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8 de abr. de 2013

Linguagem inclusiva, burrice exclusiva

Existe uma conhecida campanha legislativa em prol da assim chamada linguagem inclusiva. À época da posse da presidente Dilma, a questão tornou-se até mais debatida.

Adoro as mulheres, mas é uma besteira esse papo de “irmãos e irmãs”, “ser humano” em vez de dizer simplesmente “homem” e outras alternativas. No caso da palavra “homem”, isso é ainda mais ridículo, visto que homo, hominis indica a espécie, enquanto “varão” e “varoa” (tudo bem!: “senhora”) indicam o gênero (o sexo).

Esse pretenso inclusivismo pressupõe que o vício do machismo está tão arraigado que existiria até em nosso idioma! Aqui há dois equívocos: o primeiro, é que tal machismo é inexistente; o segundo, é que desconhecem a língua portuguesa. Ademais, não se deve mudar a língua por decreto (coisa feita apenas pelos totalitaristas ao longo da história, e que o desejam fazer os ideológicos de plantão).

Antes de saírem defendendo essa barbaridade linguística, seria bom que fossem estudar gramática. Efetivamente, a ideologia vive de mal com o estudo.

Copio uma explicação acerca do assunto, de autoria do helenista Jorge Piqué (os grifos são meus):

«Embora tenhamos aprendido na gramática tradicional que cada categoria tem um significado bem preciso, isso de fato não acontece nas diversas línguas. Geralmente temos dentro de cada categoria uma oposição entre um termo marcado, isto é, com um sentido bem preciso, e um termo não-marcado, isto é, neutro quanto a distinção apresentada pela categoria.

Tomemos inicialmente como exemplo a categoria gênero em português. A gramática tradicional nos diz que essa categoria apresenta um termo “masculino (ex.: gato) e um termo feminino (ex.: gata). Na verdade existe apenas o gênero feminino. O que chamamos de masculino é apenas o termo não-marcado, ou seja, neutro com respeito a diferença de sexo. O termo “gata em todos os contextos e mesmo isoladamente indica um animal do sexo feminino, mas gatonão. Embora em muitos contextos possa representar um animal do sexo masculino, a forma em si não nos diz nada sobre o sexo. Veja por exemplo a frase gato é um mamífero.” Obviamente não se refere a um gato macho, mas ao gato enquanto espécie, independente de seu sexo. Justamente pelo fato da forma “gato ser não-marcada quanto ao gênero é que ela acaba sendo escolhida quando se trata de um animal do sexo masculino. O mesmo vale para termos como “homem” ou “cavalo. Às vezes, pode ocorrer o contrário, o marcado ser o masculino (ex. “bode) e o não-marcado o feminino (ex.: cabra"), embora seja pouco frequente.»

Só um detalhe: “presidente” serve aos dois gêneros (particípio presente do verbo “presidir”) e o feminino “presidenta” também é correto.

16 de fev. de 2013

Quo vadis, Papa?

Estava correndo contra o relógio a 140 km/h quando chegou o torpedo com que me comunicavam a renúncia de Bento XVI. Por sorte a surpresa não me causou um acidente, pois uns cones na pista tinham me feito reduzir a velocidade. 

Em duas semanas, dois chefes de Estado renunciaram: Beatrix da Holanda e Bento XVI da Santa Sé. A primeira pode se dar a esse luxo sem grandes polêmicas, mas o segundo… Quais seriam seus motivos? 

Sempre espere o inesperado. Nunca despreze os conceitos que costumam fazer visita a ritmo de cometa. Renuncie a julgar com ligeireza eventos surpreendentemente singulares. Mas não foi isso que vi na imprensa. Sem dúvida, há pressa em noticiar, em explicar, em comentar, em interpretar. Contudo, quanta pena senti diante da superficialidade de Luís Felipe Pondé, ou da amargura despeitada de Genézio (Leonardo) Boff, ou das teorias conspiratórias de tantos outros críticos acerbos. 

Mais uma vez, o Papa se apresentou como “sinal de contradição”, revelando o segredo de tantos corações que descarregam na Igreja o fel da própria consciência. Após um luminoso pontificado, repleto de conquistas sem precedentes, ainda há quem teime em considerá-lo um fracasso. Ou até quem acuse Bento XVI de ter traído Santo Agostinho e passado para o partido de Pelágio: com efeito, a graça não é mais importante que a mera força humana? 

Quando li a notícia, logo me veio à cabeça a famosa frase apócrifa dos Atos de Pedro, inspirada em Jo 16,5, e imortalizada pela obra de Henryk Sienkiewicz: Quo vadis, Papa? — Papa, aonde vais?

O texto do martírio de São Pedro conta como o velho pescador, informado da cruel perseguição, partiu solitário de Roma a fim de servir o Senhor, mas permanecendo vivo. Ao sair, encontra o próprio Cristo no caminho, a quem pergunta: “Senhor, aonde vais?” (Quo vadis, Domine?

E o Mestre lhe responde: “Vou a Roma para ser crucificado”. Ao que Pedro perguntou: “Serás crucificado novamente?” Mas Jesus lhe respondeu: “Não, Pedro, agora mesmo já estou sendo crucificado”. Então Pedro caiu em si e, vendo que o Senhor subia ao céu, retornou a Roma feliz de saber que seu destino seria o mesmo que o do seu Mestre.

Uma rápida analogia levaria a julgar a renúncia ao sólio pontifício com o mesmo rigor adotado por Dante Alighieri diante da abdicação de Celestino V, o santo papa medieval que o poeta afirma encontrar logo à entrada do Inferno (III, 58-60): 


Alguns já distinguira: eis, de repente,
Olhando, a sombra conheci daquele
Que a grã renúncia fez ignobilmente. 


Ao que parece, São Celestino — conhecido por Dante em 1294 — renunciou perante o Consistório após cinco meses de pontificado por causa de uma astuta campanha do cardeal Gaetani, destinado a sucedê‑lo com o nome de Bonifácio VIII. Desterrado e mantido praticamente prisioneiro em condições desumanas, Celestino veio a morrer dois anos depois. 

Mas o juízo dantesco foi paradoxalmente superado pelo juízo eclesiástico, que elevou à glória dos altares o pobre pontífice acorrentado pelas malhas da intriga. 

A única presunção cabível no caso de Bento XVI, um pastor consciente da gravidade do seu ato, um homem santo, dado à oração e à reflexão, é que ele sofreu muito para chegar a tal decisão e que viu mais benefícios do que prejuízos na mesma. Numa atitude franca e humilde, explicou suas razões aludindo à saúde física e espiritual que estão aquém das necessidades da Igreja neste concreto momento histórico. Portanto, mais do que indagar acerca das debilidades de Bento XVI, é preciso investigar a vulnerabilidade especial que sofre a Igreja de hoje, a ponto de o Papa optar por uma solução tão inusitada. 

Já se disse com muito boa intuição que, com essa renúncia, Bento XVI coroou o ciclo de abnegações que norteou a sua vida de entrega a Deus. Sem dúvida, à pergunta quo vadis, Papa?, ele poderia nos responder como o próprio Senhor: “vou a Roma para ser crucificado” ou — por que não? — “agora mesmo já estou sendo crucificado”. 

***
Transcrevo a passagem original do apócrifo:

Ὡς δὲ ἐξῄει τὴν πύλην, εἶδεν τὸν κύριον εἰσερχόμενον εἰς τὴν Ῥώμην.
Καὶ ἰδὼν αὐτὸν εἶπεν· Κύριε, ποῦ ὧδε;
Καὶ ὁ κύριος αὐτῷ εἶπεν· Εἰσέρχομαι εἰς τὴν Ῥώμην σταυρωθῆναι.
Καὶ ὁ Πέτρος εἶπεν αὐτῷ· Κύριε, πάλιν σταυροῦσαι;
Εἶπεν αὐτῷ· Ναί, Πέτρε, πάλιν σταυροῦμαι.
Καὶ ἐλθὼν εἰς ἑαυτὸν ὁ Πέτρος καὶ θεασάμενος τὸν κύριον εἰς οὐρανὸν ἀνελθόντα,
ὑπέστρεψεν εἰς τὴν Ῥώμην ἀγαλλιώμενος καὶ δοξάζων τὸν κύριον,
ὅτι αὐτὸς εἶπεν· Σταυροῦμαι· ὃ εἰς τὸν Πέτρον ἤμελλεν γίνεσθαι.
(Atos de Pedro, XXXV, 9-16) 

27 de set. de 2012

Nove razões do atual entusiasmo por Hebe (Ήϐη)

Ήϐη
Flos ætatis, periculum tentationis.
— A flor da idade, perigo da tentação.
(Santo Agostinho, Ad iuvenes

Segundo Horácio, a juventude é cereus in vitium flecti: tão flexível para o vício quanto a cera (Ars poëtica, 163). A sentença também vale ao contrário, e talvez ainda mais. Com efeito, uma personalidade jovem bem formada, quanto não poderá fazer de bom na vida.

Horácio dirá mais; para ele, o jovem é tardus provisor: um tardo previdente (ib., 164). Por sua vez, Cícero afirmará: temeritas est florentis ætatis, prudentia senescentis — se a temeridade é própria do jovem, a prudência o é do ancião (De senectute, VI, 20).

Não obstante precisar de orientação, moderação e advertência — a fim de alcançar a maturidade —, por incrível que pareça a juventude tem sido proposta como exemplo e referência para os mais velhos.

Diz-se que, num mundo pessimista, as razões para a hipertrofia da juventude são:

1) Os jovens veem a vida como curtição. — Mas a “realização pessoal” é inimiga da “realização dos valores”?

2) Os jovens buscam a espontaneidade. — Mas é a espontaneidade que nasce das virtudes?

3) Os jovens sabem quebrar as regras e convenções. — Todas?

4) Os jovens desejam ser “eles mesmos”. — Sem abnegação? Sem transformação?

5) Os jovens vivem e interpretam seu próprio tempo. — Isso é efemeridade ou busca do absoluto?

6) Os jovens são livres do passado. — Eles não têm identidade?

7) Os jovens têm espírito crítico. — Mas sem terem ainda formado o critério?

8) Os jovens são a vanguarda profética das causas da justiça. — Que romântico!

9) Os jovens são intuitivos. — Sobre o quê?

Tenho dúvidas se divinizar a juventude não poderia causar ainda mais pessimismo à medida que sobrevém o envelhecimento. Mas essa inflação de Hebe também tem seu lado positivo se ela ajudar a perceber a emergência educativa em que vivemos.

Noutras palavras: se contemporaneamente houve uma positiva mudança semântica e de abordagem quanto à juventude, eis aí uma excelente oportunidade de cuidar com mais esmero da sua educação.

Educar é tratar um sujeito como se fosse objeto, embora sem tolher sua liberdade. E se há olhos tão otimistas para objeto tão nobre quanto a juventude, então é hora de cuidar dela com especial atenção.

Para isso, a JMJ será uma oportunidade ímpar. Fique ligado.

28 de jan. de 2012

Fala aí, Doutor!

Minha singela e bem-humorada homenagem ao Doutor Angélico, o mais sábio dos santos e o mais santo dos sábios.

Art. 1 — SE É CORRETO USAR A EXPRESSÃO “SÃO TOMÁS”.
O primeiro discute-se assim — Parece que a expressão “São Tomás” está errada.

1. — Pois chama-se cacófaton à expressão acidentalmente formada pela sílaba final de uma palavra e pela inicial da seguinte. No caso, o nome do Aquinate soará para muitos “Santo Más”.

2. DEMAIS — Vieira usa SANTO Tomás, como a maioria dos autores clássicos (Frei Luís de Sousa, João de Barros, Contador de Argote).

3. DEMAIS — Alegam os protestantes que não se deve chamar os homens de santos, por mais ilustres que pareçam, pois só Deus é Santo (cf. 1Sm 2,2).

MAS, EM CONTRÁRIO — Por uma regra de adaptação morfofonêmica, o padrão da língua portuguesa é utilizar santo antes de nomes começados por vogal ou por h, e são antes dos nomes que iniciam por consoante.

SOLUÇÃO — O sistema adotado pelo castelhano é diferente do português. O Dicionário da Real Academia Española ensina que a forma santo é exclusivamente usada antes de Tomás, Toríbio, Tomé e Domingo. Em todos os demais casos, utiliza-se san (San Antonio, San Roque, San Pablo, San Andrés). Portanto, devido à proximidade entre o castelhano e o português, deve-se atribuir o prurido para com a expressão “São Tomás” a um castelhanismo difuso.

Por outro lado, o uso da expressão “Santo Tomás” produz uma espécie de aliteração ou eco que, em última análise, também poderia ser tido por cacofônico: “São Totó Más”.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — O som feio, desagradável, impróprio ou com sentido equívoco, produzido pela união dos sons de duas ou mais palavras vizinhas, deve ser tido como verdadeiro cacófaton apenas quando gera expressão obscena, ridícula ou fora de contexto, o que não é o caso.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A partir do séc. XVIII o padrão de adaptação morfofonêmica portuguesa veio se firmando, notando-se hoje a nítida preferência pela expressão “São Tomás”.

RESPOSTA À TERCEIRA — O costume de chamar os cristãos de santos vem de longa data e é atestado por São Paulo em suas cartas. Conforme o testemunho de São Josemaria: “‘Saudai todos os santos. Todos os santos vos saúdam. A todos os santos que vivem em Éfeso. A todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos.’ — Que comovente esse apelativo — santos! — que empregavam os primeiros fiéis cristãos para se designarem entre si, não é mesmo?! — Aprende a tratar com os teus irmãos” (Caminho, nº 469).

12 de nov. de 2011

Dupla dimensão da Palavra

Em hebraico, o termo “palavra” (דְבָּר) significa literalmente “estar por trás e empurrar”, ou seja, indica tanto a “palavra que diz” quanto a “coisa que é dita”.

Portanto, “palavra” tem duas dimensões: a lógica e a fática. Ela é tanto noética (Ex 4,15.28.30; 19,6; 20,1; 24,3s), quanto dinâmica e criadora (Sl 33,6; 147,15; Is 55,16s; Sb 18,14s; 16,12). Por isso, palavra e sabedoria foram assimiladas em Sb 9,1s.

São João traduziu דְבָּר por λόγος (de valor noético). Não pretendeu, porém, seguir a abstração não‑messiânica de Fílon, nem fez de Cristo o “princípio ordenador do universo”, segundo o pensamento de Heráclito.

O “Verbo” de São João (Jo 1,1-18) supera a confusa intuição helênica: é fonte da vida e luz sobrenaturais, Palavra “de graça e de verdade” (Jo 1,17), de bênção eficaz e sabedoria.

Finalmente, verbum em latim (que também é sinônimo res, “coisa”) resgata tanto o valor noético quanto dinâmico de דְבָּר.

Nesse mesmo sentido, Santa Teresa dirá de Deus que “suas palavras são obras” (Vida, 25, 19).

25 de out. de 2011

Amor na berlinda

Após apresentar as 31 regras ditadas pelo Rei do Amor e as 12 regras essenciais do amor, coligidas na Summa amoris de André Capelão, penso ser o momento de pôr tal amor na berlinda.

Afinal, quem é o bendito amor??? O que é? Como é?

Amorosamente incorreto

A definição apresentada por André Capelão é: uma paixão natural que nasce da visão da beleza do outro sexo e da lembrança obsedante dessa beleza (I, I, in principio).

Nesse momento é preciso deixar bem claro que o amor só pode existir entre pessoas do sexo oposto. Não pode existir entre dois homens ou duas mulheres: duas pessoas do mesmo sexo não são absolutamente feitas para se propiciarem mutuamente os prazeres do amor ou para realizar os atos naturais que lhe são próprios. E o amor envergonha-se do que a natureza veda (I, II, in principio).

Anzol de corações

Ainda conforme André, amor vem do verbo amar, que significa ‘prender’ ou ‘ser preso’. Pois quem ama fica preso nas malhas do desejo e deseja prender o outro em seu anzol (I, III, in principio).

De fato, segundo Santo Isidoro de Sevilha, amicus vem de hamus, laço [de afeição] (cf. Etimologias, X, L, 5). No mesmo sentido, sentenciou São Pedro Damião (PL 145,965 c):

Hamat amor varios, scindit discordia iunctos.
— O amor fisga seres opostos; o ódio separa os que estão juntos.

E, na mesma linha, Pitra, abade de Solesme (Spicilège de l’abbaye de Solesme, III, 491):

Non amor, infelix, sed amo; non hamo, sed hamor;
Hamor et hoc hamo: pectus inhamat amor.
— Ai de mim! Não sou amado, mas amo; não fisgo mas sou fisgado;
sou fisgado e entendo que o amor fisga o coração.

Gradual, como a extensão do corpo

André Capelão também fala que desde a Antiguidade foram distinguidos quatro graus diferentes em matéria de amor. O primeiro consiste em dar esperanças; o segundo, na oferta do beijo; o terceiro nos prazeres das carícias; o quarto, enfim, tem por termo a doação total da pessoa (I, VI, A).

Sendo algo tão carnal, como não admitir sua obsolescência? Não à toa, Cícero afirma (Tusculanas, IV, 35), num comentário que faz jus à regra XVII do Rei do Amor:

Etiam novo quidam amore veterem amorem tamquam clavo clavum eiciendum putant.
— Acredita-se até que assim como um prego expulsa o outro, o amor novo expulsa o antigo.

19 de out. de 2011

Evangelho militante

Fides vera. | Spes firma. | Charitas perfecta.
(Medieval Latin, Kraus, Inschr. der Rheinlande II,
document 547, Back, O, 25)

Estender a mão

O voluntariado é hoje uma rede mundial que conta com milhões de colaboradores. A Internet nos deslumbra pela solidariedade com que tanta gente disponibiliza gratuitamente a informação. A filantropia é a marca registrada de uma série de grupos sociais empenhados na melhora das relações humanas, como o Rotary e o Lions Club, ou as comunidades espíritas de matriz kardecista.

O que há de comum entre essas iniciativas tão díspares? — O apreço pela alteridade. A gratuidade. A amizade como virtude chave para a construção da personalidade.

Mas essas atitudes procedem de uma raiz há muito esquecida pela consciência moderna, ou ao menos empequenecida a seus olhos. A origem extrema dessas condutas é a caridade cristã.

“Quem” é a Caridade

Etimologicamente, costuma-se referir o termo latino “caridade” (caritas, caritatis) à “carestia” e ao consequente encarecimento do custo de vida, de modo a indicar o valor elevado que uma pessoa teria para outra. Corresponde à forma grega κείρω, καρῆναι (“cortar curto, carecer”). A forma grega também pode ter o sentido mais raro de “cortar em fibras”. Κείρω , portanto, aponta para a carência, o anelo, a saudade.

Não obstante, a variante charitas parece remeter à outra forma grega, χάρις, a qual indica, segundo seu sentido mais objetivo, o semblante “gracioso” que desperta “favoritismo”.

No redemoinho da história das línguas, perdeu-se o rastro da palavra. Por isso, sinto-me no direito de ainda inventar uma terceira etimologia, mesmo que privada de fundamentação. É que caro, carnis significa em latim “carne”. Pois bem, gosto de interpretar a caridade como carnalidade, um “comungar da mesma carne”, um “fazer pacto de sangue”, um “irmanar-se”.

Se fosse real tal etimologia, seria possível dizer, com muita vivacidade, que o primeiro que viveu a caridade foi o Verbo feito carne. E o primeiro que levou a caridade ao extremo foi o mesmo Verbo cuja carne foi desfibrada na Paixão. Se “Deus é Caridade” (1Jo 4,8.16), no Verbo humanado a Caridade adquiriu um rosto: Jesus Cristo.

Mais do que ação

Voltar a dar o selo do cristianismo à identidade caritativa é urgente num momento histórico especialmente laicista e, por sorte, há muita gente trabalhando nessa seara. Em sentido contrário, porém, também existe uma necessidade premente de recuperar nos cristãos de hoje o ardor da caridade. Reconheço e aplaudo aqueles que sacrificam sua vida por amor — que são muitos, e que passam despercebidos —, mas a quantidade de braços cruzados (para não dizer algemados) ainda é tanta que surpreende.

Por desgraça, o laicismo encontra uma brecha onde menos se podia esperar. Depois de tantos anos após o Concílio Vaticano II, a visão que se tem da atuação dos leigos ainda é como a do século XIX. Só para dar um exemplo, sinto calafrios quando escuto a expressão “agente de pastoral”. Com efeito, ela oculta dois erros de fundo: a de que ser leigo é mero dado sociológico; e de que para atuar cristãmente é necessário ser um “engajado”. Nesse sentido, têm razão os laicistas quando impugnam a atuação dos “católicos oficiais”, acusando-a de ingerência eclesiástica.

Urge convencer os cristãos de que ser leigo é uma missão, não situação; e de que engajamento oficial é uma suplência de funções clericais, não ideal. Traduzindo em miúdos: a burocracia eclesiástica nunca poderá substituir a espontaneidade do amor. A caridade inventa, descobre caminhos, abre horizontes, flexibiliza, torna acessível com os braços abertos, arroupa com o calor da atenção. E quem tem de viver essa caridade é o povo cristão, não uma elite de “ortopráticos.

É claro que esperar tal atitude comprometida dos leigos supõe tê-los formado intensa e profundamente. E aqui a questão dá um nó: nada há mais distante da idolatria da práxis do que o estudo, a meditação e a oração.

2 de jul. de 2011

Síndrome de Peter Pan

O psicólogo norte-americano Dan Kiley criou, em 1983, a expressão “Síndrome do Peter Pan” para se referir ao atraso das decisões vitais como forma de evitar as responsabilidades dos adultos. Por sua vez, num artigo de The New York Times, de 10/9/07, David Brooks qualifica a entrada na maturidade como uma odisseia. Como é sabido, Odisseia é a longa viagem, descrita por Homero, que Odisseu — Ulisses — realiza de volta para sua esposa, seu filho e sua casa, após a Guerra de Troia, passando por lutas, monstros, perigos e aventuras amorosas.

O ambiente social influi, não é mera questão de imaturidade. É preciso buscar as razões. Que mudanças sociais estão por detrás dessa dilação? Do ponto de vista externo, são patentes duas conjunturas: por um lado, a democratização do ensino superior, com a consequente prolongação do tempo de estudo; e, por outro, a tendência a permanecer no ninho paterno por conta do atraso do casamento.

A indagação que parece mais candente dentre ambas é: por que atrasar o casamento?

De fato, casar-se significa entrar na vida adulta, coisa de que algumas pessoas fogem, conscientemente. Entretanto, a maioria atrasa o casamento apenas porque transformou-se, na opinião pública, a concepção que se tem do matrimônio.

Tornou-se corrente considerar o casamento não mais como a união de duas pessoas para formar um nós.
1+1=1 (família) 

Pelo contrário, instaurou-se uma nova lógica matrimonial, pela qual os cônjuges se casam sem deixarem de serem independentes.
1+1=3 (tu, eu e nós)

Há várias “justificativas” para essa mudança de paradigma: dificuldade de inserção profissional, aumento da expectativa de vida, revolução sexual. Mas isso justifica tantos concubinatos e mães solteiras?

As grandes vítimas são os filhos dessas uniões que tantas vezes não chegam a constituir família. Vale recordar uma frase (não literal) da animação Os Incríveis: Precisamos salvar nossos pais, para que não lhes ocorra algo pior do que morrer: separarem-se. Ainda por cima, esses órfãos de pais vivos frequentemente carecem do referencial masculino de um pai dentro de casa, ingressando no círculo vicioso da imaturidade afetiva.

O que sonham os filhos acerca de seu pai? Que ele, se tivesse de escolher entre os filhos e a esposa, elegesse a esposa. Esse amor viril seria um garante de estabilidade e inspiraria a confiança de que os pais nunca se separarão.

*****

Reciclo uns tweets antigos:
  • Fases da adolescência? Regressiva, agressiva, transgressiva, construtiva. 18/6/09
  • Fase regressiva da #adolescência: permanecer no ovo que é mais quentinho e seguro. Seu #bolha. 18/6/09
  • Fase agressiva da #adolescência: conquistar o espaço na pancada. Seu porco-espinho. 18/6/09
  • Fase transgressiva da #adolescência: pegar todas, experimentar tudo, quebrar os tabus. Seu inconsequente. 18/6/09
  • Fase construtiva da #adolescência: juntar os cacos para virar homem. Seu cheio de cicatrizes. 18/6/09
  • Muitos adultos ainda estão na #adolescência. Qual a sua fase? Você é um bolha? Um grosso? Um pervertido? Juntou seus cacos ou caiu na fossa? 18/6/09

2 de jun. de 2011

A mulher, paradoxo e esperança


Nenhum premiado as acusou ainda de imorais,
como ninguém tachou de má a boceta de Pandora,
por lhe ter ficado a esperança no fundo;
em alguma parte há de ela ficar.
(…)
Quando a loteria e Pandora me aborrecem,
ergo os olhos para eles,
e esqueço os bilhetes brancos e a boceta fatídica.
(Machado de Assis, Dom Casmurro, capítulo 7)

A sedução do fogo

Ao lado da figura de Lilit (mulher como mera “invenção”), também é útil recordar a descrição que Hesíodo faz de Pandora, a fim de tentar realizar uma mínima demarcação a alma feminina.

O poeta grego estabelece o tecido labiríntico da existência humana sob o signo da ambiguidade. Mais do que outra máscara da mulher, Pandora é, em si mesma, o “belo mal” (καλὸν κακόν· Teogonia, 585), uma fantasia criada pelos deuses para ser presenteada aos homens (παν-δωρα: todos os dons). As deusas a instruem e adornam: Atena com as lides domésticas, Afrodite com o desejo devorador.

Prometeu roubara o fogo dos deuses e o entregara aos homens. Às tramas e rapinas de Prometeu, Zeus respondeu com um presente de grego: a mulher. Substituta do fogo natural, a mulher é compreendida por Hesíodo como a cultura em lugar da natureza. É o preço do fogo.

A mulher é um paradoxo porquanto imitação do já existente. Ambígua, porque ao mesmo tempo frustra e presenteia. Deleuze diz que a mulher é um simulacro no sentido de que põe em questão as noções de cópia e de modelo.

A sedução da palavra

Por sua aparição é que os homens se tornam varões. E pelo artifício sedutor da fala articulada (αὐδέν), dom de Hefesto à mulher, fica substituída a linguagem expressiva (φονέν):

πατὴρ ἀνδρῶν τε θεῶν τε·
Ἥφαιστον δ' ἐκέλευσε περικλυτὸν ὅττι τάχιστα
γαῖαν ὕδει φύρειν, ἐν δ' ἀνθρώπου θέμεν αὐδὴν
καὶ σθένος, ἀθανάτῃς δὲ θεῇς εἰς ὦπα ἐίσκειν
παρθενικῆς καλὸν εἶδος ἐπήρατον·

…o pai dos homens e dos deuses
ordenou então ao ínclito Hefesto muito velozmente
terra à água misturar e aí pôr humana voz
[αὐδέν] e
força, e assemelhar de rosto às deusas imortais
esta bela e deleitável forma de virgem…
(Os Trabalhos e os Dias, 59-63).

A sedução do futuro

A esperança é desnecessária aos deuses imortais, assim como aos animais, que se ignoram mortais. Para os homens, contudo, constitui alento nos trabalhos. Ora, restou na caixa de Pandora apenas a esperança (ἐλπίς) que, porém, também é ambígua, pois os homens podem errar no que esperam.


O homem, na sucessão dos dias, tem muitas esperanças — menores ou maiores — distintas nos diversos períodos da sua vida. Às vezes pode parecer que uma destas esperanças o satisfaça totalmente, sem ter necessidade de outras. Na juventude, pode ser a esperança do grande e fagueiro amor; a esperança de uma certa posição na profissão, deste ou daquele sucesso determinante para o resto da vida. Mas quando estas esperanças se realizam, resulta com clareza que na realidade, isso não era a totalidade. Torna-se evidente que o homem necessita de uma esperança que vá mais além. Vê-se que só algo de infinito lhe pode bastar, algo que será sempre mais do que aquilo que ele alguma vez possa alcançar. Neste sentido, a época moderna desenvolveu a esperança da instauração de um mundo perfeito que, graças aos conhecimentos da ciência e a uma política cientificamente fundada, parecia tornar-se realizável. Assim, a esperança bíblica do reino de Deus foi substituída pela esperança do reino do homem, pela esperança de um mundo melhor que seria o verdadeiro «reino de Deus». Esta parecia finalmente a esperança grande e realista de que o homem necessita. Estava em condições de mobilizar — por um certo tempo — todas as energias do homem; o grande objetivo parecia merecedor de todo o esforço. Mas, com o passar do tempo fica claro que esta esperança escapa sempre para mais longe. Primeiro deram-se conta de que esta era talvez uma esperança para os homens de amanhã, mas não uma esperança para mim. E, embora o elemento « para todos » faça parte da grande esperança — com efeito, não posso ser feliz contra e sem os demais — o certo é que uma esperança que não me diga respeito a mim pessoalmente não é sequer uma verdadeira esperança. E tornou-se evidente que esta era uma esperança contra a liberdade, porque a situação das realidades humanas depende em cada geração novamente da livre decisão dos homens que dela fazem parte. Se esta liberdade, por causa das condições e das estruturas, lhes fosse tirada, o mundo, em última análise, não seria bom, porque um mundo sem liberdade não é de forma alguma um mundo bom. Deste modo, apesar de ser necessário um contínuo esforço pelo melhoramento do mundo, o mundo melhor de amanhã não pode ser o conteúdo próprio e suficiente da nossa esperança. E, sempre a este respeito, pergunta-se: Quando é «melhor» o mundo? O que é que o torna bom? Com qual critério se pode avaliar o seu ser bom? E por quais caminhos se pode alcançar esta «bondade»?

(Bento XVI, Spe salvi, n.º 30)

20 de mai. de 2010

Provençal, langue d’oc



Muito antes dos trouvères (poetas e jograis do norte) — que usavam o francês (langue d’oilno dizer de Dante Alighieri) —, os trovadores foram os brilhantes consagradores da langue d’oc através de uma poesia lírica extremamente refinada e desvinculada dos ciclos épicos e gloriosos de França. O provençal dos trovadores se destacava, tanto no conteúdo como na forma, com uma versificação e uma prosódia de grande riqueza, acompanhadas por melodias de caráter litúrgico.

Esses elementos, assim como seu ideário romântico, tornaram a lírica trovadoresca um dos pontos altos da poesia e do pensamento universais, atraindo os talentos poéticos europeus de toda a França, da Península Ibérica, da Itália e até mesmo da Alemanha. Por isso, nos séculos XI, XII e XIII, o provençal é a língua‑tipo da poesia lírica, como mais tarde na Ibéria seria o galego‑português. O florescimento dessa língua literária foi facilitado pela aceitação que os trovadores tiveram junto aos senhores feudais, a reis e a imperadores, não apenas na Provença mas em muitas cortes europeias.

Os primeiros trovadores aparecem em torno do ano 1100; considera‑se Guilherme VII (1071‑1127), conde de Poitiers e duque da Aquitânia, o primeiro deles. São conhecidos os nomes de mais de 400 poetas líricos, dentre os quais destacam‑se Arnaut Daniel, Bernart de Ventadour, Aimeric de Pegulhan, Bertran de Born, Girault de Borneilh, Jaufre Rudel, Gaucelm Faidit, Raimbaut de Vaqueiras, Guiraud Riquier e Joffre de Foxa.

Ar vei vermeills, vertz, blaus, blancs, gruocs
Vergiers, plans, plais, tertres e vaus;
E il votz dels auzels sona e tint
Ab doutz acort maitin e tart.
Som met en cor qu’ieu colore mon chan
D’un’ aital flor don lo fruitz sia amors,
E jois lo grans, e l’olors de noigandres.

[minha tradução:
Ora vejo rubros, verdes, azuis, brancos, louros
Vergéis, planícies, praias, colinas e convales;
E ressoa distinta a voz das aves
Com doces acordes de manhã e pela tarde.
Isso me acorda a colorir meu canto
De tal flor cujo fruto seja amor,
E júbilo a semente, e de nogueira o olor.]
(ARNAUT DANIELVerdi panni, sanguigni, oscuri o persi, n. 29)

Eissamen cum l’azimans
Tira ’l fer e ’l trai ves se,
Tir Amors mon cor a se,
Qu’es forser e plus tirans.
A lai del fer que vai ses tirador
Vas l’aziman que ’l tira vas si gen,
Amors, que’m sap tirar ses tiramen,
Mas tirat ma sivals per la melhor.

[minha tradução:
Assim como o ímã magnetizante
Arrebata o ferro e o atrai a si,
Arrebata o amor meu coração para si,
Que é forte e mais cativante.
Assim como o ferro que sem levador
Vai ao ímã que para si o atrai gentil,
O amor, que me sabe ganhar sem ser hostil,
Atraiu‑me contudo inda melhor.]
(AIMERIC DE PEGULHAN)

Do ponto de vista linguístico, o que mais chama a atenção, desde suas primeiras manifestações, é a grande unidade do provençal; as diferenças dialetais são mínimas em todo o território, independentemente da origem do trovador. Não houve um estágio literário dialetal, como aconteceu com o francês; todos os trovadores, mesmo os italianos e catalães, adotam de imediato a coiné da época. A escolha da língua literária se fez sem imposições, de modo espontâneo, ao que parece pela imitação da língua dos primeiros grandes trovadores. Os dialetos certamente existiam e se empregavam familiarmente, mas pouco influíram na língua literária, de modo que não houve predominância política de um dialeto sobre outro. Pensou‑se que a base dessa língua comum fosse o limosino; de fato, porém, essa suposição partiu dos elogios à “parladura de Limosi” de Raimon Vidal no tratado Las Razós de Trobar. Embora seja um problema de difícil especificação, admite‑se que a coiné literária dos trovadores se formou com contribuições de vários dialetos, inclusive o da região da Aquitânia, donde era “o primeiro dos trovadores”, Guilherme VII.

Essa língua literária difundiu‑se rapidamente através de toda a Provença, mantendo‑se até meados do século XIV, quando sobreveio a decadência, cuja causa principal foi a atividade de hereges albigenses na região. Convencido por um emissário papal, Simon de Montfort chefiou uma cruzada contra os albigenses, de 1208 a 1229; essa guerra devastou as províncias meridionais, sobretudo depois da batalha de Muret (12/9/1213), na qual Montfort derrotou a coligação de várias cidades (Béziers, Tolosa, Carcassona, Foix, Comminges) e Pedro II de Aragão. O resultado imediato desses fatos, somados ainda à depreciação do uso do provençal como “língua de hereges”, foi a desestruturação social, o empobrecimento dos grandes senhores; com isso, os trovadores perderam o apoio e o ambiente em que trabalhavam, principalmente depois da fracassada revolta de 1242. Começou então a lenta agonia da poesia trovadoresca das cortes e o declínio da língua literária, pois os trovadores foram obrigados a emigrar.

1 de mar. de 2010

Eusébeia, tresqueia e os cinco sentidos da religião

A pintura ao lado eu a fotografei no Castel Sant’Angelo, em Roma. Decora o teto de um dos corredores. Diz que a religião é filha da paz. Curiosa afirmação para os nossos dias, em que o ateísmo militante e o laicismo intolerante tentam atribuir à religião a causa das guerras e disputas.

O termo “religião” não é bíblico. Com efeito, não há equivalente à noção latina de religio nem em hebraico, nem em aramaico, nem em grego. Em grego, as palavras mais próximas que se utilizam são εὐσέϐεια (reverência; lealdade; piedade) e θρησκεία (culto ritual; serviço divino; formalismo supersticioso).

A etimologia latina de religio é duvidosa, mas útil de se conhecer:

1. Para Cícero, significa re-legere (reler): enfatizaria o caráter ritual da religião, repetitivo.

2. Para Lactâncio e Sérvio, vem de re-ligare (religar): evidenciaria a dependência do homem para com a divindade, a quem se procura unir mediante vínculos simbólicos como as vittæ (fitas) e stemmata (guirlandas).

3. Para Santo Agostinho, procede de re-eligere (reeleger): teria uma conotação aparentada com a anterior, embora evidenciando mais o desvio da condição humana que necessita tornar a escolher Deus.

4. Para Macróbio, deriva de re-linquere (relegar): frisaria o aspecto tradicional, de legado deixado pelos antepassados.

5. Há quem defenda a origem do termo em re-colligere (recolher): significaria o caráter subjetivo da experiência religiosa, aberta à ação de Deus na alma.

Na Teologia católica medieval, o termo evoluiu a ponto de significar:

1. A vida de relacionamento com Deus.

2. Qualquer tipo de tradição sagrada encarnada na cultura.

3. Uma virtude moral, parte potencial da justiça (“dar a cada um o que é seu”), que regula o relacionamento com Deus (“dar a Deus o que é dele”).

4. Forma católica ou protestante de viver o Cristianismo.

5. Estado de vida reconhecido pelo Direito Canônico e contraído mediante a profissão de conselhos evangélicos.

Penso que, dada a tamanha nebulosidade do conceito, utilizá-lo não é a melhor coisa. Aplicá-lo por igual a fenômenos tão díspares quanto o budismo, o confucionismo, o espiritismo, o islamismo e o cristianismo, muito menos.

Por outro lado, aceito a existência das chamadas “constantes religiosas”. Graças a elas é que a Igreja pode ser um centro de convergência e diálogo para as diversas culturas e tradições.

6 de out. de 2009

Xenófanes de Cólofon, pseudo-eleata

Autor controverso, Xenófanes de Cólofon é enumerado por Platão, Aristóteles e Teofrasto entre os filósofos pré-socráticos, mas é evocado como poeta pela tradição literária (Estrabão, Apuleio, Ateneu e outros).

Xenófanes abandonou sua terra natal e percorreu o mundo grego até o Ocidente, durante os muitos anos que lhe permitiu sua afamada longevidade. Nos seus escritos, satisfez interesses díspares: cantou a fundação de Cólofon e sua emigração para Eleia (em versos hoje perdidos), lançou veementes invectivas à tradição homérica, deu conselhos acerca dos banquetes, especulou sobre a unidade dos contrários, criticou o conhecimento humano, satirizou a crença na reencarnação, defendeu a unicidade divina. Xenófanes teve enorme influência no desenvolvimento religioso posterior.

Ao que parece, foi a poesia o seu emprego principal nos anos anteriores à sua ida para Eleia; e continuou a servi-lo depois, transmitindo ao seu pensamento a elevação e o entusiasmo próprios da linguagem épica.

Entrementes, como já vivesse os últimos anos da Época Arcaica grega, vociferou sátiras acerbas tanto aos heróis dos jogos quanto aos deuses. Àqueles, objetou lhes que as vitórias esportivas fossem superestimadas em comparação com as conquistas intelectuais; a estes, que seus mitos estivessem contaminados de imoralidade.

Sua violenta reação de repulsa pela proeminência de Homero e o arquétipo poético e operou a primeira manifestação da discórdia entre poetas e filósofos, cuja veemência ainda seria grande no tempo de Platão. Apesar disso, seu rechaço ao influxo educativo dos grandes poetas gregos não o impediu de valer se dos mesmos expedientes literários de Homero e Hesíodo. Sua veia polêmica não é, portanto, em si mesma desconstrutiva; antes se constitui numa invectiva moral, em cinismo crítico diante das ideias tradicionais.

10 de set. de 2009

8 de set. de 2009

Três considerações antes de aprender latim


Um método?

Gosto de imersão.

Para imergir, ouvir noticiários em latim, utilizar o software Rosetta Stone (procure no Google, OK?) e ouvir áudios.

Imersão é ouvir, viver, falar latim.

OU SEJA, TENTAR AO MÁXIMO ESTAR PRÓXIMO DELE DE MANEIRA PASSIVA.

Para facilitar as coisas:
Gramática?

Gramática não é a mesma coisa que método.

Gramática não é bom método de aprender uma língua.

Evite as que misturam as duas coisas. As crianças primeiro falam, depois estudam gramática, certo?

Em minha opinião, a melhor gramática de latim já publicada no Brasil é a Gramática da língua latina, de Ernesto Faria (2ª edição revista por Ruth Junqueira de Faria), publicada em Brasília pelo MEC/FAE em 1995.

Últimas observações

Vocês devem estar se perguntando se o latim eclesiástico é diferente do latim clássico. Basicamente, só na pronúncia. Os áudios acima seguem a pronúncia restaurada.

Mas… o latim da Nova Vulgata, por exemplo, é calcado no hebraico e no grego, o que lhe confere um estilo bisonho.

E o latim da liturgia? Algumas orações e outros hinos renascentistas são superdifíceis porque os autores foram mais estilosos, resgatando o estilo clássico. Afinal, poesia é sempre mais difícil.

Curioso é que o latim bisonho, por ser mais literal, é mais fácil de pegar. Por isso, ler a Bíblia em latim pode ser um bom começo. Já se conhecendo as histórias, entende-se o texto mais facilmente.

Em resumo: não há “vários latins”. Há um só, com duas pronúncias. Um só, com textos mais estilosos ("clássicos"), outros mais “povão” e outros “medianos”.

26 de jun. de 2009

Pré-história grega

Veja a apresentação que fiz sobre os primórdios da Grécia:
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