língua‑tipo da poesia lírica, como mais tarde na Ibéria seria o galego‑português. O florescimento dessa língua literária foi facilitado pela aceitação que os trovadores tiveram junto aos senhores feudais, a reis e a imperadores, não apenas na Provença mas em muitas cortes europeias.

Os primeiros trovadores aparecem em torno do ano 1100; considera‑se Guilherme VII (1071‑1127), conde de Poitiers e duque da Aquitânia, o primeiro deles. São conhecidos os nomes de mais de 400 poetas líricos, dentre os quais destacam‑se Arnaut Daniel, Bernart de Ventadour, Aimeric de Pegulhan, Bertran de Born, Girault de Borneilh, Jaufre Rudel, Gaucelm Faidit, Raimbaut de Vaqueiras, Guiraud Riquier e Joffre de Foxa.

Ar vei vermeills, vertz, blaus, blancs, gruocs
Vergiers, plans, plais, tertres e vaus;
E il votz dels auzels sona e tint
Ab doutz acort maitin e tart.
Som met en cor qu’ieu colore mon chan
D’un’ aital flor don lo fruitz sia amors,
E jois lo grans, e l’olors de noigandres.

[minha tradução:
Ora vejo rubros, verdes, azuis, brancos, louros
Vergéis, planícies, praias, colinas e convales;
E ressoa distinta a voz das aves
Com doces acordes de manhã e pela tarde.
Isso me acorda a colorir meu canto
De tal flor cujo fruto seja amor,
E júbilo a semente, e de nogueira o olor.]
(ARNAUT DANIEL, Verdi panni, sanguigni, oscuri o persi, n. 29)

Eissamen cum l’azimans
Tira ’l fer e ’l trai ves se,
Tir Amors mon cor a se,
Qu’es forser e plus tirans.
A lai del fer que vai ses tirador
Vas l’aziman que ’l tira vas si gen,
Amors, que’m sap tirar ses tiramen,
Mas tirat ma sivals per la melhor.

[minha tradução:
Assim como o ímã magnetizante
Arrebata o ferro e o atrai a si,
Arrebata o amor meu coração para si,
Que é forte e mais cativante.
Assim como o ferro que sem levador
Vai ao ímã que para si o atrai gentil,
O amor, que me sabe ganhar sem ser hostil,
Atraiu‑me contudo inda melhor.]
(AIMERIC DE PEGULHAN)

Do ponto de vista linguístico, o que mais chama a atenção, desde suas primeiras manifestações, é a grande unidade do provençal; as diferenças dialetais são mínimas em todo o território, independentemente da origem do trovador. Não houve um estágio literário dialetal, como aconteceu com o francês; todos os trovadores, mesmo os italianos e catalães, adotam de imediato a coiné da época. A escolha da língua literária se fez sem imposições, de modo espontâneo, ao que parece pela imitação da língua dos primeiros grandes trovadores. Os dialetos certamente existiam e se empregavam familiarmente, mas pouco influíram na língua literária, de modo que não houve predominância política de um dialeto sobre outro. Pensou‑se que a base dessa língua comum fosse o limosino; de fato, porém, essa suposição partiu dos elogios à “parladura de Limosi” de Raimon Vidal no tratado Las Razós de Trobar. Embora seja um problema de difícil especificação, admite‑se que a coiné literária dos trovadores se formou com contribuições de vários dialetos, inclusive o da região da Aquitânia, donde era “o primeiro dos trovadores”, Guilherme VII.

Essa língua literária difundiu‑se rapidamente através de toda a Provença, mantendo‑se até meados do século XIV, quando sobreveio a decadência, cuja causa principal foi a atividade de hereges albigenses na região. Convencido por um emissário papal, Simon de Montfort chefiou uma cruzada contra os albigenses, de 1208 a 1229; essa guerra devastou as províncias meridionais, sobretudo depois da batalha de Muret (12/9/1213), na qual Montfort derrotou a coligação de várias cidades (Béziers, Tolosa, Carcassona, Foix, Comminges) e Pedro II de Aragão. O resultado imediato desses fatos, somados ainda à depreciação do uso do provençal como “língua de hereges”, foi a desestruturação social, o empobrecimento dos grandes senhores; com isso, os trovadores perderam o apoio e o ambiente em que trabalhavam, principalmente depois da fracassada revolta de 1242. Começou então a lenta agonia da poesia trovadoresca das cortes e o declínio da língua literária, pois os trovadores foram obrigados a emigrar.

6 de fev. de 2010

Quatro dicas para gostar de ler (poesia)

1. Leia as poesias de T. S. Elliot: é como ouvir uma melodia sem a música.


2. Quando pegar na Divina Comédia, estude primeiro todas as notas explicativas para depois ler o canto de uma tirada. Leia um canto por dia, em voz alta, tentando reproduzir a musicalidade. Ao cabo de 100 dias, terá lido a obra toda.


3. Assista aos filmes antes de algumas obras: O Leopardo, Hamlet, Noite de Reis.


4. Poesias: descubra e aprenda a inflexão correta para declamar. Lembre-se: fim de verso não é o mesmo que pontuação!

*****

Uma lambuja: quer motivos para ler?


1) Ler por ler: arte nem aí com a vida.

2) Ler para evadir: arte melhor que a vida.

3) Ler para conhecer: arte mestra da vida.

4) Ler para aliviar: arte substitutiva da vida.

30 de dez. de 2009

Gravuras de Natal (3)

É muito difícil encontrar as gravuras de Hieronymus Wierix digitalizadas. Há seis sobre o Menino Jesus, da qual só tenho a primeira. Nas próximas postagens, ficaremos somente com as poesias que as acompanham.

Nesta primeira, vemos Maria cozendo e José construindo um barco com a ajuda dos anjos. Mas o Menino não precisa disso, só de amor.



Frustra pater navem dabit,
Frustra caligas parabit
   Texens Mater filio;


Quando volet navigare
Ambulabit super mare
   Nulius auxilio.


Tradução livre:

Em vão o pai fez um barco,
Em vão a Mãe teceu calças
   para o Filho.


Quando quiser navegar
Andará sobre o mar
   sem nenhum auxílio.

29 de dez. de 2009

Gravuras de Natal (2)

Esta gravura é de Hieronymus Wierix (1553-1619). Vem acompanhada da seguinte legenda:

Cur Genitrix fixis in natum obtutibus haeret?
Cur a suis pomis sedulus Altor adest?

Nempe tuo vultu neuter satiatur, Iesu,

Nam dolor a facie summus abesse tua.


Traduzo-a livremente:

Por que a Mãe carinhosa aperta o menino de fraldas?
Por que o Pai zeloso dá-lhe frutas a comer?
Certamente, Jesus, de contemplar-te nem um nem outro se sacia,
Nem poderão afastar de ti a suma dor.

28 de dez. de 2009

Gravuras de Natal (1)

Esta gravura é de Hieronymus Wierix (1553-1619). Vem acompanhada da seguinte legenda:

Nato Mater quid arrides?
Numquid pone Crucem vides
Minitantem parvulo?


Crucem portant et Baptista
Sed est parva nimis ista,
Ni crescat cum baiulo.

Tradução livre:

Mãe, por que sorris ao recém-nascido?
Não vês atrás a Cruz
Ameaçando o Menino?
Também o Batista porta uma cruz
Embora esta seja pequena
Nem cresça ao carregar.

18 de out. de 2009

Dante Alighieri: pai da língua italiana

Dante Alighieri pode ser considerado um construtor do italiano, tanto que, por mérito seu, chegou a ser considerado o idioma mais belo e nobre do mundo. O poeta idealizava estruturar uma língua literária italiana com contribuições de todos os dialetos, como fora realizado anteriormente pelos trovadores com o provençal. Com efeito, estes foram os brilhantes consagradores da langue d’oc. Muito antes dos trouvères (poetas e jograis do norte, que usavam o francês, a langue d’oil no dizer de Dante) e desvinculados dos ciclos épicos, glória do norte da França, os trovadores elaboraram uma poesia lírica extremamente refinada, tanto no conteúdo como na forma, com uma versificação e uma prosódia de grande riqueza, acompanhadas por melodias de caráter litúrgico.
Impressionado com o provençal, a coiné das cortes, Dante procurou uma forma lingüística italiana que reunisse o que de melhor houvesse nas diversas variedades da península. Pretendia que essa coiné fosse adotada como língua literária em todas as regiões da Itália, já que nenhuma das variantes correntes lhe parecia dispor das qualidades necessárias observadas no provençal. Descartou, de início, o toscano, segundo declarou no Capítulo III do Livro I em De vulgari eloquentia: “Quod in quolibet idiomate sunt aliqua turpia, sed pro cæteris tus cum est turpissimum”.
Em vários lugares já tinham despontado manifestações literárias, como na Úmbria, com São Francisco de Assis, na Toscana e em Bolonha. Contudo, nessa época, o principal centro literário formou-se na corte de Frederico lI, rei da Sicília, para o qual convergiram poetas e literatos de todas as partes da Itália; essa escola foi, de fato, a primeira tipicamente italiana, denominada “siciliana”, apesar de apenas dez dos seus vinte e nove poetas serem sicilianos; isso quia regale solium erat Sicilia.
Não tendo encontrado a coiné desejada entre os falares italianos, Dante Alighieri, quando resolveu a usar “il volgare”, lançou mão do florentino, apesar de sua relutância inicial, tanto que poucas são as formas não florentinas na Commedia e empregadas por razões estéticas na boca de não toscanos, embora haja também latinismos e galicismos. A localização geográfica central de Florença, as condições históricas da época e o uso da mesma língua por outros dois grandes nomes, Francesco Petrarca, com as conhecidas Rimas e seus clássicos sonetos, e Giovanni Boccaccio, com Decamerone, difundiram o florentino por toda a Itália como língua literária; fizeram também desaparecer a pretendida língua literária de base vêneta do norte, já com algum prestígio no século XIII.
As controvérsias da chamada “questione della lingua” se estenderam por séculos. Uma corrente pretendia que o modelo a ser seguido fosse o toscano antigo dos três grandes autores, a “florentini dade” autêntica. O principal defensor dessa posição, juntamente com Antonio Cesare, P. Giordani e G. Leopardi, foi Pietro Bembo com Prose della vulgar linglla (1525); Bembo aí propõe, como modelo, o toscano de Petrarca para a poesia e o de Boccaccio para a prosa. Opunham-se a essa corrente os que pretendiam como modelo literário o florentino falado, tais como Benedetto Varchi (1503-1565) e Giambattista Gelli (1498-1563). Em 1582, foi fundada em Florença a Accademia della Crusca (it. crusca significa “farelo”, expressão burlesca) com a finalidade de defender a língua literária dos três grandes; elaborou-se o Vocabulario degli Accademici della Crusca, baseado sobretudo em Boccacio e publicado em Veneza em 1612. Foram fixados o léxico e sua ortografia, a pronúncia e a estrutura gramatical; esse Vocabulario serviu de modelo para os de outras línguas românicas. Com isso, prevaleceu a posição dos partidários da linguagem da tríade.
Desse modo, a língua literária italiana teve sua gênese característica, diferente das demais no campo românico; nasceu de fatores meramente literários, não da supremacia política e cultural de um dialeto, como o francês e o castelhano, nem por ser a língua da chancelaria de um reino, como o catalão, nem a variante culta, poética e literária internacional, como o antigo provençal. Entretanto, a falta de unidade política da Itália, durante os séculos XVII e XVIII, não permitiu que aquele florentino literário se tornasse efetivamente a língua nacional, como aconteceu com o francês e o castelhano. Essa situação peculiar da Itália levou a língua literária a uma grande rigidez, que foi quebrada por Alessandro Manzoni ao usar o florentino falado pelas classes cultas em I promessi sposi.
O toscano literário, já no século XV, se impôs sobre o romanesco, o dialeto literário de Roma. Pelo fim do século XVI ou começo do seguinte, o antigo romanesco desapareceu, surgindo outro de caráter toscano. Depois da unificação da Itália, Roma de fato se torna o grande centro irradiador da língua nacional, sobretudo depois da Primeira Guerra Mundial. Atualmente, os meios de comunicação de massa, particularmente o cinema e a televisão, têm difundido essa língua de bases florentinas, tornando-a viva e presente em toda a Itália e reduzindo a importância dos dialetos, historicamente de grande peso.

17 de out. de 2009

O legado de Dante Alighieri

Gênio literário
O período mais sombrio da vida de Dante Alighieri seria também o melhor de sua criação, testemunhando uma viravolta de sua juvenil padronizada visão trovadoresca do amor como aflição para sua madura invenção do amor como nobilitante, aprazível e aberto à eternidade.
Nos primeiros anos do exílio, deixou inacabadas as obras Convivio e De vulgari eloquentia. Na primeira, acusou‑se de ter traído Beatriz com a “Dama Filosofia”, ainda que alguns autores sustentem ter sido uma infidelidade carnal. A segunda é um tratado que abriu as portas à cultura popular, ao nascimento das línguas modernas e ao desenvolvimento do italiano literário.
Dante percebera a inconveniência da intromissão do poder espiritual sobre o temporal. Por isso, escreveu De Monarchia em 1313, sobre a separação dos poderes da Igreja. Antecipando‑se a seu tempo, comparou tanto o governo civil quanto o eclesiástico a dois sóis que iluminam, respectivamente, a ordem política e a escatológica. Até então, fora mais usual representar o poder secular pela Lua, que reflete no mundo civil toda a luz da sociedade espiritual. Suas experiências políticas tinham‑no levado a afastar‑se da tese guelfa de que o papa livraria cidades como Florença do domínio germânico. Sem fazer‑se gibelino — o que suporia aceitar as reivindicações dos antigos nobres feudais —, Dante passou a ver o imperador medieval como um equivalente do imperador romano, contrapondo‑se à usurpação que também o papa poderia perpetrar no domínio temporal.
Inspiração anagógica
Com efeito, a organização do Império Romano permitira a difusão do Cristianismo. Ainda que as pequenas comunidades políticas garantissem grande participação dos cidadãos e um conseqüente vigor da vida pública, não podiam superar as limitações das invejas locais. Apresentava‑se aos olhos de Dante como necessário um limitado poder central para unificar longos territórios e impedir as disputas intestinas.
Não à toa, Virgílio, grande expoente do Império Romano, foi a figura escolhida para guiá‑lo pelo inferno e pelo purgatório. O maior épico latino, Æneida, de sua autoria, conta a história dos legendários heróis que escaparam da batalha de Tróia para fundar a cidade de Roma, deixando entrever grande penetração filosófica e espiritual. No livro sexto, Enéas viaja pelo orco, o que deu muitas idéias a Dante para seu Inferno, assim como a Descida de Menipo ao Inferno, narrativa composta por Luciano. Por outro lado, o afamado espírito profético de Virgílio, que teria anunciado o advento de Cristo numa de suas Éclogas, recomendava‑o como arauto da nova tese de Dante, segundo a qual o imperador seria um instrumento providencial para a boa ordem da Igreja e do Estado. Para Dante, a política era uma importante dimensão da espiritualidade.
Além disso, sua paixão pela filosofia era serva de sua poesia: Virgílio foi preferido a Platão, Aristóteles, Boaventura, Tomás de Aquino, pois o poeta florentino via as idéias em suas imagens do mundo: apesar de pensar ética, política e estética, sua vocação era a poesia. E Dante atribuía sua distinção poética ao estilo romano, que explorava os temas da guerra, amor e virtude.
Outras obras medievais sobre a vida póstuma também tiveram grande difusão na Europa e influência em Dante, como a anglo‑saxônica Saint Patricks Purgatory, a peregrinação completa descrita na legenda irlandesa Tundale ou os poemas sobre o inferno e o paraíso de frei Jacomino, companheiro de São Francisco.
O poeta igualmente aprendeu da poesia épica a criação de mitos. Em sua Commedia, o ponto mais controvertido é o do Veltro, personagem que utilizou para exprimir sua intuição ou pressentimento de uma provável ocorrência futura: símbolo libertador que soergueria a Itália, purificaria os costumes e venceria a loba, ao qual o próprio Dante pode ter se visto tentado a acreditar eventualmente encarnado naquelas conjunturas incertas e amigos malfadados de seu exílio (Inferno, I):

100 Com bestas numerosas se acasala;
e mais serão, até que por final
o Veltro surja para aniquilá‑la.
A obra‑prima
Dante é eclético, o homem‑síntese da Idade Média: faz uso de todas as correntes de pensamento vivas no seu tempo, sem discriminação, desde os gregos aos árabes, dos clássicos aos místicos. Rios de tinta foram gastos para falar do poeta, político e homem florentino. Contudo, a definição indiscutivelmente mais próxima à íntima verdade de sua vida intensa, transida de grandes paixões, sonhadas, vividas e perdidas, é o seu grande “retrato”: a Commedia, verdadeira “Suma Poética”, e uma das mais importantes da literatura universal, escrita entre 1307 e 1320. Já muito conhecida, durante a vida do poeta, difundiu‑se, após sua morte, com crescente fortuna: atesta‑o as numerosas cópias manuscritas, sua menção em representações da época e os muitíssimos comentários.
O primeiro exemplar parece que foi o preparado pelos mesmos filhos de Dante, Jacobo e Pedro, enviado em 1322 a Guido Novello de Polenta. Entre os antigos manuscritos, o mais autorizado é o da biblioteca florentina Laurenziano, redigido em 1343 por F. Villani. A mais antiga edição de imprensa é a de Folino, que remonta a 1472.
Entre os comentários mais próximos, cronologicamente, à apresentação original, recorda‑se o do já citado filho do poeta, Jacobo, e o latino de Graziuolo de’ Bambagliuoli, limitados somente ao Inferno; o de Jacobo della Lana, completo, composto antes de 1330, sumamente interessante pelas informações históricas; o comumente chamado “O Ótimo” (talvez do trecentista Andrés Lancia); os de Benvenuto de Ímola e de Francisco Buti, doutos “expositores” do poema, respectivamente nas universidades de Bolonha e Pisa.
Giovanni Boccaccio (1313-1375) recebeu da prefeitura de Florença o encargo de uma “pública exposição” da Commedia na igreja de Santo Estêvão da Badia: mas apenas apresentou os primeiros dezessete cantos do Inferno, “pela má saúde e pelo despreparo do auditório”. Foi quem deu à obra pela primeira vez o título Divina, nome recolhido pela edição veneziana de 1555, de Gabriel Giolito de Ferrari, o qual se consagrou.
A Commedia exerceu grande influência em poetas, músicos, pintores, cineastas e outros artistas nos últimos 700 anos. Desenhistas e pintores como Gustavo Düre, Sandro Botticelli, Salvador Dali, Michelangelo e Willian Black estão entre os ilustradores de sua obra. Os compositores Robert Schumann e Gioacchino Rossini traduziram partes de seu poema em música e o compositor húngaro Franz Liszt usou a Commedia como tema de um de seus poemas sinfônicos. O escultor Auguste Rodin inspirou‑se nela para suas principais obras, entre elas, O Pensador, que representa o próprio Dante, O Beijo, inspirada no drama de Paulo e Francisca e Ugolino e seus filhos, que retrata a tragédia do Conde. Todas compõem sua obra-prima Porta do Inferno.
Em sua XVII epístola, a um de seus patronos no exílio, Cangrande della Scala de Verona, Dante recomendava alguns princípios para se ler com proveito a Commedia: ter em conta os quatro possíveis sentidos textuais (literal, alegórico, moral e anagógico) e sua intenção moralista (mostrar a justiça remunerativa implicada no drama humano, o qual consiste no esforço por praticar as virtudes cardeais e teologais, superando as fraquezas e atrações terrenas).

15 de out. de 2009

Exílio e morte de Dante Alighieri


Charles de Valois e seu exército cercou Florença em novembro de 1301. Dante foi a Roma numa missão diplomática de emergência, tentando dissuadir o papa de apoiar os franceses. Bonifácio VIII o reteve na Cidade Eterna deliberadamente, de modo que os guelfos brancos ficaram privados de uma voz forte. Em janeiro de 1302, Florença caiu nas mãos de Charles de Valois, que reabilitou Corso Donati, para desgraça dos guelfos brancos.
Ao tomar conhecimento da calamidade, Dante retorna, mas, aconselhado a aguardar em Siena, recebe a 27 de janeiro a notícia de que o tinham condenado a dois anos de prisão e a pagar uma multa de 5.000 florins, além de interdição perpétua dos ofícios públicos, sob acusação de corrupção e sedição. Se não satisfizesse em três dias a pena pecuniária, estaria sujeito ao confisco de todos os seus bens.
Deixou‑se ficar em Siena mais algum tempo, indignado com a vil sentença e a impossibilidade de reunir tamanha soma em tão pouco tempo. A 10 de março, outra sentença se expedia: condenação à fogueira, caso fosse detido pela comuna, por não ter pagado a multa nem comparecido para responder ao processo; e seus bens foram arrolados para efeito do confisco.
Antes de se afastar definitivamente de seus companheiros, assumindo o exílio definitivo, Dante ainda prestou ajuda, contra seu parecer, a uma tentativa de resistência dos guelfos brancos foragidos em Arezzo, facilmente desbaratada pelas tropas florentinas e francesas. A frustração da esperança de retorno suscitou revolta entre os refugiados contra seus líderes. O poeta já não suportaria a mesquinhez dos sentimentos, a inconstância da opinião e a teimosa cegueira de seus conterrâneos.
O “mal de França” (Purgatorio, VII, 79), Filipe o Belo, passou a mostrar‑se cada vez mais exigente e ambicioso a Bonifácio VIII, querendo interferir diretamente nos interesses da Santa Sé. Como o papa oferecesse resistência, Filipe enviou‑lhe o general Guillaume Nogaret com uma ordem de prisão. O Pontífice octogenário, que estava recolhido em Alagna, sua residência particular, foi agredido por um comandante, caiu enfermo e faleceu em Roma pouco depois. Dante não pôde deixar de protestar contra o ominoso atentado à dignidade de Igreja (Purgatorio, XX):


85 E para os outros crimes lhe atenuar,
vejo invadir Alagna o lis dourado,
e em seu vigário Cristo aprisionar,

88 por novamente ser vilipendiado,
e provar outra vez vinagre e fel,
e entre os ladrões, ser novamente alçado.



Bento XI, o novo papa eleito, que também se opôs à política francesa, morreria menos de um ano depois, supostamente envenenado por ordem de Filipe. Enfim foi eleito Bertrand de Sout, arcebispo de Bordéus, sob o nome de Clemente V o Gascão, ao que parece patrocinado pelo rei francês, sob condição de fazer‑lhe todas as vontades, como de fato aconteceu: entre outras coisas, a extinção da Ordem dos Templários, a cessão, por cinco anos das rendas locais do clero à coroa da França e a surpreendente transferência da Santa Sé ao território gaulês.
Embora os guelfos brancos exilados tenham se unido aos gibelinos pela força das circunstâncias, Dante, que lutara contra eles em Campaldino, não admitiu tal solução de compromisso, mas esteve em diversas cidades toscanas simpatizantes à sua causa política, valendo‑se de seus talentos retóricos e diplomáticos. As provações do exílio e todas as vilezas, cobiças e maldades dos que o levaram ao infortúnio proporcionaram a Dante a motivação final para dar corpo à Commedia.
Dante ainda haveria de ver suas últimas esperanças desfeitas: a empresa mal sucedida de Henrique VII na Itália, tentando fazer jus ao seu domínio sobre a península; a morte prematura de Cangrande della Scalla, senhor de Verona, que se exaurira em infecundas guerras contra Pádua procurando modificar a situação italiana.
Como Dante favorecesse a Uguiccione della Faggiola, capitão de Lucca, que tinha pretensões sobre a Toscana, as autoridades florentinas expediram sua condenação à decapitação, extensiva a seus filhos que combateram contra a cidade, caso caíssem em seu poder. Em Lucca, o poeta viveu uma derradeira paixão por uma jovem chamada Gentucca.
A repentina destituição de Uguiccione, repercutiu tão positivamente em Florença que se concedeu anistia a todos os exilados, mediante admissão formal de culpa e indenização. As saudades de Dante foram porém superadas pelo seu estrito sentido de justiça e de honra, e permaneceu no exílio com seus três filhos, morando em Ravena. A serviço de Guido Novello, senhor de Ravena, Dante ainda realizou uma última missão diplomática em Veneza, cujos ares paludosos combaliram sua saúde, pelo que veio a morrer em 13 de setembro de 1321.
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