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26 de jun. de 2013

A poesia heroica da prosa diária


Hoje é a festa de São Josemaria Escrivá, Fundador do Opus Dei. O “santo do ordinário”, na expressão do grande João Paulo II, trouxe para a nossa época, entre outras contribuições, uma visão de mundo cujo impacto de superação de dicotomias ainda não se fez sentir completamente. Gostaria de discorrer um pouco a respeito.

***

Através das circunstâncias da vida ordinária, ordenadas ou permitidas pela Providência em sua sabedoria infinita, os homens temos de nos aproximarmos de Deus (São Josemaria, Amigos de Deus, 63). O valor positivo da vida ordinária, que é própria do cristianismo, foi eclipsada pelo predomínio de uma visão caracterizada pelo afastamento do mundo como única forma eficaz de se encontrar a santidade.

Concomitantemente, as atividades profanas foram compreendidas como alheias à união com Deus, e tal união foi relegada ao “mundo eclesiástico”. Assim, a doutrina do Cristianismo, a vida da graça, passariam, pois, como que roçando o agitado avançar da história humana, mas sem encontrar-se com ela (São Josemaria, Questões Atuais do Cristianismo, 113).

São Josemaria trouxe, justamente, uma nova concepção da vida quotidiana que aporta algo realmente novo às culturas, e às práticas religiosas e profanas: consiste na superação da distinção entre sagrado e profano.

Com efeito, segundo as diversas acepções clássicas, a vida corrente não seria o lugar do “profano”, pois:

a) em chave laicista, o profano é compreendido como independente de Deus;

b) em chave espiritualista, o profano é entendido como âmbito hostil e estranho à relação com Deus, do qual seria melhor escapar;

c) para muitos, é a esfera cerrada do que possui escasso valor, e que aliena da transcendência;

d) para outros tantos, é sinônimo de vida privada, no sentido de carente de repercussão e heroísmo humano.

São Josemaria apresenta, porém, a vida ordinária como campo da santidade e da atuação caritativa, um espaço humano em que se esconde um quid divino. Se a vida quotidiana foi vista frequentemente como lugar da repetição mecânica e monótona de tarefas intranscendentes, em seu ensinamento é o âmbito da busca da finalidade última da vida mediante pequenos passos: A tua existência não é uma repetição de atos iguais, porque o seguinte deve ser mais reto, mais eficaz, mais cheio de amor que o anterior. — Cada dia nova luz, novo entusiasmo!, por Ele! (São Josemaria, Forja, 736)

Em suma: a vida quotidiana não é mero suceder de dias, mas a substância do viver. Não é χρόνος (tempo mecânico), mas καιρός (tempo oportuno).

Duas consequências dessa maravilhosa visão: ela evidencia os paradoxos da grandeza da vida corrente e do heroísmo escondido na prosa diária.

1 de mai. de 2013

São José Empresário

Neste dia de São José Operário (e por que não “Empresário”? afinal, ele era o dono da oficina!), vale a pena relembrar alguns aspectos da teologia do trabalho.

São Josemaria, que fez do trabalho o eixo da sua proposta de santidade no meio do mundo, ensinava que o trabalho é, para nós, meio específico de santidade. O que quero dizer‑vos é que temos de converter o trabalho em oração e ter alma contemplativa (Carta 15‑X‑1948, n. 22).

Ora, se o trabalho é oração, convém captar e viver seu caráter dialógico, em que Deus nos fala e nós, por nossa vez, falamos a ele.

No trabalho, Deus nos interpela e nós lhe respondemos. Deus nos fala através do trabalho porque o Senhor está, por imensidade, em todas as criaturas, à nossa espera, ao nosso alcance, ao nosso dispor.

O trabalho é uma palavra dirigida a nós pelo Pai

“Filho, vai trabalhar na minha vinha” (cf. Mt 21,28‑31). Ao trabalho vai o filho, não o mercenário; portanto, ao trabalhar, exercitamos nossa filiação divina, assemelhamo‑nos ao Filho de Deus. 

Como é nossa resposta ao chamado de Deus? Há três opções:
  • Rebelde, grosseira e primária — “não quero!”
  • Preguiçosa, falsa e desatenta — “sim, pai! Mas não foi”
  • Generosa, pronta e sacrificada como a de Cristo — “eis que venho para fazer a tua vontade” (Hb 10,9)

Itinerário da intimidade com Deus

Deveis manter — ao longo do vosso dia — um diálogo constante com o Senhor, que se alimente das próprias incidências do vosso trabalho profissional. Ide com o pensamento ao Sacrário e oferecei ao Senhor o trabalho que tenhais entre mãos; recorrei à nossa Mãe do Céu e ao nosso Pai e Senhor São José, para que vos ajudem a superar as pequenas contrariedades que possam apresentar‑se; recomendai os vossos companheiros e colegas aos seus Anjos da Guarda; reavivai a intenção apostólica, aproveitando as pausas no trabalho; pedi luz ao Espírito Santo, para resolver de maneira adequada os problemas que tenhais pela frente (São Josemaria, Carta 15‑X‑1948, n. 22).

29 de abr. de 2013

Corações partidos


No ponto 145 de Caminho, São Josemaria cita uma música tradicional espanhola, de autor anônimo.

Deixo aqui uma gravação que não é das melhores, mas que dá uma boa ideia.

Frente de Madrid. Uma vintena de oficiais, em nobre e alegre camaradagem.
Ouve-se uma canção, e depois outra e mais outra.

Aquele jovem tenente de bigode escuro só ouviu a primeira:

“Corações partidos,
eu não os quero;
e se lhe dou o meu,
dou-o inteiro”.

“Quanta resistência em dar meu coração inteiro!”
— E a oração brotou em caudal manso e largo.

9 de out. de 2012

Quatro olhares sobre o quotidiano

Um tema relevante para o atual diálogo entre crentes e descrentes é o conteúdo religioso da banalidade.

Tanto o materialismo de vidas fechadas à transcendência, quanto o desencanto de vidas em constante evasão, produzem uma opacidade que torna difícil ver a Deus por trás das coisas.

1) Segundo Eurípides, o quotidiano é exatamente aquilo que o herói abandona em busca da aventura. Na mesma linha, ainda hoje o quotidiano em geral é tido como uma realidade alienante.

2) Para Heidegger, já que a temporalidade seria a marca do nosso ser, a autenticidade está em viver para a morte, desprendido das variedades mundanas. Cria-se assim um dilema entre a autenticidade e a quotidianidade.

Edith Stein criticou essa “tristeza nocional” diante do banal, pois equivale a pôr o homem no centro do mundo; pior, significa negar ao homem uma fonte que o transcenda, para além da temporalidade.

3) Há, contudo, sociólogos como Alfred Schutz, Peter Berger e Thomas Luckman, que avaliam positivamente a rotina. Veem no tecido das vicissitudes quotidianas o setor mais real das experiências sociais.

4) No âmbito teológico, Karl Rahner esboçou a experiência de graça que supõe a existência quotidiana. Bernhard Casper fundou a espiritualidade do dia-a-dia na experiência da gratidão, no valor cooperante do trabalho e no anelo de redenção. Leo cardeal Scheffczyk viu no dinamismo da vida diária um canal para o progresso da imagem de Deus no homem.

Mas, acima de todos, São Josemaria criou uma autêntica e completa teologia do trabalho como meio para se alcançar a perfeição da caridade:

Eu lhes asseguro, meus filhos,
que quando um cristão desempenha com amor
a mais intranscendente das ações diárias,
está desempenhando algo
donde transborda a transcendência de Deus.
Por isso tenho repetido, com insistente martelar,
que a vocação cristã consiste
em transformar em poesia heroica a prosa de cada dia.
Na linha do horizonte, meus filhos,
parecem unir-se o céu e a terra.
Mas não: onde de verdade se juntam é no coração,
quando se vive santamente a vida diária...

E você, como encara o dia a dia?

25 de jul. de 2012

Parece que há quatro tipos de ateus

Num mundo de rótulos ideologicamente atribuídos e de tribos urbanas minoritárias que demandam por espaço social, concedo-me a liberdade poética de fazer a taxonomia da irreligiosidade, tão agressiva quanto tola, que nos avassala. E assim, no reino do ateísmo, enumero quatro filos.

A grande maioria dos descrentes é a dos ateus práticos, isto é, a daqueles que, sem assumir a tese da inexistência do Absoluto, vivem do contingente como se no efêmero encontrassem a solidez da própria vida. Entrar a fazer parte desse grupo é uma tentação muito próxima para os cristãos à deriva

Em segundo lugar, vêm os ateus teóricos militantes. Multiplicam-se na mesma proporção que cresce o laicismo. Transformam a laicidade do Estado, ou a autonomia da ciência, ou as promessas da tecnologia, ou as reivindicações ideológicas, ou quaisquer outras metanarrativas, numa espécie de religião. São extremamente “clericais”, porquanto veneram bezerros de ouro feitos pelas próprias mãos, e prestam vassalagem a tristes gurus que pontificam sobre a areia movediça de vãs filosofias. A fileira desses ateus costuma ser engrossada por pessoas pouco afeitas ao estudo e com pouca capacidade especulativa, que confundem verniz cultural e ciência de jornal com erudição e sabedoria. 

Em terceiro lugar estão os agnósticos. Não têm a temeridade dos segundos para negar a existência de Deus, nem a desfaçatez dos primeiros para assumir uma vida frívola sem pensar nas consequências. Por isso, suspendem o juízo quanto à questão crucial de Deus, disfarçando a frivolidade com a máscara da ponderação e a temeridade com a máscara da tolerância. A tal grupo sentem-se atraídos aqueles que, diante do mistério de Deus — o qual sem dúvida supera a razão humana —, preferem negá-lo a aceitá-lo maior que sua própria capacidade intelectual.

Por último, existem os ateus “deslocados” ou “atormentados”. É um grupo bizarro, que pretende não ser confundido com os anteriores. Ele nasce da ganga das defecções. Advém do insucesso ascético e do desencanto espiritual. Assemelha-se à canalha que tenta limpar o local do crime. Sem dúvida, Deus não pode ser confundido com as imagens nem com os sentimentos que tenhamos dele, mas o fato de que a piedade autêntica não seja uma “piedade sensível” não implica que não deva ser uma “piedade sentida”.

Os primeiros ateus rezam ao próprio ventre; os segundos, aos próprios bofes; os terceiros, à própria vaidade; os últimos, ao próprio orgulho. Nenhum reza a Deus. Os ídolos que derrubam são o simulacro dos próprios fracassos. Tais posturas só podem ser superadas pela verdadeira oração.

Mas a verdadeira oração exige penitência:

Esse Cristo que tu vês não é Jesus. — Será, quando muito, a triste imagem que podem formar teus olhos turvos… — Purifica‑te. Clarifica o teu olhar com a humildade e a penitência. Depois… não te hão de faltar as luzes límpidas do Amor. E terás uma visão perfeita. A tua imagem será realmente a sua: Ele! (São Josemaria, Caminho, nº 212). 

***

Seja franco:
A quem você tem rezado? 
Quanto você tem rezado? 
Como você tem rezado?

28 de jan. de 2012

Fala aí, Doutor!

Minha singela e bem-humorada homenagem ao Doutor Angélico, o mais sábio dos santos e o mais santo dos sábios.

Art. 1 — SE É CORRETO USAR A EXPRESSÃO “SÃO TOMÁS”.
O primeiro discute-se assim — Parece que a expressão “São Tomás” está errada.

1. — Pois chama-se cacófaton à expressão acidentalmente formada pela sílaba final de uma palavra e pela inicial da seguinte. No caso, o nome do Aquinate soará para muitos “Santo Más”.

2. DEMAIS — Vieira usa SANTO Tomás, como a maioria dos autores clássicos (Frei Luís de Sousa, João de Barros, Contador de Argote).

3. DEMAIS — Alegam os protestantes que não se deve chamar os homens de santos, por mais ilustres que pareçam, pois só Deus é Santo (cf. 1Sm 2,2).

MAS, EM CONTRÁRIO — Por uma regra de adaptação morfofonêmica, o padrão da língua portuguesa é utilizar santo antes de nomes começados por vogal ou por h, e são antes dos nomes que iniciam por consoante.

SOLUÇÃO — O sistema adotado pelo castelhano é diferente do português. O Dicionário da Real Academia Española ensina que a forma santo é exclusivamente usada antes de Tomás, Toríbio, Tomé e Domingo. Em todos os demais casos, utiliza-se san (San Antonio, San Roque, San Pablo, San Andrés). Portanto, devido à proximidade entre o castelhano e o português, deve-se atribuir o prurido para com a expressão “São Tomás” a um castelhanismo difuso.

Por outro lado, o uso da expressão “Santo Tomás” produz uma espécie de aliteração ou eco que, em última análise, também poderia ser tido por cacofônico: “São Totó Más”.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — O som feio, desagradável, impróprio ou com sentido equívoco, produzido pela união dos sons de duas ou mais palavras vizinhas, deve ser tido como verdadeiro cacófaton apenas quando gera expressão obscena, ridícula ou fora de contexto, o que não é o caso.

RESPOSTA À SEGUNDA. — A partir do séc. XVIII o padrão de adaptação morfofonêmica portuguesa veio se firmando, notando-se hoje a nítida preferência pela expressão “São Tomás”.

RESPOSTA À TERCEIRA — O costume de chamar os cristãos de santos vem de longa data e é atestado por São Paulo em suas cartas. Conforme o testemunho de São Josemaria: “‘Saudai todos os santos. Todos os santos vos saúdam. A todos os santos que vivem em Éfeso. A todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos.’ — Que comovente esse apelativo — santos! — que empregavam os primeiros fiéis cristãos para se designarem entre si, não é mesmo?! — Aprende a tratar com os teus irmãos” (Caminho, nº 469).

21 de out. de 2010

Querer o mal é fazer o bem?

Ditaduras modernas

Temos sofrido as consequências de duas graves tendências culturais: o subjetivismo, que coloca o interesse ou enfoque pessoais acima da necessidade objetiva; e o relativismo, que nivela a importância e as diferenças das coisas.

Ambos apoiam‑se em aspectos parciais da realidade, que são verdadeiros: sem dúvida, a pessoa é mais que suas circunstâncias; e todas as coisas são relativas entre si.

Mas também ambos partem de um erro de fundo acerca do pluralismo, na compreensão do mundo e do posicionamento do homem no mundo.

Medos e confusões

Existem duas corrupções do pluralismo. A primeira é a pluralidade relativista. Não consegue fazer o discernimento de que plural significa muitos, não todos.

A segunda corrupção é a dogmatização da peculiaridade. Aspectos secundários ou minoritários são defendidos como fundamentais, em nome de uma pretensa liberdade e do direito à “diversidade”. Ao mesmo tempo, as opiniões contrárias são rudemente patrulhadas.

Ora, nem todas as opiniões têm o mesmo valor: o que tem o mesmo valor são as pessoas (e os fracos merecem maior respeito!).

Um novo critério

O diabo conseguiu meter em boa parte do povo cristão o temor de parecer intolerante, reacionário, pouco aberto ou fechado (São Josemaria Escrivá, Carta, 19/3/1967, n.º 45). Como resposta a esse problema, fez‑se famosa a homilia do então cardeal Ratzinger pronunciada na Missa Pro Eligendo Romano Pontifice, celebrada a 18 de abril de 2005:
Todos os dias nascem novas seitas e cumpre-se assim o que São Paulo disse sobre o engano dos homens, sobre a astúcia que tende a induzir ao erro (cf. Ef 4, 14). Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, é frequentemente catalogado como fundamentalismo, ao passo que o relativismo, isto é, o deixar-se levar ao sabor de qualquer vento de doutrina, aparece como a única atitude à altura dos tempos atuais. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que não reconhece nada como definitivo e que usa como critério último apenas o próprio “eu” e os seus apetites.
Nós, pelo contrário, temos outro critério: o Filho de Deus, o verdadeiro homem. É ele a medida do verdadeiro humanismo. Não é “adulta” uma fé que segue as ondas da moda e a última novidade; adulta e madura é antes uma fé profundamente enraizada na amizade com Cristo. É essa amizade que se abre a tudo aquilo que é bom e que nos dá o critério para discernir entre o que é verdadeiro e o que é falso, entre engano e verdade.
O verdadeiro pluralismo, portanto, tem uma referência: Jesus Cristo. Contudo, aos ouvidos de muitos, Jesus soa a divisão. Como falar dele numa sociedade laica?

Voltarei à diferença entre laicidade e laicismo. Por hora, basta distinguir laicidade de mundanismo.

Secularidade e humanismo

São Josemaria Escrivá — que dedicou sua vida a “abrir os caminhos divinos da Terra” — sugeria: Com a tua conduta de cidadão cristão, mostra às pessoas a diferença que há entre viver triste e viver alegre; entre sentir‑se tímido e sentir‑se audaz; entre agir com cautela, com duplicidade – com hipocrisia! —, e agir como homem simples de uma só peça. — Numa palavra, entre ser mundano e ser filho de Deus (Sulco, n.º 306).

Secularidade, portanto, é amor ao mundo redimido. Mundanismo, porém, é amor ao pecado. Mas o verdadeiro homem não precisa pecar para ser homem (cf. Bento XVI, Homilia, 8/12/2005):
Manifesta-se em nós a suspeita de que uma pessoa que não peque de modo algum, no fundo, seja tediosa; que falte algo na sua vida: a dimensão dramática do ser autônomo; que faça parte do verdadeiro ser homem, a liberdade de dizer não, o descer às trevas do pecado e o desejar realizar sozinho; que somente então seja possível desfrutar até ao fim toda a vastidão e a profundidade do nosso ser homens, do ser verdadeiramente nós mesmos; que devemos pôr à prova esta liberdade também contra Deus, para nos tornarmos realmente nós próprios. Em síntese, pensamos que o mal no fundo seja bem, que dele temos necessidade, pelo menos um pouco, para experimentar a plenitude do ser. Julgamos que Mefistófeles, o tentador, tem razão, quando diz que é a força “que deseja sempre o mal e realiza sempre o bem” (J.W. v. Goethe, Fausto I, 3). Pensamos que pactuar com o mal, reservando para nós mesmos um pouco de liberdade contra Deus, em última análise, seja um bem, talvez até necessário.
Contudo, quando olhamos para o mundo à nossa volta, podemos ver que não é assim, ou seja, que o mal envenena sempre, que não eleva o homem mas o rebaixa e humilha, que não o enobrece, não o torna mais puro nem mais rico, mas o prejudica e faz com que se torne menor.

22 de fev. de 2010

A primeira redescoberta do valor do trabalho

Valor da vida corrente
Os responsáveis pela primeira redescoberta do valor do trabalho foram os protestantes.

A apologética católica desconsiderou o resgate protestante da vida ordinária, sem dúvida porque fora efetuado desprezando o sacerdócio ministerial, a fim de evidenciar o sacerdócio comum dos fiéis, tão apagado durante a Idade Média.

Desde sua ética individualista, tanto Lutero quanto os puritanos calvinistas viam nos próprios deveres intramundanos uma “chamada” de Deus. Mas estes, seguidos pelos pietistas e metodistas, trouxeram uma ulterior novidade: a convicção de que o amor santifica a vida corrente.

O ponto débil dessa interpretação radica na forma unilateral com que o protestantismo rechaça o celibato, o sacerdócio e o monacato para defender a mundanidade da existência humana. Com efeito, é contraditório ou paradoxal afirmar a mundanidade e defender ao mesmo tempo a tese luterana de que o homem e o mundo estão radicalmente corrompidos. Numa perspectiva protestante, nem o trabalho como “vocação” nem sua “santificação” podem entranhar salvação.

Por isso, o luteranismo tendeu ao providencialismo (aceitação passiva das circunstâncias ditadas pela vontade de Deus). O calvinismo, por sua vez, tendeu à adoção de instrumentos de coação e domínio (dinâmica revolucionária para encobrir a corrupção do mundo mediante o esforço humano).

Nesse sentido, Max Weber fala de uma “ascese intramundana” protestante, que gerou uma moral do esforço e do êxito. Também há aqui se faz patente outra contradição: segundo a tese luterana original, a justiça não pode vir pelas obras.

Portanto, a inclinação protestante ao mundo e à vida ordinária não corresponde a uma autêntica afirmação do mundo. Trata-se, em certo sentido, de uma forma secularizada do ideal ascético monástico.

Mundanismo e consciência religiosa
O ideal utilitarista da diligência (o “time is money” de Benjamin Franklin) não possibilita nem teologia, nem espiritualidade. Mas se disseminou em todo o Ocidente. Eis a causa da concorrência moderna entre mundanidade e consciência religiosa.

No campo católico, muito se acusou o ora et labora beneditino de ser uma instrumentalização do trabalho para fins ascéticos, como mero combate ao ócio monacal. Contudo, embora o trabalho do religioso não lhe advenha de fato do seu interesse pelo mundo, também é pautado por uma preocupação positiva, coerente com sua vocação e missão: buscar energia espiritual para o mundo.

O opus Dei (trabalho de Deus) pregado por São Josemaria Escrivá no século XX trouxe ênfase distinta e demarcou diferenças básicas e essenciais. A meta da santificação do trabalho, em vez de ser a salvação pelo próprio trabalho (como no protestantismo), é proposta aos católicos leigos como abertura à graça divina e à atuação de Deus no trabalho ordinário, através do qual Cristo atrai a si todas as coisas.
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