12 de abr de 2010

Culpa, remorso e erros de ortografia

Tríplice rompimento: consigo, com o outro e com Deus

É patente a fragilidade humana, mas nem todos sentem a necessidade de reparar pelos efeitos das suas misérias. Paradoxalmente, as pessoas rompem com mais facilidade do que buscam a conciliação.

O desejo de cura que todo homem leva no coração o leva a confessar sua miséria — aos colegas, amigos, parentes, a Deus —, a abrir-se a expor suas perplexidades. O perigo dessas confissões é serem mero desaguadouro, e não cicatrização.

Para os cristãos, há as águas do Batismo e as lágrimas da Confissão. Mas, infelizmente, a crença de que a vida consciente do homem seja determinada pelas forças ocultas da psicologia humana, conforme a tríade freudiana id, ego, superego, tem feito diminuir as filas da Confissão e aumentado a dos psicanalistas.

Além disso, muitos, não sabendo a verdade sobre si mesmos, são céticos nem têm um propósito claro na vida, seguindo o ditado pela opinião pública, andando aborrecidos e compensando suas carências em todos os vícios. Concomitantemente, o homem moderno não sabe viver com os outros: primeiro, com a geração anterior, de quem recebe a tradição; depois, com os colegas, que transforma em mero parâmetro de comparação e alvo de crítica; por fim, com o Grande Outro, Deus, quem nem quer ver pela frente.

A liberação do superego não traz paz de consciência

Muitos querem ser livres sem privar-se de seus vícios morais. Outros querem ser livres sendo redimidos sem muito esforço. Outros ainda querem ser salvos, mas à sua maneira. Os primeiros se enganam com um “cristianismo social”. Os segundos repelem o esforço moral, a responsabilidade, a ascese. Os últimos, em nome de uma falsa liberdade, ignoram que a salvação é um dom, não um direito.

A negação da culpa moral também existe. Foi uma constante ao longo da história. Boa parte da humanidade, ao negar a culpa pessoal, busca uma vida esteticamente virtuosa, politicamente correta. A consciência cada vez menos censora torna o homem cada vez mais cego e cada vez menos homem. A virtude começa então a parecer uma realidade detestável e detestáveis, os virtuosos. Advêm-lhes a calúnia, a perseguição, a crítica. Como sucedâneo para Deus, o culto ao trabalho, ao dinheiro e ao corpo.

Assim surgem os conflitos interiores. O meaculpismo, por exemplo. É um sentimento de culpa acerca de âmbitos da vida que não têm conotação moral, como o insucesso profissional, ou uma frustração romântica.

Por outro lado, as faltas morais são consideradas simples falhas inconscientes, infrações a convenções, mera desordem social.

Por tudo isso, é forçoso concluir que a experiência do mal, longe de ensinar sua inconveniência, deforma e diminui o homem.
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