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30 de mai. de 2014

Quatro formas de olhar

Olhar indiferente

A vida imita a arte porque a vida é monótona. A arte quando imita a vida é novela chata. Quero a surpresa, quero o inusitado. Falta sal, falta brinde.

Para que olhar? Seduza-me.

Olhar através

Triste olhar de quem perdeu a perspectiva. Miopia da vida que ignora o que vê, que se faz cega por fechar os olhos e não pelo ofuscamento de contemplar de frente o Sol.

A quem olhar? Hora de acordar.

Olhar detalhista

Olhar esparramado sem foco nem respeito. Sem peito para enfrentar a vida, que vai furtivo de flor em flor sem nenhuma visitar. A multidão dos detalhes desagrega, confunde, perde, desvia.

Para que olhar tanto? Procuro um quê ou procuro um quem?

Olhar abarcante‎

Meus olhos brilham para ti, canta Marisa Monte, porque a verdade é uma ilusão vinda do coração. O amor não idealiza, ele concretiza. Porque sem ele a realidade é cinza. Porque como vamos desejar o que é imperfeito se o olhar amoroso não conferisse a quem é olhado a visibilidade que lhe falta?

Para que olhar tudo? Basta olhar você.

22 de ago. de 2013

Quatro chaves para formar na liberdade

1) Fomentar a iniciativa: fazer que queiram, animando a fazer.

2) Forjar as convicções: transmitir princípios, mais que conclusões; ajudar a entender. Sedimentar ideias e razões antes das decisões. O verdadeiro estímulo vai além da exortação e da imposição negativas.

3) Abrir perspectivas: ajudar a manter o foco no fim e na causa, mais do que nos erros.

4) Mover pelo carinho: apostar nas pessoas, demonstrando-lhes confiança, fazê-las sentirem-se mais ajudadas que exigidas.

8 de ago. de 2013

Três momentos do processo de secularização

O filósofo canadense Charles Taylor aplica o termo “secularização” em três sentidos. Vale a pena entender essas dimensões para contestar as posturas laicistas e eludir as respostas fundamentalistas.

Fenômeno social e político

Perda — e inclusive ausência — de relevância da religião na vida pública.

Em sociedades laicistas, isso é proposto como um valor, uma exigência. Do mero esfriamento do sentido religioso, dá-se um salto à exclusão da participação pública dos que têm fé.

Ter fé não seria problema — antes, é uma salvaguarda —, se os homens de fé atuassem politicamente de forma secular e responsável, sem apelar a princípios religiosos para justificar suas opiniões.

A dificuldade se estriba em que o simples fato de crer é visto pelos laicistas preventivamente, apoiados numa concepção da religião como algo irracional e, portanto, alheio ao debate público.

Fenômeno pessoal

Diminuição da fé e da prática religiosa, com o afastamento de Deus e da Igreja por parte das pessoas, consideradas individualmente.

A militância antirreligiosa citada acima pode ter sua parcela de influência no esfriamento espiritual das pessoas. Mas esse fenômeno indica uma crise mais profunda: o fracasso da formação catequética, que leva os fiéis a aceitarem visões reducionistas ou distorcidas de suas próprias crenças.

Mudança cultural

Transição, nas pessoas e na sociedade, de uma situação na que assumir a fé era um fato normal, não problemático, a outra na que se considera como uma opção meramente possível entre várias.

O pluralismo é muito bom. No entanto, muitas vezes é alegado para justificar a relativização de valores, com a consequente intolerância pela assunção de convicções.

Em outras palavras: de opção possível, a fé passa a ser vista como opção supérflua, desnecessária e até, algumas vezes, nociva.

***

Ouça o áudio da conferência de Charles Taylor na Universidade Cândido Mendes sobre o processo contemporâneo de secularização:

Parte 1:
   

Parte 2:

1 de ago. de 2013

Sete práticas de um líder

Os líderes comunicam ouvindo, perguntando, olhando, sorrindo. Quanto mais falarem, menos eficazes serão. A prioridade é o outro: por isso, são excêntricos, no bom sentido.

Os líderes conectam com as pessoas, não com gadgets. Desconectam-se da comunicação virtual diante do interlocutor real.

Os líderes sabem dar e doar. Pois sabem que nada perdem quando comunicam, pois é um caminho de ida e volta.

Os líderes têm as portas sempre abertas, pois não atuam como gente importante ou inacessível. Quem mais importa são os outros.

Os líderes elogiam, não para dominar pela vaidade, mas por verdadeiramente reconhecerem os bons trabalhos e se congratularem por eles.

Os líderes escolhem bem as palavras, pois sabem que elas influenciam as atitudes próprias e alheias.

Os líderes calam as falhas dos outros, mas reconhecem as próprias rapidamente: por isso, não se ri de um líder, ri-se com ele.

17 de jul. de 2013

Prepare-se para a JMJ!


Chegou a JMJ! Esteja preparado para essa guerra de paz e alegria que invadirá o Rio de Janeiro!

Para isso, vale a pena fazer um rápido check-list de sugestões e outras dicas:

ANTES

1) Durma e coma muito bem nesta semana. Corte o cabelo. Compre tudo o que poderá eventualmente precisar.

2) Separe seu carregador de celular (e ponha créditos!). Reserve barras de cereal para os próximos dias. Complete a mochila com as roupas necessárias.

3) Monte uma munição de cartões de visita, lembranças, presentes, santinhos, etc., para trocar com as pessoas de longe que você irá conhecer.

DURANTE

4) Faça uma boa Confissão sacramental. Entre outras coisas, ela garantirá que você lucre a Indulgência plenária da Jornada!

5) Seja exemplar no espírito de serviço e no bom humor. Não reclame da bagunça que nos espera, nem das coisas mal organizadas, nem de alguma ideia da organização que pareça brega ou peregrina. E, acima de tudo, ignore os espíritos de porco que fatalmente aparecerão (militantes atormentados das mais extravagantes tribos)…

6) Aproveite muito bem os tempos mortos (de espera, de trem, de caminhada, durante a função). Reze, converse, conheça pessoas, cante, brinque.

DEPOIS E SEMPRE

7) Dê prosseguimento ao incremento espiritual adquirido mediante o estudo sistemático da doutrina católica, a oração constante e a direção espiritual assídua.

8) Mantenha as amizades adquiridas.

9) Vença as travas da vergonha e do respeito humano! Faça muito apostolado!

***

Boa Jornada!

Imagine que a munição é a oração:

8 de jul. de 2013

Dez tipos de estudante


Depois de falar do estudo em si, parece interessante classificar os estudantes conforme seu estilo.

  1. Estudante oficial. Rato de biblioteca, para ele o essencial é o dez, adquirido com o pouco esforço de engolir a matéria enlatada proporcionada pelo professor. Se a lata é grande, pode vir o desespero, a pressa, a impaciência, o nervosismo.
  2. Estudante conformista. Totalmente moldado ao esquema da sua escola, sem voos intelectuais, que nem com o dez se preocupa. Por semana gasta sete cuecas, usa sete pares de meias e tira sete nas provas. Falta-lhe espírito de sacrifício.
  3. Estudante satisfeito. Considera já realizado todo o esforço necessário. Esquece-se que o que lhe oferecem é o ensino vulgar, nivelado pelos valores médios e que o esforço até então desenvolvido nada tem de extraordinário. Precisa de uma injeção de ânimo, se não virá inevitavelmente o tédio, a sensação de que a escola é uma prisão, o professor é o carrasco e a escola, uma tortura. Sonha com as férias como os bois da história sonhavam com verdes pastos aprazíveis enquanto o dono sonhava com um longo carregamento de feno. É o típico estudante que mata aula estando na aula.
  4. Estudante kamikaze. Fracassado de antemão, que vai às provas como a ovelha ao matadouro.
  5. Estudante aloprado. Entra em regime de exceção quando chegam as provas, abandonando todos os demais compromissos.
  6. Estudante poeta. A lei do gosto fez com que até os livros didáticos sejam cheios de fotografias, as aulas sejam apresentações pirotécnicas e tudo se queira aprender sem esforço. Quem estudar sob a ditadura do gosto fatalmente reduzirá seus campos de interesse e se tornará monotemático.
  7. Estudante espertalhão. Adepto da linha do mínimo esforço, para quem ser honrado é ingenuidade. O que lhe importa é pegar o bizu da prova, colar e chorar para passar.
  8. Estudante kantiano. Encara o estudo como um dever, um imperativo categórico, do qual não há como fugir. Falta-lhe amor!
  9. Estudante autossuficiente. Orgulhoso como ele só, acha que não precisa saber mais do que considera importante.
  10. Estudante bem dotado. Orgulho da mamãe, elogiado em classe, modelo dos colegas. Sente-se instigado a novos conhecimentos? Procura pôr suas capacidades a serviço dos amigos? Só assim vencerá o egoísmo, que poderia afastá-lo das pessoas.
E você? Como é que estuda?

12 de abr. de 2013

Cinco pressupostos da rasoura igualitária

A figura ao lado, publicada numa fanpage do Papa Francisco, foi recentemente denunciada ao Facebook como “agressiva” (pois vilipendiaria um símbolo pretensamente bom ao utilizá-lo para algo verdadeiramente bom).

Sem dúvida, todos somos iguais e temos os mesmos direitos, mas tem sido muito comum qualificar de “direito” toda sorte de reivindicação, ainda que antropologicamente falida.

Como um dos reclamantes me escreveu expondo a sua opinião contrária, recheada de críticas à Igreja — que entrou de gaiata na história —, enviei-lhe a seguinte resposta que penso ser útil reciclar aqui.

***

Primeiramente, creio ser preciso reconhecermos que você parte de alguns pressupostos “seus”. Assim, é forçoso que chegue a conclusões divergentes da doutrina da Igreja.


Pois bem, devido à solidez da doutrina católica, esses pressupostos devem ser bastante bem avaliados.

Em primeiro lugar você afirma, por exemplo, que a Bíblia “foi usada como objeto de dominação”, ou que o cristianismo justificou “atitudes horríveis”. É difícil entender a quê você se refere ao dizer isso. Afinal, a Igreja tem 2.000 anos e criou raízes em diversíssimas culturas.

Na verdade, a Igreja civilizou o Ocidente e tornou-se um referencial moral para todo o planeta, além de ser responsável por uma rede mundial caritativa, hospitalar e educativa, sem precedentes na história da humanidade. 

Outro pressuposto seu é que as instituições são obrigadas a se atualizarem de acordo com as mudanças culturais. É uma afirmação ambígua: concordo com você se essas mudanças forem boas e vinculantes. Fico em cima do muro se essas mudanças forem boas e indiferentes. Discordo de você se forem mudanças ruins. 

Seu terceiro pressuposto é que a Igreja tem sido lenta para acolher divorciados e homossexuais. Para afirmá-lo, faz referência a pastorais para separados que permitiriam a Comunhão eucarística.

Ora, não me parece cabível comparar rupturas matrimoniais com orientação sexual. 

Por outro lado, a situação dos divorciados é muito variada: há aqueles que simplesmente romperam seu casamento; outros que estão arrependidos do que fizeram; outros que foram traídos; outros que buscaram outro relacionamento afetivo; outros que contraíram responsabilidades decorrentes de novas uniões; etc. Portanto, reduzir a pastoral dos divorciados à possibilidade de comungar é um simplismo muito grande. 

Na verdade, a doutrina da Igreja é claríssima sobre isso: as pessoas que vivem ativamente em segundas núpcias não podem receber os sacramentos enquanto permanecerem nessa situação, pois suas vidas estão em desacordo com o ideal matrimonial proposto por Cristo. Mas isso não quer dizer que não possam ir à Missa, rezar, receber direção espiritual, etc. 

No fundo, a reivindicação dos sacramentos como se fossem “direitos usurpados aos fiéis” é de matriz marxista e não cristã. Quem assim pensa, não sabe o que são os sacramentos.

Seu quarto pressuposto é que a Igreja ignora o direito das pessoas a terem seus eventuais relacionamentos homossexuais reconhecidos civilmente.

Aqui percebo claramente a redução da noção de matrimônio. Se o matrimônio fosse apenas direito à sexualidade, ou tivesse uma finalidade meramente genital, ou nada tivesse a ver com filhos, ou nem tivesse seu conteúdo determinado pela natureza, então eu concordaria com você.

Por fim, seu quinto e último pressuposto é que os homossexuais seriam vistos pela Igreja como “cidadãos de segunda classe”.

Nada mais longe da verdade! Acima de tudo, a Igreja vê cada um de nós como pessoa humana. O epíteto “homossexual” é desnecessário para defender os direitos civis de qualquer um.

18 de dez. de 2012

Três graus de silêncio

Voltar a si

Significa a cessação de todas as fantasias, imagens e figuras sensíveis. É o silêncio de todas as coisas criadas.

Seu fruto é o domínio das paixões, alheias então a quaisquer movimentos exteriores.

Entrar em si

Refere-se ao silêncio interior, de si mesmo.

Desperta a atenção para a presença de Deus e os seus mistérios. Torna mais metido em Deus do que em si mesmo.

Subir em si

Consiste na união transformante, em adormecer embriagado na alcova do amor, esquecido da fraqueza da própria condição e confiante do eudeusamento que lhe é concedido.

***
A riqueza do espírito é o raciocínio e conduz à confusão.
A pobreza da oração é o amor e conduz à união.

20 de nov. de 2012

Treze manifestações de soberba

A soberba é o mais feio dos vícios. Consiste na idolatria de um bem aparente muito particular: o próprio eu.

Tão ou mais difícil que combater esse vício é perceber sua malícia. O amor próprio parece assaz natural, a ponto de prejudicar a frieza necessária para uma autoavaliação equilibrada.

Seus vícios conseguintes são o orgulho, a vanglória, a vaidade, a timidez, a vergonha, os respeitos humanos e, até, o desprezo de Deus.

A soberba é uma hidra com muitas cabeças, cujo veneno desgraça a vida. Identifiquemos algumas delas, façamos um elenco das suas manifestações:
  • Visão sistematicamente ácida e negativa acerca de tudo. 
  • Tristeza cultivada e defendida. 
  • Crises de consciência diante dos conselhos recebidos. 
  • Falta de vibração diante dos pequenos detalhes do amor. 
  • Explosões de ira. 
  • Criar uma teoria da conspiração. 
  • Achar que nos exigem muito. 
  • Endurecer com os próximos e conhecidos, e amolecer com os distantes e desconhecidos. 
  • Desprezo das amizades. 
  • Preferir a própria excelência à dos outros. 
  • Fazer os pensamentos, conversas e gestos girar vaidosamente em torno de si. 
  • Suscetibilidade enfermiça. 
  • Simular dor, tristeza e doença para obter consolo. 
Por outro lado, há cinco armas para se combater a soberba:
  • Considerar frequentemente a “ladainha do nada”: não posso nada, não valho nada, não sou nada… 
  • Conhecer a humildade, desejá-la, buscá-la e pedi-la a Deus. 
  • Encontrar alegria em servir abnegadamente os demais. 
  • Retificar a intenção muitas vezes ao dia, especialmente nos triunfos e fracassos. 
  • Ser agradecido, também e em particular nas humilhações.

13 de nov. de 2012

Os nove grandes Doutores

Na abside da Basílica de São Pedro, em Roma, encontra-se o monumento à Cátedra do Apóstolo, obra adulta de Bernini, realizada em forma de um grande trono de bronze, sustentado pelas imagens de quatro Doutores da Igreja, dois do Ocidente, Santo Agostinho e Santo Ambrósio, e dois do Oriente, São João Crisóstomo e Santo Atanásio. 

A Cátedra de São Pedro faz referência a um antigo costume romano. Estes celebravam seus defuntos em fevereiro, concluindo suas comemorações a 22 desse mês. Junto aos túmulos, tomavam um repasto sagrado, deixando uma cadeira vazia em representação do antepassado falecido. Rapidamente, o dia 22 de fevereiro passou a recordar a “cátedra” de seu defunto mais ilustre — São Pedro —, junto de cujo túmulo tomavam a refeição eucarística.

A partir do século IV, a expressão “cátedra” também passou a significar a sede fixa do Bispo, posto na igreja matriz de uma diocese, que por isso é chamada de catedral, e constitui o símbolo da autoridade e do magistério do Bispo. 

A presença dessas quatro figuras de Bernini, sustentando a cátedra petrina, evoca a importância que esses homens tiveram — e têm — para a fé da Igreja.

Ambrósio, Gregório, Agostinho e Jerônimo
Agostinho e Ambrósio já figuravam como as grandes luminárias do Ocidente, desde 1298, ao lado de Jerônimo e Gregório I, o Grande. A partir de 1568, São Pio V juntou-lhes outras quatro personalidades eminentes do Oriente: Atanásio, João Crisóstomo, Basílio, o Grande, e Gregório Nazianzeno.

No mesmo ano, Tomás de Aquino foi associado à companhia tão seleta, na qualidade de único Doutor até então não pertencente à Antiguidade. É Doctor Communis, tanto para o Ocidente quanto para o Oriente. 

Atanásio
Aqui seria excessivo falar de todos eles detalhadamente. Mas faço questão de pinçar uma frase de cada um, colhidas do livro Os Doutores da Igreja, de Jean Huscenot:

1) Atanásio, Patriarca de Alexandria (298-373), cinco vezes exilado, responde aos policiais que perguntavam por ele: “Vi Atanásio sim. Ele está pertíssimo!”

2) Basílio Magno, Bispo de Cesareia (330-379): criador de um hospital, advertia os que se despreocupam do próximo: “Não há dúvida de que oprimes tantas pessoas quantas as que poderias ajudar.”

Os amigos Basílio e Gregório
3) Gregório Nazianzeno, Arcebispo de Constantinopla (329-373): amicíssimo de Basílio, confessa: “Cada qual tem o seu ponto fraco; o meu é a amizade!” 

4) Ambrósio, bispo de Milão (340-397): apelidado de Doutor da Virgindade, dirá a quem não preza o matrimônio: “Quem condena o vínculo conjugal condena também os filhos e a sociedade.”

5) João Crisóstomo, Arcebispo de Constantinopla (347-407): sem papas na língua, acabaria sendo perseguido por todos os lados. Dentre suas invectivas, destaca-se esta contra os avarentos: “Ide ao altar da avareza e lá sentireis um cheiro forte de sangue humano. (…) É que a avareza quer a alma da vítima e também a do seu sacrificador.”

Crisóstomo
6) Jerônimo (347-420): após ter sua casa incendiada pelos invejosos hereges pelagianos, escreve: “Vale mais mendigar o pão do que perder a fé.”

7) Doctor gratiæ Agostinho, bispo de Hipona (354-430): a humildade intelectual da maior inteligência do Mundo Antigo o levou a revisar sua vasta obra: “Quero submeter a um escrupuloso exame tudo o que escrevi — livros, cartas ou tratados — e assinalar severamente as suas faltas… Julgar-me a mim próprio, na presença do único Mestre, é o meu único recurso para escapar ao rigores dos seus juízos.”

8) Gregório I Magno, Papa de Roma (540-604): considerado o último dos romanos, transmitiu à Idade Média a herança da Antiguidade que naufragava. Homem versátil e capaz, reivindicava para si o título exclusivo de “Servo dos servos de Deus”, reconhecendo que lhe coubera estar na transição das épocas: “Sacudido pelas vagas das questões, sinto a tempestade roncar por cima da minha cabeça.”

Tomás
Para finalizar, um conselho do Doctor Angelicus, Tomás de Aquino (1225-1274), acerca do presente tema:

“Ora, Deus comunica a verdade pelo brilho da sua natureza;
os doutores são apenas seus ministros,
os quais, portanto, devem ser puros, inteligentes, fervorosos e dóceis.
Por si mesmos, não têm nenhuma suficiência, 

mas podem esperar tudo de Deus”.

9 de out. de 2012

Quatro olhares sobre o quotidiano

Um tema relevante para o atual diálogo entre crentes e descrentes é o conteúdo religioso da banalidade.

Tanto o materialismo de vidas fechadas à transcendência, quanto o desencanto de vidas em constante evasão, produzem uma opacidade que torna difícil ver a Deus por trás das coisas.

1) Segundo Eurípides, o quotidiano é exatamente aquilo que o herói abandona em busca da aventura. Na mesma linha, ainda hoje o quotidiano em geral é tido como uma realidade alienante.

2) Para Heidegger, já que a temporalidade seria a marca do nosso ser, a autenticidade está em viver para a morte, desprendido das variedades mundanas. Cria-se assim um dilema entre a autenticidade e a quotidianidade.

Edith Stein criticou essa “tristeza nocional” diante do banal, pois equivale a pôr o homem no centro do mundo; pior, significa negar ao homem uma fonte que o transcenda, para além da temporalidade.

3) Há, contudo, sociólogos como Alfred Schutz, Peter Berger e Thomas Luckman, que avaliam positivamente a rotina. Veem no tecido das vicissitudes quotidianas o setor mais real das experiências sociais.

4) No âmbito teológico, Karl Rahner esboçou a experiência de graça que supõe a existência quotidiana. Bernhard Casper fundou a espiritualidade do dia-a-dia na experiência da gratidão, no valor cooperante do trabalho e no anelo de redenção. Leo cardeal Scheffczyk viu no dinamismo da vida diária um canal para o progresso da imagem de Deus no homem.

Mas, acima de todos, São Josemaria criou uma autêntica e completa teologia do trabalho como meio para se alcançar a perfeição da caridade:

Eu lhes asseguro, meus filhos,
que quando um cristão desempenha com amor
a mais intranscendente das ações diárias,
está desempenhando algo
donde transborda a transcendência de Deus.
Por isso tenho repetido, com insistente martelar,
que a vocação cristã consiste
em transformar em poesia heroica a prosa de cada dia.
Na linha do horizonte, meus filhos,
parecem unir-se o céu e a terra.
Mas não: onde de verdade se juntam é no coração,
quando se vive santamente a vida diária...

E você, como encara o dia a dia?

27 de set. de 2012

Nove razões do atual entusiasmo por Hebe (Ήϐη)

Ήϐη
Flos ætatis, periculum tentationis.
— A flor da idade, perigo da tentação.
(Santo Agostinho, Ad iuvenes

Segundo Horácio, a juventude é cereus in vitium flecti: tão flexível para o vício quanto a cera (Ars poëtica, 163). A sentença também vale ao contrário, e talvez ainda mais. Com efeito, uma personalidade jovem bem formada, quanto não poderá fazer de bom na vida.

Horácio dirá mais; para ele, o jovem é tardus provisor: um tardo previdente (ib., 164). Por sua vez, Cícero afirmará: temeritas est florentis ætatis, prudentia senescentis — se a temeridade é própria do jovem, a prudência o é do ancião (De senectute, VI, 20).

Não obstante precisar de orientação, moderação e advertência — a fim de alcançar a maturidade —, por incrível que pareça a juventude tem sido proposta como exemplo e referência para os mais velhos.

Diz-se que, num mundo pessimista, as razões para a hipertrofia da juventude são:

1) Os jovens veem a vida como curtição. — Mas a “realização pessoal” é inimiga da “realização dos valores”?

2) Os jovens buscam a espontaneidade. — Mas é a espontaneidade que nasce das virtudes?

3) Os jovens sabem quebrar as regras e convenções. — Todas?

4) Os jovens desejam ser “eles mesmos”. — Sem abnegação? Sem transformação?

5) Os jovens vivem e interpretam seu próprio tempo. — Isso é efemeridade ou busca do absoluto?

6) Os jovens são livres do passado. — Eles não têm identidade?

7) Os jovens têm espírito crítico. — Mas sem terem ainda formado o critério?

8) Os jovens são a vanguarda profética das causas da justiça. — Que romântico!

9) Os jovens são intuitivos. — Sobre o quê?

Tenho dúvidas se divinizar a juventude não poderia causar ainda mais pessimismo à medida que sobrevém o envelhecimento. Mas essa inflação de Hebe também tem seu lado positivo se ela ajudar a perceber a emergência educativa em que vivemos.

Noutras palavras: se contemporaneamente houve uma positiva mudança semântica e de abordagem quanto à juventude, eis aí uma excelente oportunidade de cuidar com mais esmero da sua educação.

Educar é tratar um sujeito como se fosse objeto, embora sem tolher sua liberdade. E se há olhos tão otimistas para objeto tão nobre quanto a juventude, então é hora de cuidar dela com especial atenção.

Para isso, a JMJ será uma oportunidade ímpar. Fique ligado.

21 de set. de 2012

Três formas de falar da JMJ

Durante os quinze dias dos Jogos Olímpícos de Londres, apenas 900 mil espectadores utilizaram os transportes públicos da cidade. Por outro lado, é de se supor que o número será muito inferior no Rio de Janeiro durante a Copa do Mundo de 2014, pois o evento será restrito a jogos no Maracanã.

Nesse contexto, é sintomática, embora não é surpreendente, a pouca ênfase que se tem dado à próxima Jornada Mundial da Juventude na mídia, que atrairá no mínimo um milhão e meio de pessoas de todos os países para ficarem quatro dias na cidade. Ou seja, um evento de impacto muito maior, tanto numérico quanto em termos de valores.

Não surpreende. Como também não surpreendem as estatísticas sobre a redução do número de católicos no país. A redução é evidente. Contudo, “evidente” significa aparente. Explico-me.

Vivemos num mundo de aparência. Todos tentamos aparentar ser melhores do que somos; o que não é mau, já que por causa desse esforço, talvez realmente melhoremos um pouco. E quem vende tenta fazer sua oferta aparentar qualidade, e quem pechincha tenta aparentar desinteresse, etc.

E a Globo tenta de modo cínico aparentar respeito pela Igreja Católica exibindo o recém-lançado hino da Jornada na despedida do Fantástico. E os “católicos engajados” tentam de modo artificial manifestar uma penetração social que não possuem mediante #hashtags no Twitter e curtições no Youtube.

Nada disso é mau. Tudo isso é sim uma maravilhosa oportunidade de descobrir a paixão por comunicar.

Nesse aprendizado tão curto — pois a JMJ está às portas! —, é urgente levar em conta três coisas ao explicar a JMJ para nossos amigos:

1) A JMJ é para todo mundo, justamente porque é “católica”, universal. Enquanto cismarem em etiquetá-la de “coisa de igreja”, será mesmo um fiasco. Ninguém hoje em sã consciência suporta esse ar rarefeito de sacristia.

2) Os “católicos engajados” precisam abdicar de demarcar território midiático. A população brasileira continua sendo católica, ainda que a maioria seja de católicos à deriva. Uma análise meramente sociológica, de observação externa, que nivela denominações de fundo de quintal com a Igreja é uma aberração estatística. Por isso, ser “missionário” fazendo guetos cibernéticos é contraproducente: apenas aprofunda o sentimento de alheamento dos que estão longe. Portanto, encantar com a JMJ, sem “panfletar” a JMJ.

3) O verdadeiro apostolado se realiza através da amizade, que é comunhão de vida, não de linguagem. As mídias não são a “linguagem dos jovens”, mas a linguagem de todos. É ridículo achar que se tem penetração social apenas porque se criou um site, por exemplo. O que falta de verdade é lançar boias aos que estão à deriva, ou ir ao encontro dos que não querem retornar. Por isso, o eventual “fiasco” a que eu fazia referência é a eventual perda de uma oportunidade ímpar de resgatar os que estão perdidos por aí. Mas talvez, dado o nosso terceiro-mundismo, essa oportunidade não seja nossa mesmo, e a JMJ já tenha valido só por remexer as águas.

Sem dúvida, a JMJ será um sucesso para os “engajados” brasileiros, para os estrangeiros e para os que abrirem os olhos quando virem o mar de gente confluindo para a Cidade Maravilhosa. Quem sabe então muitos dos que estão à deriva começarão a perceber que há um farol no meio desse mar da vida… ainda que não lhes tenhamos mostrado a tempo essa luz.

O negócio é trabalhar e confiar! Afinal, o efeito JMJ será mais fruto da graça do que dos esquemas.

E você? Em que poderia melhorar a sua forma de comunicar?

4 de ago. de 2012

Três elos para uma fidelidade inoxidável

Às vezes, a vida “puxa o tapete”. Nessas horas, a gente percebe que castelos de areia não são um apoio confiável. A essas desoras, a gente constata a carência de apoio.

Conheci pessoas que, para justificar porque suspeitavam de todo mundo e não acreditavam na fidelidade, até citavam a Bíblia: Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, que na carne busca a sua força e afasta do SENHOR seu coração! (Jr 17,5).

Embora efetivamente não devamos buscar arrimo nas coisas desta terra, nem na vontade volúvel das pessoas, isso não significa que a fidelidade inexista. É possível a nossa fidelidade e é possível a fidelidade das pessoas. Todos precisamos do apoio uns dos outros, como as cartas do baralho se sustêm mutuamente num castelo. Afinal, não somos peças isoladas.

Vulneráveis castelos de areia e frágeis castelos de cartas. Mas continuam a ser castelos, construções comuns que apontam a um desejo maior de união.

Se a fidelidade é possível, convém imbuir-se dos meios pelos quais ela é forjada. Para sermos rocha firme, sólida, constante, em que os demais possam se apoiar e assim se sentirem à vontade para corresponder com igual dose de fidelidade, precisamos cuidar de três aspectos:

1) Não exigir nada para si. Gosto de dizer que, mais do que ter mentalidade de pai, devemos ter mentalidade de avô. É que avô a tudo se nega por amor dos netos. E geralmente, avô não tem “instância superior” a quem recorrer. A abnegação é uma grande mostra de maturidade.

2) Ir na vanguarda. É importante ter iniciativas, para que a passividade e a falsa humildade — que equivalem à pusilanimidade e ao comodismo — não esterilizem o amor.

3) Encarnar o valor da fidelidade. A fidelidade exige estudo, por incrível que pareça. Numa época tão triste como a nossa, em que os mais elementares princípios morais são bombardeados por indecente propaganda e modelos transviados, necessitamos de recursos intelectuais para não ceder a argumentos tão pífios quanto difundidos. Por exemplo, conhecemos quantos casos de infidelidade que começaram com a frase “tenho direito a ser feliz”? A mente deve estar livre dessas teorias furadas, dessas retrospectivas tendenciosas, dessas concessões à sensualidade.

***

Responda com sinceridade: você sabe onde buscar (e encontrar) boa literatura sobre o tema?

25 de jul. de 2012

Parece que há quatro tipos de ateus

Num mundo de rótulos ideologicamente atribuídos e de tribos urbanas minoritárias que demandam por espaço social, concedo-me a liberdade poética de fazer a taxonomia da irreligiosidade, tão agressiva quanto tola, que nos avassala. E assim, no reino do ateísmo, enumero quatro filos.

A grande maioria dos descrentes é a dos ateus práticos, isto é, a daqueles que, sem assumir a tese da inexistência do Absoluto, vivem do contingente como se no efêmero encontrassem a solidez da própria vida. Entrar a fazer parte desse grupo é uma tentação muito próxima para os cristãos à deriva

Em segundo lugar, vêm os ateus teóricos militantes. Multiplicam-se na mesma proporção que cresce o laicismo. Transformam a laicidade do Estado, ou a autonomia da ciência, ou as promessas da tecnologia, ou as reivindicações ideológicas, ou quaisquer outras metanarrativas, numa espécie de religião. São extremamente “clericais”, porquanto veneram bezerros de ouro feitos pelas próprias mãos, e prestam vassalagem a tristes gurus que pontificam sobre a areia movediça de vãs filosofias. A fileira desses ateus costuma ser engrossada por pessoas pouco afeitas ao estudo e com pouca capacidade especulativa, que confundem verniz cultural e ciência de jornal com erudição e sabedoria. 

Em terceiro lugar estão os agnósticos. Não têm a temeridade dos segundos para negar a existência de Deus, nem a desfaçatez dos primeiros para assumir uma vida frívola sem pensar nas consequências. Por isso, suspendem o juízo quanto à questão crucial de Deus, disfarçando a frivolidade com a máscara da ponderação e a temeridade com a máscara da tolerância. A tal grupo sentem-se atraídos aqueles que, diante do mistério de Deus — o qual sem dúvida supera a razão humana —, preferem negá-lo a aceitá-lo maior que sua própria capacidade intelectual.

Por último, existem os ateus “deslocados” ou “atormentados”. É um grupo bizarro, que pretende não ser confundido com os anteriores. Ele nasce da ganga das defecções. Advém do insucesso ascético e do desencanto espiritual. Assemelha-se à canalha que tenta limpar o local do crime. Sem dúvida, Deus não pode ser confundido com as imagens nem com os sentimentos que tenhamos dele, mas o fato de que a piedade autêntica não seja uma “piedade sensível” não implica que não deva ser uma “piedade sentida”.

Os primeiros ateus rezam ao próprio ventre; os segundos, aos próprios bofes; os terceiros, à própria vaidade; os últimos, ao próprio orgulho. Nenhum reza a Deus. Os ídolos que derrubam são o simulacro dos próprios fracassos. Tais posturas só podem ser superadas pela verdadeira oração.

Mas a verdadeira oração exige penitência:

Esse Cristo que tu vês não é Jesus. — Será, quando muito, a triste imagem que podem formar teus olhos turvos… — Purifica‑te. Clarifica o teu olhar com a humildade e a penitência. Depois… não te hão de faltar as luzes límpidas do Amor. E terás uma visão perfeita. A tua imagem será realmente a sua: Ele! (São Josemaria, Caminho, nº 212). 

***

Seja franco:
A quem você tem rezado? 
Quanto você tem rezado? 
Como você tem rezado?

8 de jul. de 2012

Sete razões para escolher Android e não iPhone

Troquei de celular. Minha Palm Pixi morreu há três meses e me vi na necessidade de migrar de plataforma. (Permitam-me uma digressão: a pioneira Palm mereceria um estudo de caso acerca de sua incompetência empresarial.)

À hora de escolher, fui inexoravelmente compelido a optar pelo Android. Até o momento, superou minhas expectativas. Aponto abaixo as razões da minha escolha:

6. O Android permite customizar completamente sua área de trabalho. Para quem gosta de penduricalhos, widgets, coisas girando, etc., é muito bom. Abaixo aquela coisa quadrada de ícones antiquados. Há até uma mídia social para trocar essas soluções: http://mycolorscreen.com/.

5. O Android é open source, isto é, não se importa se você hackeia o telefone. E se o mercado de aplicativos pode conter lixo, não importa. Garimpagem faz parte da índole de qualquer bom comprador. Onde há liberdade de mercado há maior crescimento.

4. O Android é, verdadeiramente, multitarefa. Como um microcomputador, permite alternar entre os aplicativos, que rodam em paralelo. E, para meu consolo, é possível fechar os programas como eu fazia na Palm: apenas arrastando a janela para fora da tela. Além disso, o Android roda flash. Assim, é desnecessário usar buscadores customizados que se adaptem ao conteúdo da rede.

3. O Android roda numa centena de aparelhos, à sua escolha. O iPhone só roda em dois. Você pode optar por um celular com teclado, ou com troca de bateria, ou com tela maior, ou tela menor, com entrada HDMI, ou USB, etc. Além disso, Android é o que mais se vende no mundo. Fragmentação pode parecer confusão, mas é sinônimo de opção.

2. O Android é plug and play. Estou livre daquele maldito iTunes invasivo.

1. O Android é da Google. Ou seja: integra tudo.

Ø. iPhone é grife. E eu nunca pago por etiqueta.

É óbvio que, ao escolher o Android, abro mão da excelente assistência técnica e da robustez da maçã do Steve Jobs. Mas existem mais coisas nesse mundo da informática além de conforto e segurança.

Minha única frustração foi não ter encontrado um aplicativo decente para ler a Bíblia em várias línguas, como havia na Palm. Os que mais se assemelham são pagos e fechados, todos restritos aos critérios arbitrários da bíblia King James. É pura miopia intelectual dos desenvolvedores protestantes, assim como lamentável desinteresse e triste omissão dos desenvolvedores católicos. De qualquer jeito, isso também não existe para iPhone.

*****

Prometo para breve um aplicativo deste Depósito de ideias.

18 de jun. de 2012

Cinco segredos da JMJ

Como necessário complemento aos sete passos para uma bem-sucedida JMJ no Rio de Janeiro, apresento os cinco pontos auge da JMJ de Madri, analisados por Bento XVI em seu balanço de fim de ano (que vale a pena ler na íntegra).

Nova experiência de catolicidade

A JMJ é a nova evangelização ao vivo. Permite apalpar a catolicidade, isto é, a universalidade da Igreja: gente de todos os continentes que, sendo tão diferente pela língua, cultura, nação, compartilha os mesmos sentimentos e ideais. É uma verdadeira aula de pluralismo.

Nova forma de ser homem

Em Madri houve cerca de 20.000 jovens voluntários, indicando a perene vitalidade da caridade, que se reveste formas novas conforme os tempos. Através do altruísmo, da solidariedade e do serviço, muitos redescobrem o amor de Deus e do próximo, que é o verdadeiro motivo da ação humana.

Revalorização da adoração

A presença real de Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento da Eucaristia é o ponto focal da JMJ. Dali se alimenta a Igreja e aí encontra forças cada fiel. É a atitude que se tem diante da Eucaristia que define se uma pessoa está ou não comprometida com Cristo.

Redescoberta da Penitência

Não seria autêntico um encontro com Cristo que descuidasse a penitência. Jesus Cristo é exigente e a proposta de vida cristã tem como meta nada menos que a santidade. Por isso, o esforço penitencial de purificação, que todo batizado envida ao longo de sua vida, necessita da graça de Deus para chegar à perfeição. A confissão sacramental dos pecados pessoais ao sacerdote é o único meio ordinário, instituído pelo próprio Cristo, para responder ao esforço humano com o perdão gratuito de Deus. Quem frequenta esse sacramento, recebendo a absolvição de sacerdotes experimentados, enche-se de alegria, de segurança, de confiança em sua luta por ser uma pessoa melhor.

Refortalecimento da alegria

Segundo São Tomás de Aquino, a alegria é “certo ato e efeito da caridade”, já que “a mesma caridade inclina a amar, a desejar o bem amado e a gozar nele” (S. Th., IIa-IIæ, q. 28, a. 5, c). Se pela caridade os cristãos são reconhecidos, em toda parte onde estiverem seu traço característico será, portanto, o sorriso da alegria.

11 de jun. de 2012

Quatro sintomas literários

Reúno algumas ideias expostas por Alcir Pécora na Academia Brasileira de Letras a 3/4/12.

Segundo Bill Readings, autor de A Universidade em Ruínas, a literatura ocupava na virada do século XVIII para o XIX um posto central na cultura, entre outros motivos em virtude dos nacionalismos e do seu enfrentamento com a ciência.

Na era do pós-Estado (já que estamos na pós-era: a pós-modernidade é isso!), não há mais porquê a literatura manter tal centralidade. Por exemplo, desde os anos 60, a literatura vem marcada pela crítica da representação, pela crítica dos paradigmas. Ela sofre uma espécie de sanha iconoclasta, graças à esterilidade do relativismo literário que desautoriza a crítica literária.

Quatro são as consequências desse estado de coisas:

1. “Epifania linguageira”: centralidade da linguística no diálogo cultural, com um ufanismo míope e repetitivo. É o neossubstancialismo da linguagem, que a apresenta como mais um objeto entre as demais coisas.

2. Viver à época dos estudos culturais: rechaço da tradição normalizadora, com seus cânones dependentes da hierarquia política (raça, gênero, religião, etc.). Aceitação da literatura de testemunho, em que o trauma é nuclear e se faz, paradoxalmente, a última esperança ontológica do escritor. Interpreta-se a sustentação de cânones como tradicionalismo não revisionista. Cultura e minoria tornam-se os personagens de uma nova épica.

3. Doença do “presentismo”: a crítica do cânone inflacionou o corriqueiro e levou ao apogeu do arquivo, pois tudo parece valer a pena. “Se Vieira não anotar a profecia, ela ocorrerá antes de ser dita”. É o “museu de tudo”. Todos se sentem na necessidade de profetizar a própria experiência. Os eventos são patrimonializados. Sofre-se a vontade de mapear. É a abolição da hierarquia. O passado deixa de ser a infância do presente para se tornar a oportuna rapina do hoje. Enseja-se a positivação da multiplicidade e da diversidade. O coetâneo se justifica sem argumento e debate.

4. Literatura feita mera ilustração da teoria literária: impõe-se aos pesquisadores a química porca de ter de ler as obras com lentes pré-concebidas. A alienação se faz tamanha que se pensa poder extrair de grupos de obras “poéticas” e “teorias”.

Para superar tal fim de linha intelectual, é preciso dramatizar os aspectos dessa crise. O democratismo, em que cada um se faz artista de si mesmo, tem na internet uma aliada e na indústria cultural uma fonte de desvarios.

Por isso, abdicar de juízos de valor implica perder-se ao começar. Literatura é noética, sem o que só merece riso e patrocínio. Não se deixe levar pela indústria de sequestros literários. Seja crítico, mas um crítico exigente.

14 de mai. de 2012

Quatro doenças da alma

Alma burocrática é a dominada pela rotina. Os procedimentos a agrilhoam, os padrões a determinam.

Alma boêmia é vítima da lei do gosto, e contra ela não há anistia.

Alma rachada pela duplicidade é a que entra nos terrenos por dois caminhos.

Alma derramada é a fragmentada pela dispersão, esparramada na desatenção.

A primeira entregou sua liberdade às regras protetoras; a segunda, ao prazer egoísta; a terceira, ao interesse escuso; a última, à falta de compromisso.

A panaceia compõe-se de enfrentar riscos, aceitar o sacrifício, sondar as próprias intenções, assumir responsabilidades.

Como está a sua alma?

23 de abr. de 2012

Sete passos para uma bem-sucedida JMJ Rio2013

Michael Cook escreveu acerca da JMJ ocorrida em Madri em 2011, aliás muito bem sucedida, a despeito da aura negativa com que a mídia teima em avaliar os eventos pontifícios.

Com base em suas ideias, pensei em sete providências para que a JMJ carioca de 2013 também dê seu fruto.

1) Que a nova geração assuma sua posição na Igreja

Eventos como World Youth Summit das Nações Unidas, ou mesmo shows do porte do Rock in Rio, embora reúnam milhares de jovens (e tantos não tão jovens), não se comparam às Jornadas Mundiais da Juventude, que costumam atrair milhões de peregrinos de centenas de países, os quais suportam o sacrifício de pagar uma longa viagem e de acomodar-se desconfortavelmente. A razão está no compromisso, na identificação com a Igreja Católica.

Portanto, o sucesso da JMJ passa pela interiorização desse compromisso. Sem dúvida, a desproporção da assistência indica que a próxima geração herdará os valores da Jornada e não dos shows patrocinados, mas isso não isenta da necessidade de assimilá-los e de traduzi-los em propósitos práticos, pessoais.

2) Aprender de Bento XVI, que dita a agenda moral do Ocidente

Desde antes de sua eleição, o Papa Bento alertava para a “ditadura do relativismo”. Seu ensinamento desmonta as atitudes politicamente corretas e a neutralidade moral e tem conseguido chegar aos ouvidos de autoridades aparentemente não tão dispostas a ouvi-lo, como as britânicas ou as germânicas, por exemplo.

Mas se o Papa tem feito gente alheia à Igreja pensar, poderíamos dizer o mesmo dos católicos (e dos católicos brasileiros)? Muitas vezes se tem a impressão, e especialmente no Brasil, que a maioria das pessoas ainda ignora as propostas lançadas por Bento XVI. Portanto, mãos à obra: é a hora de inteirar-se, ler, pôr a mão na cabeça e refletir um pouco.

3) Recorrer ao think tank de um homem só… que é de graça!

O crítico cinematográfico Neal Gabler, do New York Times, lamentou o fim do pensamento profundo e anunciou o advento da pós-ideia. Se isso é assim nas grandes metrópoles do Ocidente, não o é no Vaticano. E mesmo que setores intelligentsia não leiam a obra de Ratzinger sobre moral, filosofia, estética, economia e responsabilidade social, muitos jovens já leram.

Tamanha quantidade de ideias construtivas — acessíveis e gratuitas — promete deixar rastro e construir o futuro de uma geração carente de referenciais. E quanto a você, já leu também?

4) Encontrar a única saída para a CRISE (econômica, política, etc.)

Bento XVI anteviu esses e outros descaminhos e apontou respostas antes que as pessoas começassem a perguntar. A dimensão ética da economia não deve ser minorada nem substituída pela mera regulação.

A gratuidade é uma manifestação concreta da justiça e da caridade cristãs, que traz um remédio providencial para tais momentos de dificuldade. Impõe-se, mais do que nunca, redescobrir as múltiplas facetas da generosidade e do amor.

5) Renunciar ao consumismo e ao sexo desumanizador

Uma liberdade de mal com a verdade transforma-se em utilitarismo. O coração dos que reduzem sua liberdade à mera escolha atola-se no consumismo avaro e no hedonismo erótico. A desilusão é consequência óbvia.

A redescoberta de Deus inspira os sonhos de juventude, levanta o olhar para desafios que valem a pena, alargam o coração para os grandes ideais. Só contemplando a Deus pela oração e ouvindo sua Palavra é possível olhar para o homem e compreendê-lo.

6) Reafirmar que a verdade é mais forte que a utilidade

O discurso para os professores foi o mais memorável de Bento XVI na JMJ da Espanha. Propôs-lhes ensinar a verdade com o exemplo e com a palavra, mais do que mero know-how.

A questão aqui é como encaramos a vida universitária, problema que não afeta apenas o corpo docente, mas também o discente.

7) A JMJ ainda é o segredo bem guardado para o mundo

A cobertura jornalística das JMJs é paupérrima. Se um exíguo grupo de homossexuais fizesse barulho ou reunisse uma boa quantidade de gente disposta a presenciar extravagâncias, receberia holofotes. Não é de estranhar tão pouca atenção da opinião pública para um evento que reúne mais de um milhão de jovens? A JMJ das Filipinas, por exemplo, foi o ato mais massivo da história da humanidade, com quatro milhões de pessoas.

Dizem que o Papa alertou o prefeito do Rio de Janeiro que a JMJ trará um impacto para a cidade muito maior que a Copa ou as Olimpíadas, além de ser muito mais difícil de organizar. Provavelmente, as implicações políticas do encontro até facilitem sua prévia difusão midiática por via institucional.

De qualquer modo, é prioritário explicar para todo mundo o que é a JMJ. Vai na linha do conselho de São Rafael a Tobit: “É bom manter escondido o segredo do rei, mas é honroso revelar e celebrar as obras de Deus” (Tb 12,7a). Com isso, também se prepara a cidade para que não apenas tenha os braços abertos, mas saiba fechá-los num abraço caloroso ao Papa e aos peregrinos.

Contudo, talvez não seja tão peculiar essa miopia jornalística. Afinal, do mesmo modo que a mídia não anteviu a Primavera Árabe, nem a desintegração da União Soviética, etc., é incapaz de captar a história oculta dessas Jornadas.

Essa “história oculta” é capilar em todo o mundo através do fermento de cada jovem transformado pelo encontro com Jesus Cristo através da figura do Pontífice. Ele mesmo declarou aos jornalistas:

A sementeira de Deus é sempre silenciosa, não aparece imediatamente nas estatísticas. E com a semente que o Senhor lança na terra durante as JMJs, acontece como com a semente da qual Ele fala no Evangelho: algumas caem ao logo da estrada e perdem-se; outras caem sobre os pedregulhos e perdem-se; algumas caem entre os espinhos e perdem-se; mas algumas caem na terra boa e produzem muito fruto. Exatamente assim acontece com a sementeira da JMJ: muito se perde — e isto é humano. Com outras palavras do Senhor: o grão de mostarda é pequeno, mas cresce e torna-se uma árvore frondosa. E ainda, certamente, muito se perde, não podemos dizer imediatamente: a partir de amanhã recomeça um grande crescimento da Igreja. Deus não age assim. Mas cresce em silêncio e muito. Sei que das outras JMJs nasceram muitas amizades, e para toda a vida; muitas experiências novas de que Deus existe. E sobre este crescimento silencioso nós depositamos a confiança e estamos certos, embora as estatísticas não se pronunciem muito, de que a semente do Senhor realmente cresce e, para muitas pessoas, será o início de uma amizade com Deus e os outros, de uma universalidade do pensamento, de uma responsabilidade comum que deveras nos mostra que estes dias dão fruto.

*****

Não poderia terminar essas linhas sem fazer referência à análise que o próprio Papa fez da JMJ de Madri. Mas quanto aos cinco segredos que ele constatou em seu balanço, dediquemos uma postagem futura.
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