Mostrando postagens com marcador Pátio dos Gentios. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pátio dos Gentios. Mostrar todas as postagens

5 de mai. de 2014

Entender para crer

Narrativa e verdade

Ariano Suassuna contava um caso engraçado, de um homem que, narrando um fato divertido, era interpelado por seu ouvinte por causa de uma inconsistência da historieta. O contador lhe retorquiu: — Você quer saber a história ou quer saber a verdade?

Entre o texto e a memória, entre a imaginação e a história: o que é possível encontrar aí? Sem dúvida, seria ingênuo esperar alcançar o próprio objeto da narrativa, tal e qual, isento de interpretações. Mas também seria doentio pensar que o objeto de estudo é uma mera tela em que se projetam ideias pré-concebidas.

Razão e crença

Na maioria das vezes, os argumentos contra a historicidade de algum testemunho antigo advém da ignorância do contexto ou do estilo, e da desconfiança na fonte.

Nossa racionalidade está, em alguma medida, baseada em conhecimentos de cunho probabilístico; portanto, não faz sentido opor razão e crença. Afinal, o conhecimento humano é todo baseado em crenças razoáveis.

Mito e filosofia

O mito é um caso particular nessa problemática. Sem autor nem data, o mito explica a realidade, mas não se explica a si mesmo. A crítica filosófica pretende acabar com a referência mítica, atitude que pode causar fragmentação e degenerar no relativismo filosófico e moral. A partir daí, torna-se crime de opinião voltar a buscar referenciais absolutos. Nasce a batalha entre a filosofia mítica e os mitos filosóficos. É o que vemos, por exemplo, na pós-modernidade decepcionada com as caducas profecias modernas de prosperidade através da ciência.

Logos e história

O cristianismo apropriou-se do discurso filosófico, mas os cristãos terão conseguido superar tal ruptura entre tradição e razão? Com efeito, é muito frequente deparar-se com católicos incertos quanto às suas raízes históricas e empedernidos em sua incoerência intelectual.

Enquanto discurso, a história sagrada tem cunho literário parecido ao mitológico; enquanto síntese teológica, a profissão de fé tem caráter comunitário e normativo. A articulação desses polos tem sofrido bastante diante de uma cultura cética e descrente da razão.

Tradição e teologia

Faz-se necessário resgatar a confiança na razão. Carl Rahner dizia que o homem é um ouvinte da Palavra: de fato, de nada adianta Deus falar se não houvesse alguém capaz de ouvir. Portanto, a missão da fé é compreender o que ouviu, explicitar seu fundamento.

Se o objeto da fé é racional, a teologia consiste no esforço de compreensão do objeto da fé. Não há razão para o medo protestante de que a teologia seja uma racionalização indevida da fé, uma construção idolátrica que falseie a verdadeira face de Deus.

20 de abr. de 2014

Crer para entender

Feliz Páscoa, queridos leitores!

Ontem, na solene Vigília Pascal, tive a oportunidade de novamente ouvir os relatos fundamentais — ou, melhor dito, fundantes — da visão cristã do mundo: a criação e o êxodo. Enquanto escutava o Hino dos Seis Dias (Gn 1,1–2,2) e a descrição da Travessia do Mar Eritreu (Ex 14,15–15,1), passaram-me pela cabeça muitas lembranças de conversas que já tive com pessoas céticas, as quais, imbuídas de um racionalismo superlativo, tropeçam escandalizadas no cunho mitográfico das primeiras páginas bíblicas.

Tal tipo de conversa tem crescido à minha volta nos últimos tempos. Por um lado, por causa do filme “Não É — a incrível história do homem que não é Noé” (esse midrash mal feito do Aronofsky sobre a história de Noé); por outro, devido à minha pós-graduação em arqueologia, ambiente favorável tanto para a crendice no caráter probatório dos achados arqueológicos quanto para a desconfiança doentia de tudo o que não seja empírico.

O dilema é simples: o Pentateuco é histórico ou é mitologia?

A resposta, porém, não é simples. Vejo o Pentateuco como narrativa de memória, não história. Ao mesmo tempo, vejo o Pentateuco como mitografia, não mitologia.

Geralmente, a história pretende rigor, precisão, método, na descrição de fatos passados. Ora, o Pentateuco pretende estabelecer para Israel a sua origem, não a sua história. E sua origem remonta à protologia, não à história! O mundo foi criado tendo em vista Israel, pois o mesmo ato criador de Deus que dominara o Oceano primordial é o ato que expõe o dorso do Mar “Limítrofe” (hebraico Sof)! Segundo a concepção antiga, o Mar Vermelho (egípcio Suf) seria a borda do mundo!

Uma comparação bem próxima a nós: os combatentes da Batalha de Guararapes (brancos, negros e índios) nunca imaginariam que, séculos depois, seriam considerados os fundadores do Exército Brasileiro e que à sua época teria nascido a alma brasileira, fusão das três raças. Ou seja, a batalha ocorreu de fato, mas seu significado só foi reconhecido e aplicado muito posteriormente. Isso é história? Isso é mito?

Geralmente, a mitologia conta a biografia dos deuses: seu nascimento (teogonia) e suas lutas (teomaquia). Não é o caso da Bíblia, em que Deus antecede as vicissitudes do cosmo e impera sobre ele. Se a cosmogonia bíblica fosse uma teogonia, não seria uma criação, mas uma emanação. A diferença entre essas concepções é grande.

Emanação significa que o mundo é “magma”, na expressão de Cornelius Castoriadis, cuja ordem lhe vem imposta de fora. Para Platão, seria a obra do demiurgo sobre o caos; para Aristóteles, influxo do motor imóvel.

Criação significa afirmar que Deus não precisa de causalidade material para atuar. Significa que seu Logos possibilita e funda a existência. Significa que a natureza não é só natureza, mas criação, isto é, está fundamentada na lógica do criador. A ciência moderna é fruto dessa fé. Não haveria ciência moderna sem o cristianismo, pois a razão sem fé enlouquece, fica cega.

Assim, para o homem moderno em sua cegueira, quem põe ordem no caos “sou eu”, pois num mundo pluriversal e fragmentário, a verdade é criada “por mim” e “para mim”. Adorno e Horkheimer analisaram o Iluminismo e reconhecem que ele se nutre da divinização da verdade. Contudo, se a verdade é um construto humano, não pode haver luz. Se não há metafísica, se não há fé, se não há transcendência, a razão é irracional.

O reducionismo da razão implica afirmar que só seria racional o que pode ser reproduzido como experiência. Assim, renuncia-se à verdade para ficar com a certeza, mas morre-se na dúvida cartesiana.

A missão da razão é abeirar-se ao mistério, não negá-lo.

Se não acreditardes, não compreendereis! (cf. Is 7, 9)

18 de jan. de 2014

Rio de alegria

Rio de fé

Quando me ofereceram a oportunidade de participar das filmagens de “Rio de Fé, um encontro com Papa Francisco” — o documentário dirigido por Carlos Diegues sobre a Jornada Mundial da Juventude Rio2013 — senti um misto de lisonja, entusiasmo e expectativa. Afinal, não é todo dia que se tem a chance de representar o sentimento de milhões de pessoas.

Por um lado, eu já vinha trabalhando como voluntário nos preparativos do evento e ansiava por ver o Papa Francisco de perto pela primeira vez. A perspectiva de fazer parte do registro era, sem dúvida, cativante.

Por outro lado, havia o interesse por conhecer Carlos Diegues, o renomado cineasta brasileiro que produz, desde 1959, uma obra a cada três anos em média, várias das quais premiadas internacionalmente.

Depois de inúmeros filmes marcados de humor, crítica social, e análise política e econômica, Cacá tinha decidido realizar um documentário sobre a fé. Motivo: ao saber da eleição do Papa Francisco, sentiu-se comovido, pois fizera todos os seus estudos em instituições de ensino jesuítas.

O briefing da filmagem explicava que a Cidade Maravilhosa tem vocação à alegria e à paz, tanto por suas belezas naturais, quanto por seu povo receptivo que, mesmo diante das adversidades, é capaz de “inventar a felicidade”. Assim, não haveria melhor cenário que o Rio de Janeiro para a JMJ, pois as Jornadas são uma ode à alegria. “Com efeito — citava Bento XVI —, a alegria é um elemento central da experiência cristã. Também durante cada Jornada Mundial da Juventude fazemos a experiência de uma alegria intensa, a alegria da comunhão, a alegria de ser cristãos, a alegria da fé. É uma das características destes encontros. E vemos a grande força atrativa que ela tem: num mundo com muita frequência marcado por tristeza e preocupações, é um testemunho importante da beleza e da fiabilidade da fé cristã” (Mensagem para a XXVII Jornada Mundial da Juventude 2012).

Concluía o cineasta: “O principal objetivo de nosso filme é esse grande abraço místico e humano, peregrino e missionário, cristão e universal, que é a JMJ. E que, pela cidade onde ocorrerá, poderia chamar-se Jornada Maravilhosa”.

Cultura do encontro

Penso que não se deva tomar a citação de Bento XVI fortuitamente, pois muito se tem falado do contraste entre Francisco e seu antecessor durante o primeiro ano do novo pontificado. O que se contrastou, porém, não condiz com a realidade. Pude reparar isso ao participar do filme, ao conversar com pessoas das mais variadas linhas, ao ler os jornais, e ao participar à mesa do debate de lançamento do documentário, ocorrido na PUC-Rio (a íntegra do debate pode ser encontrada aqui).


O evento de lançamento reuniu integrantes de diferentes religiões e movimentos e tratou da necessidade de tolerância religiosa na cidade do Rio de Janeiro, pois a convivência pacífica durante a Jornada Mundial não costuma ser habitual do dia a dia de muitas localidades cariocas.


Ao longo da discussão, em que houve uma animada participação do público, duas tensões se notabilizaram.

A primeira foi uma atitude crítica, velada e subjacente, dirigida contra a Igreja Católica e suas instituições, acusadas de serem demasiadamente verticalizadas, invasivas e anquilosadas. Curiosamente, ao mesmo tempo se denunciou a falta de empenho da hierarquia eclesiástica em mobilizar os leigos para participarem da marcha pela liberdade religiosa que ocorre periodicamente em Copacabana. Traduzo noutros termos: “a liberdade para mim, e a obediência para os outros”.

A segunda tensão constatada foi a ingênua convicção de que o novo Papa é um revolucionário pelo simples fato de ser simpático (quesito em que, consequentemente, os Papas anteriores teriam deixado a desejar). Um dos presentes, que representava determinado grupo de homossexuais católicos, fez-me uma indagação justamente sobre esse ponto, pois ele tinha a impressão de que o novo pontificado auspiciava tal transformação da Igreja que permitiria a reabilitação de Leonardo Boff, posto de escanteio pelos papas anteriores.

Uma pequena digressão: sem dúvida, o Papa Francisco aposta na “cultura do encontro”. O documentário em questão demonstra isso e procura evidenciá-lo a partir de diferentes histórias de peregrinos, voluntários, cidadãos comuns, representantes de outras religiões, etc. E como diz o provérbio chinês, que para abrir uma loja o primeiro passo é sorrir, o atual Romano Pontífice oferece o seu em abundância.

Saber rir das revoluções

Mas chegara o momento de eu responder à pergunta do militante homossexual, defensor de Leonardo Boff e feliz com a saída de Bento XVI. O moderador do debate me solicitou brevidade, pois a minha resposta fecharia as discussões daquela noite.

O espaço deste artigo me permite ser mais explícito nas considerações que ora pude tecer.

Primeiramente, as pessoas se lembram de nós não pelo que dissemos, mas pelo que lhes fizemos sentir. O Papa Francisco tem-nos feito sentir aquilo que os Papas anteriores já diziam. Não há um contraponto, não há um contraste. Só nova embalagem.

A questão é: por que as embalagens anteriores foram rechaçadas pela opinião pública?

O próprio Papa Francisco já percebeu que lhe foi atribuída a aura de revolucionário. Por exemplo, em sua recente Exortação Evangelii gaudium, alude ao aborto voluntário dizendo que “não se deve esperar que a Igreja altere a sua posição sobre esta questão. A propósito, quero ser completamente honesto. Este não é um assunto sujeito a supostas reformas ou «modernizações». Não é opção progressista pretender resolver os problemas, eliminando uma vida humana” (n.º 214).

Muito mais revolucionário — e visionário — foi Bento XVI ao renunciar (o que não ocorria há 700 anos). Pensando em “novidades”, não foi uma revolução a restauração do rito anglicano no Ocidente (depois de 500 anos), com a possibilidade de se admitirem sacerdotes casados? Se não bastasse, Joseph Ratzinger, antes de ser Papa, estivera por trás da composição do Catecismo da Igreja Católica (o primeiro catecismo oficial da história) e da Declaração Conjunta da Igreja católica com luteranos e metodistas sobre o tema da justificação (que fora justamente a causa da reforma protestante). A lista poderia se estender indefinidamente, mas não é o caso.

Basta frisar que essas conquistas significaram mudanças reais na vida da Igreja das últimas décadas, e são muito mais profundas do que efêmeras emoções midiáticas. Do mesmo modo, seria possível enumerar outras tantas realizações de João XXIII (convocação do Concílio), Paulo VI (reforma litúrgica), João Paulo II (por exemplo, o novo Código de Direito), etc., que repercutem até hoje no dia a dia de milhões de cristãos.

Leonardo Boff e a cultura do “reencontro”

Em segundo lugar, em minha resposta durante o debate era necessário aludir a Leonardo Boff.

O documentário de Cacá Diegues levanta controvérsias “salutares” justamente porque o filme foi considerado oficial. Às críticas das alas mais conservadoras, minha sugestão é fazer limonada com o limão alheio.

Por que o afamado Boff aparece no filme? Aparece porque é afamado. Os católicos assumirão essa culpa? Afinal, alguém deve ser o culpado de que a intelligentsia brasileira, quando pensa na Igreja, logo se lembra de um dissidente que vive a expensas de ser um outsider.

Se o documentário é um produto oficial da JMJ, ele tem necessariamente uma chave hermenêutica ortodoxa. Portanto, se o Boff ali aparece, é que está se convertendo e se reaproximando com humildade do seio da Igreja outrora rechaçada por ele. De fato, ele fala coisas sensatas no filme, embora seja discutível o tipo de relação que ele estabelece entre paz social e paz entre as religiões.
Eu rezo sinceramente por essa intenção: que Leonardo Boff se converta. Seria uma alegria que, além de dizer que não é mais um marxista (coisa que ele tem feito ultimamente), resolvesse confessar-se e voltar a ser católico de missa dominical, fiel à doutrina do Catecismo. Essa seria um verdadeiro “efeito Francisco”!

Quem é, afinal, o papa do amor?

Por fim, a terceira parte da minha resposta no debate foi sobre o amor.

O teólogo sueco Anders Nygren (1890-1978) tornou-se eminente professor da Universidade de Lund, e depois bispo luterano dessa cidade. Também foi presidente da Federação Luterana Mundial. Filósofo da religião, exegeta habilidoso, historiador versátil, teólogo genial e pastor sensível, Nygren se valeu da filosofia kantiana em sua teologia. Ativo defensor do ecumenismo e ferrenho opositor do nazismo, fez-se internacionalmente reconhecido por seu livro Agape and Eros. Essa excelente obra, entretanto, não representa o cerne de seu pensamento. No livro, Nygren explica que, segundo Platão, eros é o amor sedento do Belo transcendente, o que eleva o humano para o divino, o único capaz de saciar a ansiedade da alma aprisionada na matéria; mas, porquanto busca o êxtase da união, seria amor egocêntrico, cobiça. Com o correr dos séculos, o significado de eros teria sido abaixado até assumir notas meramente sexuais.

Tal distinção entre eros e agape, com a reserva deste último para o verdadeiro amor cristão, tornou-se lugar comum em nossa cultura. Há quem não consiga compatibilizar o erotismo com o amor oblativo, coisa bem palpável na música Amor e Sexo, de Arnaldo Jabor e Rita Lee.

Bento XVI criticou essa distinção em sua primeira Encíclica, Deus caritas est, na qual ensinou que tanto eros quanto agape são aspectos do mesmo amor divino. Naquela época, sua ousadia lhe valeu o epíteto de “Papa do Amor”. A continuação do seu fecundíssimo magistério não desmereceu o título. Ratzinger foi um grande teórico do amor. O cristianismo é a religião do Logos, da “lógica” de Deus, mas justamente a lógica de Deus é a lógica do amor.

Bento XVI e Francisco escreveram a primeira Encíclica a quatro mãos da história da Igreja. Não à toa, no magnífico texto há uma seção em que o amor é apresentado como uma forma de conhecimento. O amor tem um Logos. Isso é muito importante. Nos debates sobre a afetividade, é preciso resgatar a racionalidade do amor. Deus é amor, mas o amor não é Deus.

Uma torrente de alegria

Gostaria de concluir fazendo referência a um convite Papa Francisco, para que, a partir dessa experiência de um “Rio de Fé” que foi a JMJ, entremos num “Rio de Alegria”:

Porque não havemos de entrar, também nós, nesta torrente de alegria? (…) Há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa. Reconheço, porém, que a alegria não se vive da mesma maneira em todas as etapas e circunstâncias da vida, por vezes muito duras. Adapta-se e transforma-se, mas sempre permanece pelo menos como um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, não obstante o contrário, sermos infinitamente amados. (…) A tentação apresenta-se, frequentemente, sob forma de desculpas e queixas, como se tivesse de haver inúmeras condições para ser possível a alegria. Posso dizer que as alegrias mais belas e espontâneas, que vi ao longo da minha vida, são as alegrias de pessoas muito pobres que têm pouco a que se agarrar. Recordo também a alegria genuína daqueles que, mesmo no meio de grandes compromissos profissionais, souberam conservar um coração crente, generoso e simples. (…) Não me cansarei de repetir estas palavras de Bento XVI que nos levam ao centro do Evangelho: «Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo».
(Evangelii gaudium, nn. 5-7)

23 de nov. de 2013

Retrofit do casamento


Pouco antes de iniciar o Ano da Fé, que termina amanhã, Bento XVI afirmou: “Há uma clara correspondência entre a crise da fé e a crise do matrimônio. E, como a Igreja afirma e testemunha há muito tempo, o matrimônio é chamado a ser não apenas objeto, mas o sujeito da nova evangelização.” (Homilia, 7/10/2012)

Os próximos dois anos prometem colocar a família e o matrimônio no foco da atenção da Igreja e do mundo. Com efeito, a ONU comemorará os 20º aniversário do Ano Internacional da Família e a Santa Sé patrocinará dois Sínodos sobre o tema. Além disso, em 2015 ocorrerá na Filadélfia o VIII Encontro Mundial das Famílias.

Em vista da ocasião, preparei três apresentações com o objetivo de incentivar uma atitude positiva e pró-ativa com relação ao tema.

A primeira consiste em explicar os objetivos da ONU para a família, os quais, graças aos esforços da International Federation for Family Development, são excelentes. As metas propostas comprovam que a família pode ser um meeting point para as pessoas das mais variadas tendências ideológicas.


A segunda apresentação visa à comunicação estratégica dos argumentos pró-família, vislumbrando as oportunidades de persuasão oferecidas pela ciência cognitiva e pela teoria narrativa, a fim de contornar o revisionismo matrimonial.


Por fim, a outra apresentação sugere iniciativas variadas no campo da família, abrindo para um brainstorming.


Recomendo que você visite e assine o feed de http://thefamilywatch.org/. E também agradeceria receber suas sugestões!

24 de jul. de 2013

Como você anda de fé?

Fratura entre fé e razão

Ser intelectualmente cristão não equivale a ser existencialmente cristão. Muitos têm cabeça cristã, mas não o têm o coração. E vice-versa.

É preciso pensar com a chave da fé, para assim como dar as razões da própria esperança.

A lógica do amor

Existe identidade de classe, numérica, de diferenciação, essencial

Ora, a identidade cristã não é mera adesão intelectual, mas imitação. Não é mero estilo ético, mas responsabilidade moral. Não é mera pertença passiva, mas participação ativa.

Faz falta pensar e atuar em caridade; comprometer-se com a verdade e amá-la.

Examinar o coração

Os principais obstáculos à transmissão da fé são:
  • uma fé vivida em modo privado e passivo; 
  • o não sentir a necessidade de uma educação da própria fé; 
  • uma separação entre a fé e a vida;
  • o consumismo e o hedonismo;
  • o niilismo cultural;
  • o fechamento à transcendência que elimina qualquer necessidade de salvação.
***

Estamos no Ano da Fé.
Como você anda de fé?
Por onde a fé o leva a andar?

17 de jul. de 2013

Prepare-se para a JMJ!


Chegou a JMJ! Esteja preparado para essa guerra de paz e alegria que invadirá o Rio de Janeiro!

Para isso, vale a pena fazer um rápido check-list de sugestões e outras dicas:

ANTES

1) Durma e coma muito bem nesta semana. Corte o cabelo. Compre tudo o que poderá eventualmente precisar.

2) Separe seu carregador de celular (e ponha créditos!). Reserve barras de cereal para os próximos dias. Complete a mochila com as roupas necessárias.

3) Monte uma munição de cartões de visita, lembranças, presentes, santinhos, etc., para trocar com as pessoas de longe que você irá conhecer.

DURANTE

4) Faça uma boa Confissão sacramental. Entre outras coisas, ela garantirá que você lucre a Indulgência plenária da Jornada!

5) Seja exemplar no espírito de serviço e no bom humor. Não reclame da bagunça que nos espera, nem das coisas mal organizadas, nem de alguma ideia da organização que pareça brega ou peregrina. E, acima de tudo, ignore os espíritos de porco que fatalmente aparecerão (militantes atormentados das mais extravagantes tribos)…

6) Aproveite muito bem os tempos mortos (de espera, de trem, de caminhada, durante a função). Reze, converse, conheça pessoas, cante, brinque.

DEPOIS E SEMPRE

7) Dê prosseguimento ao incremento espiritual adquirido mediante o estudo sistemático da doutrina católica, a oração constante e a direção espiritual assídua.

8) Mantenha as amizades adquiridas.

9) Vença as travas da vergonha e do respeito humano! Faça muito apostolado!

***

Boa Jornada!

Imagine que a munição é a oração:

15 de jul. de 2013

A obra-prima de Ratzinger

Fica evidente, especialmente para quem conhece a obra de Joseph Ratzinger, que a recém-publicada encíclica Lumen fidei, assinada pelo Papa Francisco, mais do que escrita a quatro mãos, é fruto quase exclusivo do pensamento maduro do Papa Emérito.

Talvez seja ousado ou prematuro afirmá-lo, mas a Carta Lumen fidei é, para mim, o testamento de um dos mais luminosos Papas da história bimilenar da Igreja. Combinando beleza literária, intuição bíblica, penetração patrística, versatilidade cultural e profundidade teológica, Lumen fidei (LF) é uma obra-prima.

Bento XVI nos legou mais um magnífico presente neste Ano da Fé. Ensina-nos, entre tantas coisas, quatro pontos significativos: que a fé é palavra luminosa, que a fé reside num coração que ama, que a fé se recebe por “contato”, e que a fé constrói as relações humanas.

Luz e palavra

A fé trabalha entre duas coordenadas: a escuta e a visão. Por um lado, exige assentimento a uma mensagem — palavra —, por outro, essa mensagem toma posse do homem, fazendo-o enxergar tudo sob nova ótica — luz.

Quando tantas pessoas encaram a fé como abstração teórica ou fanatismo intolerante, a Encíclica convida a entendê-la como crença no amor e, portanto, convite ao diálogo e a uma compreensão mais ampla da realidade.

Conhecimento amoroso

“O próprio amor é um conhecimento, traz consigo uma lógica nova”. Coisa inconcebível “aos olhos do homem moderno”, a quem “o amor surge, hoje, como uma experiência ligada, não à verdade, mas ao mundo inconstante dos sentimentos” (LF 27).

Pelo contrário, a sociedade científica reduz a verdade à mera utilidade técnica. Portanto, “poderá a fé cristã prestar um serviço ao bem comum relativamente à maneira correta de entender a verdade?” (LF 26) Sem dúvida, “a luz do amor, própria da fé, pode iluminar as perguntas do nosso tempo acerca da verdade: (...) o olhar da ciência tira benefício da fé: esta convida o cientista a permanecer aberto à realidade, (...) a fé desperta o sentido crítico, (...) a fé alarga os horizontes da razão” (LF 34).

O primado do amor, a lógica do amor, é algo típico do pensamento de Bento XVI, o que já ficara patente em sua primeira Encíclica, Deus caritas est. Não hesito afirmar que, por esse pensamento, ele merece o título de Doctor amoris.

Contato com a fé

“É impossível crer sozinhos” (LF 29): afirmação tão rotunda quanto surpreendente para tantos homens alienados em sua própria subjetividade.

Contudo, sem a transmissão e a recepção da memória eclesial, sem o contato “físico” com a herança de Cristo nos sacramentos e na oração da Igreja, é vedada ao crente a porta da fé.

Fundamento social

“A fé não afasta do mundo, nem é alheia ao esforço concreto dos nossos contemporâneos. Sem um amor fiável, nada poderia manter verdadeiramente unidos os homens: a unidade entre eles seria concebível apenas enquanto fundada sobre a utilidade, a conjugação de interesses, o medo” (LF 51).

Nesse sentido, a família e a comunidade política necessitam do referencial da fé que as precede e sustenta. “Porventura vamos ser nós a envergonhar-nos de chamar a Deus «o nosso Deus»? Seremos por acaso nós a recusar-nos a confessá-lo como tal na nossa vida pública (...)?”(LF 55)

***

Esses ensinamentos nos apontam quatro tópicos de exame:

1) Conheço suficientemente a doutrina católica? O que tenho feito para nela me aprofundar? Ou engano-me com preconceitos que facilmente poderia superar com um mínimo de estudo?

2) Associo à doutrina teórica a prática de exercícios de piedade, de oração e de caridade? Ou a minha interioridade é fechada ao diálogo com Deus e ao serviço do próximo?

3) Reconheço na Igreja a “Mãe que nos ensina a falar a linguagem da fé” e pela qual podemos “beber no «verdadeiro» Jesus” (LF 38)? Ou a confundo com pessoas concretas e estruturas passageiras, imaginando que a Igreja mais atrapalha do que facilita o acesso a Deus?

4) Manifesto publicamente minha fé, não ostentando símbolos ou afetando piedade, mas com as virtudes, o desprendimento dos bens materiais e o amor ao próximo? Defendo delicadamente a verdade cristã diante das falsidades que atribuem a ela?

7 de jun. de 2013

Meu Xovem!

Horrível. Pegar um funk e fazer uma paródia em preparação para a JMJ: ideia de jerico. Passa a mensagem que os católicos “xovens” gostam de funk idiota, conhecem a letra de cor e salteado, e apreciam o rebolado.

Já assistiram ao original, da catolicíssima Anitta? É “alto nível”: “Prepara que agora é a hora do show das poderosas que descem, rebolam e afrontam as fogosas, só as que incomodam. Expulsam as invejosas que ficam de cara quando toca: Prepara!”

E lá no Youtube, enquanto uns dizem que deplorar isso é heresia, outros dizem que sim está bom, embora não nos conviesse contaminar com coisas profanas. O problema não é ser profano, o problema é ser mundano! Heresia é, antes, ter um péssimo gosto desses!

Em suma, aqui há uma enorme confusão entre secularidade, mundanidade, criatividade, bom gosto, autenticidade, etc. Enquanto essa confusão persistir, pensarão que “católico” é gênero musical, ou que ser cantor era algum grau das ordens menores, entre outras aberrações.

Para a nossa “xuventude” o que faz falta mesmo é estudar o Catecismo da Igreja Católica, ouvir música erudita, aprender o que é a virtude da castidade e fazer boa Confissão sacramental.

Ah!… Quase me esqueci: faz falta participar de adorações ao Santíssimo verdadeiramente orantes, isto é, silenciosas, não essa “aeróbica do Senhor” barulhenta e alienada do sentido do sagrado.

Bizarro, bizarro.

15 de mai. de 2013

Bode emo que acha que é galinha

O que mata é o despreparo da intelectualidade brasileira… Afirmo isso em função da conferência ministrada neste mês na Cândido Mendes pelo filósofo canadense Charles Taylor sobre o processo contemporâneo de secularização.

(Os professores podem receber salário com atraso, mas pelo menos há verba para uma lufada de pensamento em nosso deserto acadêmico!)

Apareceu tanta gente que os organizadores precisaram transferir a palestra para o teatro. Além da breve exposição do convidado, em língua inglesa, os assistentes tivemos de aguentar os discursos vazios dos anfitriões. Um deles expandia-se em clichês politicamente corretos; o outro, afetava erudição juntando alhos com bugalhos pseudofilosóficos.

Um terceiro membro da mesa, convidado a acompanhar a conferência, clérigo sem veste talar, falou com propriedade, mas com “excesso” de pontaria: foi tão vasto e penetrante que necessitaria de um curso para explicar tudo o que ele tinha em mente.

Após hora e meia de blá-blá-blá, quando todos estávamos cansados e com fome, nossos “intelectuais” começaram a divagar, a lançar pedras a esmo e a expor as feridas da própria ignorância. Fiquei penalizado por ouvir tão pouco de Charles Taylor e tanto dos acadêmicos tupiniquins. Foi como levar gato por lebre.

No fim, quando o ataque se voltou contra o papado, metade do público começou a gritar: — Viva o Papa! — Eu nunca tinha visto final tão glorioso numa discussão universitária!

Coisas pitorescas à parte, tentarei traçar um resumo em quatro pontos das ideias de Taylor sobre a secularização na época pós-moderna, que curiosamente descrevem o circo armado na Cândido Mendes e do qual — ele próprio! — era a principal atração:

1) Perda das ideias compartilhadas. Sem uma base comum, um conjunto conceitual de referências, facilmente a religião é questionada na vida pública, mesmo que ela esteja no substrato dessa mesma vida pública.

2) Demarcação identitária. Quando não há mais entendimento entre as partes, também desaparece o sentido de pertença à comunidade. Consequentemente, as pessoas tentam evidenciar-se por peculiaridades e ocorre a inflação das minorias.

3) Ruptura entre crença e vida. Como a cultura cristã ainda subjaz na sociedade vitimada de ignorância religiosa, as pessoas continuam participando de ritos que não entendem mais. Daí para a falta de fé, não vai senão um só passo. Da incoerência rapidamente se passa à bandalha.

4) Abuso laicista. O último patamar é a institucionalização da bandalha, quando, em nome da autenticidade, pretende-se excluir todo substrato cultural cujo significado tenha se perdido. No caso, a religião é vista como câncer a ser extirpado do tecido social.

Em determinado momento da conferência, um dos presentes indagou como devemos reagir diante dos que se dizem tolerantes mas nos impingem seus preconceitos. Houve um sonoro aplauso da plateia; contudo, os professores brasileiros pareceram não entender o porquê. Na verdade, o aplauso era contra eles mesmos, que tinham sido tão pouco respeitosos para com a fé católica.

Charles Taylor apenas negou que a tolerância seja um valor com o qual se construa a sociedade. Com efeito, tolerar significa apenas contornar o incômodo causado por quem faz o mal, mas cujo combate nos seria ainda mais prejudicial. O ideal da nossa sociedade deve ser dar oportunidades para todos se desenvolverem humana e espiritualmente.

Espero que esse recado seja captado por nossos criadores de opinião, que me soam como esse bode emo que pensa que é galinha:

27 de dez. de 2012

A opinião pública não lhe deve ser alheia

Por limitação natural, ninguém é capaz de julgar por si só a multidão de fenômenos sociais, políticos, econômicos, científicos, culturais e religiosos que acontecem ao seu redor. Por isso influi tanto a opinião da maioria, a opinião pública.

Com a revolução da comunicação, a formação da opinião ficou nas mãos de uns poucos. Coisa delicada, que pode repetir em escala mundial a surpreendente disparidade entre o “hosana” e o “crucifica-o” — como a Jerusalém que mudou de opinião sobre Jesus em tão poucos dias…

Não há exagero em afirmar que o mundo vive da mentira. E, enquanto muitos bons dormem, a cizânia é semeada com inusitada abundância. A presença nos meios comunicação de cidadãos capazes de julgar e expor os sucessos humanos desde uma perspectiva cristã é uma premência. Para isso, os católicos não devem pedir licença. Mas, para serem luz, precisam ter luz.

Você atua publicamente com essa preocupação?

13 de nov. de 2012

Os nove grandes Doutores

Na abside da Basílica de São Pedro, em Roma, encontra-se o monumento à Cátedra do Apóstolo, obra adulta de Bernini, realizada em forma de um grande trono de bronze, sustentado pelas imagens de quatro Doutores da Igreja, dois do Ocidente, Santo Agostinho e Santo Ambrósio, e dois do Oriente, São João Crisóstomo e Santo Atanásio. 

A Cátedra de São Pedro faz referência a um antigo costume romano. Estes celebravam seus defuntos em fevereiro, concluindo suas comemorações a 22 desse mês. Junto aos túmulos, tomavam um repasto sagrado, deixando uma cadeira vazia em representação do antepassado falecido. Rapidamente, o dia 22 de fevereiro passou a recordar a “cátedra” de seu defunto mais ilustre — São Pedro —, junto de cujo túmulo tomavam a refeição eucarística.

A partir do século IV, a expressão “cátedra” também passou a significar a sede fixa do Bispo, posto na igreja matriz de uma diocese, que por isso é chamada de catedral, e constitui o símbolo da autoridade e do magistério do Bispo. 

A presença dessas quatro figuras de Bernini, sustentando a cátedra petrina, evoca a importância que esses homens tiveram — e têm — para a fé da Igreja.

Ambrósio, Gregório, Agostinho e Jerônimo
Agostinho e Ambrósio já figuravam como as grandes luminárias do Ocidente, desde 1298, ao lado de Jerônimo e Gregório I, o Grande. A partir de 1568, São Pio V juntou-lhes outras quatro personalidades eminentes do Oriente: Atanásio, João Crisóstomo, Basílio, o Grande, e Gregório Nazianzeno.

No mesmo ano, Tomás de Aquino foi associado à companhia tão seleta, na qualidade de único Doutor até então não pertencente à Antiguidade. É Doctor Communis, tanto para o Ocidente quanto para o Oriente. 

Atanásio
Aqui seria excessivo falar de todos eles detalhadamente. Mas faço questão de pinçar uma frase de cada um, colhidas do livro Os Doutores da Igreja, de Jean Huscenot:

1) Atanásio, Patriarca de Alexandria (298-373), cinco vezes exilado, responde aos policiais que perguntavam por ele: “Vi Atanásio sim. Ele está pertíssimo!”

2) Basílio Magno, Bispo de Cesareia (330-379): criador de um hospital, advertia os que se despreocupam do próximo: “Não há dúvida de que oprimes tantas pessoas quantas as que poderias ajudar.”

Os amigos Basílio e Gregório
3) Gregório Nazianzeno, Arcebispo de Constantinopla (329-373): amicíssimo de Basílio, confessa: “Cada qual tem o seu ponto fraco; o meu é a amizade!” 

4) Ambrósio, bispo de Milão (340-397): apelidado de Doutor da Virgindade, dirá a quem não preza o matrimônio: “Quem condena o vínculo conjugal condena também os filhos e a sociedade.”

5) João Crisóstomo, Arcebispo de Constantinopla (347-407): sem papas na língua, acabaria sendo perseguido por todos os lados. Dentre suas invectivas, destaca-se esta contra os avarentos: “Ide ao altar da avareza e lá sentireis um cheiro forte de sangue humano. (…) É que a avareza quer a alma da vítima e também a do seu sacrificador.”

Crisóstomo
6) Jerônimo (347-420): após ter sua casa incendiada pelos invejosos hereges pelagianos, escreve: “Vale mais mendigar o pão do que perder a fé.”

7) Doctor gratiæ Agostinho, bispo de Hipona (354-430): a humildade intelectual da maior inteligência do Mundo Antigo o levou a revisar sua vasta obra: “Quero submeter a um escrupuloso exame tudo o que escrevi — livros, cartas ou tratados — e assinalar severamente as suas faltas… Julgar-me a mim próprio, na presença do único Mestre, é o meu único recurso para escapar ao rigores dos seus juízos.”

8) Gregório I Magno, Papa de Roma (540-604): considerado o último dos romanos, transmitiu à Idade Média a herança da Antiguidade que naufragava. Homem versátil e capaz, reivindicava para si o título exclusivo de “Servo dos servos de Deus”, reconhecendo que lhe coubera estar na transição das épocas: “Sacudido pelas vagas das questões, sinto a tempestade roncar por cima da minha cabeça.”

Tomás
Para finalizar, um conselho do Doctor Angelicus, Tomás de Aquino (1225-1274), acerca do presente tema:

“Ora, Deus comunica a verdade pelo brilho da sua natureza;
os doutores são apenas seus ministros,
os quais, portanto, devem ser puros, inteligentes, fervorosos e dóceis.
Por si mesmos, não têm nenhuma suficiência, 

mas podem esperar tudo de Deus”.

10 de nov. de 2012

Três remédios contra o indiferentismo

Outro tema relevante para o atual diálogo entre crentes e descrentes é o desafio ético do indiferentismo.

O niilismo morre quando mata seu inimigo

O pessimismo de Schopenhauer é tão devedor de raízes cristãs quanto o niilismo dos espíritos fortes de Nietzsche.

Ora, quando o niilismo tornou o mundo pós-cristão, o niilismo também tornou o mundo pós-niilista. De fato, desde então o mundo tornou-se indiferente, tanto para o cristianismo quanto para o niilismo.

O indiferentismo pós-moderno é o pleonasmo da negação, o paradoxo da vertigem. Num ambiente indiferente, o inimigo não tem rosto. Como lutar contra a “secularização” ou o “preconceito”?

Dizia Nietzsche: “Um niilista é uma pessoa para quem o mundo, tal como é, não deveria existir, e para quem o mundo, tal como deveria ser, não existe” (cf. Werke. Kritische Gesamtausgabe, VII/2, 30). — Troque-se “niilista” por “cristão” que a frase continua fazendo sentido: “Um cristão é uma pessoa para quem o mundo, tal como é, não deveria existir, e para quem o mundo, tal como deveria ser, não existe”.

Troque-se na mesma frase “niilista” por “indiferente” ou por “homem pós-moderno”, que a afirmação carecerá de lógica.

Novas bases

Nesse contexto, a única solução para o cristianismo é reelaborar as bases culturais. Reciclar sua capacidade de formular e reciclar a capacidade de entenderem a verdade do homem redimido por Cristo.

Tal tarefa se divide em três frentes:

1) É uma tarefa intelectual, que exige que se explique a barafunda filosófica que cresceu como um câncer desde a Reforma protestante.

2) É uma tarefa pastoral, que visa a reduzir a fratura entre vida de fé e vida em sociedade. Filé-mignon da nova evangelização.

3) É uma tarefa moral, que procura recuperar para o homem atual os esquecidos conceitos de pecado e de imagem de Deus. Reconquistar a verdade sobre si e a verdade sobre nosso destino.

***

Lembre-se: é preciso encarar a cultura mais como campo de batalha do que como mero contexto.
Você está nessa luta?

29 de out. de 2012

Sete exigências da nova evangelização

1. Amizade com Cristo

Ninguém dá o que não tem. Nova evangelização não consiste em ensinar uma doutrina, mas em ensinar uma relação, isto é, significa ensinar a relacionar-se com Cristo.

Afinal, o Cristianismo é para viver, não para falar. E há por aí um monte de bem-entendidos que são um bando de safados.

2. Contagiar com o ardor apostólico

Mais do mesmo, só que com a novidade do fogo. Diz o provérbio que a primeira condição para se abrir uma loja é sorrir.

E você quer incendiar o mundo sem ser uma brasa?

3. Contar a história de Israel

Seria estranho afirmar que Cristo cumpriu as promessas a Israel e ao mesmo tempo desconhecê-las. Por isso mesmo, São Jerônimo dizia que o desconhecimento da Escritura é o desconhecimento do próprio Cristo.

Não é questão de erudição, mas de um mínimo de intimidade com a Escritura. Gaste menos tempo na Internet e leia a Bíblia 5 min por dia.

4. Domínio da cultura contemporânea

Se você tem a Bíblia na mão direita, tenha o jornal na esquerda. Do contrário, estará criando um gueto intelectual e contradizendo a fé.

A fé se comunica e a comunicação começa por saber ouvir. Antena ligada.

5. Paixão pela Tradição Apostólica

A pior alienação para um católico é querer imitar um protestante. Não é preciso reinventar a roda, ou abrir picadas a facão, pois tudo já se fez e já se disse em nossa história bimilenar.

Você não está sozinho e há experiência de sobra na Tradição. O que falta é ler os grandes autores e estudar a patrística.

6. Ter um coração missionário

Isso não quer dizer necessariamente pegar um avião e ir para a Tailândia. Simplesmente significa sentir-se incomodado com o paganismo do seu quintal.

Se você acha normal a apologia da maconha, o crescente número de divórcios, a baixa assistência à Missa dominical ou a militância homossexual, então você nunca fará nada.

7. Gostar das novas mídias

As novas mídias são a versão 2.0 dos Correios, Telégrafos e Telefones. A sua graça está em aproximar as pessoas, mas é preciso reconhecer que muita gente gasta horas papeando com desconhecidos e vive às turras com quem convive diariamente sob o mesmo teto.

A solução não está em fugir da arena, mas em, respeitando seus limites, lutar conforme as regras.



21 de out. de 2012

A chamada de Abraão

Conforme prometi por ocasião do início do Ano da Fé, passarei a comentar acerca de alguns personagens importantes para nossa compreensão da fé como resposta do homem aos apelos de Deus.

Começo obrigatório é evocar a figura de Abraão, nosso pai na fé, de quem já pude escrever alguma coisa. A descrição abaixo baseia-se numa harmonização de dados bíblicos, historiográficos e arqueológicos.

***

Para fazer frente à vaga de invasores arianos, Hammurabi (1728-1686 a.C.) buscou a unificação dos semitas amorreus: pôs Babilônia por capital, propugnou Marduc como único deus, promulgou suas “decisões de justiça” (um código moral talhado em pedra) e sufocou as insurreições locais. Por essa causa, Mári seria totalmente destruída e a região de Ur seria perturbada por agitações políticas e bélicas, até a deportação de seus habitantes.

Nessa época, nos arredores de Ur vivia acampado, à maneira dos seminômades, um clã arameu oriundo de Harã, cidade da Mesopotâmia Setentrional. Taré, o patriarca, tinha três filhos: Abrão, Nacor e Sarai. A família praticava a agricultura, mas se deslocava a cada estação, com sua pequena grei e seus jumentinhos, às zonas incultas em que as chuvas abundavam e os poços de água eram mais numerosos. Serviam às divindades sumérias locais, semelhantes às de Harã: o deus Lua Sin e a deusa Lua Nin‑gal.

Taré gerou outro filho, Arã, o qual morreu lá mesmo em Ur, talvez por conta das pilhagens sofridas pela cidade, deixando órfãos seus filhos Melca, Jesca e Lot. Melca foi desposada por Nacor e Abrão adotou seu sobrinho Lot, pois sua esposa e meia‑irmã Sarai era estéril.

Como a cidade não garantia segurança e a religião do novo império estava sendo imposta, Taré sentiu‑se forçado a deixar Ur.

A partir daí Abrão começou a ouvir a palavra do Deus vivo, que o arrancava da sua terra, do seu povo e, em certo sentido, de si próprio. Contudo, ainda era meramente uma palavra que o interpelava desde as vicissitudes da vida aldeã: acaso até Ilu, o abstrato Deus supremo dos semitas, que na mitologia se hipostasiava em Ea, pai de Marduc, deveria inclinar‑se diante do próprio filho, que segundo a vontade de um imperador usurparia o posto da única suprema divindade? A partir de então, Abrão abandonou os ritos de seus ancestrais que honravam múltiplas divindades e passou a adorar o Deus único do céu.

Então toda a família partiu rumo ao norte com seus rebanhos, seguindo o curso do Eufrates, cobrindo um percurso de mais de mil quilômetros, com o intuito de depois chegar a Canaã, já fora do domínio babilônico.

Chegaram à sua cidade natal, Harã, em Padã‑Aram. O empório babilônico — entroncamento obrigatório das caravanas nas colinas próximas aos Montes Tauros —, que tinha bons pastos irrigados, de flora exuberante, apresentou‑se‑lhes, contudo, muito propício para a instalação. Lá se adorava o deus Lua Nanna.

Mas em Harã Abrão ouviu uma chamada explícita e exigente de Deus, o início do desígnio divino salvador, que lhe reclamou uma resposta de fé: “Deixa tua terra, tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que eu te mostrar. Farei de ti uma grande nação; eu te abençoarei e exaltarei o teu nome, e tu serás uma fonte de bênçãos. Abençoarei aqueles que te abençoarem, e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem; todas as famílias da terra serão benditas em ti” (Gn 12,1ss).

Tomando a esposa e o sobrinho Lot, seguiu ao sul, indo buscar na terra dos cananeus mais do que uma pátria, a voz que o chamava. Passando por Damasco, onde talvez tenha encontrado seu mais fiel e antigo criado, Eleazar, atravessou o Jordão junto ao Jaboc.

Morou no Negueb, imensa região de estepe, própria para pastagem periódica, junto ao carvalho de Mambré, passando por Siquém e Betel, onde erigira um altar. Os altares de terra ou pedras, que em geral serviam para oferecer sacrifícios, tornaram‑se também monumentos comemorativos dessas experiências religiosas dos patriarcas. Siquém ficaria na memória como o primeiro santuário onde Abrão recebe a promessa de posse da terra em Canaã.

Mas além das dificuldades impostas pelos povos locais a respeito de pastagens, poços d’água e assaltos, parecia que até o Deus da sua vocação não lhe facilitava as coisas: a fome o levou a uma estadia no Egito, que quase lhe custou a esposa e ainda a própria vida, quando o faraó quis fazer de Sarai sua concubina. Essas viagens ao Egito eram comuns naquela época e sabe‑se que um tal de Ibsha com seu clã inquietou os funcionário da XII dinastia. Por intervenção divina, Abrão voltaria a Canaã com Sarai sã e salva. Provavelmente traria de lá Agar, a escrava.

Chegando de novo a Betel, o novo clã de Abrão já sofre sua primeira divisão, indo seu sobrinho Lot habitar junto ao Mar Morto, próximo às cinco cidades cananeias não muito afamadas devido à imoralidade e corrupção geral: Sodoma, Gomorra, Adama, Seboim e Segor.

Após tantos reveses, Deus lhe recompensa prometendo‑lhe a posse da terra de Canaã. Com a bênção divina e com a terra prometida, falta-lhe apenas uma descendência.

9 de out. de 2012

Quatro olhares sobre o quotidiano

Um tema relevante para o atual diálogo entre crentes e descrentes é o conteúdo religioso da banalidade.

Tanto o materialismo de vidas fechadas à transcendência, quanto o desencanto de vidas em constante evasão, produzem uma opacidade que torna difícil ver a Deus por trás das coisas.

1) Segundo Eurípides, o quotidiano é exatamente aquilo que o herói abandona em busca da aventura. Na mesma linha, ainda hoje o quotidiano em geral é tido como uma realidade alienante.

2) Para Heidegger, já que a temporalidade seria a marca do nosso ser, a autenticidade está em viver para a morte, desprendido das variedades mundanas. Cria-se assim um dilema entre a autenticidade e a quotidianidade.

Edith Stein criticou essa “tristeza nocional” diante do banal, pois equivale a pôr o homem no centro do mundo; pior, significa negar ao homem uma fonte que o transcenda, para além da temporalidade.

3) Há, contudo, sociólogos como Alfred Schutz, Peter Berger e Thomas Luckman, que avaliam positivamente a rotina. Veem no tecido das vicissitudes quotidianas o setor mais real das experiências sociais.

4) No âmbito teológico, Karl Rahner esboçou a experiência de graça que supõe a existência quotidiana. Bernhard Casper fundou a espiritualidade do dia-a-dia na experiência da gratidão, no valor cooperante do trabalho e no anelo de redenção. Leo cardeal Scheffczyk viu no dinamismo da vida diária um canal para o progresso da imagem de Deus no homem.

Mas, acima de todos, São Josemaria criou uma autêntica e completa teologia do trabalho como meio para se alcançar a perfeição da caridade:

Eu lhes asseguro, meus filhos,
que quando um cristão desempenha com amor
a mais intranscendente das ações diárias,
está desempenhando algo
donde transborda a transcendência de Deus.
Por isso tenho repetido, com insistente martelar,
que a vocação cristã consiste
em transformar em poesia heroica a prosa de cada dia.
Na linha do horizonte, meus filhos,
parecem unir-se o céu e a terra.
Mas não: onde de verdade se juntam é no coração,
quando se vive santamente a vida diária...

E você, como encara o dia a dia?

2 de out. de 2012

Declaração de intenções

Hora de balanço. Melhor: hora de fazer prognósticos.

Com a início do Ano da Fé a 11 de outubro, sinto-me instado ao longo dos próximos meses a dedicar algumas postagens às suas linhas mestras, sob a nova categoria Pátio dos Gentios.

Com efeito, o “Pátio dos Gentios” é uma das iniciativas intelectuais e apostólicas mais emblemáticas dos últimos anos, que de algum modo antecipou a proposta do Ano da Fé. Consiste num fórum neutro e aberto que possibilita o diálogo entre crentes e descrentes.

O Ano da Fé será inaugurado em Roma com um Sínodo sobre a Nova Evangelização. Daqui arrancarão três temas relevantes que pretendo tratar no blogue:

1) A chamada universal à santidade e o valor da vida quotidiana.
2) O indiferentismo ético e religioso.
3) A fratura entre fé e razão e o testemunho da caridade.

Além disso, no meio do Ano da Fé ocorrerá no Rio de Janeiro a tão esperada Jornada Mundial da Juventude, já tratada aqui, mas que ainda proporcionará outras considerações.

Por outro lado, como o Ano da Fé terá um aperitivo na proclamação de dois novos Doutores da Igreja, nada melhor que dedicar a essas 35 luminárias breves resenhas biográficas e curtos florilégios.

Por fim, o Papa indicou que “será decisivo repassar, durante este Ano, a história da nossa fé, que faz ver o mistério insondável da santidade entrelaçada com o pecado” (Carta Porta fidei, 13). Portanto, além dos Doutores, vale a pena falar dos grandes heróis da fé, desde Abraão até alguns Santos mais recentes.

Estou aberto a outras sugestões, que agradeço desde já!
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...