25 de out de 2011

Amor na berlinda

Após apresentar as 31 regras ditadas pelo Rei do Amor e as 12 regras essenciais do amor, coligidas na Summa amoris de André Capelão, penso ser o momento de pôr tal amor na berlinda.

Afinal, quem é o bendito amor??? O que é? Como é?

Amorosamente incorreto

A definição apresentada por André Capelão é: uma paixão natural que nasce da visão da beleza do outro sexo e da lembrança obsedante dessa beleza (I, I, in principio).

Nesse momento é preciso deixar bem claro que o amor só pode existir entre pessoas do sexo oposto. Não pode existir entre dois homens ou duas mulheres: duas pessoas do mesmo sexo não são absolutamente feitas para se propiciarem mutuamente os prazeres do amor ou para realizar os atos naturais que lhe são próprios. E o amor envergonha-se do que a natureza veda (I, II, in principio).

Anzol de corações

Ainda conforme André, amor vem do verbo amar, que significa ‘prender’ ou ‘ser preso’. Pois quem ama fica preso nas malhas do desejo e deseja prender o outro em seu anzol (I, III, in principio).

De fato, segundo Santo Isidoro de Sevilha, amicus vem de hamus, laço [de afeição] (cf. Etimologias, X, L, 5). No mesmo sentido, sentenciou São Pedro Damião (PL 145,965 c):

Hamat amor varios, scindit discordia iunctos.
— O amor fisga seres opostos; o ódio separa os que estão juntos.

E, na mesma linha, Pitra, abade de Solesme (Spicilège de l’abbaye de Solesme, III, 491):

Non amor, infelix, sed amo; non hamo, sed hamor;
Hamor et hoc hamo: pectus inhamat amor.
— Ai de mim! Não sou amado, mas amo; não fisgo mas sou fisgado;
sou fisgado e entendo que o amor fisga o coração.

Gradual, como a extensão do corpo

André Capelão também fala que desde a Antiguidade foram distinguidos quatro graus diferentes em matéria de amor. O primeiro consiste em dar esperanças; o segundo, na oferta do beijo; o terceiro nos prazeres das carícias; o quarto, enfim, tem por termo a doação total da pessoa (I, VI, A).

Sendo algo tão carnal, como não admitir sua obsolescência? Não à toa, Cícero afirma (Tusculanas, IV, 35), num comentário que faz jus à regra XVII do Rei do Amor:

Etiam novo quidam amore veterem amorem tamquam clavo clavum eiciendum putant.
— Acredita-se até que assim como um prego expulsa o outro, o amor novo expulsa o antigo.
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