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28 de abr. de 2014

O triunfo das três feras

Freud, Marx e Nietszche são os três “mestres da suspeita”, na expressão de Paul Ricouer. Simbolizam a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e soberba da vida (cf. 1Jo 2,16), e assemelham-se às três feras que acossavam Dante na Divina Comédia: a pantera sensual, o lobo rapace e o leão orgulhoso (cf. Inferno, I, 31-60).

Terão triunfado? Ou apenas souberam exprimir o que o homem caído de todas as épocas concebeu no seu coração ferido? Sem dúvida, não fazem uma descrição da realidade, mas elegem uma dimensão humana (o sexo, a economia, o poder) como razão de transformação da realidade.

As ideias desses pensadores podem conter muita “lógica”, mas são tão “dogmáticas” quanto qualquer fideísmo. Em comum, racionalistas e fideístas afirmam que o mundo não é razoável, que o ser é caótico, que o seu sentido nós é que projetamos e plasmamos. Com efeito, Kant, em sua Crítica da Razão Pura, afirma que o ser em si é fundamentalmente não racional. Portanto, qualquer tentativa de filosofar (a nível verdadeiramente metafísico) conduziria a erros e criaria ídolos.

Daí que a metafísica tenha sido banida das escolas de filosofia, abandonada em prol de questões fragmentárias, substituída por fenomenologia, hermenêutica de textos ou análise crítica da linguagem.

Karl Barth
Daí também que o protestantismo tenha renunciado à filosofia clássica. Um de seus maiores expoentes, Karl Barth, chega a afirmar que a razão pela qual estaria errado ser católico é a aceitação da tese metafísica da analogia do ser. Para ele, qualquer analogia entre o ser divino e o ser criado seria uma falsificação de Deus.

Por isso é que o protestantismo resgatou a iconoclastia, aquela heresia empoeirada do século IX que proibia o culto de imagens. A iconoclastia protestante ataca não o gesso das estátuas, mas o simulacro de Deus que indubitavelmente conduziria o homem à idolatria. Como um namorado que fosse trocar sua namorada por uma fotografia dela.

***

A fé verdadeira exige a razão, pois a racionalidade é constitutiva do ser. Ao mesmo tempo, a razão saudável precisa do suprassensível, do transcendente, pois a verdade nos abre para algo que nos precede e nos liberta do nosso “eu” pequeno e limitado, aferrado a meras certezas, garantias e utilidades.

19 de abr. de 2012

A ouvido fechado, palavra aberta

Transcrevo trechos de uma mensagem que enviei a uma pessoa cheia de dúvidas, mas que não as resolve porque reluta em conservar seu ceticismo como um troféu.

É que ainda acredito ser possível o diálogo com quem começa a conversa dizendo que nunca vai mudar de ideia.


*****

É evidente que, se digo algo, é porque penso que posso contribuir com algo para sua vida, assim como quando você me diz algo é que quer compartilhar comigo suas convicções. Não é questão de um converter o outro. A conversão, que é um desandar o caminho andado na contramão, necessita de um meia-volta-volver que só Deus pode conceder àqueles que se dispõem a procurá-lo.

Tenho a convicção de que as atuais acusações, feitas à religião em geral (e ao Cristianismo em particular), procedem em grande parte de uma reação crítica ao protestantismo. Por exemplo: chamar os islâmicos de fundamentalistas é uma impropriedade, pois o “fundamentalismo” foi uma seita protestante americana do início do século XX.

Na mesma linha, como os pseudointelectuais de hoje desconhecem a existência de filosofia antes de Kant, é bastante comum que confundam a autêntica moral cristã das bem-aventuranças com sua versão (reduzida, protestante e kantiana) dos imperativos categóricos: daí que Nietzsche se insurja, com acerto, contra uma "moral de escravos". Mas o filósofo, apesar do bom faro, errou sua pontaria…

Explico de outro modo. A moral cristã não pretende simplesmente moldar bons cidadãos: isso é muito pouco. Também não é um código de prescrições: o mero sentido do dever não arrasta ninguém.

O Estado — ainda vale a pena falar dele? afinal, estamos entrando na era pós-estatal —, o Estado gosta é da religião gnóstica e alienante, que não leva seus adeptos a atuarem socialmente em conformidade com seu credo. A gnose é religião privada, sem repercussão pública. Mas uma ação social contundente incomoda a ordem constituída. Convenhamos: a reforma deve ser o estado habitual das coisas, pois cada geração precisa assumir a situação herdada, o que não se faz sem contribuir com sua própria visão. Repare que não estou propondo que se renegue a tradição, mas que ela seja acolhida criticamente por cada geração.

Todo este assunto é muito complexo e não pretendo fazer aqui um tratado. Apenas quis frisar uns pontos para compartilhar com você meu pensamento. Já escrevi sobre alguns desses pontos e deixei algumas aulas em http://audio.narajr.net/. Confesso que, do jeito que trato esses temas, pode ser uma verdadeira indigestão. Mas é o que tenho para falar.

Por que sou católico? Acho que a resposta é simples. É a mesma que deu São Pedro no ponto de inflexão da pregação de Cristo. Você deve se lembrar que, depois de Jesus anunciar que instituiria a Eucaristia, “muitos discípulos o abandonaram e não mais andavam com ele” (Jo 6,66). Então ele se dirigiu aos próprios Apóstolos e lhes propôs que eles fossem embora também. Mas Pedro respondeu: “A quem iremos, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68).

Faço minhas as palavras dele: A quem irei? A Maomé? A Lutero? A Alan Kardec? A Kant? A Marx? A Freud? A Nietzsche? A Marcuse? A Foucault? A Derrida?…

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Deixe-me agora lhe fazer umas perguntas:

A quem você procurou? A quem você pretende ir?

17 de fev. de 2012

Vida inteligente antes de Kant

Um amigo meu, professor de direito, contou-me como sentiu-se mal num debate de que participou na UniRio. Um dos debatedores — cujas ideias eram inconsistentes, ligeiras, imorais e pouco inovadoras —, a fim de desmoralizar meu amigo, acusou-o de ser kantiano.

A questão é que meu amigo não é nada kantiano. Ele simplesmente defende as virtudes.

Uma possível conclusão é que, por incrível que pareça, há quem pense nunca ter havido filosofia antes de Kant. Mas será possível que as pessoas só entendam as virtudes em termos de imperativos categóricos?

Virtude não é dever, é liberdade. Por isso, moral é a arte de viver.

Mas há quem pense que moral é viver sem arte. E que arte é ser imoral. De fato, (pouco) antes de Kant existiu o Marquês de Sade.

Quando o curador é o diabo, meu caro, a entrada pode ser gratuita, mas a saída…

30 de mai. de 2011

Se minha salsicha falasse

Devo reconhecer que tenho uma forte veia polêmica.

Quando a animação Rio 3D foi lançada, embrenhei numa estéril discussão acerca dos “direitos dos animais”. A argumentação que resolutamente queria impugnar era a de que há um paradoxo no comportamento dos que se enternecem com o apólogo, mas traficam, domesticam e comem os animais.

Tentei fazer ver que nos emocionamos com os bichos das fábulas não por serem animais, mas porque representam personalidades humanas. Aduzi, como exemplo, o livro A Revolução dos Bichos.

Passaram a me explicar que Animal Farm é uma fábula óbvia sobre o aviltamento do comunismo com relação à liberdade, à inteligência, etc. Sendo sobre a questão da violência política, estaria errado eu trazer tal obra à baila. Animal Farm é um livro que se lê com um riso no canto da boca e um aperto no coração. Não é sobre os animais.

Quando pensei que tinha dado uma bola fora, minha surpresa foi ouvir um outro oponente vir em meu favor: Animal Farm é, sem dúvida, uma fábula política, mas a inspiração veio, segundo consta do prefácio, por causa de um menino que chicoteava um cavalo atrelado a uma carroça, o qual puxava muito peso.

Tendo passado ileso pelo primeiro round, comecei o segundo com um cruzado de esquerda, negando a existência dos “direitos dos animais”. Em resposta, começaram a me falar de “direitos morais”. Fiquei confuso, pois a expressão me pareceu tautológica, uma porca colagem de conceitos gêmeos, uma relação siamesa entre ideias homólogas.

Explicaram-me então que os “direitos morais” são os inerentes a sujeitos viventes: direito à integridade física, à autonomia e à vida. Talvez por conta da minha cara de perplexo, tentaram me alertar caridosamente que eu desconhecia o movimento filosófico dos direitos dos animais, em que estão envolvidos, além de filósofos, vários juristas.

Os operadores do direito que me perdoem, mas essa última informação me deixou ainda mais alarmado. Se não bastasse o folclórico Peter Singer ser considerado filósofo só porque dá aulas em Yale, dizer que há advogados no movimento não me foi nada estimulante.

O terceiro round foi o pior. Tomei coragem e desci três bordoadas:

1) Moral implica liberdade, que os animais não têm; e direitos advêm da pessoa, que os animais não são. O uso equívoco desses conceitos é tergiversação, não filosofia.

2) Por outro lado, só é possível falar de “direitos” dos animais como uma analogia muito distante. A malícia está no abuso que os homens eventualmente exercem sobre a natureza.

3) Quantos aos tais “direitos morais”: direito decorre da dignidade da pessoa; moral é a arte de viver bem a própria liberdade. Portanto, falar de “direitos morais” é uma redundância com relação ao homem e um contrassenso em se falando de animais.

Já que era um discussão aberta, resolvi apelar. Nessas horas, a gente sempre fala mais do que deveria, pois a tentação da oratória é vencer mais do que convencer. Emendei um soco no queixo:

— Se há “direitos morais” à vida em geral, logo agimos mal quando criamos vacinas, usamos DDT, matamos barata, destruímos esponjas e fazemos churrasco. Inclusive quando comemos salada.

Não deveria ter feito isso, pois toquei no ponto nevrálgico. As pessoas com quem discutia eram vegetarianas.

Depois de me lançarem em rosto que eu tentara vencer a discussão injustamente, misturando alhos com bugalhos, explicaram-me que os vegetais não têm sistema nervoso central, nem horror à morte e, muito menos, consciência. Contudo, os animais teriam tudo isso. — Creio ser desnecessário entrar no mérito de tamanha pataquada!

Enfim, depois de afirmar que os animais possuem consciência, essa mesma pessoa mandou-me ir dormir, recomendando a leitura de Tom Reagan e Emmanuel Kant. De fato, esses autores devem ser verdadeiros soníferos.

Mas a frase que me derrubou na lona foi:

— Moral NÃO é a arte de viver bem a liberdade! Nunca vi essa definição. Veja Kant para uma definição mais adequada.

De fato, por incrível que pareça, há quem pense nunca ter havido filosofia antes de Kant.

26 de out. de 2010

Felicidade sem vergonha

Em carinha que mamãe beijou ninguém bate!

Isso dizia o condutor do ônibus para o motorista que o desafiava após uma fechada involuntária. “Eu te quebro a cara!” — Que nada, relaxe, não estou a fim de brigar. Quem tem as costas quentes e um amor em casa, é refratário aos desaforos.

Santa desvergonha

Não é questão de extroversão, entusiasmo, técnica propagandística, desfaçatez ou maus modos. É audácia amorosa que confessa seu amor a qualquer um. Sem tal franqueza não se passa de um falso cujas amabilidades são disfarce de torpes grosserias.

Sem pedir licença

— Vida mansa, hein?

— Não posso curtir só porque você está com inveja?

Não existe medo em quem faz o melhor

Quem age bem chega a ser bobo de tão ingênuo. Perde o medo porque confia. Prefere confiar em todos (e ser enganado por alguns) do que duvidar de todos (e se tornar solitário).

Orgulho de estirpe

Protagonismo só é orgulho quando atropela os outros. Além disso, a nobreza obriga.

A melhor banca é ser cara-de-pau

Com verniz facial, até um tolo é rei. A melhor credencial é a coragem; o melhor currículo é uma declaração de intenções, não uma coleção de feitos.

Brasileiro, diminutivos e alma grande

Ai, Brasil, terra vasta e continental, que ama os diminutivozinhos e torna pusilânimes almas que poderiam encher o mundo…

Kantianismo e hedonismo

O mundo vomita o kantianismo com a pílula do hedonismo. Felicidade não é prazer. Prazer não é pecado. Pecado não é felicidade.

***
O Mestre disse: “Aprender algo e colocá-lo em prática no momento certo: não é uma alegria? Receber amigos que vêm de longe: não é um prazer? Não ficar transtornado quando os próprios méritos são ignorados: não é isso a marca distintiva de um cavalheiro?
(Analectos de Confúcio, 1:1).

12 de out. de 2010

Amor em disjuntiva

Ἔρος designa o fogo ardente e o desejo unitivo que arrasta o homem para Deus. Indica o êxtase amoroso, conforme a descrição do Pseudo-Dionísio: “O amor de Deus é estático, porque não permite que os amantes permaneçam em si mesmos, mas os converte em posse dos amados” (De divinis nominibus, IV, 13).

Para alguns poderá parecer estranho falar de amor erótico por Deus. Mais: há quem não consiga compatibilizar o erotismo com o amor oblativo nem a nível humano, coisa bem palpável na letra da música Amor e Sexo, da Rita Lee.

Entre tantos fatores que favoreceram esse tipo de entendimento, encontram-se em pontos extremos: a obra mais famosa de Anders Nygren e certas visões defendidas por Jacques Lacan.

Anders Nygren (1890-1978)

Nygren tornou-se eminente professor da Universidade de Lund, na Suécia, e depois bispo luterano dessa cidade. Também foi presidente da Federação Luterana Mundial.  Filósofo da religião, exegeta habilidoso, historiador versátil, teólogo genial e pastor sensível, Nygren se valeu da filosofia kantiana em sua teologia. Ativo defensor do ecumenismo e ferrenho opositor do nazismo, fez-se internacionalmente reconhecido por seu livro Agape and Eros. Essa excelente obra, entretanto, não representa o cerne de seu pensamento.

No livro, Nygren explica que, segundo Platão, eros é o amor sedento do Belo transcendente, o que eleva o humano para o divino, o único capaz de saciar a ansiedade da alma aprisionada na matéria; mas, porquanto busca o êxtase da união, seria amor egocêntrico, cobiça. Com o correr dos séculos, o significado de eros teria sido abaixado até assumir notas meramente sexuais.

Jacques Lacan (1901-1981)

No lado diametralmente oposto, Lacan acusava o cristianismo de ter pervertido a vida e o amor. Segundo o psicanalista parisiense, a limitação da erótica à procriação faz do corpo vivo um corpo morto; e a fé na ressurreição da carne faz do corpo morto um corpo vivo.

Diferentemente de Nygren, cujas conclusões podem até ser combatidas com argumentos, Lacan é tão carente de rigor que dificulta a refutação do seu complexo sistema. Basta dizer que a ideia de que a Igreja reduz o matrimônio à procriação é um falso clichê inúmeras vezes repetido. Por outro lado, causa enorme estranheza a conexão feita por ele entre esse tema moral e a questão da sorte póstuma do corpo.

Abdico de abordar tamanha falta de senso e de conhecimento elementar da doutrina cristã. Em breve, porém, pretendo abordar a feliz solução que recentemente se deu à disjuntiva eros e agape.

26 de ago. de 2010

Sequestro da Europa


Ideias brutas de um olhar mais abrangente…

Europa conceito cultural, não geográfico

No século V a.C., surgira na Grécia o mito do sequestro de Europa. Evoca a superioridade da pólis grega sobre os povos belicosos do norte e os sensuais do sul. O polo cultural, transferido posteriormente a Roma, deu ao Cristianismo nascente seu canal de expansão.

A Europa herdou, portanto, a fé de Israel e a razão da Grécia. Isso se torna mais patente através do contraste com o catolicismo do Oriente (especialmente na Rússia), o qual criou um mundo próprio, em que não se separam Igreja e Estado. — Logo, a Europa é cristã, mas não é o Cristianismo.

A relação entre tais extremos europeus, a fé e a razão — que, contudo, não têm de necessariamente se oporem — acabou em divórcio. O início da Modernidade vivenciou duas rupturas: as teses do heresiarca Lutero e a descoberta da América. Já no seu final, durante a Ilustração, forjou-se uma teoria sobre o Estado e a história, negando sua origem sacra. No lugar da visão tradicional, propôs-se um Estado laico racional kantiano.

Consequências dessa evolução foram a separação entre Igreja e Estado, os direitos humanos e a democracia. O Cristianismo esteve sempre presente ao longo desse caminho, mas hoje é visto como “mal a ser extirpado” da cultura europeia.

Por isso, Bento XVI sempre sugere que o conceito de “racionalidade” seja ampliado. Com efeito, a Ilustração foi um momento de manipulação e reconstrução semântica dos conceitos.

Sequestradores da Europa

Embora muitos pensem no Cristianismo como o raptor da Europa, os verdadeiros inimigos da Europa são:

1) O Islã, pois não aceita a razão grega e a separação entre fé e lei.

2) O Iluminismo kantiano, pois, ao renegar o acesso à verdade, criou uma cultura de utopia, messianismos e ideologias.

3) O nacionalismo fragmentador, especialmente o nacional-socialismo.

*****

O quanto isto nos afeta?

28 de mai. de 2010

A arte como criadora de âmbitos

Desde Fracis Bacon, impôs-se a convicção de que saber é poder. Logo, só importariam os conhecimentos práticos. Consequentemente, a vida torna-se um problema a ser resolvido, perdendo-se o sentido das relações humanas.

Com efeito, a compreensão do sentido das relações humanas não é um conhecimento prático, não é redutível a esquemas.

As crianças não têm sentido das relações. Problematizam tudo. Quando a vida é vista como um problema, torna-se um dilemaA maturidade, porém, não bipolariza as situações, pois aceita os contrastes. Quando a vida é vista como um âmbito de relações, passa a ser encarada como um conjunto de contrastes.

Aristóteles enumerava a relação entre as categorias do ser. Mas é um modo de ser que depende de outro. Ora, os objetos adquirem maior “personalidade” na medida em que entrem no âmbito das relações humanas (âmbito familiar, profissional, quotidiano, físico, histórico, etc.).

A melhor postura diante dos objetos consiste em contemplá-los e entendê-los, mais do que em lucrar com eles ou dominá-los. Cabe à arte transformar os objetos em âmbitos de relações.

Mas o avanço da técnica levou a considerar suspeitos a arte, a beleza, a estética, os sentimentos. Desde Kant, tem-se feito discriminação entre ciência e cultura, entre exatas e humanas.

Os sentimentos são as primeiras respostas e os primeiros caminhos entre o homem e a realidade. A educação dos sentimentos é feita primariamente pela família, onde se deve ensinar a ter as reações adequadas diante da vida. A escola, que também deveria educar subsidiariamente os sentimentos, tem-nos desprezado e se especializou em educar meros técnicos.

16 de abr. de 2010

O ethos da utilidade

Uma nova ética

Antes de Descartes e Lutero, o filósofo debruçava-se na realidade para dela aprender. Desde o advento do imanentismo cartesiano e do individualismo protestante e, ainda mais, com a renúncia do filósofo à virtude, desde Maquiavel, o homem se vê a si mesmo como construtor da verdade e não seu descobridor. Essa revolução filosófica também reverberou nos estudos da ética. Com efeito, até Guilherme de Ockham (1285-1347) e, especialmente, até Francisco Suarez (1548-1617), predominava uma visão clássica da moral: virtudes e felicidade. A bondade como objetivo, as virtudes como meios, a lei como limite. Após esses pensadores e ainda mais com a moral do dever de Kant, a felicidade foi separada da perfeição moral e a lei foi exaltada acima da sua missão subsidiária e pedagógica.

Uma nova liberdade

A moral moderna entende a liberdade diferentemente da ética clássica. Naquela, é entendida como liberdade de indiferença e nesta, como liberdade de qualidade. Para os clássicos, liberdade é o domínio de si, capacidade de autodeterminação para o bem. É uma propriedade da vontade com raiz no intelecto. Contudo, para Ockham a liberdade é voluntarista, ou seja, em se expondo o bem e o mal à inteligência, a vontade seria indiferente para escolher tanto o bem quanto o mal. Ora, na verdade, a liberdade é limitada, pois não lhe cabe definir o que é o bem. Quando se deseja o mal, de fato se está desejando o bem aparente que a inteligência assinalou equivocadamente como desejável. Caberia saber se tal ignorância é culpável ou não.

O que torna bom a um homem

Os erros morais são efeito de uma escassa liberdade. A limitação fundante da liberdade procede de que o bem e o mal independem do querer humano. Entretanto, Ockham propõe uma isenção total da vontade, que seria limitada apenas extrinsecamente pela liberdade suprema e soberana de Deus, o qual arbitrariamente criaria leis. Para Ockham, a bondade consistiria na obediência a essa arbitrariedade divina. Para os clássicos, o homem torna-se bom pela educação. Para os kantianos, a bondade procede do voluntarismo, mediante o cumprimento de imperativos categóricos. É, portanto, patente que a ética moderna esqueceu o valor estético do agir moral e reduziu as virtudes a costumes ou condicionamentos.

Abismo teórico e prático

Esse estado de coisas só poderia criar dilemas. Para evitar o hedonismo, a moral moderna já caiu no estoicismo, rechaçando as paixões. Para evitar a rigidez, a moral moderna já caiu no emotivismo, abdicando da verdade. Ao mesmo tempo, a jurisprudência (capacidade de intuir a lei moral nas vicissitudes da vida) é confundida com a casuística (compilação exaustiva de casos da experiência). Tal ruptura entre liberdade e verdade tem um saldo: o utilitarismo.

Moral é igual à ética?

Talvez você se pergunte porque utilizei os dois termos indistintamente. Sendo os vocábulos equivalentes em latim e grego, considero-os sinônimos. A disjuntiva acima aludida entre liberdade de indiferença e liberdade de qualidade originou tristes matizes:

Ética laica x Moral religiosa
Ética pública x Moral privada
Ética de fins x Moral de princípios
Ética de âmbitos x Moral holística
Ética de consenso x Moral autoritarista

Por isso, penso ser bem cabível um resgate semântico do termo “moral”, indevidamente associado ao legalismo kantiano.

17 de fev. de 2010

Cinzas & jejum

O jejum — que na Antiguidade só tinha sentido religioso ou medicinal — tornou-se ambivalente. Temos hoje uma rica oferta:

JEJUM POLÍTICO: greve de fome para conseguir o que não se alcança com argumentos. Menos razão e mais pressão.

JEJUM IDEOLÓGICO: coisas como o vegetarianismo moderno, quer se baseie numa perspectiva kantiana da vida, quer plotiniana, quer em qualquer outro arrazoado semiesotérico. Total ausência de razão.

JEJUM ESTÉTICO: para manter a linha. Menos gula para alimentar a vaidade.

JEJUM DOENTIO: anorexia. Menos razão e mais loucura.

*****

Segundo a lei eclesiástica imposta a todos os católicos, Quarta-feira de Cinzas é dia de jejum (uma única refeição completa no dia) e abstinência de carne (no Brasil está autorizado trocar por qualquer outra penitência). Mas existem muitos outros jejuns em que podemos ser generosos, além do da comida e da bebida: o dos caprichos, gostos, apegos, curiosidade, Internet, etc.

Qual é o sentido disso? Estritamente religioso: conversão com relação a si mesmo, desprendimento, consciência da própria condição creatural, dar de esmola o que não consumimos.

Comporta risco de orgulho? Sem dúvida. Com base nesse risco, muitos aconselham a mitigar e até a  abandonar o jejum como recurso ascético. Mas qualquer obra boa comporta o risco de orgulhar-se. Não se deve deixar de fazer o bem por conta de riscos. Viver é arriscado. Jejue e retifique a intenção.

Comporta risco de hipocrisia? Não acredito: autenticidade significa ser autor da própria vida, não significa pôr para fora todas as “neuras” interiores. Na verdade, a penitência exterior já pressupõe o desejo de parecer bom; péssimo seria externar, sem o mínimo pudor, profundas desordens interiores: caras feias, ira, desânimos, orgulho, suscetibilidade, birras, preconceitos, caprichos, irreverências.

E você, do que precisa se abster?

28 de out. de 2009

Pecados cerebrais

Numa postagem anterior, comentei que uma consequência da epistemologia pós-moderna é a criação de um corpo de “homens-massa” executores "de elite" (intelectuais, universitários, etc.) a quem basta satisfazer com conforto e bem-estar.


Assim, é perfeitamente possível que gente ilustrada racionalize seus preconceitos sem dar-se conta de que não concatena uma ideia com outra de forma razoável. Massa de manobra inconsciente, crente de que conduz o títere da própria vida porque cursou tal ou qual faculdade.

As pessoas buscam avidamente se comunicar, sem ter o quê comunicar. Antes, uma autoridade burra poderia impor-se à massa. Hoje, a massa ignorante pode arrogar-se ares de autoridade.

Nesse sentido, deixo constância agora de mais um dogma do credo dos ignorantes. Mais uma definição infalível e irreformável dos que, baseados na tradição e nos argumentos de seus predecessores de augusta memória, sistematizam seu pensamento acerca da Igreja Católica.

O “dogma” é: A Igreja sempre quis ter grande influência sobre as pessoas e para isso trabalha sua imagem e fama, para isso atualiza suas listas de pecados, para isso retém muito dinheiro.

Nem sei por onde começar para terminar logo esta postagem. De fato, o que um boleiro responderia a uma pessoa que achasse que o esporte bretão luta por ser socialmente aceito entre os incas da Patagônia porque suas cinco bolas são feitas com bexiga de lhama?

Esse tipo de “dogma” só é criado quando se reduz a Igreja Católica a um fenômeno sociológico. É preciso distinguir a santidade da Igreja da santidade na Igreja. Dessa forma, é possível reconhecer que, a despeito dos princípios instaurados por Cristo, alguns fiéis possam ter tipo algum comportamento equivocado. Mas hoje se diz que a Igreja como um todo adota um comportamento equivocado.

Comportamento equivocado. Qual é o grande crime para a sociedade de hoje, o grande mau comportamento? Manifestar convicções. Soube até de uns ateus de carteirinha, estilo adoradores de Richard Dawkins, que têm se sentido excluídos, que se acham minoria ofendida, porque algumas pessoas não toleram que eles divulguem suas ideias. Pois é, minha gente, na pós-modernidade você não pode ser nem modernista (como tais ateus), nem fideísta (como os muçulmanos, protestantes fundamentalistas e pseudocatólicos tradicionalistas).

O grave comportamento da Igreja é ter convicções acerca de si mesma, é alertar seus fiéis acerca dos comportamentos que ela qualifica de desvios éticos. Ora bolas, se você não é fiel, não precisa acreditar. Se você não concorda com a ética cristã, viva a ética legalista kantiana, a utilitarista de Bentham, ou a axiológica de Scheler. Ninguém está obrigando você a abandonar seu emotivismo, se você é emotivista; ou o intuicionismo, se você é um esteta.

É ridículo pensar que homilias “conservadoras” para as velhinhas da missa de domingo farão algum estrago no novo paradigma cultural pós-moderno. Saiba, meu caro universitário, intelectual mais de razão estreita do que sem fé, que quem tem acesso a informação abundante e imediata é quem mais precisa do critério para selecionar qual a informação relevante e qual a supérflua, qual a preconceituosa e qual a incoerente. Por isso, em vez de tentar sistematizar críticas preconceituosas, leia mais coisas sérias, especialmente os clássicos, para ganhar mais critério, e não acredite em qualquer um.
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