21 de out de 2011

Deus é mistério, não enigma

Os homens desejam com ardor as coisas belas: gostam de saborear as grandes vitórias, de contemplar as paisagens, as obras sublimes, de se embevecerem com o rosto da pessoa amada, de se saciarem numa fonte ou de amor. Todos esses desejos se reduzem a um: “Ah, se eu pudesse ver a felicidade infinita! Ah, se eu pudesse ver a Deus!”, ainda que muitos homens não percebam a correlação das criaturas que o atraem com o seu criador.

O filósofo Ugo Spirito, falecido em 1979, dizia que Deus lhe faltava — ainda que estivesse convicto da sua existência — no sentido de que não sabia dar um rosto, refletindo aquele desejo de São Filipe que deixou a Cristo aborrecido: “Senhor, mostra‑nos o Pai e isso nos basta”. O Mestre lhe respondeu na última Ceia: “Filipe, há tanto tempo estou convosco e ainda não me conheces? Quem me viu viu o Pai” (cf. Jo 14,8-11).

O que é ver a Deus? O que significa pronunciar seu nome? — No mínimo, algo tremendo. Vejamos quatro exemplos:

1. São Tomás, depois de contemplar a Cristo num êxtase, diria ao seu fiel secretário Reginaldo, antes de morrer: “Tudo é palha perto do que vi”!

2. “E Moisés disse a YHWH: ‘Eis que tu me dizes: Faze subir a este povo; porém não me dizes quem enviarás comigo!’ Respondeu-lhe YHWH: ‘Meu Rosto irá contigo, e eu te descansarei’. Moisés disse ainda: ‘Rogo-te que me mostres a tua glória’. Respondeu-lhe YHWH: ‘Não poderás ver a minha face, porquanto homem nenhum pode ver a minha face e viver’” (Ex 33,12a.14.18.20).

3. Isaías, porém, veria a glória divina e se desesperaria: “Ai de mim… porque meus olhos viram YHWH!” (Is 6,5)

4. Jacó, por sua vez, comovera-se com um dom semelhante: “Jacó chamou ao lugar Fanuel — Rosto de Deus —, dizendo: ‘Vi Deus face a face, e a minha vida foi poupada” (Gn 32,30).

Conhecer a Deus não é, e nunca poderá ser, alcançar uma ideia. Se assim fosse, rebaixaríamos Deus ao nível do nosso pensamento e poderia ser misturado com as outras ideias do nosso mundo mental. Conhecer Deus é advertir a presença desse Pai vivo e atuante em nossa vida, perante o qual temos de tomar alguma atitude na vida.

O homem, quando se situa frente à realidade, percebe que o ser não se esgota no que sente, mas se apresenta como algo transcendente. Portanto, chegamos ao transcendente através do mundo, mas logo nos damos conta que o transcendente é mais real e perene que as coisas que sentimos (relativas e passageiras).

Esta descoberta é impactante. “O que é isto” — escrevia S. Agostinho — “que me traspassa de luz e bate no meu coração sem feri‑lo? Espanto‑me, porque não sou nada semelhante a isso, e me orgulho, porque sou semelhante” (Confissões, XI, 9, 1). A religião é justamente a resposta humana perante essa realidade que o ultrapassa. Mas nós cristãos, sabemos que o que o homem percebe não é um Deus-enigma, mas Deus-Pai.
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