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18 de jan. de 2014

Rio de alegria

Rio de fé

Quando me ofereceram a oportunidade de participar das filmagens de “Rio de Fé, um encontro com Papa Francisco” — o documentário dirigido por Carlos Diegues sobre a Jornada Mundial da Juventude Rio2013 — senti um misto de lisonja, entusiasmo e expectativa. Afinal, não é todo dia que se tem a chance de representar o sentimento de milhões de pessoas.

Por um lado, eu já vinha trabalhando como voluntário nos preparativos do evento e ansiava por ver o Papa Francisco de perto pela primeira vez. A perspectiva de fazer parte do registro era, sem dúvida, cativante.

Por outro lado, havia o interesse por conhecer Carlos Diegues, o renomado cineasta brasileiro que produz, desde 1959, uma obra a cada três anos em média, várias das quais premiadas internacionalmente.

Depois de inúmeros filmes marcados de humor, crítica social, e análise política e econômica, Cacá tinha decidido realizar um documentário sobre a fé. Motivo: ao saber da eleição do Papa Francisco, sentiu-se comovido, pois fizera todos os seus estudos em instituições de ensino jesuítas.

O briefing da filmagem explicava que a Cidade Maravilhosa tem vocação à alegria e à paz, tanto por suas belezas naturais, quanto por seu povo receptivo que, mesmo diante das adversidades, é capaz de “inventar a felicidade”. Assim, não haveria melhor cenário que o Rio de Janeiro para a JMJ, pois as Jornadas são uma ode à alegria. “Com efeito — citava Bento XVI —, a alegria é um elemento central da experiência cristã. Também durante cada Jornada Mundial da Juventude fazemos a experiência de uma alegria intensa, a alegria da comunhão, a alegria de ser cristãos, a alegria da fé. É uma das características destes encontros. E vemos a grande força atrativa que ela tem: num mundo com muita frequência marcado por tristeza e preocupações, é um testemunho importante da beleza e da fiabilidade da fé cristã” (Mensagem para a XXVII Jornada Mundial da Juventude 2012).

Concluía o cineasta: “O principal objetivo de nosso filme é esse grande abraço místico e humano, peregrino e missionário, cristão e universal, que é a JMJ. E que, pela cidade onde ocorrerá, poderia chamar-se Jornada Maravilhosa”.

Cultura do encontro

Penso que não se deva tomar a citação de Bento XVI fortuitamente, pois muito se tem falado do contraste entre Francisco e seu antecessor durante o primeiro ano do novo pontificado. O que se contrastou, porém, não condiz com a realidade. Pude reparar isso ao participar do filme, ao conversar com pessoas das mais variadas linhas, ao ler os jornais, e ao participar à mesa do debate de lançamento do documentário, ocorrido na PUC-Rio (a íntegra do debate pode ser encontrada aqui).


O evento de lançamento reuniu integrantes de diferentes religiões e movimentos e tratou da necessidade de tolerância religiosa na cidade do Rio de Janeiro, pois a convivência pacífica durante a Jornada Mundial não costuma ser habitual do dia a dia de muitas localidades cariocas.


Ao longo da discussão, em que houve uma animada participação do público, duas tensões se notabilizaram.

A primeira foi uma atitude crítica, velada e subjacente, dirigida contra a Igreja Católica e suas instituições, acusadas de serem demasiadamente verticalizadas, invasivas e anquilosadas. Curiosamente, ao mesmo tempo se denunciou a falta de empenho da hierarquia eclesiástica em mobilizar os leigos para participarem da marcha pela liberdade religiosa que ocorre periodicamente em Copacabana. Traduzo noutros termos: “a liberdade para mim, e a obediência para os outros”.

A segunda tensão constatada foi a ingênua convicção de que o novo Papa é um revolucionário pelo simples fato de ser simpático (quesito em que, consequentemente, os Papas anteriores teriam deixado a desejar). Um dos presentes, que representava determinado grupo de homossexuais católicos, fez-me uma indagação justamente sobre esse ponto, pois ele tinha a impressão de que o novo pontificado auspiciava tal transformação da Igreja que permitiria a reabilitação de Leonardo Boff, posto de escanteio pelos papas anteriores.

Uma pequena digressão: sem dúvida, o Papa Francisco aposta na “cultura do encontro”. O documentário em questão demonstra isso e procura evidenciá-lo a partir de diferentes histórias de peregrinos, voluntários, cidadãos comuns, representantes de outras religiões, etc. E como diz o provérbio chinês, que para abrir uma loja o primeiro passo é sorrir, o atual Romano Pontífice oferece o seu em abundância.

Saber rir das revoluções

Mas chegara o momento de eu responder à pergunta do militante homossexual, defensor de Leonardo Boff e feliz com a saída de Bento XVI. O moderador do debate me solicitou brevidade, pois a minha resposta fecharia as discussões daquela noite.

O espaço deste artigo me permite ser mais explícito nas considerações que ora pude tecer.

Primeiramente, as pessoas se lembram de nós não pelo que dissemos, mas pelo que lhes fizemos sentir. O Papa Francisco tem-nos feito sentir aquilo que os Papas anteriores já diziam. Não há um contraponto, não há um contraste. Só nova embalagem.

A questão é: por que as embalagens anteriores foram rechaçadas pela opinião pública?

O próprio Papa Francisco já percebeu que lhe foi atribuída a aura de revolucionário. Por exemplo, em sua recente Exortação Evangelii gaudium, alude ao aborto voluntário dizendo que “não se deve esperar que a Igreja altere a sua posição sobre esta questão. A propósito, quero ser completamente honesto. Este não é um assunto sujeito a supostas reformas ou «modernizações». Não é opção progressista pretender resolver os problemas, eliminando uma vida humana” (n.º 214).

Muito mais revolucionário — e visionário — foi Bento XVI ao renunciar (o que não ocorria há 700 anos). Pensando em “novidades”, não foi uma revolução a restauração do rito anglicano no Ocidente (depois de 500 anos), com a possibilidade de se admitirem sacerdotes casados? Se não bastasse, Joseph Ratzinger, antes de ser Papa, estivera por trás da composição do Catecismo da Igreja Católica (o primeiro catecismo oficial da história) e da Declaração Conjunta da Igreja católica com luteranos e metodistas sobre o tema da justificação (que fora justamente a causa da reforma protestante). A lista poderia se estender indefinidamente, mas não é o caso.

Basta frisar que essas conquistas significaram mudanças reais na vida da Igreja das últimas décadas, e são muito mais profundas do que efêmeras emoções midiáticas. Do mesmo modo, seria possível enumerar outras tantas realizações de João XXIII (convocação do Concílio), Paulo VI (reforma litúrgica), João Paulo II (por exemplo, o novo Código de Direito), etc., que repercutem até hoje no dia a dia de milhões de cristãos.

Leonardo Boff e a cultura do “reencontro”

Em segundo lugar, em minha resposta durante o debate era necessário aludir a Leonardo Boff.

O documentário de Cacá Diegues levanta controvérsias “salutares” justamente porque o filme foi considerado oficial. Às críticas das alas mais conservadoras, minha sugestão é fazer limonada com o limão alheio.

Por que o afamado Boff aparece no filme? Aparece porque é afamado. Os católicos assumirão essa culpa? Afinal, alguém deve ser o culpado de que a intelligentsia brasileira, quando pensa na Igreja, logo se lembra de um dissidente que vive a expensas de ser um outsider.

Se o documentário é um produto oficial da JMJ, ele tem necessariamente uma chave hermenêutica ortodoxa. Portanto, se o Boff ali aparece, é que está se convertendo e se reaproximando com humildade do seio da Igreja outrora rechaçada por ele. De fato, ele fala coisas sensatas no filme, embora seja discutível o tipo de relação que ele estabelece entre paz social e paz entre as religiões.
Eu rezo sinceramente por essa intenção: que Leonardo Boff se converta. Seria uma alegria que, além de dizer que não é mais um marxista (coisa que ele tem feito ultimamente), resolvesse confessar-se e voltar a ser católico de missa dominical, fiel à doutrina do Catecismo. Essa seria um verdadeiro “efeito Francisco”!

Quem é, afinal, o papa do amor?

Por fim, a terceira parte da minha resposta no debate foi sobre o amor.

O teólogo sueco Anders Nygren (1890-1978) tornou-se eminente professor da Universidade de Lund, e depois bispo luterano dessa cidade. Também foi presidente da Federação Luterana Mundial. Filósofo da religião, exegeta habilidoso, historiador versátil, teólogo genial e pastor sensível, Nygren se valeu da filosofia kantiana em sua teologia. Ativo defensor do ecumenismo e ferrenho opositor do nazismo, fez-se internacionalmente reconhecido por seu livro Agape and Eros. Essa excelente obra, entretanto, não representa o cerne de seu pensamento. No livro, Nygren explica que, segundo Platão, eros é o amor sedento do Belo transcendente, o que eleva o humano para o divino, o único capaz de saciar a ansiedade da alma aprisionada na matéria; mas, porquanto busca o êxtase da união, seria amor egocêntrico, cobiça. Com o correr dos séculos, o significado de eros teria sido abaixado até assumir notas meramente sexuais.

Tal distinção entre eros e agape, com a reserva deste último para o verdadeiro amor cristão, tornou-se lugar comum em nossa cultura. Há quem não consiga compatibilizar o erotismo com o amor oblativo, coisa bem palpável na música Amor e Sexo, de Arnaldo Jabor e Rita Lee.

Bento XVI criticou essa distinção em sua primeira Encíclica, Deus caritas est, na qual ensinou que tanto eros quanto agape são aspectos do mesmo amor divino. Naquela época, sua ousadia lhe valeu o epíteto de “Papa do Amor”. A continuação do seu fecundíssimo magistério não desmereceu o título. Ratzinger foi um grande teórico do amor. O cristianismo é a religião do Logos, da “lógica” de Deus, mas justamente a lógica de Deus é a lógica do amor.

Bento XVI e Francisco escreveram a primeira Encíclica a quatro mãos da história da Igreja. Não à toa, no magnífico texto há uma seção em que o amor é apresentado como uma forma de conhecimento. O amor tem um Logos. Isso é muito importante. Nos debates sobre a afetividade, é preciso resgatar a racionalidade do amor. Deus é amor, mas o amor não é Deus.

Uma torrente de alegria

Gostaria de concluir fazendo referência a um convite Papa Francisco, para que, a partir dessa experiência de um “Rio de Fé” que foi a JMJ, entremos num “Rio de Alegria”:

Porque não havemos de entrar, também nós, nesta torrente de alegria? (…) Há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa. Reconheço, porém, que a alegria não se vive da mesma maneira em todas as etapas e circunstâncias da vida, por vezes muito duras. Adapta-se e transforma-se, mas sempre permanece pelo menos como um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, não obstante o contrário, sermos infinitamente amados. (…) A tentação apresenta-se, frequentemente, sob forma de desculpas e queixas, como se tivesse de haver inúmeras condições para ser possível a alegria. Posso dizer que as alegrias mais belas e espontâneas, que vi ao longo da minha vida, são as alegrias de pessoas muito pobres que têm pouco a que se agarrar. Recordo também a alegria genuína daqueles que, mesmo no meio de grandes compromissos profissionais, souberam conservar um coração crente, generoso e simples. (…) Não me cansarei de repetir estas palavras de Bento XVI que nos levam ao centro do Evangelho: «Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo».
(Evangelii gaudium, nn. 5-7)

4 de ago. de 2013

3,7 milhões contra 370 paspalhos

Diz-se que, durante a II Guerra, instituições católicas deram guarida tanto a judeus fugitivos quanto a nazistas foragidos. A visão nietzschiana o explica como mais uma manifestação dessa fraqueza de caráter dos cristãos, que se chama caridade.

Todo mundo simpatiza com quem é fraquinho. Haveria nisso algo de sadismo? Ou um toque de oportunismo? Não importa. O que é surpreendente é o ódio com que a Cruz foi tratada por anarcofeministas e assemelhados durante a JMJ.

Surpreende em parte. Afinal, diante da realidade de um cristianismo viável, forte, revolucionário, jovem, comprometido, não há ideologia que aguente.

Além disso, ficou patente que a força nietzschiana do Anticristo leva, unicamente, à autodestruição dos seus adeptos.

Certo amigo costuma distinguir entre o nietzschianismo hard dos nazistas, praticado nos campos de concentração, e o nietzschianismo difuso e adocicado, dos que somente anestesiam seu senso moral e colocam a autorrealização como supremo ideal. Contudo, se àqueles se tributa rechaço público, muita gente ingenuamente vem saindo em defesa desses últimos.

Ora, não é possível viver bem pensando só no próprio umbigo e desfazendo-se de todos os compromissos. É forçoso reconhecer que cultivar tal mentalidade apenas conduz à ruína da sociedade e à corrupção de todas as relações humanas.

30 de jul. de 2013

O sorriso do Papa

Vamos dar uma de repórter?

A cerimônia de boas-vindas ao Papa, ocorrida na última quinta-feira, foi um dos atos centrais mais esperados da JMJ. Da Residência Assunção, onde Francisco estava hospedado próximo ao Cristo Redentor, o Pontífice saiu de helicóptero em direção ao Forte de Copacabana e dali iniciou seu trajeto de papamóvel, que durou cerca de uma hora, devido à euforia da multidão.

Fazendo referência ao lema “Bota Fé”, com o qual a cruz peregrina percorreu as dioceses brasileiras, o Papa explicou:

“«Bote fé»: o que significa?
Quando se prepara um bom prato e vê que falta o sal, você então 
«bota» o sal;
falta o azeite, então «bota» o azeite...
«Botar», ou seja, colocar, derramar.
É assim também na nossa vida, queridos jovens:
se queremos que ela tenha realmente sentido e plenitude,
como vocês mesmos desejam e merecem,
digo a cada um e a cada uma de vocês:
«bote fé» e a vida terá um sabor novo, a vida terá uma bússola que indica a direção;
«bote esperança» e todos os seus dias serão iluminados
e o seu horizonte já não será escuro, mas luminoso;
«bote amor» e a sua existência será como uma casa construída sobre a rocha,
o seu caminho será alegre,
porque encontrará muitos amigos que caminham com você.
«Bote fé», «bote esperança», «bote amor»!”

Nesse momento, o Papa fez que o povo repetisse suas palavras: “Todos juntos: Bote fé, bote esperança, bote amor!

Nos atos dos dias seguintes — Via Sacra, Vigília e Missa de Envio —, foram seguidos os mesmos procedimentos, de modo que muita gente pôde ver o Papa de perto e tirar uma foto enquanto ele passava pela orla. Em todos as cerimônias, os discursos do Romano Pontífice, mediante diversos apelos, incendiaram os jovens.

Por exemplo, na Vigília o Papa os convidou a ser

“terreno bom, cristãos de verdade;
e não cristãos pela metade, nem cristãos «engomadinhos»,
cujo cheiro os denuncia pois parecem cristãos mas no fundo, no fundo não fazem nada;
nem cristãos de fachada, cristãos que são 
«pura aparência», mas sim cristãos autênticos.
Sei que vocês não querem viver na ilusão de uma liberdade inconsistente
que se deixa arrastar pelas modas e as conveniências do momento.
Sei que vocês apostam em algo grande,
em escolhas definitivas que deem pleno sentido.”

Percebendo a reação positiva dos fiéis, o Papa entabulou um diálogo com as milhões de pessoas presentes, que lhe responderam em uníssono “É assim ou estou enganado? É assim?

Essa interação com a assistência se repetiu várias vezes. O Papa demonstrou-se um excelente comunicador e conquistava a adesão dos jovens nos pontos altos de seus discursos através de uma inflexão da voz ou de gestos das mãos. Numa longa entrevista concedida a uma emissora brasileira, o Santo Padre explicou que a Igreja é Mãe e, por isso, precisa estar próxima, abraçar e agasalhar. Nesse sentido, ele justificou o porquê quis circular em carro aberto, descer e falar diretamente com as pessoas, tocá-las: para comunicar, é necessário interagir.

Um comentário recorrente entre os peregrinos era o quanto o sorriso e a energia do Papa cativavam. Confirmava-se a admiração daqueles que, tendo conhecido o cardeal Bergoglio como homem de tendência mais reservada, constatavam que ele estava muito à vontade e expansivo como Papa.

Antes de anunciar a próxima JMJ em Cracóvia, o Santo Padre exortou os jovens na homilia Missa de Envio: “Vayan, sin miedo, para servir.” A cerimônia, liturgicamente impecável mesmo diante de três milhões de assistentes, foi um misto de alegria e saudade. Emocionava pelo recolhimento de todos, a ponto de que, nos momentos de silêncio sagrado, era possível ouvir as ondas do mar de Copacabana, como se fossem o eco de tantas vozes distantes a pedir que Cristo lhes fosse anunciado.

17 de jul. de 2013

Prepare-se para a JMJ!


Chegou a JMJ! Esteja preparado para essa guerra de paz e alegria que invadirá o Rio de Janeiro!

Para isso, vale a pena fazer um rápido check-list de sugestões e outras dicas:

ANTES

1) Durma e coma muito bem nesta semana. Corte o cabelo. Compre tudo o que poderá eventualmente precisar.

2) Separe seu carregador de celular (e ponha créditos!). Reserve barras de cereal para os próximos dias. Complete a mochila com as roupas necessárias.

3) Monte uma munição de cartões de visita, lembranças, presentes, santinhos, etc., para trocar com as pessoas de longe que você irá conhecer.

DURANTE

4) Faça uma boa Confissão sacramental. Entre outras coisas, ela garantirá que você lucre a Indulgência plenária da Jornada!

5) Seja exemplar no espírito de serviço e no bom humor. Não reclame da bagunça que nos espera, nem das coisas mal organizadas, nem de alguma ideia da organização que pareça brega ou peregrina. E, acima de tudo, ignore os espíritos de porco que fatalmente aparecerão (militantes atormentados das mais extravagantes tribos)…

6) Aproveite muito bem os tempos mortos (de espera, de trem, de caminhada, durante a função). Reze, converse, conheça pessoas, cante, brinque.

DEPOIS E SEMPRE

7) Dê prosseguimento ao incremento espiritual adquirido mediante o estudo sistemático da doutrina católica, a oração constante e a direção espiritual assídua.

8) Mantenha as amizades adquiridas.

9) Vença as travas da vergonha e do respeito humano! Faça muito apostolado!

***

Boa Jornada!

Imagine que a munição é a oração:

3 de jul. de 2013

Roteiro histórico pelo Centro do Rio

Passeios a pé, de baixo custo, que têm como vantagem a proximidade entre os pontos visitados, e que permitem conhecer as construções do Rio Antigo. — Bom, não é verdade?

O Rio Antigo é, simplesmente, o Brasil Antigo. A sede da Colônia, a Corte Imperial, o berço da República: onde há mais recordações dessas fases da nação do que na Cidade Maravilhosa?

Tenho o hábito de guiar pequenos grupos, explicando os edifícios, ruas e monumentos. E sempre vi nos olhos dos adventícios a surpresa por tanto patrimônio histórico e pontos de interesse turístico inexplorados. Um amigo certa vez chegou a me dizer que o roteiro que fizemos lhe lembrou suas caminhadas por Roma, que consistiam exatamente nisso: percorrer as ruas, conhecer os marcos, visitar as edificações.

Forçoso é reconhecer que a “Belacap” (apelido dado ao Rio quando foi feita Brasília, a “Novacap”) necessita conservação, sinalização e limpeza. Mas acredito que conhecer tais riquezas escondidas é o primeiro passo para estimular o atendimento a essas necessidades.

Muitas pessoas que virão como peregrinas para a JMJ me solicitaram algumas dicas de passeio nesse sentido. Seria muito extenso fazê-lo aqui. Por outro lado, já estão previstos, durante a JMJ, os Itinerários da Fé.

Por isso, apenas deixo uma lista dos pontos mais importantes, que podem ser vistos nesse mapa. Basta escolher um trecho e visitar os lugares.

O mapa também aponta áreas de interesse na Zona Sul e próximos à Quinta da Boa Vista. Restrinjo-me ao Centro do Rio, para onde foi transferida a Cidade após a expulsão dos franceses no século XVI.

Espero que os roteiros lhes sejam úteis!

***

Trecho da Rua 1º de Março (antiga Rua Direita)


  1. Esplanada do Castelo (onde ficava o morro da Cidade velha, desmontado no século XX).
  2. Igreja de São José (visitar a parte posterior do altar; é tradição no Rio não contar a ninguém o que se vê ali atrás).
  3. Palácio Tiradentes, sede da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (antigo Congresso Nacional).
  4. Paço Imperial (onde ocorreu o Dia do Fico e foi assinada a Lei Áurea; atualmente, museu gratuito).
  5. Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, anteriormente Capela Real (na qual encontram-se os restos mortais de Pedro Álvares Cabral, descobridor do Brasil, e de Dom Joaquim Arcoverde, primeiro Cardeal da América Latina).
  6. Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Ordem Terceira e Beco dos Barbeiros (rua original, com sarjeta central).
  7. Praça XV de Novembro (antigo Largo do Paço) e chafariz do Mestre Valentim.
  8. Arco do Teles e Travessa do Comércio (onde viveu Carmem Miranda).
  9. Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores (ver o projetil lançado contra a torre na Segunda Revolta da Armada, a 1893).
  10. Igreja da Santa Cruz dos Militares, anexa à Basílica Vaticana (Indulgência Plenária quotidiana)

Trecho da Lapa e Cinelândia


  1. Palácio Capanema (mais importante obra modernista do Brasil).
  2. Praça Marechal Floriano, onde está a Câmara Municipal (Cinelândia).
  3. Theatro Municipal.
  4. Biblioteca Nacional.
  5. Museu Nacional de Belas Artes.
  6. Catedral Metropolitana de São Sebastião do Rio de Janeiro.
  7. Arcos da Lapa.

Trecho das Avenidas Rio Branco e Presidente Vargas


  1. Centro Cultural Banco do Brasil.
  2. Espaço Cultural dos Correios.
  3. Casa França-Brasil (antiga Alfândega).
  4. Igreja de Nossa Senhora da Candelária.
  5. Avenida Presidente Vargas.
  6. Real Gabinete Português de Leitura (uma das bibliotecas mais lindas do mundo).
  7. Mosteiro de São Bento.

7 de jun. de 2013

Meu Xovem!

Horrível. Pegar um funk e fazer uma paródia em preparação para a JMJ: ideia de jerico. Passa a mensagem que os católicos “xovens” gostam de funk idiota, conhecem a letra de cor e salteado, e apreciam o rebolado.

Já assistiram ao original, da catolicíssima Anitta? É “alto nível”: “Prepara que agora é a hora do show das poderosas que descem, rebolam e afrontam as fogosas, só as que incomodam. Expulsam as invejosas que ficam de cara quando toca: Prepara!”

E lá no Youtube, enquanto uns dizem que deplorar isso é heresia, outros dizem que sim está bom, embora não nos conviesse contaminar com coisas profanas. O problema não é ser profano, o problema é ser mundano! Heresia é, antes, ter um péssimo gosto desses!

Em suma, aqui há uma enorme confusão entre secularidade, mundanidade, criatividade, bom gosto, autenticidade, etc. Enquanto essa confusão persistir, pensarão que “católico” é gênero musical, ou que ser cantor era algum grau das ordens menores, entre outras aberrações.

Para a nossa “xuventude” o que faz falta mesmo é estudar o Catecismo da Igreja Católica, ouvir música erudita, aprender o que é a virtude da castidade e fazer boa Confissão sacramental.

Ah!… Quase me esqueci: faz falta participar de adorações ao Santíssimo verdadeiramente orantes, isto é, silenciosas, não essa “aeróbica do Senhor” barulhenta e alienada do sentido do sagrado.

Bizarro, bizarro.

2 de out. de 2012

Declaração de intenções

Hora de balanço. Melhor: hora de fazer prognósticos.

Com a início do Ano da Fé a 11 de outubro, sinto-me instado ao longo dos próximos meses a dedicar algumas postagens às suas linhas mestras, sob a nova categoria Pátio dos Gentios.

Com efeito, o “Pátio dos Gentios” é uma das iniciativas intelectuais e apostólicas mais emblemáticas dos últimos anos, que de algum modo antecipou a proposta do Ano da Fé. Consiste num fórum neutro e aberto que possibilita o diálogo entre crentes e descrentes.

O Ano da Fé será inaugurado em Roma com um Sínodo sobre a Nova Evangelização. Daqui arrancarão três temas relevantes que pretendo tratar no blogue:

1) A chamada universal à santidade e o valor da vida quotidiana.
2) O indiferentismo ético e religioso.
3) A fratura entre fé e razão e o testemunho da caridade.

Além disso, no meio do Ano da Fé ocorrerá no Rio de Janeiro a tão esperada Jornada Mundial da Juventude, já tratada aqui, mas que ainda proporcionará outras considerações.

Por outro lado, como o Ano da Fé terá um aperitivo na proclamação de dois novos Doutores da Igreja, nada melhor que dedicar a essas 35 luminárias breves resenhas biográficas e curtos florilégios.

Por fim, o Papa indicou que “será decisivo repassar, durante este Ano, a história da nossa fé, que faz ver o mistério insondável da santidade entrelaçada com o pecado” (Carta Porta fidei, 13). Portanto, além dos Doutores, vale a pena falar dos grandes heróis da fé, desde Abraão até alguns Santos mais recentes.

Estou aberto a outras sugestões, que agradeço desde já!

27 de set. de 2012

Nove razões do atual entusiasmo por Hebe (Ήϐη)

Ήϐη
Flos ætatis, periculum tentationis.
— A flor da idade, perigo da tentação.
(Santo Agostinho, Ad iuvenes

Segundo Horácio, a juventude é cereus in vitium flecti: tão flexível para o vício quanto a cera (Ars poëtica, 163). A sentença também vale ao contrário, e talvez ainda mais. Com efeito, uma personalidade jovem bem formada, quanto não poderá fazer de bom na vida.

Horácio dirá mais; para ele, o jovem é tardus provisor: um tardo previdente (ib., 164). Por sua vez, Cícero afirmará: temeritas est florentis ætatis, prudentia senescentis — se a temeridade é própria do jovem, a prudência o é do ancião (De senectute, VI, 20).

Não obstante precisar de orientação, moderação e advertência — a fim de alcançar a maturidade —, por incrível que pareça a juventude tem sido proposta como exemplo e referência para os mais velhos.

Diz-se que, num mundo pessimista, as razões para a hipertrofia da juventude são:

1) Os jovens veem a vida como curtição. — Mas a “realização pessoal” é inimiga da “realização dos valores”?

2) Os jovens buscam a espontaneidade. — Mas é a espontaneidade que nasce das virtudes?

3) Os jovens sabem quebrar as regras e convenções. — Todas?

4) Os jovens desejam ser “eles mesmos”. — Sem abnegação? Sem transformação?

5) Os jovens vivem e interpretam seu próprio tempo. — Isso é efemeridade ou busca do absoluto?

6) Os jovens são livres do passado. — Eles não têm identidade?

7) Os jovens têm espírito crítico. — Mas sem terem ainda formado o critério?

8) Os jovens são a vanguarda profética das causas da justiça. — Que romântico!

9) Os jovens são intuitivos. — Sobre o quê?

Tenho dúvidas se divinizar a juventude não poderia causar ainda mais pessimismo à medida que sobrevém o envelhecimento. Mas essa inflação de Hebe também tem seu lado positivo se ela ajudar a perceber a emergência educativa em que vivemos.

Noutras palavras: se contemporaneamente houve uma positiva mudança semântica e de abordagem quanto à juventude, eis aí uma excelente oportunidade de cuidar com mais esmero da sua educação.

Educar é tratar um sujeito como se fosse objeto, embora sem tolher sua liberdade. E se há olhos tão otimistas para objeto tão nobre quanto a juventude, então é hora de cuidar dela com especial atenção.

Para isso, a JMJ será uma oportunidade ímpar. Fique ligado.

21 de set. de 2012

Três formas de falar da JMJ

Durante os quinze dias dos Jogos Olímpícos de Londres, apenas 900 mil espectadores utilizaram os transportes públicos da cidade. Por outro lado, é de se supor que o número será muito inferior no Rio de Janeiro durante a Copa do Mundo de 2014, pois o evento será restrito a jogos no Maracanã.

Nesse contexto, é sintomática, embora não é surpreendente, a pouca ênfase que se tem dado à próxima Jornada Mundial da Juventude na mídia, que atrairá no mínimo um milhão e meio de pessoas de todos os países para ficarem quatro dias na cidade. Ou seja, um evento de impacto muito maior, tanto numérico quanto em termos de valores.

Não surpreende. Como também não surpreendem as estatísticas sobre a redução do número de católicos no país. A redução é evidente. Contudo, “evidente” significa aparente. Explico-me.

Vivemos num mundo de aparência. Todos tentamos aparentar ser melhores do que somos; o que não é mau, já que por causa desse esforço, talvez realmente melhoremos um pouco. E quem vende tenta fazer sua oferta aparentar qualidade, e quem pechincha tenta aparentar desinteresse, etc.

E a Globo tenta de modo cínico aparentar respeito pela Igreja Católica exibindo o recém-lançado hino da Jornada na despedida do Fantástico. E os “católicos engajados” tentam de modo artificial manifestar uma penetração social que não possuem mediante #hashtags no Twitter e curtições no Youtube.

Nada disso é mau. Tudo isso é sim uma maravilhosa oportunidade de descobrir a paixão por comunicar.

Nesse aprendizado tão curto — pois a JMJ está às portas! —, é urgente levar em conta três coisas ao explicar a JMJ para nossos amigos:

1) A JMJ é para todo mundo, justamente porque é “católica”, universal. Enquanto cismarem em etiquetá-la de “coisa de igreja”, será mesmo um fiasco. Ninguém hoje em sã consciência suporta esse ar rarefeito de sacristia.

2) Os “católicos engajados” precisam abdicar de demarcar território midiático. A população brasileira continua sendo católica, ainda que a maioria seja de católicos à deriva. Uma análise meramente sociológica, de observação externa, que nivela denominações de fundo de quintal com a Igreja é uma aberração estatística. Por isso, ser “missionário” fazendo guetos cibernéticos é contraproducente: apenas aprofunda o sentimento de alheamento dos que estão longe. Portanto, encantar com a JMJ, sem “panfletar” a JMJ.

3) O verdadeiro apostolado se realiza através da amizade, que é comunhão de vida, não de linguagem. As mídias não são a “linguagem dos jovens”, mas a linguagem de todos. É ridículo achar que se tem penetração social apenas porque se criou um site, por exemplo. O que falta de verdade é lançar boias aos que estão à deriva, ou ir ao encontro dos que não querem retornar. Por isso, o eventual “fiasco” a que eu fazia referência é a eventual perda de uma oportunidade ímpar de resgatar os que estão perdidos por aí. Mas talvez, dado o nosso terceiro-mundismo, essa oportunidade não seja nossa mesmo, e a JMJ já tenha valido só por remexer as águas.

Sem dúvida, a JMJ será um sucesso para os “engajados” brasileiros, para os estrangeiros e para os que abrirem os olhos quando virem o mar de gente confluindo para a Cidade Maravilhosa. Quem sabe então muitos dos que estão à deriva começarão a perceber que há um farol no meio desse mar da vida… ainda que não lhes tenhamos mostrado a tempo essa luz.

O negócio é trabalhar e confiar! Afinal, o efeito JMJ será mais fruto da graça do que dos esquemas.

E você? Em que poderia melhorar a sua forma de comunicar?

18 de jun. de 2012

Cinco segredos da JMJ

Como necessário complemento aos sete passos para uma bem-sucedida JMJ no Rio de Janeiro, apresento os cinco pontos auge da JMJ de Madri, analisados por Bento XVI em seu balanço de fim de ano (que vale a pena ler na íntegra).

Nova experiência de catolicidade

A JMJ é a nova evangelização ao vivo. Permite apalpar a catolicidade, isto é, a universalidade da Igreja: gente de todos os continentes que, sendo tão diferente pela língua, cultura, nação, compartilha os mesmos sentimentos e ideais. É uma verdadeira aula de pluralismo.

Nova forma de ser homem

Em Madri houve cerca de 20.000 jovens voluntários, indicando a perene vitalidade da caridade, que se reveste formas novas conforme os tempos. Através do altruísmo, da solidariedade e do serviço, muitos redescobrem o amor de Deus e do próximo, que é o verdadeiro motivo da ação humana.

Revalorização da adoração

A presença real de Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento da Eucaristia é o ponto focal da JMJ. Dali se alimenta a Igreja e aí encontra forças cada fiel. É a atitude que se tem diante da Eucaristia que define se uma pessoa está ou não comprometida com Cristo.

Redescoberta da Penitência

Não seria autêntico um encontro com Cristo que descuidasse a penitência. Jesus Cristo é exigente e a proposta de vida cristã tem como meta nada menos que a santidade. Por isso, o esforço penitencial de purificação, que todo batizado envida ao longo de sua vida, necessita da graça de Deus para chegar à perfeição. A confissão sacramental dos pecados pessoais ao sacerdote é o único meio ordinário, instituído pelo próprio Cristo, para responder ao esforço humano com o perdão gratuito de Deus. Quem frequenta esse sacramento, recebendo a absolvição de sacerdotes experimentados, enche-se de alegria, de segurança, de confiança em sua luta por ser uma pessoa melhor.

Refortalecimento da alegria

Segundo São Tomás de Aquino, a alegria é “certo ato e efeito da caridade”, já que “a mesma caridade inclina a amar, a desejar o bem amado e a gozar nele” (S. Th., IIa-IIæ, q. 28, a. 5, c). Se pela caridade os cristãos são reconhecidos, em toda parte onde estiverem seu traço característico será, portanto, o sorriso da alegria.

23 de abr. de 2012

Sete passos para uma bem-sucedida JMJ Rio2013

Michael Cook escreveu acerca da JMJ ocorrida em Madri em 2011, aliás muito bem sucedida, a despeito da aura negativa com que a mídia teima em avaliar os eventos pontifícios.

Com base em suas ideias, pensei em sete providências para que a JMJ carioca de 2013 também dê seu fruto.

1) Que a nova geração assuma sua posição na Igreja

Eventos como World Youth Summit das Nações Unidas, ou mesmo shows do porte do Rock in Rio, embora reúnam milhares de jovens (e tantos não tão jovens), não se comparam às Jornadas Mundiais da Juventude, que costumam atrair milhões de peregrinos de centenas de países, os quais suportam o sacrifício de pagar uma longa viagem e de acomodar-se desconfortavelmente. A razão está no compromisso, na identificação com a Igreja Católica.

Portanto, o sucesso da JMJ passa pela interiorização desse compromisso. Sem dúvida, a desproporção da assistência indica que a próxima geração herdará os valores da Jornada e não dos shows patrocinados, mas isso não isenta da necessidade de assimilá-los e de traduzi-los em propósitos práticos, pessoais.

2) Aprender de Bento XVI, que dita a agenda moral do Ocidente

Desde antes de sua eleição, o Papa Bento alertava para a “ditadura do relativismo”. Seu ensinamento desmonta as atitudes politicamente corretas e a neutralidade moral e tem conseguido chegar aos ouvidos de autoridades aparentemente não tão dispostas a ouvi-lo, como as britânicas ou as germânicas, por exemplo.

Mas se o Papa tem feito gente alheia à Igreja pensar, poderíamos dizer o mesmo dos católicos (e dos católicos brasileiros)? Muitas vezes se tem a impressão, e especialmente no Brasil, que a maioria das pessoas ainda ignora as propostas lançadas por Bento XVI. Portanto, mãos à obra: é a hora de inteirar-se, ler, pôr a mão na cabeça e refletir um pouco.

3) Recorrer ao think tank de um homem só… que é de graça!

O crítico cinematográfico Neal Gabler, do New York Times, lamentou o fim do pensamento profundo e anunciou o advento da pós-ideia. Se isso é assim nas grandes metrópoles do Ocidente, não o é no Vaticano. E mesmo que setores intelligentsia não leiam a obra de Ratzinger sobre moral, filosofia, estética, economia e responsabilidade social, muitos jovens já leram.

Tamanha quantidade de ideias construtivas — acessíveis e gratuitas — promete deixar rastro e construir o futuro de uma geração carente de referenciais. E quanto a você, já leu também?

4) Encontrar a única saída para a CRISE (econômica, política, etc.)

Bento XVI anteviu esses e outros descaminhos e apontou respostas antes que as pessoas começassem a perguntar. A dimensão ética da economia não deve ser minorada nem substituída pela mera regulação.

A gratuidade é uma manifestação concreta da justiça e da caridade cristãs, que traz um remédio providencial para tais momentos de dificuldade. Impõe-se, mais do que nunca, redescobrir as múltiplas facetas da generosidade e do amor.

5) Renunciar ao consumismo e ao sexo desumanizador

Uma liberdade de mal com a verdade transforma-se em utilitarismo. O coração dos que reduzem sua liberdade à mera escolha atola-se no consumismo avaro e no hedonismo erótico. A desilusão é consequência óbvia.

A redescoberta de Deus inspira os sonhos de juventude, levanta o olhar para desafios que valem a pena, alargam o coração para os grandes ideais. Só contemplando a Deus pela oração e ouvindo sua Palavra é possível olhar para o homem e compreendê-lo.

6) Reafirmar que a verdade é mais forte que a utilidade

O discurso para os professores foi o mais memorável de Bento XVI na JMJ da Espanha. Propôs-lhes ensinar a verdade com o exemplo e com a palavra, mais do que mero know-how.

A questão aqui é como encaramos a vida universitária, problema que não afeta apenas o corpo docente, mas também o discente.

7) A JMJ ainda é o segredo bem guardado para o mundo

A cobertura jornalística das JMJs é paupérrima. Se um exíguo grupo de homossexuais fizesse barulho ou reunisse uma boa quantidade de gente disposta a presenciar extravagâncias, receberia holofotes. Não é de estranhar tão pouca atenção da opinião pública para um evento que reúne mais de um milhão de jovens? A JMJ das Filipinas, por exemplo, foi o ato mais massivo da história da humanidade, com quatro milhões de pessoas.

Dizem que o Papa alertou o prefeito do Rio de Janeiro que a JMJ trará um impacto para a cidade muito maior que a Copa ou as Olimpíadas, além de ser muito mais difícil de organizar. Provavelmente, as implicações políticas do encontro até facilitem sua prévia difusão midiática por via institucional.

De qualquer modo, é prioritário explicar para todo mundo o que é a JMJ. Vai na linha do conselho de São Rafael a Tobit: “É bom manter escondido o segredo do rei, mas é honroso revelar e celebrar as obras de Deus” (Tb 12,7a). Com isso, também se prepara a cidade para que não apenas tenha os braços abertos, mas saiba fechá-los num abraço caloroso ao Papa e aos peregrinos.

Contudo, talvez não seja tão peculiar essa miopia jornalística. Afinal, do mesmo modo que a mídia não anteviu a Primavera Árabe, nem a desintegração da União Soviética, etc., é incapaz de captar a história oculta dessas Jornadas.

Essa “história oculta” é capilar em todo o mundo através do fermento de cada jovem transformado pelo encontro com Jesus Cristo através da figura do Pontífice. Ele mesmo declarou aos jornalistas:

A sementeira de Deus é sempre silenciosa, não aparece imediatamente nas estatísticas. E com a semente que o Senhor lança na terra durante as JMJs, acontece como com a semente da qual Ele fala no Evangelho: algumas caem ao logo da estrada e perdem-se; outras caem sobre os pedregulhos e perdem-se; algumas caem entre os espinhos e perdem-se; mas algumas caem na terra boa e produzem muito fruto. Exatamente assim acontece com a sementeira da JMJ: muito se perde — e isto é humano. Com outras palavras do Senhor: o grão de mostarda é pequeno, mas cresce e torna-se uma árvore frondosa. E ainda, certamente, muito se perde, não podemos dizer imediatamente: a partir de amanhã recomeça um grande crescimento da Igreja. Deus não age assim. Mas cresce em silêncio e muito. Sei que das outras JMJs nasceram muitas amizades, e para toda a vida; muitas experiências novas de que Deus existe. E sobre este crescimento silencioso nós depositamos a confiança e estamos certos, embora as estatísticas não se pronunciem muito, de que a semente do Senhor realmente cresce e, para muitas pessoas, será o início de uma amizade com Deus e os outros, de uma universalidade do pensamento, de uma responsabilidade comum que deveras nos mostra que estes dias dão fruto.

*****

Não poderia terminar essas linhas sem fazer referência à análise que o próprio Papa fez da JMJ de Madri. Mas quanto aos cinco segredos que ele constatou em seu balanço, dediquemos uma postagem futura.

21 de ago. de 2011

JMJ Rio 2013!


As Jornadas da Juventude reuniram a cada edição número recorde de participantes. Nunca houve tanta concentração de jovens de tantos países. A JMJ das Filipinas reuniu 4 milhões de jovens em 1995. Nenhum popstar conseguiu atrair tanta gente na história como os papas.

JMJ Madri 2011
Em outros tempos, o próprio cardeal Ratzinger já se perguntara que impacto duradouro suporia para a vida dos jovens a participação em tal evento, promovido pelo bem-aventurado João Paulo II desde 1986. A questão se impõe a qualquer crítico da pós-modernidade. De fato, pode haver coisa mais surpreendente do que milhões de jovens do século XXI, de todas as partes do mundo, se reunirem para estar junto da controvertida figura do Pontífice Romano? Estariam os jovens seguindo um mero movimento de massa, alienados quanto às “minorias oprimidas pela multissecular estrutura eclesiástica”?

O papa no confessionário atendendo a um fiel
Sem dúvida, pode haver alguns que veem no evento uma oportunidade de azarar meninas de outras nacionalidades ou mesmo da própria esquina, como se fosse um “megaencontro-jovem” no mau sentido. Apesar de inevitável, isso não nega que haja fé mesmo nesses participantes eventualmente “interesseiros”. Existe fé. As pessoas creem! Há apreço e reverência pelo Homem de Branco que, de alguma forma, realiza a figura de Cristo. O que não se entende é a crítica azeda contra a manifestação pública da fé. Acusa-se a Igreja de invasão e hipocrisia. Ora, o próprio Bento XVI reconhece a necessidade de um constante aprimoramento de todo aquele que se diz cristão: “Nós devemos ser santos para não gerar uma contradição entre o sinal que somos e a realidade que queremos significar” (Homilia, 20/8/2011). Naturalmente, em toda essa barafunda a culpa não é só da mídia, pois a comunicação interna da Igreja tem sido ruim. Mas seria bom que se fizesse um mínimo esforço de compreensão de um fenômeno nada desprezível. Afinal, os jornais dão mais espaço a seis veados pingados que fazem passeada do que a milhões de jovens, como se uma minoria de intolerantes tivesse mais importância do que uma maioria de gente da curva normal.

Por outro lado, sejamos sinceros: as JMJs são um desafio apostólico para a Igreja. Faz falta ajudar essa juventude pós-moderna a trocar a rebelião do “paz e amor pela rebelião da fé e da caridade. Porém Madri mostrou — com seus 200 confessionários ao ar livre — que o saldo de reconciliação mediante a Confissão foi excelente. Não há outro caminho para a maturidade senão o arrependimento das próprias culpas.

Peço perdão, pois escrevi a esmo, como num desabafo de ideias soltas.

Até 2013. O Rio receberá milhões de braços abertos. 
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