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23 de jun. de 2014

Para tempos como esses que vivemos

Os sentimentos são como o mar, afetados pela Lua, pela ressaca, pela poluição, pelas correntes, pelos bichos que o povoam e aterrorizam. O mar é traiçoeiro, no mar dá para surfar, pelo mar é costume singrar. Mas também se afogar.

O mar é salgado como o suor. O mar é cristalino ou turvo, suave ou encrespado, revolto ou sereno, refrescante ou enregelante. Mas o mar nunca mata a sede.

Tem gente cujo coração é de mar. Outros tantos têm o mar na cabeça, agitando pensamentos, refletindo à deriva, mergulhando nos sonhos. Uns e outros rodopiam nas marés que puxam a vida para longe da segurança da praia.

No mar da vida encontramos algumas boias, amigos e amores aos quais confiar nossa sobrevivência e respiração. Às vezes, sucumbimos com eles; outras, eles nos rebocam.

O mar é traiçoeiro, irmão. É forçoso nadar, e nadar com ânsias de sobrevivência.

2 de jun. de 2014

Conexão & Química

Química é expectativa. Altura, cor de cabelo. Simpatia e atração recíprocas. Instinto. Desnecessária, puro bônus. 

Conexão foi soldada com a emoção. Convicção esculpida no coração. Segurança. Cumplicidade. Laço.

Química embriaga. Conexão abraça. Química destrói reputações. Conexão forja relações.

O livro Silmarilion descreve as joias nas quais foram encerrados os raios das árvores de luz. Da árvore solar e dourada em seu entardecer e da árvore lunar argêntea em seu alvorecer.

Química e Conexão concorrem juntas na confecção de uma joia rara que é o amor, como o brilho dessas árvores mitológicas.


30 de mai. de 2014

Quatro formas de olhar

Olhar indiferente

A vida imita a arte porque a vida é monótona. A arte quando imita a vida é novela chata. Quero a surpresa, quero o inusitado. Falta sal, falta brinde.

Para que olhar? Seduza-me.

Olhar através

Triste olhar de quem perdeu a perspectiva. Miopia da vida que ignora o que vê, que se faz cega por fechar os olhos e não pelo ofuscamento de contemplar de frente o Sol.

A quem olhar? Hora de acordar.

Olhar detalhista

Olhar esparramado sem foco nem respeito. Sem peito para enfrentar a vida, que vai furtivo de flor em flor sem nenhuma visitar. A multidão dos detalhes desagrega, confunde, perde, desvia.

Para que olhar tanto? Procuro um quê ou procuro um quem?

Olhar abarcante‎

Meus olhos brilham para ti, canta Marisa Monte, porque a verdade é uma ilusão vinda do coração. O amor não idealiza, ele concretiza. Porque sem ele a realidade é cinza. Porque como vamos desejar o que é imperfeito se o olhar amoroso não conferisse a quem é olhado a visibilidade que lhe falta?

Para que olhar tudo? Basta olhar você.

1 de mar. de 2014

Quão longe é tão longe?


Sexo não é rito de passagem, nem uma experiência que transforme um moleque num homem.

Por outro lado, a avalanche pornográfica e o incentivo à promiscuidade tornaram toda uma geração imatura e amolecida.

Bom é que nem todo mundo é obcecado por sexo casual, embora o Doutor Correto e a Dona Direita não sejam fáceis de encontrar em cada esquina.

Estes são mitos comuns, que enganam muitas mulheres: “Ele nunca vai me querer se eu não fizer sexo com ele. Todo homem precisa de sexo para dar amor. Não encontrarei amor se não semear sexo. O sexo de hoje à noite é o relacionamento de amanhã de manhã”. Por isso, tantas pessoas guardam dores emocionais relativas ao lado físico das relações.

Para conhecer as intenções de alguém, é preciso — respire fundo — tirar o sexo de cima da mesa. Sexo não é ignição nem combustível do namoro: apenas embaralha as intenções. Para saber se alguém quer conhecer você, não será o melhor caminho oferecer-lhe benefícios físicos.

Nós homens sempre trabalhamos pelo que queremos. Presa fácil é presa descartável.

Nossas mentiras

“Se você me amasse, você dormiria comigo”. Significa o contrário de “se eu a amasse, respeitaria suas barreiras.”

“Tenho necessidades, e o sexo é uma delas”. Você conhece alguém que tenha morrido de continência?

“Eu amo você”. Às vezes isso é mentira, pois os homens gostam de dizer o que as mulheres querem ouvir.

“Não vamos saber se somos compatíveis se não fizermos sexo”. Esse papo de compatibilidade baseia-se em desejos e comparações. Ora bolas, estamos falando de amor ou de mercadorias?… Na verdade, somos sexualmente compatíveis com quem amamos de verdade, pois esse é nosso jeito de funcionar!

“Você vai acabar sozinha se não fizer concessões”. Simplesmente, você está procurando jeca, buscando amor no lugar errado.

“Qualquer coisa que você faça na viagem, na faculdade, etc., não importa, será uma única noite”. Somos a nossa memória. Qualquer decisão sexual permanece e aflora nos momentos mais inconvenientes.

“Quanto mais fisicamente unidos, mais gostarei de você”. Não necessariamente. Homem gosta de desafio; portanto, não ceda que ele gostará ainda mais!

“Nós nos amamos de verdade. É como se já estivéssemos casados”. Morar junto não é casar. Dividir quarto e dinheiro é coisa de república estudantil. E não era essa a história de amor com que você sonhava.

Algumas verdades

Para as mulheres: Seja elegante sempre. Nunca seja vulgar. Troque o sexo de fim de semana pelo sexo de uma vida inteira.

Para os homens: Todo jovem que toca a campainha de um bordel está inconscientemente à procura de Deus, já dizia Bruce Marshall. Quem deseja luxúria constata que seu coração está vazio, e que lhe faltam muitas virtudes, especialmente a da religião.

Para ambos: Casamento é contexto. Amor é projeto. Família é laço. Sem isso, o sexo é peça sem palco, história sem roteiro, diálogo sem ator.

Lembre-se: uma nota de 100 reais é sempre uma nota de 100 reais. A gente pode amassar, molhar, sujar, etc. Continua sendo uma nota de 100 reais. Ou seja: não importa o que tenhamos feito no passado. Importa o que fazemos hoje e agora. E importa muito mais quem somos. E somos muito mais que 100 reais!

1 de fev. de 2014

O beijo não vem da boca

Já dizia Ignácio de Loyola Brandão que o beijo não vem da boca. Mas será que ele vem sempre do coração?…

Além disso, nem tudo que sai do coração é bom. O problema é que a mesma boca que te beija pode ser a boca que te escarra.

O problema também é que Deus é amor, mas o amor não é Deus. Ou seja: o amor não coonesta tudo. Quanto vale um amor sem sinceridade? Tanto quanto a liberdade sem a verdade. Podem chamar quaisquer afetos de amor, mas o amor verdadeiro envergonha-se do que a natureza veda, já dizia Andreas Capellanus.

Mas voltemos ao beijo. Existem três tipos:
  • basium, entre conhecidos (são as formas de se cumprimentar socialmente);
  • osculum, entre amigos (ósculo, aquele que faz biquinho);
  • suavium, ou beijo dos amantes, cujo pudor exige discrição.
O cumprimento pode ser hipócrita como o de um fariseu; o ósculo pode ser traidor como o de Judas; e o beijo pode ser mentiroso como o de uma prostituta.

Olavo Bilac pedia:

Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!,
Ferve-me o sangue, acalma-o com teu beijo,
Beija-me assim!

Total: pode-se compor odes ao amor e elogios ao beijo, mas nem sempre encontrá-los, ou buscá-los onde não se encontram. Também o amor e suas manifestações necessitam de purificação!…

18 de jan. de 2014

Rio de alegria

Rio de fé

Quando me ofereceram a oportunidade de participar das filmagens de “Rio de Fé, um encontro com Papa Francisco” — o documentário dirigido por Carlos Diegues sobre a Jornada Mundial da Juventude Rio2013 — senti um misto de lisonja, entusiasmo e expectativa. Afinal, não é todo dia que se tem a chance de representar o sentimento de milhões de pessoas.

Por um lado, eu já vinha trabalhando como voluntário nos preparativos do evento e ansiava por ver o Papa Francisco de perto pela primeira vez. A perspectiva de fazer parte do registro era, sem dúvida, cativante.

Por outro lado, havia o interesse por conhecer Carlos Diegues, o renomado cineasta brasileiro que produz, desde 1959, uma obra a cada três anos em média, várias das quais premiadas internacionalmente.

Depois de inúmeros filmes marcados de humor, crítica social, e análise política e econômica, Cacá tinha decidido realizar um documentário sobre a fé. Motivo: ao saber da eleição do Papa Francisco, sentiu-se comovido, pois fizera todos os seus estudos em instituições de ensino jesuítas.

O briefing da filmagem explicava que a Cidade Maravilhosa tem vocação à alegria e à paz, tanto por suas belezas naturais, quanto por seu povo receptivo que, mesmo diante das adversidades, é capaz de “inventar a felicidade”. Assim, não haveria melhor cenário que o Rio de Janeiro para a JMJ, pois as Jornadas são uma ode à alegria. “Com efeito — citava Bento XVI —, a alegria é um elemento central da experiência cristã. Também durante cada Jornada Mundial da Juventude fazemos a experiência de uma alegria intensa, a alegria da comunhão, a alegria de ser cristãos, a alegria da fé. É uma das características destes encontros. E vemos a grande força atrativa que ela tem: num mundo com muita frequência marcado por tristeza e preocupações, é um testemunho importante da beleza e da fiabilidade da fé cristã” (Mensagem para a XXVII Jornada Mundial da Juventude 2012).

Concluía o cineasta: “O principal objetivo de nosso filme é esse grande abraço místico e humano, peregrino e missionário, cristão e universal, que é a JMJ. E que, pela cidade onde ocorrerá, poderia chamar-se Jornada Maravilhosa”.

Cultura do encontro

Penso que não se deva tomar a citação de Bento XVI fortuitamente, pois muito se tem falado do contraste entre Francisco e seu antecessor durante o primeiro ano do novo pontificado. O que se contrastou, porém, não condiz com a realidade. Pude reparar isso ao participar do filme, ao conversar com pessoas das mais variadas linhas, ao ler os jornais, e ao participar à mesa do debate de lançamento do documentário, ocorrido na PUC-Rio (a íntegra do debate pode ser encontrada aqui).


O evento de lançamento reuniu integrantes de diferentes religiões e movimentos e tratou da necessidade de tolerância religiosa na cidade do Rio de Janeiro, pois a convivência pacífica durante a Jornada Mundial não costuma ser habitual do dia a dia de muitas localidades cariocas.


Ao longo da discussão, em que houve uma animada participação do público, duas tensões se notabilizaram.

A primeira foi uma atitude crítica, velada e subjacente, dirigida contra a Igreja Católica e suas instituições, acusadas de serem demasiadamente verticalizadas, invasivas e anquilosadas. Curiosamente, ao mesmo tempo se denunciou a falta de empenho da hierarquia eclesiástica em mobilizar os leigos para participarem da marcha pela liberdade religiosa que ocorre periodicamente em Copacabana. Traduzo noutros termos: “a liberdade para mim, e a obediência para os outros”.

A segunda tensão constatada foi a ingênua convicção de que o novo Papa é um revolucionário pelo simples fato de ser simpático (quesito em que, consequentemente, os Papas anteriores teriam deixado a desejar). Um dos presentes, que representava determinado grupo de homossexuais católicos, fez-me uma indagação justamente sobre esse ponto, pois ele tinha a impressão de que o novo pontificado auspiciava tal transformação da Igreja que permitiria a reabilitação de Leonardo Boff, posto de escanteio pelos papas anteriores.

Uma pequena digressão: sem dúvida, o Papa Francisco aposta na “cultura do encontro”. O documentário em questão demonstra isso e procura evidenciá-lo a partir de diferentes histórias de peregrinos, voluntários, cidadãos comuns, representantes de outras religiões, etc. E como diz o provérbio chinês, que para abrir uma loja o primeiro passo é sorrir, o atual Romano Pontífice oferece o seu em abundância.

Saber rir das revoluções

Mas chegara o momento de eu responder à pergunta do militante homossexual, defensor de Leonardo Boff e feliz com a saída de Bento XVI. O moderador do debate me solicitou brevidade, pois a minha resposta fecharia as discussões daquela noite.

O espaço deste artigo me permite ser mais explícito nas considerações que ora pude tecer.

Primeiramente, as pessoas se lembram de nós não pelo que dissemos, mas pelo que lhes fizemos sentir. O Papa Francisco tem-nos feito sentir aquilo que os Papas anteriores já diziam. Não há um contraponto, não há um contraste. Só nova embalagem.

A questão é: por que as embalagens anteriores foram rechaçadas pela opinião pública?

O próprio Papa Francisco já percebeu que lhe foi atribuída a aura de revolucionário. Por exemplo, em sua recente Exortação Evangelii gaudium, alude ao aborto voluntário dizendo que “não se deve esperar que a Igreja altere a sua posição sobre esta questão. A propósito, quero ser completamente honesto. Este não é um assunto sujeito a supostas reformas ou «modernizações». Não é opção progressista pretender resolver os problemas, eliminando uma vida humana” (n.º 214).

Muito mais revolucionário — e visionário — foi Bento XVI ao renunciar (o que não ocorria há 700 anos). Pensando em “novidades”, não foi uma revolução a restauração do rito anglicano no Ocidente (depois de 500 anos), com a possibilidade de se admitirem sacerdotes casados? Se não bastasse, Joseph Ratzinger, antes de ser Papa, estivera por trás da composição do Catecismo da Igreja Católica (o primeiro catecismo oficial da história) e da Declaração Conjunta da Igreja católica com luteranos e metodistas sobre o tema da justificação (que fora justamente a causa da reforma protestante). A lista poderia se estender indefinidamente, mas não é o caso.

Basta frisar que essas conquistas significaram mudanças reais na vida da Igreja das últimas décadas, e são muito mais profundas do que efêmeras emoções midiáticas. Do mesmo modo, seria possível enumerar outras tantas realizações de João XXIII (convocação do Concílio), Paulo VI (reforma litúrgica), João Paulo II (por exemplo, o novo Código de Direito), etc., que repercutem até hoje no dia a dia de milhões de cristãos.

Leonardo Boff e a cultura do “reencontro”

Em segundo lugar, em minha resposta durante o debate era necessário aludir a Leonardo Boff.

O documentário de Cacá Diegues levanta controvérsias “salutares” justamente porque o filme foi considerado oficial. Às críticas das alas mais conservadoras, minha sugestão é fazer limonada com o limão alheio.

Por que o afamado Boff aparece no filme? Aparece porque é afamado. Os católicos assumirão essa culpa? Afinal, alguém deve ser o culpado de que a intelligentsia brasileira, quando pensa na Igreja, logo se lembra de um dissidente que vive a expensas de ser um outsider.

Se o documentário é um produto oficial da JMJ, ele tem necessariamente uma chave hermenêutica ortodoxa. Portanto, se o Boff ali aparece, é que está se convertendo e se reaproximando com humildade do seio da Igreja outrora rechaçada por ele. De fato, ele fala coisas sensatas no filme, embora seja discutível o tipo de relação que ele estabelece entre paz social e paz entre as religiões.
Eu rezo sinceramente por essa intenção: que Leonardo Boff se converta. Seria uma alegria que, além de dizer que não é mais um marxista (coisa que ele tem feito ultimamente), resolvesse confessar-se e voltar a ser católico de missa dominical, fiel à doutrina do Catecismo. Essa seria um verdadeiro “efeito Francisco”!

Quem é, afinal, o papa do amor?

Por fim, a terceira parte da minha resposta no debate foi sobre o amor.

O teólogo sueco Anders Nygren (1890-1978) tornou-se eminente professor da Universidade de Lund, e depois bispo luterano dessa cidade. Também foi presidente da Federação Luterana Mundial. Filósofo da religião, exegeta habilidoso, historiador versátil, teólogo genial e pastor sensível, Nygren se valeu da filosofia kantiana em sua teologia. Ativo defensor do ecumenismo e ferrenho opositor do nazismo, fez-se internacionalmente reconhecido por seu livro Agape and Eros. Essa excelente obra, entretanto, não representa o cerne de seu pensamento. No livro, Nygren explica que, segundo Platão, eros é o amor sedento do Belo transcendente, o que eleva o humano para o divino, o único capaz de saciar a ansiedade da alma aprisionada na matéria; mas, porquanto busca o êxtase da união, seria amor egocêntrico, cobiça. Com o correr dos séculos, o significado de eros teria sido abaixado até assumir notas meramente sexuais.

Tal distinção entre eros e agape, com a reserva deste último para o verdadeiro amor cristão, tornou-se lugar comum em nossa cultura. Há quem não consiga compatibilizar o erotismo com o amor oblativo, coisa bem palpável na música Amor e Sexo, de Arnaldo Jabor e Rita Lee.

Bento XVI criticou essa distinção em sua primeira Encíclica, Deus caritas est, na qual ensinou que tanto eros quanto agape são aspectos do mesmo amor divino. Naquela época, sua ousadia lhe valeu o epíteto de “Papa do Amor”. A continuação do seu fecundíssimo magistério não desmereceu o título. Ratzinger foi um grande teórico do amor. O cristianismo é a religião do Logos, da “lógica” de Deus, mas justamente a lógica de Deus é a lógica do amor.

Bento XVI e Francisco escreveram a primeira Encíclica a quatro mãos da história da Igreja. Não à toa, no magnífico texto há uma seção em que o amor é apresentado como uma forma de conhecimento. O amor tem um Logos. Isso é muito importante. Nos debates sobre a afetividade, é preciso resgatar a racionalidade do amor. Deus é amor, mas o amor não é Deus.

Uma torrente de alegria

Gostaria de concluir fazendo referência a um convite Papa Francisco, para que, a partir dessa experiência de um “Rio de Fé” que foi a JMJ, entremos num “Rio de Alegria”:

Porque não havemos de entrar, também nós, nesta torrente de alegria? (…) Há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa. Reconheço, porém, que a alegria não se vive da mesma maneira em todas as etapas e circunstâncias da vida, por vezes muito duras. Adapta-se e transforma-se, mas sempre permanece pelo menos como um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, não obstante o contrário, sermos infinitamente amados. (…) A tentação apresenta-se, frequentemente, sob forma de desculpas e queixas, como se tivesse de haver inúmeras condições para ser possível a alegria. Posso dizer que as alegrias mais belas e espontâneas, que vi ao longo da minha vida, são as alegrias de pessoas muito pobres que têm pouco a que se agarrar. Recordo também a alegria genuína daqueles que, mesmo no meio de grandes compromissos profissionais, souberam conservar um coração crente, generoso e simples. (…) Não me cansarei de repetir estas palavras de Bento XVI que nos levam ao centro do Evangelho: «Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo».
(Evangelii gaudium, nn. 5-7)

19 de set. de 2013

Misantropia ou Facebook

A misantropia de certo amigo meu desaparece diante de certas garotas. Por isso, já lhe disse, brincando, que ele não é misantropo, mas misândrico.

Contudo, ele tem algo de razão quando critica tanta invasão de privacidade.

— “Sai do meu quadrado!”

De fato, no quadrado do Facebook todo mundo é amigo. Tanto o colega de infância que o esqueceu, quanto a ex-namorada que bem conhece seus defeitos, assim como o chefe intratável e nossa querida genitora.

A culpa do uso tão elástico do conceito de amizade não é exclusiva do Facebook. Pais querem ser amigos dos filhos, maridos de suas mulheres, professores de alunos, políticos de eleitores, etc.

Seria o fim da solidão? Ou a diluição das relações? Lembre-se que, para a mãe do feminismo, Mary Wollstonecraft, a amizade é o termo chave para a renegociação do contrato sexual e para a nova democracia doméstica!

2 de set. de 2013

O poliamor é a bola da vez?

Quando se amputa à realidade seu fundamento, qualquer invenção torna-se válida.

Depois de se legalizar por ativa (nas leis e julgamentos) e por passiva (na opinião pública) aberrações como o aborto, a pederastia, etc., provavelmente o próximo passo será a consagração do poliamor.

Quatro indícios:

Aceitação positiva na mídia

A cobertura jornalística sobre casas de swing e coisas afins é provocativa, mas positiva. Também há reality shows que trabalham sobre o tema da infidelidade.

Eu nasci assim…

Tem se costumado explicar o comportamento sexual humano com base no paradigma dos outros animais, diluindo os aspectos relacionados à liberdade, às virtudes, à comunhão dos espíritos, à comunicação, à relação interpessoal. Sabe-se muito de “técnica” sexual e pouco de amor.

A sexualidade é reduzida ao sexo, e o sexo é reduzido à pulsão, de origem genética, e destituído de sua dimensão pessoal. O homem agora é Homo sapiens polyamorensis, mera expressão de impulsos.

“O que importa é o amor”

União monogâmica e indissolúvel deixou de ser sinônimo de amor para muita gente. Isso lhes soa a restrição, manutenção, falta de criatividade. Muito mais “ético” seria a capacidade de amar sem fronteiras, a abertura de coração, a libertação das amarras dos ciúmes. Ou seja, o que antes se chamava promiscuidade, hoje deveria se chamar honestidade radical.

Em busca de reconhecimento

Como toda minoria reivindica seu direito a não ser discriminada, os poliamoristas estão trabalhando para que a sua opção seja reconhecida. Nesse sentido, já existem trabalhos acadêmicos a respeito.

***

É evidente que a redução do casamento à mera satisfação sexual adulta implica numa sociedade alheia às crianças. Como mais um objeto de satisfação, os filhos ficarão à mercê do estilo de vida de quem as adotarem ou gerarem.

Apesar desse panorama sombrio, há muitas coisas boas que se pode fazer para defender os valores familiares. Por exemplo, 2014 será um ano dedicado pela ONU à comemoração dos 20 anos do Ano Internacional da Família.

A maioria esmagadora das pessoas sonha com um amor limpo, com a castidade, com a família, com os filhos. O que temos feito para valorizar e fomentar em nosso ambiente a capacidade de comunicação, a honestidade, a confiança, a fidelidade, o respeito?

Se assim o fizermos, a família sim é que será a bola de vez!

12 de ago. de 2013

Gandaia tântrica

Ideias deletérias

Há uma leve diferença entre assustar-se e decepcionar-se. Não me assusto com nada; mas às vezes fico decepcionado ao constatar nas ideias e nos lábios de pessoas aparentemente coerentes certos disparates sobre o amor e a família.

Vira e mexe ouço especulações pseudocientíficas sobre poliamor, tantra, etc. E, quando comento a respeito do assunto com a pessoa interessada, costumo receber a seguinte resposta:

— Não se assuste. É bom ler sobre tudo, conhecer opiniões. Apenas isso. Gosto de ler tudo, todos os lados e formas. A gente cresce e vê muita coisa.

É claro que devemos conhecer as diversas opiniões. Mas não é preciso ler tudo para saber dessas coisas. Por outro lado, as opiniões divergem mais quando um tema carece de clareza ou unanimidade. Se o amor e a família são o foco da disquisição, ligue o alerta, pois o que tantos autores badalados defendem é a demolição do amor, da mulher e da família.

E mesmo que alguém tivesse a obrigação acadêmica de ler ou estudar esses escritores, não seria correto recomendá-los.

A família em disputa

— Mas talvez eles nos deem outra visão. Pode ficar tranquilo que textos não mudam essências.

Ora, temos valores humanos a preservar. E, como cristãos, esse compromisso é ainda maior, pois nada que é humano nos é alheio.

Embora a verdade não se esgote na multiplicidade de visões pessoais, é impossível que uma mesma realidade admita interpretações diametralmente opostas.

Estamos numa batalha pela família. Essa turma só não defende abertamente a pedofilia porque ainda pega mal. E são tupiniquins: nem têm o nível de um Freud ou um Marcuse.

É ingenuidade pensar que os inputs da vida não nos transformam. De fato, não mudamos de essência, mas um pouco nos assemelhamos àquilo que acolhemos no coração.

Família bem sucedida não é fruto do acaso, mas de uma urdidura de virtudes e princípios. Efêmeros golpes da sorte formam casais, não famílias.

15 de jul. de 2013

A obra-prima de Ratzinger

Fica evidente, especialmente para quem conhece a obra de Joseph Ratzinger, que a recém-publicada encíclica Lumen fidei, assinada pelo Papa Francisco, mais do que escrita a quatro mãos, é fruto quase exclusivo do pensamento maduro do Papa Emérito.

Talvez seja ousado ou prematuro afirmá-lo, mas a Carta Lumen fidei é, para mim, o testamento de um dos mais luminosos Papas da história bimilenar da Igreja. Combinando beleza literária, intuição bíblica, penetração patrística, versatilidade cultural e profundidade teológica, Lumen fidei (LF) é uma obra-prima.

Bento XVI nos legou mais um magnífico presente neste Ano da Fé. Ensina-nos, entre tantas coisas, quatro pontos significativos: que a fé é palavra luminosa, que a fé reside num coração que ama, que a fé se recebe por “contato”, e que a fé constrói as relações humanas.

Luz e palavra

A fé trabalha entre duas coordenadas: a escuta e a visão. Por um lado, exige assentimento a uma mensagem — palavra —, por outro, essa mensagem toma posse do homem, fazendo-o enxergar tudo sob nova ótica — luz.

Quando tantas pessoas encaram a fé como abstração teórica ou fanatismo intolerante, a Encíclica convida a entendê-la como crença no amor e, portanto, convite ao diálogo e a uma compreensão mais ampla da realidade.

Conhecimento amoroso

“O próprio amor é um conhecimento, traz consigo uma lógica nova”. Coisa inconcebível “aos olhos do homem moderno”, a quem “o amor surge, hoje, como uma experiência ligada, não à verdade, mas ao mundo inconstante dos sentimentos” (LF 27).

Pelo contrário, a sociedade científica reduz a verdade à mera utilidade técnica. Portanto, “poderá a fé cristã prestar um serviço ao bem comum relativamente à maneira correta de entender a verdade?” (LF 26) Sem dúvida, “a luz do amor, própria da fé, pode iluminar as perguntas do nosso tempo acerca da verdade: (...) o olhar da ciência tira benefício da fé: esta convida o cientista a permanecer aberto à realidade, (...) a fé desperta o sentido crítico, (...) a fé alarga os horizontes da razão” (LF 34).

O primado do amor, a lógica do amor, é algo típico do pensamento de Bento XVI, o que já ficara patente em sua primeira Encíclica, Deus caritas est. Não hesito afirmar que, por esse pensamento, ele merece o título de Doctor amoris.

Contato com a fé

“É impossível crer sozinhos” (LF 29): afirmação tão rotunda quanto surpreendente para tantos homens alienados em sua própria subjetividade.

Contudo, sem a transmissão e a recepção da memória eclesial, sem o contato “físico” com a herança de Cristo nos sacramentos e na oração da Igreja, é vedada ao crente a porta da fé.

Fundamento social

“A fé não afasta do mundo, nem é alheia ao esforço concreto dos nossos contemporâneos. Sem um amor fiável, nada poderia manter verdadeiramente unidos os homens: a unidade entre eles seria concebível apenas enquanto fundada sobre a utilidade, a conjugação de interesses, o medo” (LF 51).

Nesse sentido, a família e a comunidade política necessitam do referencial da fé que as precede e sustenta. “Porventura vamos ser nós a envergonhar-nos de chamar a Deus «o nosso Deus»? Seremos por acaso nós a recusar-nos a confessá-lo como tal na nossa vida pública (...)?”(LF 55)

***

Esses ensinamentos nos apontam quatro tópicos de exame:

1) Conheço suficientemente a doutrina católica? O que tenho feito para nela me aprofundar? Ou engano-me com preconceitos que facilmente poderia superar com um mínimo de estudo?

2) Associo à doutrina teórica a prática de exercícios de piedade, de oração e de caridade? Ou a minha interioridade é fechada ao diálogo com Deus e ao serviço do próximo?

3) Reconheço na Igreja a “Mãe que nos ensina a falar a linguagem da fé” e pela qual podemos “beber no «verdadeiro» Jesus” (LF 38)? Ou a confundo com pessoas concretas e estruturas passageiras, imaginando que a Igreja mais atrapalha do que facilita o acesso a Deus?

4) Manifesto publicamente minha fé, não ostentando símbolos ou afetando piedade, mas com as virtudes, o desprendimento dos bens materiais e o amor ao próximo? Defendo delicadamente a verdade cristã diante das falsidades que atribuem a ela?

11 de jun. de 2013

Estrelas feitas com o pó da sombra

Ya-Lit

A chamada Literatura Young Adults tem crescido no Brasil, abordando temáticas mais apropriadas para leitores entre 14 e 21 anos. Frequentemente, descrevem o primeiro confronto do adolescente com os problemas pessoais e sociais.

Acabei a leitura de duas obras do gênero, com muitos pontos de contato entre ambas, mas enormes diferenças. A primeira delas foi A Culpa É das Estrelas, de John Green. A última, Branca como o Leite, Vermelha como o Sangue, de Alessandro d'Avenia.

Green é autor consagrado; d'Avenia, novato. Os dois livros saltaram para as telas do cinema. Os dois livros falam de amor e morte. Os dois livros abordam o conflito de gerações. Os dois livros falam da força da literatura.

Mas como divergem na abordagem e no propósito!

De quem é a culpa?

Alessandro d'Avenia é professor helenista, enquanto Green ostenta menos títulos nessa seara. Eis um evidente divisor de águas. Com efeito, senti um grande incômodo lendo A Culpa É das Estrelas: um pedagogo não deve só descrever, mas também orientar. Acredito que o escritor é um pedagogo, quanto mais para adolescentes.

D'Avenia conduz magistralmente seu personagem à maturidade, Green, porém… Em se tratando de adolescentes, isto é, de gente que ainda está se situando na vida, o educador (no caso, o escritor) não pode presumir capacidade de reserva crítica por parte de seus ouvintes.

E assim, Green descreve uma mecanizada relação sexual com a mesma naturalidade com que narraria um banho num cachorro. O sexo é apresentado como uma afanosa exploração a dois de uma realidade reservada aos adultos. E os exploradores em questão são extremamente imaturos.

Por outro lado, os personagens adolescentes e adultos de Green são incapazes de se comunicar. Fica difícil distinguir na sua história quem é mais imaturo ou quem é mais surdo: se os mais jovens ou os mais velhos.

Referências clássicas num mundo de vazios

Enquanto a obra americana cria um literato fictício, o livro italiano delicia ao trazer à tona uma constelação de textos clássicos, entre os quais destacam-se Vita Nuova de Dante Alighieri, a Bíblia e até alguns versos da poetiza Safo de Lesbos.

E ensina a encontrar respostas onde tornou-se costume tropeçar na preguiça: “A gente não está habituado a resolver certos questionamentos que o Sonhador apresenta. Não tem a cabeça preparada para certas coisas. Não sabe nem de onde tirar as respostas. Porque essas perguntas que ele faz não são daquelas que você encontra no Google se digitar”.

Em Bianca come il latte, rossa come il sangue, os catalizadores dessas descobertas literárias e amorosas são os adultos. D'Avenia é isento da visão de mundo de um Roald Dahl ou de um Mark Twain, para quem os jovens são sempre vítimas inocentes.

Amor acrisolado na dor

O realismo de d'Avenia fica por conta da sublimação da pulsão sexual adolescente pelas exigências sacrificantes do amor, numa solução diametralmente oposta à de John Green. D'Avenia pode não esconder a intimidade dos personagens, a ponto de ser um tanto desbocado, mas não finge uma “normalidade” desinteressada.

Seus personagens têm a consistência da covardia, dos azares, do pranto. E genialidade suficiente para descobrir a ambivalência desses momentos: “O pó da minha sombra é poeira de estrelas”, chega a afirmar o protagonista.


29 de abr. de 2013

Corações partidos


No ponto 145 de Caminho, São Josemaria cita uma música tradicional espanhola, de autor anônimo.

Deixo aqui uma gravação que não é das melhores, mas que dá uma boa ideia.

Frente de Madrid. Uma vintena de oficiais, em nobre e alegre camaradagem.
Ouve-se uma canção, e depois outra e mais outra.

Aquele jovem tenente de bigode escuro só ouviu a primeira:

“Corações partidos,
eu não os quero;
e se lhe dou o meu,
dou-o inteiro”.

“Quanta resistência em dar meu coração inteiro!”
— E a oração brotou em caudal manso e largo.

13 de mar. de 2013

Cupido míope

Dizem que o amor é cego.

Acho que o amor é bêbado.

Ele não está de sacanagem. Só que, no bafômetro da vida, qualquer indício é cana certa.

Ainda que Agostinho tenha dito “ama e faze o que quiseres”, fazer o que dá na telha não é sinal de amor.

Por isso, vamos trabalhar, que divagar atrapalha.

30 de jan. de 2013

Em defesa dos tabus marginalizados


Tabus

Gosto dos tabus. Eles podem ser barreiras de proteção da vida. É claro que podem existir tabus estúpidos, mas os melhores tabus são esses que protegem a vida. Tabu é um termo polinésio que se refere justamente a coisas sagradas que devem ser protegidas.

A vida é o que temos de mais sagrado. E a vida se manifesta de forma veemente na gravidez, no nascimento dos filhos, na passagem para a idade adulta, na relação sexual, nos banquetes, na doença e na morte. Assim, os tabus protegem esses momentos e os revestem de significado: passar sal no recém-nascido, purificar a mulher que deu à luz, dar festa de despedida de solteiro, organizar chá-de-panela, fazer formatura da faculdade, rezar pelos doentes, fazer luto pelos mortos, etc.

Pelo contrário, quando a sociedade despreza o sagrado, quebra todos os tabus: aborto dos nascituros, pedofilia, sexo extramatrimonial e antinatural, eutanásia, etc.

Tabu sexual

Talvez isso ajude a entender melhor o tema da sexualidade. Os cuidados que existem, os tabus, não são arbitrários, mas discricionários. Fazem sentido, justamente porque servem para proteger algo muito importante.

Contudo, nesse tema há algo mais. Reduzir as questões sexuais a mero tabu seria um grande reducionismo.

Virtude

Existe uma diferença entre fazer e agir: o agir implica um necessário uso da racionalidade, mas o fazer não. Por exemplo, um macaco pode fazer muitas coisas, mas um macaco propriamente não age. Ora, o que permite racionalizar a ação é a virtude.

E assim, em todos os âmbitos da vida precisamos viver alguma virtude: no trabalho vivemos a laboriosidade; na escola, a estudiosidade; na comida, a temperança; nos relacionamentos, a cordialidade; etc. O sexo não foge à regra, e para a boa vivência do amor, deve-se viver a virtude da castidade.

Virtude da castidade

O problema é que a revolução sexual dos anos 60 simplesmente aboliu a castidade. Isso não foi uma evolução, foi uma animalização. Pois bem: se antes se vivia a castidade por conveniência (pegava mal ser mãe solteira, ou pegar todas), hoje só se vive a castidade por virtude mesmo. E como qualquer virtude, a castidade se aprende a viver.

Portanto, é preciso entender o que é o sexo, o que é a solidão, o que é o casamento, quais são as manifestações de afeto proporcionais os graus de intimidade assumidos, como reagimos aos estímulos, etc. O normal era aprender isso dos pais e obter ajuda da escola, da Igreja e das leis civis. Hoje, contudo, muita gente está simplesmente à deriva, arrebentando a vida com experiências sexuais carentes de autêntico significado, e poucos alertam para isso.

Mas esses poucos é que farão a diferença. Você é desses poucos?

25 de out. de 2012

Pitada de ódio

Discussão é como flash no escuro: mais cega do que ilumina. E também já escrevi alguma vez que nossas palavras são facas.

Amar é saber olhar. Amar é atribuir valor. Cortesia é amor que leva a distrair-se de si. Mas quem nunca passou pela experiência de odiar o que ama, desviar-lhe o olhar, esquecer dele?

Explico-me.

Thomas Mann escreveu no terceiro capítulo de Carlota em Weimar: “Certas coisas só são ditas porque alguém penetrou mais profundamente que qualquer outro e porque o objeto se mantém facilmente diante delas; então o entusiasmo fala a linguagem da maledicência e a crítica se transforma em uma espécie de adoração.”

Isso é fácil de constatar, pensando-se em times de futebol. Difícil de viver sem ferir, referindo-se aos relacionamentos.

16 de out. de 2012

Ração diária de pornografia

O coração da mulher encerra desejos de amor, de carinho, cuidado, beleza, entrega, confiança. A pornografia, por sua vez, é uma grande rival do sonho e da esperança de amor, pois os transforma em pura fantasia. E, como em todo carnaval, quando caem as máscaras, sobram apenas cinzas.

A pornografia pode ser experimentada de diversas formas, mas não importa como, sempre assusta e machuca.

Sinto-me empurrado a escrever isso por causa duas tristes coincidências: a frequência com que me deparei, recentemente, com mulheres adictas à pornografia, da qual sorvem tragos diários; e a difusão de formas sofisticadas de erotismo, como, por exemplo, a altporn (“baixaria alternativa” que inclui tatuagens, piercings, etc.).

É evidente que isso decorre da cultura permissiva, do feminismo mal entendido, das mentiras propaladas sobre a sexualidade, das facilidades da Internet, etc. Não cabe fazer aqui uma pesquisa de conjuntura ou averiguar o alastramento do problema. Gostaria apenas de traçar quatro linhas para análise.

I

Em primeiro lugar, estão livros como Comer, rezar, amar. Esse tipo de literatura vazia escorrega facilmente para coisas ainda mais deletérias, como a trilogia dos Tons de cinza. Para quem não sabe, é um romance sobre sadomasoquismo e bondage (tem gente que é amarrada em “amarração”, no sentido literal).

O último grito foi a recém-lançada obra de Regina Navarro Lins sobre o amor, em dois volumes, que é um muito mal intencionado monumento à ignorância. Em minha opinião, aqui se cumpre à letra a definição de Thomas Kuhn para mudança de paradigma, segundo a qual, quando se muda a mentalidade, incapacita-se para a compreensão da mentalidade anterior. Com efeito, a sexóloga reinterpreta toda a história da humanidade com a lente distorcida da libertinagem.

Com base na artificial distinção filosófica entre amor e sexo, a autora projeta essa altercação ao longo do tempo como um embate entre força ou fraqueza, virtude ou pecado, glória ou perdição, domínio ou liberdade, etc. Como não podia faltar, a Igreja sai chamuscada na fogueira inquisitorial da autora, que lhe atribui um pretenso rechaço da sexualidade.

II

O segundo volume do livro alcança o século XXI, ao abordar o sexo virtual ensejado pela revolução tecnológica.

Aqui nos deparamos com outra linha do problema. A camuflagem virtual pode levar a dedicar muito tempo a estranhos. Lindos avatares escondem carência de virtudes; e singelas trocas de mensagens podem se tornar intermináveis discussões inúteis e possessivas. A webcam tornou-se para muitos uma “webcama”. Desnecessário descer a detalhes a respeito.

III

Quanto ao consumo feminino de pornografia, é preciso apontar algumas especificidades bastante perversas.

A exploração do corpo (somatolatria) é algo que abala especialmente a mulher, pois lhe é inerente a preocupação pela aparência.

A ausência de contexto das cenas eróticas também lhe ferem mais a sensibilidade, que tenderia naturalmente à percepção das referências que dão suporte à relação amorosa.

E a imoralidade desse consumo amplia a vulnerabilidade da mulher, conduzindo-a a uma necessidade doentia de aprovação masculina.

IV

Por fim, é forçoso afirmar que sexo não é arte. Com a desculpa da estética, dos sentimentos, da contracultura, dos diabos, gente que se diz inteligente teima em apresentar a falta de pudor como algo natural.

Sexo não é arte porque o amor não é arte. Na verdade, esse tipo de comportamento irresponsável acaba encarando a maternidade e a família como arte mesmo, como peças de museu.

***

Para terminar de forma positiva, convém deixar aqui uma luz sobre os caminhos para a recuperação. A castidade é uma virtude belíssima, que enche de alegria o coração e purifica o olhar.

Um dos seus mais saborosos frutos é a amizade. Por isso, o altruísmo, a generosidade, o serviço, a criatividade operosa, etc., tudo isso pode ter caráter terapêutico na jornada rumo à harmonização do corpo, da mente e do espírito.

13 de ago. de 2012

A infidelidade no banco dos réus

Deserção não é solução para infelicidade: quem decai é infeliz precisamente porque decaiu.

O que explica a infidelidade? Não é o caso aqui de fazer referências a fatores sociológicos nem psicológicos — que não são verdadeiras causas —, enquanto o fator moral é ignorado. A origem do fenômeno da infidelidade está no âmago das decisões do indivíduo, é um problema moral, e opera em dois níveis.

Primeiramente, ocorre à pessoa infiel um empobrecimento do conceito de liberdade. Ela pensa que o homem é incapaz de conciliar seu livre-arbítrio com decisões incondicionais.

Em segundo lugar, ocorre-lhe uma desvalorização dos laços, como se fossem escolhas unilaterais ou sem consequências externas e sociais.

Em resumo: a infidelidade nasce da inflação da autonomia, da hipertrofia do individualismo.

O amor exige renovação, atualização, voluntariedade atual. Contra isso está nosso aburguesamento, nosso relaxamento, nossa preguiça. E a preguiça é pior que o ódio quando o seu oponente é o amor. O preguiçoso tende a orgulhar-se de ser assim; mas tal orgulho é extremamente nocivo, pois tende a criar um abismo entre as pessoas, um endurecimento interior e um afastamento que são grande ocasião de tentações.

O infiel em potencial, com a intenção de “evitar” seus (autoforjados) conflitos de consciência, começa a cogitar que nunca existiu o amor, retroagindo o mau momento atual para o início da relação, insinuando que então se era muito jovem ou sem o conhecimento suficiente do futuro ou que nunca se foi completamente feliz, etc.

Contra isso, é preciso ter presente que somos sim capazes de tomar decisões que orientem a vida numa direção determinada, definitiva e irrevogavelmente. Afinal, não é uma limitação da liberdade desconhecer os eventos futuros. Os condicionamentos advindos das novas situações não impossibilitam a felicidade, não a tornam impraticável por causa da decisão original. Se não pudéssemos ser consequentes até o fim é que não teríamos nem responsabilidade nem liberdade.

Por outro lado, a fidelidade não pode depender da possibilidade de realização efetiva dos sonhos, como se a infelicidade existencial procedesse da obrigação de se manter uma atual “situação indesejada”. O direito a esse tipo de felicidade seria insustentável para 99% da humanidade. O dever de cumprir as promessas é conditio sine qua non de toda sociedade e convivência. Os sonhos nos movem, mas nem sempre alimentam.

4 de ago. de 2012

Três elos para uma fidelidade inoxidável

Às vezes, a vida “puxa o tapete”. Nessas horas, a gente percebe que castelos de areia não são um apoio confiável. A essas desoras, a gente constata a carência de apoio.

Conheci pessoas que, para justificar porque suspeitavam de todo mundo e não acreditavam na fidelidade, até citavam a Bíblia: Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, que na carne busca a sua força e afasta do SENHOR seu coração! (Jr 17,5).

Embora efetivamente não devamos buscar arrimo nas coisas desta terra, nem na vontade volúvel das pessoas, isso não significa que a fidelidade inexista. É possível a nossa fidelidade e é possível a fidelidade das pessoas. Todos precisamos do apoio uns dos outros, como as cartas do baralho se sustêm mutuamente num castelo. Afinal, não somos peças isoladas.

Vulneráveis castelos de areia e frágeis castelos de cartas. Mas continuam a ser castelos, construções comuns que apontam a um desejo maior de união.

Se a fidelidade é possível, convém imbuir-se dos meios pelos quais ela é forjada. Para sermos rocha firme, sólida, constante, em que os demais possam se apoiar e assim se sentirem à vontade para corresponder com igual dose de fidelidade, precisamos cuidar de três aspectos:

1) Não exigir nada para si. Gosto de dizer que, mais do que ter mentalidade de pai, devemos ter mentalidade de avô. É que avô a tudo se nega por amor dos netos. E geralmente, avô não tem “instância superior” a quem recorrer. A abnegação é uma grande mostra de maturidade.

2) Ir na vanguarda. É importante ter iniciativas, para que a passividade e a falsa humildade — que equivalem à pusilanimidade e ao comodismo — não esterilizem o amor.

3) Encarnar o valor da fidelidade. A fidelidade exige estudo, por incrível que pareça. Numa época tão triste como a nossa, em que os mais elementares princípios morais são bombardeados por indecente propaganda e modelos transviados, necessitamos de recursos intelectuais para não ceder a argumentos tão pífios quanto difundidos. Por exemplo, conhecemos quantos casos de infidelidade que começaram com a frase “tenho direito a ser feliz”? A mente deve estar livre dessas teorias furadas, dessas retrospectivas tendenciosas, dessas concessões à sensualidade.

***

Responda com sinceridade: você sabe onde buscar (e encontrar) boa literatura sobre o tema?

18 de jun. de 2012

Cinco segredos da JMJ

Como necessário complemento aos sete passos para uma bem-sucedida JMJ no Rio de Janeiro, apresento os cinco pontos auge da JMJ de Madri, analisados por Bento XVI em seu balanço de fim de ano (que vale a pena ler na íntegra).

Nova experiência de catolicidade

A JMJ é a nova evangelização ao vivo. Permite apalpar a catolicidade, isto é, a universalidade da Igreja: gente de todos os continentes que, sendo tão diferente pela língua, cultura, nação, compartilha os mesmos sentimentos e ideais. É uma verdadeira aula de pluralismo.

Nova forma de ser homem

Em Madri houve cerca de 20.000 jovens voluntários, indicando a perene vitalidade da caridade, que se reveste formas novas conforme os tempos. Através do altruísmo, da solidariedade e do serviço, muitos redescobrem o amor de Deus e do próximo, que é o verdadeiro motivo da ação humana.

Revalorização da adoração

A presença real de Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento da Eucaristia é o ponto focal da JMJ. Dali se alimenta a Igreja e aí encontra forças cada fiel. É a atitude que se tem diante da Eucaristia que define se uma pessoa está ou não comprometida com Cristo.

Redescoberta da Penitência

Não seria autêntico um encontro com Cristo que descuidasse a penitência. Jesus Cristo é exigente e a proposta de vida cristã tem como meta nada menos que a santidade. Por isso, o esforço penitencial de purificação, que todo batizado envida ao longo de sua vida, necessita da graça de Deus para chegar à perfeição. A confissão sacramental dos pecados pessoais ao sacerdote é o único meio ordinário, instituído pelo próprio Cristo, para responder ao esforço humano com o perdão gratuito de Deus. Quem frequenta esse sacramento, recebendo a absolvição de sacerdotes experimentados, enche-se de alegria, de segurança, de confiança em sua luta por ser uma pessoa melhor.

Refortalecimento da alegria

Segundo São Tomás de Aquino, a alegria é “certo ato e efeito da caridade”, já que “a mesma caridade inclina a amar, a desejar o bem amado e a gozar nele” (S. Th., IIa-IIæ, q. 28, a. 5, c). Se pela caridade os cristãos são reconhecidos, em toda parte onde estiverem seu traço característico será, portanto, o sorriso da alegria.

23 de jan. de 2012

Licitação amorosa

Com oito demônios

Para quem não sabe, a mal afamada Lei 8.666/1.993 determina as modalidades de licitação. Seus meandros são tema recorrente em concursos públicos, assim como em críticas de bar ao Tribunal de Contas quando os juízes resolvem embargar projetos importantes para a nação em nome da lisura dos gastos.

Seu número faz jus à fama: 8 666. Como se oito diabinhos viessem atazanar os que tentam usar os recursos públicos de forma rápida e eficiente.

Será que o que vale para o dinheiro também vale para o amor? Alerto que o que segue abaixo é uma abordagem feita desde uma perspectiva masculina.

Inexigibilidade amorosa

Três coisas dispensam licitação: aquisição de produtor exclusivo, serviços técnicos de natureza singular, contratação de artista consagrado.

Amplie para ver um resumo das modalidades de licitação
Do mesmo modo, não é preciso licitar mulheres quando são a única disponível, uma cozinheira de mão cheia ou uma exímia dona de casa.

Modalidade: concorrência

É a licitação amorosa que se faz entre quaisquer interessadas, com requisitos mínimos de qualificação, possuidoras de dote milionário.

Modalidade: tomada de preço

É a licitação amorosa que se faz entre quaisquer interessadas cadastradas na lista de amigas, com requisitos mínimos de qualificação, possuidoras de dote parrudo.

Modalidade: convite

É a licitação amorosa que se faz entre no mínimo três interessadas cadastradas na lista de amigas, especializadas no ramo pertinente (faxina, comida, etc.), possuidoras de dote mixa.

Modalidade: concurso

É a licitação amorosa que se faz entre quaisquer interessadas, oferecendo prêmios e presentes, conforme critérios avisados com 45 dias de antecedência.

Modalidade: leilão

É a licitação amorosa que se faz entre quaisquer interessadas oferecendo-lhes a aquisição, por maior lance, de nossas características penhoradas, inservíveis ou cristalizadas.

Modalidade: pregão

Essa modalidade de licitação foi acrescentada pela Lei 10.520/2.002. O pregão amoroso seria a licitação de nossas características a lances sucessivos de menor valor às habilitadas em etapa prévia competitiva. Pode ser presencial (numa festa, por exemplo) ou eletrônico (pela Internet).
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