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16 de jan. de 2012

Da ecocultura à moralcultura

2012 é o ano da ecologia e este Depósito de ideias não pode ficar de fora.

O problema é que não tinha pensado em nada a esse respeito ainda… até que um amigo me contou a seguinte história:

Ele precisou dar uma conferência para professores e, falando dos três rr do consumo consciente, deixou sua plateia bastante incomodada.

Você já ouviu falar deles? Pois são:

REDUZIR
REUTILIZAR
RECICLAR

Aparentemente, os dois últimos são mais fáceis de praticar; o primeiro, porém, é um convite ao desprendimento, à frugalidade. Reutilizar e reciclar podem condecorar a vaidade dos ecologicamente conscientes, mas reduzir supõe algo mais íntimo.

De fato, ao falar de desprendimento aos professores da sua plateia, meu amigo percebeu que pisara no calo. Afinal, quem está disposto a reduzir o uso de celulares, computadores, internet, TV, música, condicionadores de ar, refrigerantes, cerveja, cigarro, combustível, viagens, etc.?

Tais incômodos nos fazem bem, pois o desconforto é uma zona em que os desafios morais se nos apresentam com mais glamour. Muitos assistentes depois agradeceram ao meu amigo pelo fato de lhes ter aberto os olhos para quanto estavam sendo consumistas.

Sem dúvida, quando o assunto é ecologia, o mais importante é o corolário moral.

15 de mar. de 2010

A Globo é o 6ig 6rother, 6rasil

Só o Faustão chama a CGP de Projac

Sexta passada, estive na Central Globo de Produção, em Jacarepaguá. Coisa impressionante: logística, profissionalismo, produção, gestão, consumo, inovação, criatividade. É de se tirar o chapéu. Apenas dois dados, entre tantos: a Globo produz 10 vezes mais horas de entretenimento do que Hollywood e está presente em uns 170 países.

Ao fim da apresentação inicial, durante um coffee-break, antes de sairmos para a cidade cenográfica de carrinho elétrico, perguntei ao relações-públicas sobre a ética. Afinal, se tamanho poder estiver posto nas mãos de gente mal intencionada, que mal não se pode fazer! É como a energia atômica: pode ser utilizada para sustentar uma cidade ou para criar uma bomba.

A resposta não me surpreendeu. Mas também me entristeceu.

A voz do povo é a voz de Deus

Segundo ele, a Globo tem duas referências para aferir a conveniência da sua produção artística: o retorno da audiência e o Ministério Público.

De que vale a opinião popular comprada a pão e circo? Mas até aí, já era de se esperar uma resposta assim. Tem seu aspecto de justiça, visto ser uma deferência pela opinião do consumidor final.

A referência ao MP é que foi curiosa. Meu interlocutor afirmou que a Globo é muito mais policiada do que as outras emissoras e, por isso, “não consegue ser apelativa” (não?!?).

Para exemplificar, disse que a personagem Rafaela, encenada pela atriz mirim Klara Castanho na novela Viver a Vida, era para ser muito pior. Argumento que, para mim, é como cavar a própria cova. A opinião da Globo é que o ator sabe distinguir perfeitamente sua vida privada da encenada, e que o MP teria uma equivocada preocupação com o futuro desenvolvimento da criança.

Simplismo ridículo. Um artista se constrói, mesmo possuindo dotes inatos. Um ator mirim não apenas constrói sua performance, como também seu caráter. Basta assistir a Klara Castanho dando entrevista para ficar preocupado.

Quando a ética se reduz à ecologia

A frase lapidar foi: “nem a Globo nem o MP têm a verdade”. Ora, se é assim, tiro duas conclusões:

1. Não existe verdade e o Brasil vive sob a lei do mais forte. Deus nos livre e guarde.

2. Nem a Globo nem o MP estão buscando a verdade, mas seus interesses. Nesse caso, prefiro os interesses do MP.

Para não acabar tão mal, foi-nos explicado o que Globo “faz pela ética”: atores mirins só entram acompanhados dos pais, o entorno foi reflorestado e internamente se utilizam carros elétricos. Espero que isso lhe compense o fato de ser a maior consumidora de madeira do país.

Taca fogo no edredon

Se a Globo um dia resolvesse levar um santo ao BBB, o que aconteceria?

Para começar, ele faria uma exigência: teria de sair da casa habitualmente para assistir à Missa. Depois, ele converteria os participantes mais sensíveis. Em seguida, ele seria contestado, perseguido e maltratado pelos participantes que vestissem a carapuça e se sentissem esbofeteados com luva de pelica. Finalmente, ele morreria num estranho acidente na piscina, causando comoção nacional.

26 de jan. de 2010

Três críticas à New Age


Apesar da enorme variedade que há na New Age, existem certos pontos comuns: o cosmos como todo orgânico, animado por uma Energia; a mediação de várias entidades espirituais; a existência de um «conhecimento perene» prévio e superior a todas as religiões e culturas; a existência de mestres iluminados.


Seu atrativo radica em se adaptar ao indivíduo, diferentemente da religiosidade tradicional, apoiada na organização hierárquica e comunitária. Não seria possível fazer nada para mudar o mundo se não se faz algo para mudar-se a si mesmo, representação fragmentária do holograma planetário.


Porém, quanto mais as pessoas se interiorizem, menor se tornará o cenário político. Questiona-se se a retórica da participação democrática numa nova ordem planetária não seria uma forma inconsciente e sutil de privar de poder às pessoas, manipulando-as. A atual preocupação pelos problemas ecológicos, dos recursos naturais, do excesso de população, da diferença econômica entre norte e sul, do enorme arsenal nuclear, da instabilidade política favorece ou impede o compromisso com outras questões políticas e sociais igualmente urgentes?

Seria exagerado afirmar que o quietismo é comum na New Age. Mas sim cabem três críticas:


1. A New Age não possui coerência intelectual para proporcionar uma imagem completa do mundo a partir de una cosmovisão que pretende integrar natureza e realidade espiritual.


2. A New Age importa fragmentariamente práticas religiosas orientais e as reinterpreta para adaptá-las às ocidentais, num falso diálogo entre as culturas e as religiões.


3. A New Age nem sempre promove a solidariedade humana, enfatizando as baleias, as árvores ou as pessoas de mentalidade similar, pois é uma filosofia do egoísmo. Este é um critério chave com o que se deve avaliar o impacto de qualquer teoria: o amor.

22 de jan. de 2010

New Age: três princípios e quatro ofertas

A New Age parte de três princípios:

1. Resposta global em tempos de crise. O holismo não só supera as divisões indevidas, como também a diferença e a distinção reais. Suas implicações mais óbvias são o processo de transformação consciente e o desenvolvimento da ecologia. A primeira se vê obstaculizada por formas de pensamento mais antigas, às que se considera entrincheiradas no statu quo. Por outro lado, teve enorme êxito a generalização da ecologia e a ressacralização da Madre Terra ou Gaia. Pensa-se que o calor da Madre Terra, cuja divindade penetra toda a criação, cumula o vazio entre a criação e o Pai-Deus transcendente do judaísmo e do cristianismo. Descobre-se um panteísmo implícito.

2. Matriz essencial na teosofia, que pretendia iniciar as pessoas através de um itinerário espiritual de transformação nos mistérios do mundo, de Deus e do eu, interligados por uma série de correspondências, analogias e influências.

3. Sacralização da psicologia. O psicólogo americano William James definiu a religião como experiência, e ensinou que os homens podem converter-se em arquitetos de seu próprio destino. O psiquiatra suíço Carl Gustav Jung pôs de relevo o caráter transcendente da consciência e introduziu a idéia do inconsciente coletivo, uma espécie de depósito de símbolos e recordações compartilhados com pessoas de diversas épocas e culturas diferentes. O resultado é um corpus de teorias que permite falar de Deus quando na realidade se quer referir à própria psique e vice-versa. Um elemento central do pensamento jungiano é o culto ao sol, donde Deus é a energia vital (libido) do interior da pessoa. O Movimento do Potencial Humano desenvolveu nos anos 60 na Califórnia a psicologia transpessoal, um caminho contemplativo onde a ciência se encontra com a mística. A busca do “deus interior” e da realização do próprio potencial admitiu todo tipo de terapia: meditação, experiências parapsicológicas, uso de drogas alucinógenas.

Com isso, a New Age pretende oferecer:

1. Encantamento: estamos mergulhados no mundo angélico.

2. Harmonia e comprensão: boas vibrações. Os mestres e as terapias da New Age afirmam oferecer a chave para encontrar as correspondências entre todos os elementos do universo, de modo que se possa modular a tonalidade da vida e estar em harmonia absoluta com os demais e com o entorno. O sistema de correspondências foi claramente herdado do esoterismo tradicional, ainda que tenha um novo significado. Enquanto para a doutrina esotérica tradicional cada elemento natural possui em seu interior a vida divina, agora a natureza é um reflexo morto do mundo espiritual vivo.

3. Saúde: uma vida dourada.

4. Totalidade: uma viagem pelo mistérico. Saúde holística: acupuntura, biofeedback, quiroprática, kinesiologia, homeopatia, iridologia, massagem e vários tipos de «bodywork» (ergonomia, Feldenkrais, reflexologia, Rolfing, massagem de polaridade, tato terapêutico, etc.), meditação e visualização, terapias nutricionais, cura psíquica, tipos de medicina à base de ervas, cristalterapia, metalterapia, musicoterapia, cromoterapia, terapias de reencarnação, programas em doze passos e grupos de autoajuda.

18 de dez. de 2009

O coquetel molotov dos anos 60

No início do pós-Guerra, só 2% dos italianos tinham geladeira; na Alemanha, 10%. Em 1950, uma família europeia gastava mais de 50% dos seus ingressos em comida. 20 anos depois, 30%.


O boom econômico foi acompanhado do baby boom, de modo que no fim dos anos 60 havia uma massa de jovens que não precisavam mais ajudar a economia familiar, consumindo música (rock), roupa (jeans, jaquetas), carro (Mustang).

Enquanto os jovens estavam com dinheiro, longe dos pais, em universidades superlotadas, consumindo supérfluos e planejando férias, os idosos pesavam ao Estado previdenciário com o excesso de aposentadorias.

A Escola de Frankfurt (basicamente uma junção de Marx com Freud), orientava um mundo bipolar, mais marcado por dramas políticos do que por mudanças culturais (vide os Anos 20):
  • Guerra do Vietnã
  • Castro governa Cuba
  • Luther King luta pelos direitos civis nos EUA
  • Feminismo adota uma agenda feroz defendendo biquini, minissaia, liberdade sexual, etc.
  • Concílio Vaticano II (62-65)
  • Kenedy é assassinado em 63
  • Instaurado novo regime no Brasil em 64
  • Eleições indiretas no Brasil em 65
  • Israel: Guerra dos Seis Dias em 67
  • Che é morto na Bolívia em 67
  • San Francisco: verão de sexo e psicodelia em 67
  • Luther King é assassinado em 68
  • AI-5: suspensão dos direitos civis e dos habeas corpus em 68
  • Encíclica Humanæ vitæ publicada em 68
  • Passeata dos Cem Mil no Rio em 68
  • Desencanto das esquerdas ocidentais com os tanques soviéticos na Tchecoslováquia em 68
  • Woodstock em 68
  • Hollywood substitui o código Hays (critérios morais) pelo atual MPAA (critério de idade) para fazer frente à queda do cinema diante da TV em 68
  • Minimanual do Guerrilheiro Urbano, de Carlos Marighella, circula em 69
  • Corrida espacial: homem na Lua em 69

A contracultura contestava a autoridade (Nixon, De Gaulle, professores, Papa, Igreja, mãe), a moralidade (proibido proibir), a etiqueta, as instituições (vistas como modelo opressor). O mote era o amor, no estilo Imagine de John Lennon.

O saldo parece negativo:
  • divórcio, aborto, homossexualismo, drogas, etc. como conquistas
  • exaltação desmedida do sexo
  • apesar de paz e amor, extrema crueldade
  • rechaço da tradição

Mas houve várias aquisições interessantes:
  • juventude menos alienada
  • interesse pela ecologia
  • maior informalidade intergeneracional
  • pacifismo
  • sentido comunitário
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