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28 de abr. de 2014

O triunfo das três feras

Freud, Marx e Nietszche são os três “mestres da suspeita”, na expressão de Paul Ricouer. Simbolizam a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e soberba da vida (cf. 1Jo 2,16), e assemelham-se às três feras que acossavam Dante na Divina Comédia: a pantera sensual, o lobo rapace e o leão orgulhoso (cf. Inferno, I, 31-60).

Terão triunfado? Ou apenas souberam exprimir o que o homem caído de todas as épocas concebeu no seu coração ferido? Sem dúvida, não fazem uma descrição da realidade, mas elegem uma dimensão humana (o sexo, a economia, o poder) como razão de transformação da realidade.

As ideias desses pensadores podem conter muita “lógica”, mas são tão “dogmáticas” quanto qualquer fideísmo. Em comum, racionalistas e fideístas afirmam que o mundo não é razoável, que o ser é caótico, que o seu sentido nós é que projetamos e plasmamos. Com efeito, Kant, em sua Crítica da Razão Pura, afirma que o ser em si é fundamentalmente não racional. Portanto, qualquer tentativa de filosofar (a nível verdadeiramente metafísico) conduziria a erros e criaria ídolos.

Daí que a metafísica tenha sido banida das escolas de filosofia, abandonada em prol de questões fragmentárias, substituída por fenomenologia, hermenêutica de textos ou análise crítica da linguagem.

Karl Barth
Daí também que o protestantismo tenha renunciado à filosofia clássica. Um de seus maiores expoentes, Karl Barth, chega a afirmar que a razão pela qual estaria errado ser católico é a aceitação da tese metafísica da analogia do ser. Para ele, qualquer analogia entre o ser divino e o ser criado seria uma falsificação de Deus.

Por isso é que o protestantismo resgatou a iconoclastia, aquela heresia empoeirada do século IX que proibia o culto de imagens. A iconoclastia protestante ataca não o gesso das estátuas, mas o simulacro de Deus que indubitavelmente conduziria o homem à idolatria. Como um namorado que fosse trocar sua namorada por uma fotografia dela.

***

A fé verdadeira exige a razão, pois a racionalidade é constitutiva do ser. Ao mesmo tempo, a razão saudável precisa do suprassensível, do transcendente, pois a verdade nos abre para algo que nos precede e nos liberta do nosso “eu” pequeno e limitado, aferrado a meras certezas, garantias e utilidades.

11 de jun. de 2013

Estrelas feitas com o pó da sombra

Ya-Lit

A chamada Literatura Young Adults tem crescido no Brasil, abordando temáticas mais apropriadas para leitores entre 14 e 21 anos. Frequentemente, descrevem o primeiro confronto do adolescente com os problemas pessoais e sociais.

Acabei a leitura de duas obras do gênero, com muitos pontos de contato entre ambas, mas enormes diferenças. A primeira delas foi A Culpa É das Estrelas, de John Green. A última, Branca como o Leite, Vermelha como o Sangue, de Alessandro d'Avenia.

Green é autor consagrado; d'Avenia, novato. Os dois livros saltaram para as telas do cinema. Os dois livros falam de amor e morte. Os dois livros abordam o conflito de gerações. Os dois livros falam da força da literatura.

Mas como divergem na abordagem e no propósito!

De quem é a culpa?

Alessandro d'Avenia é professor helenista, enquanto Green ostenta menos títulos nessa seara. Eis um evidente divisor de águas. Com efeito, senti um grande incômodo lendo A Culpa É das Estrelas: um pedagogo não deve só descrever, mas também orientar. Acredito que o escritor é um pedagogo, quanto mais para adolescentes.

D'Avenia conduz magistralmente seu personagem à maturidade, Green, porém… Em se tratando de adolescentes, isto é, de gente que ainda está se situando na vida, o educador (no caso, o escritor) não pode presumir capacidade de reserva crítica por parte de seus ouvintes.

E assim, Green descreve uma mecanizada relação sexual com a mesma naturalidade com que narraria um banho num cachorro. O sexo é apresentado como uma afanosa exploração a dois de uma realidade reservada aos adultos. E os exploradores em questão são extremamente imaturos.

Por outro lado, os personagens adolescentes e adultos de Green são incapazes de se comunicar. Fica difícil distinguir na sua história quem é mais imaturo ou quem é mais surdo: se os mais jovens ou os mais velhos.

Referências clássicas num mundo de vazios

Enquanto a obra americana cria um literato fictício, o livro italiano delicia ao trazer à tona uma constelação de textos clássicos, entre os quais destacam-se Vita Nuova de Dante Alighieri, a Bíblia e até alguns versos da poetiza Safo de Lesbos.

E ensina a encontrar respostas onde tornou-se costume tropeçar na preguiça: “A gente não está habituado a resolver certos questionamentos que o Sonhador apresenta. Não tem a cabeça preparada para certas coisas. Não sabe nem de onde tirar as respostas. Porque essas perguntas que ele faz não são daquelas que você encontra no Google se digitar”.

Em Bianca come il latte, rossa come il sangue, os catalizadores dessas descobertas literárias e amorosas são os adultos. D'Avenia é isento da visão de mundo de um Roald Dahl ou de um Mark Twain, para quem os jovens são sempre vítimas inocentes.

Amor acrisolado na dor

O realismo de d'Avenia fica por conta da sublimação da pulsão sexual adolescente pelas exigências sacrificantes do amor, numa solução diametralmente oposta à de John Green. D'Avenia pode não esconder a intimidade dos personagens, a ponto de ser um tanto desbocado, mas não finge uma “normalidade” desinteressada.

Seus personagens têm a consistência da covardia, dos azares, do pranto. E genialidade suficiente para descobrir a ambivalência desses momentos: “O pó da minha sombra é poeira de estrelas”, chega a afirmar o protagonista.


16 de fev. de 2013

Quo vadis, Papa?

Estava correndo contra o relógio a 140 km/h quando chegou o torpedo com que me comunicavam a renúncia de Bento XVI. Por sorte a surpresa não me causou um acidente, pois uns cones na pista tinham me feito reduzir a velocidade. 

Em duas semanas, dois chefes de Estado renunciaram: Beatrix da Holanda e Bento XVI da Santa Sé. A primeira pode se dar a esse luxo sem grandes polêmicas, mas o segundo… Quais seriam seus motivos? 

Sempre espere o inesperado. Nunca despreze os conceitos que costumam fazer visita a ritmo de cometa. Renuncie a julgar com ligeireza eventos surpreendentemente singulares. Mas não foi isso que vi na imprensa. Sem dúvida, há pressa em noticiar, em explicar, em comentar, em interpretar. Contudo, quanta pena senti diante da superficialidade de Luís Felipe Pondé, ou da amargura despeitada de Genézio (Leonardo) Boff, ou das teorias conspiratórias de tantos outros críticos acerbos. 

Mais uma vez, o Papa se apresentou como “sinal de contradição”, revelando o segredo de tantos corações que descarregam na Igreja o fel da própria consciência. Após um luminoso pontificado, repleto de conquistas sem precedentes, ainda há quem teime em considerá-lo um fracasso. Ou até quem acuse Bento XVI de ter traído Santo Agostinho e passado para o partido de Pelágio: com efeito, a graça não é mais importante que a mera força humana? 

Quando li a notícia, logo me veio à cabeça a famosa frase apócrifa dos Atos de Pedro, inspirada em Jo 16,5, e imortalizada pela obra de Henryk Sienkiewicz: Quo vadis, Papa? — Papa, aonde vais?

O texto do martírio de São Pedro conta como o velho pescador, informado da cruel perseguição, partiu solitário de Roma a fim de servir o Senhor, mas permanecendo vivo. Ao sair, encontra o próprio Cristo no caminho, a quem pergunta: “Senhor, aonde vais?” (Quo vadis, Domine?

E o Mestre lhe responde: “Vou a Roma para ser crucificado”. Ao que Pedro perguntou: “Serás crucificado novamente?” Mas Jesus lhe respondeu: “Não, Pedro, agora mesmo já estou sendo crucificado”. Então Pedro caiu em si e, vendo que o Senhor subia ao céu, retornou a Roma feliz de saber que seu destino seria o mesmo que o do seu Mestre.

Uma rápida analogia levaria a julgar a renúncia ao sólio pontifício com o mesmo rigor adotado por Dante Alighieri diante da abdicação de Celestino V, o santo papa medieval que o poeta afirma encontrar logo à entrada do Inferno (III, 58-60): 


Alguns já distinguira: eis, de repente,
Olhando, a sombra conheci daquele
Que a grã renúncia fez ignobilmente. 


Ao que parece, São Celestino — conhecido por Dante em 1294 — renunciou perante o Consistório após cinco meses de pontificado por causa de uma astuta campanha do cardeal Gaetani, destinado a sucedê‑lo com o nome de Bonifácio VIII. Desterrado e mantido praticamente prisioneiro em condições desumanas, Celestino veio a morrer dois anos depois. 

Mas o juízo dantesco foi paradoxalmente superado pelo juízo eclesiástico, que elevou à glória dos altares o pobre pontífice acorrentado pelas malhas da intriga. 

A única presunção cabível no caso de Bento XVI, um pastor consciente da gravidade do seu ato, um homem santo, dado à oração e à reflexão, é que ele sofreu muito para chegar a tal decisão e que viu mais benefícios do que prejuízos na mesma. Numa atitude franca e humilde, explicou suas razões aludindo à saúde física e espiritual que estão aquém das necessidades da Igreja neste concreto momento histórico. Portanto, mais do que indagar acerca das debilidades de Bento XVI, é preciso investigar a vulnerabilidade especial que sofre a Igreja de hoje, a ponto de o Papa optar por uma solução tão inusitada. 

Já se disse com muito boa intuição que, com essa renúncia, Bento XVI coroou o ciclo de abnegações que norteou a sua vida de entrega a Deus. Sem dúvida, à pergunta quo vadis, Papa?, ele poderia nos responder como o próprio Senhor: “vou a Roma para ser crucificado” ou — por que não? — “agora mesmo já estou sendo crucificado”. 

***
Transcrevo a passagem original do apócrifo:

Ὡς δὲ ἐξῄει τὴν πύλην, εἶδεν τὸν κύριον εἰσερχόμενον εἰς τὴν Ῥώμην.
Καὶ ἰδὼν αὐτὸν εἶπεν· Κύριε, ποῦ ὧδε;
Καὶ ὁ κύριος αὐτῷ εἶπεν· Εἰσέρχομαι εἰς τὴν Ῥώμην σταυρωθῆναι.
Καὶ ὁ Πέτρος εἶπεν αὐτῷ· Κύριε, πάλιν σταυροῦσαι;
Εἶπεν αὐτῷ· Ναί, Πέτρε, πάλιν σταυροῦμαι.
Καὶ ἐλθὼν εἰς ἑαυτὸν ὁ Πέτρος καὶ θεασάμενος τὸν κύριον εἰς οὐρανὸν ἀνελθόντα,
ὑπέστρεψεν εἰς τὴν Ῥώμην ἀγαλλιώμενος καὶ δοξάζων τὸν κύριον,
ὅτι αὐτὸς εἶπεν· Σταυροῦμαι· ὃ εἰς τὸν Πέτρον ἤμελλεν γίνεσθαι.
(Atos de Pedro, XXXV, 9-16) 

6 de jan. de 2012

Três perguntas aos Magos

O Natal foi à meia noite?

De fato, quando um tranquilo silêncio envolvia todas as coisas e a noite chegava ao meio do seu curso, a tua Palavra todo-poderosa, vinda do céu, do seu trono real, precipitou-se (Sb 18,14s).

Esse tipo de interpretação faz lembrar o início da Divina Comédia, quando Dante se refere aos seus 35 anos dizendo nel mezzo del camin di nostra vita

Por que haveria no presépio um boi e uma mula?

Se o local do Natal foi num estábulo, por que lá não haveria uma vaca? E se o carro da época era o burro, porque São José não o teria estacionado lá dentro?

O boi entende o seu proprietário, o burro conhece o cocho de seu dono; só Israel não tem conhecimento, só o meu povo não entende! (Is 1,3).

Quantos eram os Reis Magos?

O número dos Magos é variado nas representações dos primeiros tempos. Algumas imagens mostram apenas dois, mas na catacumba de Santa Domitilla, em Roma, aparecem quatro. Podem chegar a doze em representações medievais, opção preferida pela tradição oriental.

O número de três faz referência às prendas oferecidas (ouro, incenso e mirra), assim como às três raças descendentes dos filhos de Noé, semitas, camitas e jafetitas (asiáticos, africanos e europeus). Os nomes de Gaspar, Melchior e Baltazar aparecem pela primeira vez nos mosaicos da Basílica de San Apollinare Nuovo, em Ravena, e assim os Magos são referidos a partir do séc. VII. Já os sírios e os armênios adotam outros nomes.

20 de mai. de 2010

Provençal, langue d’oc



Muito antes dos trouvères (poetas e jograis do norte) — que usavam o francês (langue d’oilno dizer de Dante Alighieri) —, os trovadores foram os brilhantes consagradores da langue d’oc através de uma poesia lírica extremamente refinada e desvinculada dos ciclos épicos e gloriosos de França. O provençal dos trovadores se destacava, tanto no conteúdo como na forma, com uma versificação e uma prosódia de grande riqueza, acompanhadas por melodias de caráter litúrgico.

Esses elementos, assim como seu ideário romântico, tornaram a lírica trovadoresca um dos pontos altos da poesia e do pensamento universais, atraindo os talentos poéticos europeus de toda a França, da Península Ibérica, da Itália e até mesmo da Alemanha. Por isso, nos séculos XI, XII e XIII, o provençal é a língua‑tipo da poesia lírica, como mais tarde na Ibéria seria o galego‑português. O florescimento dessa língua literária foi facilitado pela aceitação que os trovadores tiveram junto aos senhores feudais, a reis e a imperadores, não apenas na Provença mas em muitas cortes europeias.

Os primeiros trovadores aparecem em torno do ano 1100; considera‑se Guilherme VII (1071‑1127), conde de Poitiers e duque da Aquitânia, o primeiro deles. São conhecidos os nomes de mais de 400 poetas líricos, dentre os quais destacam‑se Arnaut Daniel, Bernart de Ventadour, Aimeric de Pegulhan, Bertran de Born, Girault de Borneilh, Jaufre Rudel, Gaucelm Faidit, Raimbaut de Vaqueiras, Guiraud Riquier e Joffre de Foxa.

Ar vei vermeills, vertz, blaus, blancs, gruocs
Vergiers, plans, plais, tertres e vaus;
E il votz dels auzels sona e tint
Ab doutz acort maitin e tart.
Som met en cor qu’ieu colore mon chan
D’un’ aital flor don lo fruitz sia amors,
E jois lo grans, e l’olors de noigandres.

[minha tradução:
Ora vejo rubros, verdes, azuis, brancos, louros
Vergéis, planícies, praias, colinas e convales;
E ressoa distinta a voz das aves
Com doces acordes de manhã e pela tarde.
Isso me acorda a colorir meu canto
De tal flor cujo fruto seja amor,
E júbilo a semente, e de nogueira o olor.]
(ARNAUT DANIELVerdi panni, sanguigni, oscuri o persi, n. 29)

Eissamen cum l’azimans
Tira ’l fer e ’l trai ves se,
Tir Amors mon cor a se,
Qu’es forser e plus tirans.
A lai del fer que vai ses tirador
Vas l’aziman que ’l tira vas si gen,
Amors, que’m sap tirar ses tiramen,
Mas tirat ma sivals per la melhor.

[minha tradução:
Assim como o ímã magnetizante
Arrebata o ferro e o atrai a si,
Arrebata o amor meu coração para si,
Que é forte e mais cativante.
Assim como o ferro que sem levador
Vai ao ímã que para si o atrai gentil,
O amor, que me sabe ganhar sem ser hostil,
Atraiu‑me contudo inda melhor.]
(AIMERIC DE PEGULHAN)

Do ponto de vista linguístico, o que mais chama a atenção, desde suas primeiras manifestações, é a grande unidade do provençal; as diferenças dialetais são mínimas em todo o território, independentemente da origem do trovador. Não houve um estágio literário dialetal, como aconteceu com o francês; todos os trovadores, mesmo os italianos e catalães, adotam de imediato a coiné da época. A escolha da língua literária se fez sem imposições, de modo espontâneo, ao que parece pela imitação da língua dos primeiros grandes trovadores. Os dialetos certamente existiam e se empregavam familiarmente, mas pouco influíram na língua literária, de modo que não houve predominância política de um dialeto sobre outro. Pensou‑se que a base dessa língua comum fosse o limosino; de fato, porém, essa suposição partiu dos elogios à “parladura de Limosi” de Raimon Vidal no tratado Las Razós de Trobar. Embora seja um problema de difícil especificação, admite‑se que a coiné literária dos trovadores se formou com contribuições de vários dialetos, inclusive o da região da Aquitânia, donde era “o primeiro dos trovadores”, Guilherme VII.

Essa língua literária difundiu‑se rapidamente através de toda a Provença, mantendo‑se até meados do século XIV, quando sobreveio a decadência, cuja causa principal foi a atividade de hereges albigenses na região. Convencido por um emissário papal, Simon de Montfort chefiou uma cruzada contra os albigenses, de 1208 a 1229; essa guerra devastou as províncias meridionais, sobretudo depois da batalha de Muret (12/9/1213), na qual Montfort derrotou a coligação de várias cidades (Béziers, Tolosa, Carcassona, Foix, Comminges) e Pedro II de Aragão. O resultado imediato desses fatos, somados ainda à depreciação do uso do provençal como “língua de hereges”, foi a desestruturação social, o empobrecimento dos grandes senhores; com isso, os trovadores perderam o apoio e o ambiente em que trabalhavam, principalmente depois da fracassada revolta de 1242. Começou então a lenta agonia da poesia trovadoresca das cortes e o declínio da língua literária, pois os trovadores foram obrigados a emigrar.

4 de fev. de 2010

Centos de livros para ler

Após tantas postagens sobre leitura, deixo aqui uma lista dos “obrigatórios” em minha modesta opinião.

Repare que tento fazer um apanhado geral, com base em gêneros, assuntos e culturas. Portanto, as obras seriam substituíveis por outras similares, conforme o gosto do freguês.

Como somos lusoparlantes, penso que livros de nossa lavra são também essenciais.

Bon appétit!

TEATRO
  • Ésquilo, Oresteia
  • Sófocles, Trilogia Tebana
  • William Shakespeare: Hamlet, Macbeth
POESIA
  • Dante Alighieri, Vita nuova
  • T. S. Eliot
  • Carlos Drummond de Andrade
  • Manuel Bandeira
  • Fernando Pessoa
  • Bocage
EPOPEIA
  • Homero, Odisseia
  • Virgílio, Eneida
  • Anônimo, Beowulf
  • Anônimo, A Canção dos Nibelungos
  • Dante Alighieri, Divina Comédia
  • Camões, Os Lusíadas
  • John Milton, Paraíso Perdido
ÉPICO
  • Dom Quixote
  • Anônimo, Lazarillo de Tormes
LITERATURA EM GERAL
  • Machado de Assis: os livros da segunda fase (a partir de 1881)
  • Raimundo Lúlio, O livro das bestas
  • Jonathan Swift, Viagens de Gulliver
  • Jane Austen, Orgulho e preconceito
  • Lewis Carroll: Alice no País das Maravilhas, Através do espelho
  • Leon Tolstoi, Ana Karenina
  • Fiodor Dostoievsky: Crime e castigo, Os irmãos Karamazov
  • Joseph Conrad, O coração das trevas
  • Eugene Ionesco, O rinoceronte
  • Thomas Mann, Doktor Faustus
  • Constantin Virgil Gheorghiu, A vigésima-quinta hora
  • Michael Ende, A história sem fim
  • João Guimarães Rosa: Sagarana, Grande sertão: veredas
  • Antoine de Saint-Éxupéry: O pequeno príncipe, Cidadela
  • J.R.R.Tolkien: Silmarillion, O senhor dos anéis
ENSAIOS
  • T. S. Eliot, Ensaios
  • G.K.Chesterton, Ortodoxia
BIOGRAFIAS
  • Agostinho de Hipona, As confissões
  • John Henry Newman, Apologia pro vita sua
  • Salvador de Madariaga, Hernán Cortés
  • Marcelle Auclair, Santa Teresa de Ávila
  • Stephan Zweig: Magalhães, Maria Stuart, Fouché, Maria Antonieta
  • Emil Ludwig, Napoleão
  • David Downing, C. S. Lewis, o mais relutante dos convertidos
FILOSOFIA
  • Aristóteles: Metafísica, Ética a Nicômaco
  • Platão: Fédon, Banquete
  • São Tomás de Aquino: Suma contra os gentios, Suma Teológica
  • Edith Stein: Ser finito e ser eterno, A mulher
  • Miriam Joseph, O Trivium: As Artes Liberais da Lógica, Gramática e Retórica
ANTROPOLOGIA
  • C.S.Lewis: Os quatro amores, Dor
  • Viktor E. Frankl, Psicoterapia e sentido da vida
TEOLOGIA
  • Bíblia (especialmente Gn 1–Ex 20; Livros Sapienciais, especialmente Jó, Sb e Eclo; Novo Testamento)
  • Confúcio, Analectos
  • Catecismo da Igreja Católica (especialmente a parte IV)
  • Concílio Vaticano II, Gaudium et spes
  • João Paulo II: Fides et ratio, Veritatis splendor, Centesimus annus; Cruzando o limiar da esperança, Memória e Identidade
  • Bento XVI: Deus charitas est, Spe salvi, Charitas in veritate; Jesus de Nazaré (2 vol.); Fé, verdade e tolerância

HISTÓRIA E SOCIOLOGIA
  • Régine Pernoud, Idade Média, o que não nos ensinaram
  • Johann Huizinga, O declínio da Idade Média
  • Christopher Dawson, A formação da Europa
  • Jakob Burckhardt, A cultura do Renascimento na Itália
  • Thomas More, Utopia
  • A. Moorehead, A revolução russa
  • Gilberto Freire, Casa grande e senzala
  • Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil
Conto com sua ajuda para aprimorar esta lista!

18 de out. de 2009

Dante Alighieri: pai da língua italiana

Dante Alighieri pode ser considerado um construtor do italiano, tanto que, por mérito seu, chegou a ser considerado o idioma mais belo e nobre do mundo. O poeta idealizava estruturar uma língua literária italiana com contribuições de todos os dialetos, como fora realizado anteriormente pelos trovadores com o provençal. Com efeito, estes foram os brilhantes consagradores da langue d’oc. Muito antes dos trouvères (poetas e jograis do norte, que usavam o francês, a langue d’oil no dizer de Dante) e desvinculados dos ciclos épicos, glória do norte da França, os trovadores elaboraram uma poesia lírica extremamente refinada, tanto no conteúdo como na forma, com uma versificação e uma prosódia de grande riqueza, acompanhadas por melodias de caráter litúrgico.
Impressionado com o provençal, a coiné das cortes, Dante procurou uma forma lingüística italiana que reunisse o que de melhor houvesse nas diversas variedades da península. Pretendia que essa coiné fosse adotada como língua literária em todas as regiões da Itália, já que nenhuma das variantes correntes lhe parecia dispor das qualidades necessárias observadas no provençal. Descartou, de início, o toscano, segundo declarou no Capítulo III do Livro I em De vulgari eloquentia: “Quod in quolibet idiomate sunt aliqua turpia, sed pro cæteris tus cum est turpissimum”.
Em vários lugares já tinham despontado manifestações literárias, como na Úmbria, com São Francisco de Assis, na Toscana e em Bolonha. Contudo, nessa época, o principal centro literário formou-se na corte de Frederico lI, rei da Sicília, para o qual convergiram poetas e literatos de todas as partes da Itália; essa escola foi, de fato, a primeira tipicamente italiana, denominada “siciliana”, apesar de apenas dez dos seus vinte e nove poetas serem sicilianos; isso quia regale solium erat Sicilia.
Não tendo encontrado a coiné desejada entre os falares italianos, Dante Alighieri, quando resolveu a usar “il volgare”, lançou mão do florentino, apesar de sua relutância inicial, tanto que poucas são as formas não florentinas na Commedia e empregadas por razões estéticas na boca de não toscanos, embora haja também latinismos e galicismos. A localização geográfica central de Florença, as condições históricas da época e o uso da mesma língua por outros dois grandes nomes, Francesco Petrarca, com as conhecidas Rimas e seus clássicos sonetos, e Giovanni Boccaccio, com Decamerone, difundiram o florentino por toda a Itália como língua literária; fizeram também desaparecer a pretendida língua literária de base vêneta do norte, já com algum prestígio no século XIII.
As controvérsias da chamada “questione della lingua” se estenderam por séculos. Uma corrente pretendia que o modelo a ser seguido fosse o toscano antigo dos três grandes autores, a “florentini dade” autêntica. O principal defensor dessa posição, juntamente com Antonio Cesare, P. Giordani e G. Leopardi, foi Pietro Bembo com Prose della vulgar linglla (1525); Bembo aí propõe, como modelo, o toscano de Petrarca para a poesia e o de Boccaccio para a prosa. Opunham-se a essa corrente os que pretendiam como modelo literário o florentino falado, tais como Benedetto Varchi (1503-1565) e Giambattista Gelli (1498-1563). Em 1582, foi fundada em Florença a Accademia della Crusca (it. crusca significa “farelo”, expressão burlesca) com a finalidade de defender a língua literária dos três grandes; elaborou-se o Vocabulario degli Accademici della Crusca, baseado sobretudo em Boccacio e publicado em Veneza em 1612. Foram fixados o léxico e sua ortografia, a pronúncia e a estrutura gramatical; esse Vocabulario serviu de modelo para os de outras línguas românicas. Com isso, prevaleceu a posição dos partidários da linguagem da tríade.
Desse modo, a língua literária italiana teve sua gênese característica, diferente das demais no campo românico; nasceu de fatores meramente literários, não da supremacia política e cultural de um dialeto, como o francês e o castelhano, nem por ser a língua da chancelaria de um reino, como o catalão, nem a variante culta, poética e literária internacional, como o antigo provençal. Entretanto, a falta de unidade política da Itália, durante os séculos XVII e XVIII, não permitiu que aquele florentino literário se tornasse efetivamente a língua nacional, como aconteceu com o francês e o castelhano. Essa situação peculiar da Itália levou a língua literária a uma grande rigidez, que foi quebrada por Alessandro Manzoni ao usar o florentino falado pelas classes cultas em I promessi sposi.
O toscano literário, já no século XV, se impôs sobre o romanesco, o dialeto literário de Roma. Pelo fim do século XVI ou começo do seguinte, o antigo romanesco desapareceu, surgindo outro de caráter toscano. Depois da unificação da Itália, Roma de fato se torna o grande centro irradiador da língua nacional, sobretudo depois da Primeira Guerra Mundial. Atualmente, os meios de comunicação de massa, particularmente o cinema e a televisão, têm difundido essa língua de bases florentinas, tornando-a viva e presente em toda a Itália e reduzindo a importância dos dialetos, historicamente de grande peso.

17 de out. de 2009

O legado de Dante Alighieri

Gênio literário
O período mais sombrio da vida de Dante Alighieri seria também o melhor de sua criação, testemunhando uma viravolta de sua juvenil padronizada visão trovadoresca do amor como aflição para sua madura invenção do amor como nobilitante, aprazível e aberto à eternidade.
Nos primeiros anos do exílio, deixou inacabadas as obras Convivio De vulgari eloquentia. Na primeira, acusou‑se de ter traído Beatriz com a “Dama Filosofia”, ainda que alguns autores sustentem ter sido uma infidelidade carnal. A segunda é um tratado que abriu as portas à cultura popular, ao nascimento das línguas modernas e ao desenvolvimento do italiano literário.
Dante percebera a inconveniência da intromissão do poder espiritual sobre o temporal. Por isso, escreveu De Monarchia em 1313, sobre a separação dos poderes da Igreja. Antecipando‑se a seu tempo, comparou tanto o governo civil quanto o eclesiástico a dois sóis que iluminam, respectivamente, a ordem política e a escatológica. Até então, fora mais usual representar o poder secular pela Lua, que reflete no mundo civil toda a luz da sociedade espiritual. Suas experiências políticas tinham‑no levado a afastar‑se da tese guelfa de que o papa livraria cidades como Florença do domínio germânico. Sem fazer‑se gibelino — o que suporia aceitar as reivindicações dos antigos nobres feudais —, Dante passou a ver o imperador medieval como um equivalente do imperador romano, contrapondo‑se à usurpação que também o papa poderia perpetrar no domínio temporal.
Inspiração anagógica
Com efeito, a organização do Império Romano permitira a difusão do Cristianismo. Ainda que as pequenas comunidades políticas garantissem grande participação dos cidadãos e um conseqüente vigor da vida pública, não podiam superar as limitações das invejas locais. Apresentava‑se aos olhos de Dante como necessário um limitado poder central para unificar longos territórios e impedir as disputas intestinas.
Não à toa, Virgílio, grande expoente do Império Romano, foi a figura escolhida para guiá‑lo pelo inferno e pelo purgatório. O maior épico latino, Æneida, de sua autoria, conta a história dos legendários heróis que escaparam da batalha de Tróia para fundar a cidade de Roma, deixando entrever grande penetração filosófica e espiritual. No livro sexto, Enéas viaja pelo orco, o que deu muitas idéias a Dante para seu Inferno, assim como a Descida de Menipo ao Inferno, narrativa composta por Luciano. Por outro lado, o afamado espírito profético de Virgílio, que teria anunciado o advento de Cristo numa de suas Éclogas, recomendava‑o como arauto da nova tese de Dante, segundo a qual o imperador seria um instrumento providencial para a boa ordem da Igreja e do Estado. Para Dante, a política era uma importante dimensão da espiritualidade.
Além disso, sua paixão pela filosofia era serva de sua poesia: Virgílio foi preferido a Platão, Aristóteles, Boaventura, Tomás de Aquino, pois o poeta florentino via as idéias em suas imagens do mundo: apesar de pensar ética, política e estética, sua vocação era a poesia. E Dante atribuía sua distinção poética ao estilo romano, que explorava os temas da guerra, amor e virtude.
Outras obras medievais sobre a vida póstuma também tiveram grande difusão na Europa e influência em Dante, como a anglo‑saxônica Saint Patricks Purgatory, a peregrinação completa descrita na legenda irlandesa Tundale ou os poemas sobre o inferno e o paraíso de frei Jacomino, companheiro de São Francisco.
O poeta igualmente aprendeu da poesia épica a criação de mitos. Em sua Commedia, o ponto mais controvertido é o do Veltro, personagem que utilizou para exprimir sua intuição ou pressentimento de uma provável ocorrência futura: símbolo libertador que soergueria a Itália, purificaria os costumes e venceria a loba, ao qual o próprio Dante pode ter se visto tentado a acreditar eventualmente encarnado naquelas conjunturas incertas e amigos malfadados de seu exílio (Inferno, I):

100 Com bestas numerosas se acasala;
e mais serão, até que por final
o Veltro surja para aniquilá‑la.
A obra‑prima
Dante é eclético, o homem‑síntese da Idade Média: faz uso de todas as correntes de pensamento vivas no seu tempo, sem discriminação, desde os gregos aos árabes, dos clássicos aos místicos. Rios de tinta foram gastos para falar do poeta, político e homem florentino. Contudo, a definição indiscutivelmente mais próxima à íntima verdade de sua vida intensa, transida de grandes paixões, sonhadas, vividas e perdidas, é o seu grande “retrato”: a Commedia, verdadeira “Suma Poética”, e uma das mais importantes da literatura universal, escrita entre 1307 e 1320. Já muito conhecida, durante a vida do poeta, difundiu‑se, após sua morte, com crescente fortuna: atesta‑o as numerosas cópias manuscritas, sua menção em representações da época e os muitíssimos comentários.
O primeiro exemplar parece que foi o preparado pelos mesmos filhos de Dante, Jacobo e Pedro, enviado em 1322 a Guido Novello de Polenta. Entre os antigos manuscritos, o mais autorizado é o da biblioteca florentina Laurenziano, redigido em 1343 por F. Villani. A mais antiga edição de imprensa é a de Folino, que remonta a 1472.
Entre os comentários mais próximos, cronologicamente, à apresentação original, recorda‑se o do já citado filho do poeta, Jacobo, e o latino de Graziuolo de’ Bambagliuoli, limitados somente ao Inferno; o de Jacobo della Lana, completo, composto antes de 1330, sumamente interessante pelas informações históricas; o comumente chamado “O Ótimo” (talvez do trecentista Andrés Lancia); os de Benvenuto de Ímola e de Francisco Buti, doutos “expositores” do poema, respectivamente nas universidades de Bolonha e Pisa.
Giovanni Boccaccio (1313-1375) recebeu da prefeitura de Florença o encargo de uma “pública exposição” da Commedia na igreja de Santo Estêvão da Badia: mas apenas apresentou os primeiros dezessete cantos do Inferno, “pela má saúde e pelo despreparo do auditório”. Foi quem deu à obra pela primeira vez o título Divina, nome recolhido pela edição veneziana de 1555, de Gabriel Giolito de Ferrari, o qual se consagrou.
Commedia exerceu grande influência em poetas, músicos, pintores, cineastas e outros artistas nos últimos 700 anos. Desenhistas e pintores como Gustavo Düre, Sandro Botticelli, Salvador Dali, Michelangelo e Willian Black estão entre os ilustradores de sua obra. Os compositores Robert Schumann e Gioacchino Rossini traduziram partes de seu poema em música e o compositor húngaro Franz Liszt usou a Commedia como tema de um de seus poemas sinfônicos. O escultor Auguste Rodin inspirou‑se nela para suas principais obras, entre elas, O Pensador, que representa o próprio Dante, O Beijo, inspirada no drama de Paulo e Francisca e Ugolino e seus filhos, que retrata a tragédia do Conde. Todas compõem sua obra-prima Porta do Inferno.
Em sua XVII epístola, a um de seus patronos no exílio, Cangrande della Scala de Verona, Dante recomendava alguns princípios para se ler com proveito a Commedia: ter em conta os quatro possíveis sentidos textuais (literal, alegórico, moral e anagógico) e sua intenção moralista (mostrar a justiça remunerativa implicada no drama humano, o qual consiste no esforço por praticar as virtudes cardeais e teologais, superando as fraquezas e atrações terrenas).

15 de out. de 2009

Exílio e morte de Dante Alighieri


Charles de Valois e seu exército cercou Florença em novembro de 1301. Dante foi a Roma numa missão diplomática de emergência, tentando dissuadir o papa de apoiar os franceses. Bonifácio VIII o reteve na Cidade Eterna deliberadamente, de modo que os guelfos brancos ficaram privados de uma voz forte. Em janeiro de 1302, Florença caiu nas mãos de Charles de Valois, que reabilitou Corso Donati, para desgraça dos guelfos brancos.
Ao tomar conhecimento da calamidade, Dante retorna, mas, aconselhado a aguardar em Siena, recebe a 27 de janeiro a notícia de que o tinham condenado a dois anos de prisão e a pagar uma multa de 5.000 florins, além de interdição perpétua dos ofícios públicos, sob acusação de corrupção e sedição. Se não satisfizesse em três dias a pena pecuniária, estaria sujeito ao confisco de todos os seus bens.
Deixou‑se ficar em Siena mais algum tempo, indignado com a vil sentença e a impossibilidade de reunir tamanha soma em tão pouco tempo. A 10 de março, outra sentença se expedia: condenação à fogueira, caso fosse detido pela comuna, por não ter pagado a multa nem comparecido para responder ao processo; e seus bens foram arrolados para efeito do confisco.
Antes de se afastar definitivamente de seus companheiros, assumindo o exílio definitivo, Dante ainda prestou ajuda, contra seu parecer, a uma tentativa de resistência dos guelfos brancos foragidos em Arezzo, facilmente desbaratada pelas tropas florentinas e francesas. A frustração da esperança de retorno suscitou revolta entre os refugiados contra seus líderes. O poeta já não suportaria a mesquinhez dos sentimentos, a inconstância da opinião e a teimosa cegueira de seus conterrâneos.
O “mal de França” (Purgatorio, VII, 79), Filipe o Belo, passou a mostrar‑se cada vez mais exigente e ambicioso a Bonifácio VIII, querendo interferir diretamente nos interesses da Santa Sé. Como o papa oferecesse resistência, Filipe enviou‑lhe o general Guillaume Nogaret com uma ordem de prisão. O Pontífice octogenário, que estava recolhido em Alagna, sua residência particular, foi agredido por um comandante, caiu enfermo e faleceu em Roma pouco depois. Dante não pôde deixar de protestar contra o ominoso atentado à dignidade de Igreja (Purgatorio, XX):


85 E para os outros crimes lhe atenuar,
vejo invadir Alagna o lis dourado,
e em seu vigário Cristo aprisionar,

88 por novamente ser vilipendiado,
e provar outra vez vinagre e fel,
e entre os ladrões, ser novamente alçado.



Bento XI, o novo papa eleito, que também se opôs à política francesa, morreria menos de um ano depois, supostamente envenenado por ordem de Filipe. Enfim foi eleito Bertrand de Sout, arcebispo de Bordéus, sob o nome de Clemente V o Gascão, ao que parece patrocinado pelo rei francês, sob condição de fazer‑lhe todas as vontades, como de fato aconteceu: entre outras coisas, a extinção da Ordem dos Templários, a cessão, por cinco anos das rendas locais do clero à coroa da França e a surpreendente transferência da Santa Sé ao território gaulês.
Embora os guelfos brancos exilados tenham se unido aos gibelinos pela força das circunstâncias, Dante, que lutara contra eles em Campaldino, não admitiu tal solução de compromisso, mas esteve em diversas cidades toscanas simpatizantes à sua causa política, valendo‑se de seus talentos retóricos e diplomáticos. As provações do exílio e todas as vilezas, cobiças e maldades dos que o levaram ao infortúnio proporcionaram a Dante a motivação final para dar corpo à Commedia.
Dante ainda haveria de ver suas últimas esperanças desfeitas: a empresa mal sucedida de Henrique VII na Itália, tentando fazer jus ao seu domínio sobre a península; a morte prematura de Cangrande della Scalla, senhor de Verona, que se exaurira em infecundas guerras contra Pádua procurando modificar a situação italiana.
Como Dante favorecesse a Uguiccione della Faggiola, capitão de Lucca, que tinha pretensões sobre a Toscana, as autoridades florentinas expediram sua condenação à decapitação, extensiva a seus filhos que combateram contra a cidade, caso caíssem em seu poder. Em Lucca, o poeta viveu uma derradeira paixão por uma jovem chamada Gentucca.
A repentina destituição de Uguiccione, repercutiu tão positivamente em Florença que se concedeu anistia a todos os exilados, mediante admissão formal de culpa e indenização. As saudades de Dante foram porém superadas pelo seu estrito sentido de justiça e de honra, e permaneceu no exílio com seus três filhos, morando em Ravena. A serviço de Guido Novello, senhor de Ravena, Dante ainda realizou uma última missão diplomática em Veneza, cujos ares paludosos combaliram sua saúde, pelo que veio a morrer em 13 de setembro de 1321.
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