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30 de jul. de 2013

O sorriso do Papa

Vamos dar uma de repórter?

A cerimônia de boas-vindas ao Papa, ocorrida na última quinta-feira, foi um dos atos centrais mais esperados da JMJ. Da Residência Assunção, onde Francisco estava hospedado próximo ao Cristo Redentor, o Pontífice saiu de helicóptero em direção ao Forte de Copacabana e dali iniciou seu trajeto de papamóvel, que durou cerca de uma hora, devido à euforia da multidão.

Fazendo referência ao lema “Bota Fé”, com o qual a cruz peregrina percorreu as dioceses brasileiras, o Papa explicou:

“«Bote fé»: o que significa?
Quando se prepara um bom prato e vê que falta o sal, você então 
«bota» o sal;
falta o azeite, então «bota» o azeite...
«Botar», ou seja, colocar, derramar.
É assim também na nossa vida, queridos jovens:
se queremos que ela tenha realmente sentido e plenitude,
como vocês mesmos desejam e merecem,
digo a cada um e a cada uma de vocês:
«bote fé» e a vida terá um sabor novo, a vida terá uma bússola que indica a direção;
«bote esperança» e todos os seus dias serão iluminados
e o seu horizonte já não será escuro, mas luminoso;
«bote amor» e a sua existência será como uma casa construída sobre a rocha,
o seu caminho será alegre,
porque encontrará muitos amigos que caminham com você.
«Bote fé», «bote esperança», «bote amor»!”

Nesse momento, o Papa fez que o povo repetisse suas palavras: “Todos juntos: Bote fé, bote esperança, bote amor!

Nos atos dos dias seguintes — Via Sacra, Vigília e Missa de Envio —, foram seguidos os mesmos procedimentos, de modo que muita gente pôde ver o Papa de perto e tirar uma foto enquanto ele passava pela orla. Em todos as cerimônias, os discursos do Romano Pontífice, mediante diversos apelos, incendiaram os jovens.

Por exemplo, na Vigília o Papa os convidou a ser

“terreno bom, cristãos de verdade;
e não cristãos pela metade, nem cristãos «engomadinhos»,
cujo cheiro os denuncia pois parecem cristãos mas no fundo, no fundo não fazem nada;
nem cristãos de fachada, cristãos que são 
«pura aparência», mas sim cristãos autênticos.
Sei que vocês não querem viver na ilusão de uma liberdade inconsistente
que se deixa arrastar pelas modas e as conveniências do momento.
Sei que vocês apostam em algo grande,
em escolhas definitivas que deem pleno sentido.”

Percebendo a reação positiva dos fiéis, o Papa entabulou um diálogo com as milhões de pessoas presentes, que lhe responderam em uníssono “É assim ou estou enganado? É assim?

Essa interação com a assistência se repetiu várias vezes. O Papa demonstrou-se um excelente comunicador e conquistava a adesão dos jovens nos pontos altos de seus discursos através de uma inflexão da voz ou de gestos das mãos. Numa longa entrevista concedida a uma emissora brasileira, o Santo Padre explicou que a Igreja é Mãe e, por isso, precisa estar próxima, abraçar e agasalhar. Nesse sentido, ele justificou o porquê quis circular em carro aberto, descer e falar diretamente com as pessoas, tocá-las: para comunicar, é necessário interagir.

Um comentário recorrente entre os peregrinos era o quanto o sorriso e a energia do Papa cativavam. Confirmava-se a admiração daqueles que, tendo conhecido o cardeal Bergoglio como homem de tendência mais reservada, constatavam que ele estava muito à vontade e expansivo como Papa.

Antes de anunciar a próxima JMJ em Cracóvia, o Santo Padre exortou os jovens na homilia Missa de Envio: “Vayan, sin miedo, para servir.” A cerimônia, liturgicamente impecável mesmo diante de três milhões de assistentes, foi um misto de alegria e saudade. Emocionava pelo recolhimento de todos, a ponto de que, nos momentos de silêncio sagrado, era possível ouvir as ondas do mar de Copacabana, como se fossem o eco de tantas vozes distantes a pedir que Cristo lhes fosse anunciado.

17 de jul. de 2013

Prepare-se para a JMJ!


Chegou a JMJ! Esteja preparado para essa guerra de paz e alegria que invadirá o Rio de Janeiro!

Para isso, vale a pena fazer um rápido check-list de sugestões e outras dicas:

ANTES

1) Durma e coma muito bem nesta semana. Corte o cabelo. Compre tudo o que poderá eventualmente precisar.

2) Separe seu carregador de celular (e ponha créditos!). Reserve barras de cereal para os próximos dias. Complete a mochila com as roupas necessárias.

3) Monte uma munição de cartões de visita, lembranças, presentes, santinhos, etc., para trocar com as pessoas de longe que você irá conhecer.

DURANTE

4) Faça uma boa Confissão sacramental. Entre outras coisas, ela garantirá que você lucre a Indulgência plenária da Jornada!

5) Seja exemplar no espírito de serviço e no bom humor. Não reclame da bagunça que nos espera, nem das coisas mal organizadas, nem de alguma ideia da organização que pareça brega ou peregrina. E, acima de tudo, ignore os espíritos de porco que fatalmente aparecerão (militantes atormentados das mais extravagantes tribos)…

6) Aproveite muito bem os tempos mortos (de espera, de trem, de caminhada, durante a função). Reze, converse, conheça pessoas, cante, brinque.

DEPOIS E SEMPRE

7) Dê prosseguimento ao incremento espiritual adquirido mediante o estudo sistemático da doutrina católica, a oração constante e a direção espiritual assídua.

8) Mantenha as amizades adquiridas.

9) Vença as travas da vergonha e do respeito humano! Faça muito apostolado!

***

Boa Jornada!

Imagine que a munição é a oração:

3 de jul. de 2013

Roteiro histórico pelo Centro do Rio

Passeios a pé, de baixo custo, que têm como vantagem a proximidade entre os pontos visitados, e que permitem conhecer as construções do Rio Antigo. — Bom, não é verdade?

O Rio Antigo é, simplesmente, o Brasil Antigo. A sede da Colônia, a Corte Imperial, o berço da República: onde há mais recordações dessas fases da nação do que na Cidade Maravilhosa?

Tenho o hábito de guiar pequenos grupos, explicando os edifícios, ruas e monumentos. E sempre vi nos olhos dos adventícios a surpresa por tanto patrimônio histórico e pontos de interesse turístico inexplorados. Um amigo certa vez chegou a me dizer que o roteiro que fizemos lhe lembrou suas caminhadas por Roma, que consistiam exatamente nisso: percorrer as ruas, conhecer os marcos, visitar as edificações.

Forçoso é reconhecer que a “Belacap” (apelido dado ao Rio quando foi feita Brasília, a “Novacap”) necessita conservação, sinalização e limpeza. Mas acredito que conhecer tais riquezas escondidas é o primeiro passo para estimular o atendimento a essas necessidades.

Muitas pessoas que virão como peregrinas para a JMJ me solicitaram algumas dicas de passeio nesse sentido. Seria muito extenso fazê-lo aqui. Por outro lado, já estão previstos, durante a JMJ, os Itinerários da Fé.

Por isso, apenas deixo uma lista dos pontos mais importantes, que podem ser vistos nesse mapa. Basta escolher um trecho e visitar os lugares.

O mapa também aponta áreas de interesse na Zona Sul e próximos à Quinta da Boa Vista. Restrinjo-me ao Centro do Rio, para onde foi transferida a Cidade após a expulsão dos franceses no século XVI.

Espero que os roteiros lhes sejam úteis!

***

Trecho da Rua 1º de Março (antiga Rua Direita)


  1. Esplanada do Castelo (onde ficava o morro da Cidade velha, desmontado no século XX).
  2. Igreja de São José (visitar a parte posterior do altar; é tradição no Rio não contar a ninguém o que se vê ali atrás).
  3. Palácio Tiradentes, sede da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (antigo Congresso Nacional).
  4. Paço Imperial (onde ocorreu o Dia do Fico e foi assinada a Lei Áurea; atualmente, museu gratuito).
  5. Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, anteriormente Capela Real (na qual encontram-se os restos mortais de Pedro Álvares Cabral, descobridor do Brasil, e de Dom Joaquim Arcoverde, primeiro Cardeal da América Latina).
  6. Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Ordem Terceira e Beco dos Barbeiros (rua original, com sarjeta central).
  7. Praça XV de Novembro (antigo Largo do Paço) e chafariz do Mestre Valentim.
  8. Arco do Teles e Travessa do Comércio (onde viveu Carmem Miranda).
  9. Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores (ver o projetil lançado contra a torre na Segunda Revolta da Armada, a 1893).
  10. Igreja da Santa Cruz dos Militares, anexa à Basílica Vaticana (Indulgência Plenária quotidiana)

Trecho da Lapa e Cinelândia


  1. Palácio Capanema (mais importante obra modernista do Brasil).
  2. Praça Marechal Floriano, onde está a Câmara Municipal (Cinelândia).
  3. Theatro Municipal.
  4. Biblioteca Nacional.
  5. Museu Nacional de Belas Artes.
  6. Catedral Metropolitana de São Sebastião do Rio de Janeiro.
  7. Arcos da Lapa.

Trecho das Avenidas Rio Branco e Presidente Vargas


  1. Centro Cultural Banco do Brasil.
  2. Espaço Cultural dos Correios.
  3. Casa França-Brasil (antiga Alfândega).
  4. Igreja de Nossa Senhora da Candelária.
  5. Avenida Presidente Vargas.
  6. Real Gabinete Português de Leitura (uma das bibliotecas mais lindas do mundo).
  7. Mosteiro de São Bento.

19 de jun. de 2013

Levanta-se o impávido colosso


Para quem não sabe, esse gigante aí em cima é o skyline do Rio de Janeiro visto do mar. A cabeça é a Pedra da Gávea; o pé, o Pão de Açúcar.

Velha é a história do gigante adormecido da Guanabara, cujas maluquices lendárias podem ser lidas nesse site nada recomendável.

Há uma charge da época de Getúlio Vargas, que pode ser vista nos corredores do Palácio Tiradentes (recém-depredado por vândalos que se aproveitaram dos protestos deste mês de junho), na qual aparece o gigante nacional firmando-se nos pés do Pão de Açúcar.


Sem dúvida, precisamos nos levantar do berço esplêndido. Mas para onde, Brasil?

4 de fev. de 2013

Cultura de inquilino

Adoro passear pelas ruas do Rio relembrando suas histórias, conservando na memória os detalhes que marcaram nossa colonização, o Império brasileiro e a República nascente. E sinto um misto de alegria com tristeza quando levo um nutrido grupo de pessoas para conhecer tantos desses lugares desconhecidos, menos limpos e mal sinalizados! Para muitos é novidade; para todos, uma surpresa.

Moramos aqui como inquilinos. Quando a coisa não é própria, perde-se a memória.

Na verdade, moramos ao avesso. Se a vitrine é o limbo da cidade, nem dentro nem fora, o shopping deve ser o sepulcro urbano em que as casas são lojas cujas fachadas são as vitrines.

Vale a pena reconquistar esse terreno, pois aqui vale a alma. Não só a de cada um de nós, mas também a alma da nação.

24 de jan. de 2013

O Carnaval há 60 anos

Nessa época, todo mundo era magro: só aparece uma gordinha em todo o filme. Todos comiam apenas arroz com feijão, batata, ovos e outros alimentos naturais…

Deem uma pausa na chegada de Getúlio Vargas e poderão observar seu guarda costas pessoal — Gregório Fortunato (de chapéu Panamá) — que veio a ser responsabilizado pelo atentado a Carlos Lacerda, desencadeando o suicídio de Getúlio, mergulhado no “Mar de Lama”, a 24 de agosto desse mesmo ano.

Vocês não verão ninguém pelado, mas o lança perfume era liberado.

Os desfiles com carros alegóricos eram apresentados pelas chamadas “Grandes Sociedades”, que eram agremiações que desfilavam na 3ª-feira. As escolas de samba ainda estavam na pré-história do carnaval. Observem a precariedade das armações, bonecos e alegorias. Não havia violência e o povão se divertia sem gastar dinheiro. O baile do Municipal e do Copacabana Palace era a rigor. Os homens pulavam de smoking e summer.




21 de set. de 2012

Três formas de falar da JMJ

Durante os quinze dias dos Jogos Olímpícos de Londres, apenas 900 mil espectadores utilizaram os transportes públicos da cidade. Por outro lado, é de se supor que o número será muito inferior no Rio de Janeiro durante a Copa do Mundo de 2014, pois o evento será restrito a jogos no Maracanã.

Nesse contexto, é sintomática, embora não é surpreendente, a pouca ênfase que se tem dado à próxima Jornada Mundial da Juventude na mídia, que atrairá no mínimo um milhão e meio de pessoas de todos os países para ficarem quatro dias na cidade. Ou seja, um evento de impacto muito maior, tanto numérico quanto em termos de valores.

Não surpreende. Como também não surpreendem as estatísticas sobre a redução do número de católicos no país. A redução é evidente. Contudo, “evidente” significa aparente. Explico-me.

Vivemos num mundo de aparência. Todos tentamos aparentar ser melhores do que somos; o que não é mau, já que por causa desse esforço, talvez realmente melhoremos um pouco. E quem vende tenta fazer sua oferta aparentar qualidade, e quem pechincha tenta aparentar desinteresse, etc.

E a Globo tenta de modo cínico aparentar respeito pela Igreja Católica exibindo o recém-lançado hino da Jornada na despedida do Fantástico. E os “católicos engajados” tentam de modo artificial manifestar uma penetração social que não possuem mediante #hashtags no Twitter e curtições no Youtube.

Nada disso é mau. Tudo isso é sim uma maravilhosa oportunidade de descobrir a paixão por comunicar.

Nesse aprendizado tão curto — pois a JMJ está às portas! —, é urgente levar em conta três coisas ao explicar a JMJ para nossos amigos:

1) A JMJ é para todo mundo, justamente porque é “católica”, universal. Enquanto cismarem em etiquetá-la de “coisa de igreja”, será mesmo um fiasco. Ninguém hoje em sã consciência suporta esse ar rarefeito de sacristia.

2) Os “católicos engajados” precisam abdicar de demarcar território midiático. A população brasileira continua sendo católica, ainda que a maioria seja de católicos à deriva. Uma análise meramente sociológica, de observação externa, que nivela denominações de fundo de quintal com a Igreja é uma aberração estatística. Por isso, ser “missionário” fazendo guetos cibernéticos é contraproducente: apenas aprofunda o sentimento de alheamento dos que estão longe. Portanto, encantar com a JMJ, sem “panfletar” a JMJ.

3) O verdadeiro apostolado se realiza através da amizade, que é comunhão de vida, não de linguagem. As mídias não são a “linguagem dos jovens”, mas a linguagem de todos. É ridículo achar que se tem penetração social apenas porque se criou um site, por exemplo. O que falta de verdade é lançar boias aos que estão à deriva, ou ir ao encontro dos que não querem retornar. Por isso, o eventual “fiasco” a que eu fazia referência é a eventual perda de uma oportunidade ímpar de resgatar os que estão perdidos por aí. Mas talvez, dado o nosso terceiro-mundismo, essa oportunidade não seja nossa mesmo, e a JMJ já tenha valido só por remexer as águas.

Sem dúvida, a JMJ será um sucesso para os “engajados” brasileiros, para os estrangeiros e para os que abrirem os olhos quando virem o mar de gente confluindo para a Cidade Maravilhosa. Quem sabe então muitos dos que estão à deriva começarão a perceber que há um farol no meio desse mar da vida… ainda que não lhes tenhamos mostrado a tempo essa luz.

O negócio é trabalhar e confiar! Afinal, o efeito JMJ será mais fruto da graça do que dos esquemas.

E você? Em que poderia melhorar a sua forma de comunicar?

23 de abr. de 2012

Sete passos para uma bem-sucedida JMJ Rio2013

Michael Cook escreveu acerca da JMJ ocorrida em Madri em 2011, aliás muito bem sucedida, a despeito da aura negativa com que a mídia teima em avaliar os eventos pontifícios.

Com base em suas ideias, pensei em sete providências para que a JMJ carioca de 2013 também dê seu fruto.

1) Que a nova geração assuma sua posição na Igreja

Eventos como World Youth Summit das Nações Unidas, ou mesmo shows do porte do Rock in Rio, embora reúnam milhares de jovens (e tantos não tão jovens), não se comparam às Jornadas Mundiais da Juventude, que costumam atrair milhões de peregrinos de centenas de países, os quais suportam o sacrifício de pagar uma longa viagem e de acomodar-se desconfortavelmente. A razão está no compromisso, na identificação com a Igreja Católica.

Portanto, o sucesso da JMJ passa pela interiorização desse compromisso. Sem dúvida, a desproporção da assistência indica que a próxima geração herdará os valores da Jornada e não dos shows patrocinados, mas isso não isenta da necessidade de assimilá-los e de traduzi-los em propósitos práticos, pessoais.

2) Aprender de Bento XVI, que dita a agenda moral do Ocidente

Desde antes de sua eleição, o Papa Bento alertava para a “ditadura do relativismo”. Seu ensinamento desmonta as atitudes politicamente corretas e a neutralidade moral e tem conseguido chegar aos ouvidos de autoridades aparentemente não tão dispostas a ouvi-lo, como as britânicas ou as germânicas, por exemplo.

Mas se o Papa tem feito gente alheia à Igreja pensar, poderíamos dizer o mesmo dos católicos (e dos católicos brasileiros)? Muitas vezes se tem a impressão, e especialmente no Brasil, que a maioria das pessoas ainda ignora as propostas lançadas por Bento XVI. Portanto, mãos à obra: é a hora de inteirar-se, ler, pôr a mão na cabeça e refletir um pouco.

3) Recorrer ao think tank de um homem só… que é de graça!

O crítico cinematográfico Neal Gabler, do New York Times, lamentou o fim do pensamento profundo e anunciou o advento da pós-ideia. Se isso é assim nas grandes metrópoles do Ocidente, não o é no Vaticano. E mesmo que setores intelligentsia não leiam a obra de Ratzinger sobre moral, filosofia, estética, economia e responsabilidade social, muitos jovens já leram.

Tamanha quantidade de ideias construtivas — acessíveis e gratuitas — promete deixar rastro e construir o futuro de uma geração carente de referenciais. E quanto a você, já leu também?

4) Encontrar a única saída para a CRISE (econômica, política, etc.)

Bento XVI anteviu esses e outros descaminhos e apontou respostas antes que as pessoas começassem a perguntar. A dimensão ética da economia não deve ser minorada nem substituída pela mera regulação.

A gratuidade é uma manifestação concreta da justiça e da caridade cristãs, que traz um remédio providencial para tais momentos de dificuldade. Impõe-se, mais do que nunca, redescobrir as múltiplas facetas da generosidade e do amor.

5) Renunciar ao consumismo e ao sexo desumanizador

Uma liberdade de mal com a verdade transforma-se em utilitarismo. O coração dos que reduzem sua liberdade à mera escolha atola-se no consumismo avaro e no hedonismo erótico. A desilusão é consequência óbvia.

A redescoberta de Deus inspira os sonhos de juventude, levanta o olhar para desafios que valem a pena, alargam o coração para os grandes ideais. Só contemplando a Deus pela oração e ouvindo sua Palavra é possível olhar para o homem e compreendê-lo.

6) Reafirmar que a verdade é mais forte que a utilidade

O discurso para os professores foi o mais memorável de Bento XVI na JMJ da Espanha. Propôs-lhes ensinar a verdade com o exemplo e com a palavra, mais do que mero know-how.

A questão aqui é como encaramos a vida universitária, problema que não afeta apenas o corpo docente, mas também o discente.

7) A JMJ ainda é o segredo bem guardado para o mundo

A cobertura jornalística das JMJs é paupérrima. Se um exíguo grupo de homossexuais fizesse barulho ou reunisse uma boa quantidade de gente disposta a presenciar extravagâncias, receberia holofotes. Não é de estranhar tão pouca atenção da opinião pública para um evento que reúne mais de um milhão de jovens? A JMJ das Filipinas, por exemplo, foi o ato mais massivo da história da humanidade, com quatro milhões de pessoas.

Dizem que o Papa alertou o prefeito do Rio de Janeiro que a JMJ trará um impacto para a cidade muito maior que a Copa ou as Olimpíadas, além de ser muito mais difícil de organizar. Provavelmente, as implicações políticas do encontro até facilitem sua prévia difusão midiática por via institucional.

De qualquer modo, é prioritário explicar para todo mundo o que é a JMJ. Vai na linha do conselho de São Rafael a Tobit: “É bom manter escondido o segredo do rei, mas é honroso revelar e celebrar as obras de Deus” (Tb 12,7a). Com isso, também se prepara a cidade para que não apenas tenha os braços abertos, mas saiba fechá-los num abraço caloroso ao Papa e aos peregrinos.

Contudo, talvez não seja tão peculiar essa miopia jornalística. Afinal, do mesmo modo que a mídia não anteviu a Primavera Árabe, nem a desintegração da União Soviética, etc., é incapaz de captar a história oculta dessas Jornadas.

Essa “história oculta” é capilar em todo o mundo através do fermento de cada jovem transformado pelo encontro com Jesus Cristo através da figura do Pontífice. Ele mesmo declarou aos jornalistas:

A sementeira de Deus é sempre silenciosa, não aparece imediatamente nas estatísticas. E com a semente que o Senhor lança na terra durante as JMJs, acontece como com a semente da qual Ele fala no Evangelho: algumas caem ao logo da estrada e perdem-se; outras caem sobre os pedregulhos e perdem-se; algumas caem entre os espinhos e perdem-se; mas algumas caem na terra boa e produzem muito fruto. Exatamente assim acontece com a sementeira da JMJ: muito se perde — e isto é humano. Com outras palavras do Senhor: o grão de mostarda é pequeno, mas cresce e torna-se uma árvore frondosa. E ainda, certamente, muito se perde, não podemos dizer imediatamente: a partir de amanhã recomeça um grande crescimento da Igreja. Deus não age assim. Mas cresce em silêncio e muito. Sei que das outras JMJs nasceram muitas amizades, e para toda a vida; muitas experiências novas de que Deus existe. E sobre este crescimento silencioso nós depositamos a confiança e estamos certos, embora as estatísticas não se pronunciem muito, de que a semente do Senhor realmente cresce e, para muitas pessoas, será o início de uma amizade com Deus e os outros, de uma universalidade do pensamento, de uma responsabilidade comum que deveras nos mostra que estes dias dão fruto.

*****

Não poderia terminar essas linhas sem fazer referência à análise que o próprio Papa fez da JMJ de Madri. Mas quanto aos cinco segredos que ele constatou em seu balanço, dediquemos uma postagem futura.

24 de fev. de 2012

Choque de qualidade ou choque de ordem?

A Prefeitura do Rio de Janeiro adora essa história de choque de ordem. É choque de ordem na orla, nos bairros, nas ruas, nos estacionamentos, no banheiro, no carnaval…

Muito já se falou também que o Brasil precisa de um choque de gestão. Um chacoalhão administrativo, desburocratizante, moralizante.

Que seja. No entanto, talvez o que mais seja necessário é um choque de qualidade. Pensemos nessa picaretagem de muitas faculdades de humanas e inclusive de exatas, em que os professores começam a aula mais tarde porque os alunos sempre chegam atrasados. De que adiantaria obrigá-los a chegar na hora se a aula for aquela enrolação de sempre?

Mais eficaz seria um choque de qualidade nas aulas. Bons professores não precisam exigir pontualidade, pois sua qualidade se encarrega de fazer os alunos deixarem o bar mais cedo.

Ordem não traz progresso; ordem traz tranquilidade. A Suíça organizada é exemplo para a confecção de relógios cuco e chocolates, enquanto a Itália bagunçada é exemplo de cultura, arte e criatividade.

Por isso, em vez de “Ordem e Progresso”, nosso moto deveria ser “Qualidade e Progresso”, o que traria a vantagem adicional de sacudir o jugo intelectual do positivismo que tanta miopia conferiu ao país.

Organizar a pouca vergonha nacional equivale a uma mulher safada comer cosmético numa tentativa desesperada de se tornar bonita por dentro.

21 de ago. de 2011

JMJ Rio 2013!


As Jornadas da Juventude reuniram a cada edição número recorde de participantes. Nunca houve tanta concentração de jovens de tantos países. A JMJ das Filipinas reuniu 4 milhões de jovens em 1995. Nenhum popstar conseguiu atrair tanta gente na história como os papas.

JMJ Madri 2011
Em outros tempos, o próprio cardeal Ratzinger já se perguntara que impacto duradouro suporia para a vida dos jovens a participação em tal evento, promovido pelo bem-aventurado João Paulo II desde 1986. A questão se impõe a qualquer crítico da pós-modernidade. De fato, pode haver coisa mais surpreendente do que milhões de jovens do século XXI, de todas as partes do mundo, se reunirem para estar junto da controvertida figura do Pontífice Romano? Estariam os jovens seguindo um mero movimento de massa, alienados quanto às “minorias oprimidas pela multissecular estrutura eclesiástica”?

O papa no confessionário atendendo a um fiel
Sem dúvida, pode haver alguns que veem no evento uma oportunidade de azarar meninas de outras nacionalidades ou mesmo da própria esquina, como se fosse um “megaencontro-jovem” no mau sentido. Apesar de inevitável, isso não nega que haja fé mesmo nesses participantes eventualmente “interesseiros”. Existe fé. As pessoas creem! Há apreço e reverência pelo Homem de Branco que, de alguma forma, realiza a figura de Cristo. O que não se entende é a crítica azeda contra a manifestação pública da fé. Acusa-se a Igreja de invasão e hipocrisia. Ora, o próprio Bento XVI reconhece a necessidade de um constante aprimoramento de todo aquele que se diz cristão: “Nós devemos ser santos para não gerar uma contradição entre o sinal que somos e a realidade que queremos significar” (Homilia, 20/8/2011). Naturalmente, em toda essa barafunda a culpa não é só da mídia, pois a comunicação interna da Igreja tem sido ruim. Mas seria bom que se fizesse um mínimo esforço de compreensão de um fenômeno nada desprezível. Afinal, os jornais dão mais espaço a seis veados pingados que fazem passeada do que a milhões de jovens, como se uma minoria de intolerantes tivesse mais importância do que uma maioria de gente da curva normal.

Por outro lado, sejamos sinceros: as JMJs são um desafio apostólico para a Igreja. Faz falta ajudar essa juventude pós-moderna a trocar a rebelião do “paz e amor pela rebelião da fé e da caridade. Porém Madri mostrou — com seus 200 confessionários ao ar livre — que o saldo de reconciliação mediante a Confissão foi excelente. Não há outro caminho para a maturidade senão o arrependimento das próprias culpas.

Peço perdão, pois escrevi a esmo, como num desabafo de ideias soltas.

Até 2013. O Rio receberá milhões de braços abertos. 

19 de nov. de 2010

Vida de mosquito carioca

Atrás de sangue. Alta taxa de natalidade contrabalança a enorme mortalidade. Mosquitos cariocas são mais espertos. Reparou que é mais difícil de pegá-los? Parecem ases da Primeira Grande Guerra.

— Você é do Rio? — perguntam-me com certa frequência. Embora tal indagação fosse normal em tempos da Belacap, quando a antiga Capital albergava mais elementos de fora do que originários da Cidade Maravilhosa, hoje teima em vir me interpelar assiduamente na boca de qualquer recém-conhecido.

Será que meus anos em São Paulo esmaeceram tanto assim meu sotaque? Ou terão os estudos clássicos esfoliado minha criação com banho de mar em Copacabana?

Sou carioca da “clara”, pois meu pai não era do Rio, só minha mãe. Talvez por isso eu não possua em estado puro as três características dos naturais da Guanabara, apontadas por alguns analistas pretensiosos: desconfiança, desejo de levar vantagem e informalidade.

Vejo esses traços como doenças, não peculiaridades. Afinal, desconfiança é trauma. Se todos querem levar vantagem, em quem confiaremos? Mas será mesmo verdade que todos são mal intencionados?

Segundo, ansiar por avantajar-se é fruto da desilusão, do sentimento de derrota por ter sido preterido, da abdicação forçada, do destronamento inesperado.

Terceiro, informalidade é imitar o excluído como forma de dizer-lhe: “somos semelhantes!” A diferença social não mais se estabelece pela fortuna, antes pelo viés identitário dado pelo estilo de vida. Quando o morro conquista o asfalto, conquista-o tornando-se seu modelo.

Diria que o verdadeiro carioca é, pois, experimentado, empreendedor e transparente. Cabe resgatar essas virtudes invertendo aqueles vícios. Como consegui-lo?

Queria ser um mosquito carioca: receonhecido pelo arrojo nas decoladas, ousadia das picadas e espalhafato do voo. Então, não mais contestaria minhas origens e eu não temeria nem riscos, rivais, reveses.

12 de mai. de 2010

Uma esmola, o cachorro e o poeta

Para compensar o freakshow da pizzaria, no sábado passado resolvemos comparecer numa sanduicheria de Santa Teresa, próxima ao Largo do Guimarães, pertencente a um argentino. Lugar legal, comida da boa, ainda mais se regada com tal molho.

Tudo levava a crer que, dessa vez, estaríamos livres de coisas bizarras e pessoas bisonhas. Já antecipo que foi ótima a ideia de comer ali. Entretanto, talvez traumatizados pelo gerente no estilo Mr. Bean que nos infernizara no Jardim Botânico, estávamos de olhos bem abertos, à espera do que poderia suceder.

E, com efeito, ocorreram três episódios.

Primeiro, caiu uma moeda do céu. Sério. A lanchonete fica na casa do proprietário, que estava dando uma festa no andar de cima. Além do metal, também começou a cair cinza de cigarro, em pitadinhas delicadamente despejadas por unhas coloridas pertencentes a um braço fofo que estava pousado na balaustrada. Dei um berro para cima, avisando que tinha gente embaixo.

Isto é Brasil!!! Mesmo entre argentinos…

Segundo, apareceu Rogério Manzolillo, poeta de Santa Teresa, querendo vender-nos seus versos. No metrô não se pode entrar para vender nada, porém ali na lanchonete se podia aceder para comercializar palavras:

…meu coração de menino
precisa dos cuidados teus,
pois, às dores do meu peito,
diploma não faz efeito.

Finalmente, um cliente amarrou um lindo cole no poste de luz do pátio em que estávamos. Choroso pela distância do seu dono ou pela garoa que anunciava a próxima chuva, o cão pastor escocês ficou mais animado com o surgimento imediato de umas crianças. Os pais inconsequentes das mesmas deixaram que o cachorro bancasse o alfa para cima do garoto do pior modo possível, num estilo digno de youtube. A cena foi grotesca. Depois, até fomos conferir se o cachorro era fêmea (só para aliviar), mas não era.

Estou sendo tosco por contar isso? — Toscos eram os pais que viam aquilo e riam sem opor resistência. Por sinal, anteontem conversava com alguém que me disse não ser “refém de gênero”, intelectualmente falando. Respondi que — ora bolas, e põe bolas nisso — todos os homens e mulheres herdamos constitutivamente um pacote de características que não há pseudocultura que possa negar. Viver de mentiras é condenar-se ao fracasso mais rotundo. “Ser homem ou mulher faz parte de nós. Não somos reféns. Carregamos uma bagagem que não é um fardo nem é um cativeiro, entende?”

Ok. Mas não daria para, apenas intelectualmente, abrir mão das nossas peculiaridades para travar um contato mais isento com a realidade? Creio que não. Lado a lado com a estraneidade vai a copertença, isto é, por mais “isentos” que tentemos ser, carregaremos sempre o lastro do nosso barco.

Sem intenções
inverte os fatos
outros olhares.
Um carinho ao acaso
seus lábios roubam
flores do meu coração.

Resumo da bossa? — Adorei o sanduíche. Recomendo!

2 de jan. de 2010

The Bourne Saga

Um sonho que realizo rara vez é pegar um monte de filme seriado e assisti-lo em dias seguidos para abarcar toda a história.


Quanto a Robert Ludlum, primeiro caí no laço de comprar a trilogia:
The Bourne Identity - 1980
The Bourne Supremacy - 1986
The Bourne Ultimatum - 1990


Nestes dias tranquilos de recesso, em que você twitta abóboras e ouve Eric Clapton cantando com B. B. King, a trilogia cinematográfica veio bem a calhar.


A história dos filmes é muito diferente, pois o venezuelano Carlos, o Chacal, em que se baseia a história, já estava perpetuamente preso quando saiu o primeiro filme.


Mas os longa-metragens são ótimos: têm um quê de drama (em parte tributável a Franca Potente) e estimulam a inteligência. Confesso que a minha tem estado adormecida nos últimos dias.


Após a morte de Ludlum, Eric Van Lustbader tem continuado a saga:
The Bourne Legacy - 2004
The Bourne Betrayal - 2007
The Bourne Sanction - 2008
The Bourne Deception - 2009
The Bourne Objective - prometido para 2010


Um roteiro para The Bourne Legacy está no limbo hollywoodiano. Já pensou se filmarem todos os episódios? Matt Damon provavelmente já seria vovô no The Bourne Objective.


Tenho um sonho: que Luciana Barroso convença a Universal Studios a contratar seu marido para filmar um Bourne no Rio de Janeiro.


Já pensou? Uma perseguição de carro descendo Santa Teresa a toda, virando no Aterro do Flamengo com sua soberba paisagem, mudança de pista para a contramão na altura do Morro da Viúva, carros caindo na enseada de Botafogo, ziguezague até pegar a rua São Clemente com o Corcovado dominando o fundo… Aí chegam no Humaitá, virarm à esquerda na Lagoa e vão pela praia até a Avenida Niemeyer. Mas o grande lance mesmo seriam carros despencando do Elevado do Joá e uma chegada alucinante na Barra da Tijuca…


Como em cada episódio ele perde um dos passaportes, só vai sobrar o brasileiro, que é o primeiro que aparece depois do americano no The Bourne Identity. No The Bourne Ultimatum (ganhador de três Oscars), Jason o utiliza para para entrar nos EUA, sob o nome Gilberto de Piento, pacato habitante de Osasco, São Paulo (veja mais aqui).


Já temos a Jornada Mundial da Juventude, fora a Copa e as Olimpíadas. Só falta a Expo Mundial 2020 e o Bourne.


Que tal o nome The Bourne Blooper para a versão tupiniquim?


Ouça a música do filme aqui (Extreme Ways, Moby).
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