A misantropia de certo amigo meu desaparece diante de certas garotas. Por isso, já lhe disse, brincando, que ele não é misantropo, mas misândrico.
Contudo, ele tem algo de razão quando critica tanta invasão de privacidade.
— “Sai do meu quadrado!”
De fato, no quadrado do Facebook todo mundo é amigo. Tanto o colega de infância que o esqueceu, quanto a ex-namorada que bem conhece seus defeitos, assim como o chefe intratável e nossa querida genitora.
A culpa do uso tão elástico do conceito de amizade não é exclusiva do Facebook. Pais querem ser amigos dos filhos, maridos de suas mulheres, professores de alunos, políticos de eleitores, etc.
Seria o fim da solidão? Ou a diluição das relações? Lembre-se que, para a mãe do feminismo, Mary Wollstonecraft, a amizade é o termo chave para a renegociação do contrato sexual e para a nova democracia doméstica!
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19 de set. de 2013
12 de jun. de 2013
Três coisas de que o homem tem medo
O domínio da mulher é inimigo da liberdade
A típica fantasia romântica masculina consiste no autossacrifício sentimental. Diante de um ideal que obriga, o varão abre mão de seu amor.Ou seja, esse romantismo peculiar consiste em renunciar ao amor por uma causa nobre. É como rasgar o coração para salvar a cabeça. Exemplos são dados nos longa‑metragens Casablanca, Os Brutos Também Amam ou Homem‑aranha 2.
Mas a nobreza da autoimolação contém algo de malandragem aventureira. Afinal, porque os descobridores ficavam tanto tempo longe de casa, senão porque temiam mais as suas esposas do que os riscos das expedições?
Desaparecer na fusão amorosa
John Milton soube bem retratar o caráter destrutivo da fusão:Porém… seja o que for! hei de contigo
Sofrer a mesma sorte, a mesma pena:
Se me é dado sofrer contigo a morte,
A morte para mim é como a vida.
Dentro em meu coração sinto com força
A vívida atração da Natureza
Para meu próprio bem que em ti reside,
Para ti que esse bem me constituis:
Não pode separar-se a sorte de ambos,
Ambos possuímos nós uma só carne;
Se te perdesse a ti… era eu perder-me!
(…)
Mas no futuro eu vejo outros sucessos:
Não morte, porém vida em grau mais alto.
Novos prazeres, novas esperanças,
Claros os olhos, paladar tão grato…
Que tudo, quanto saboreara dantes,
Insípido ou amargo lhe pareça.
Adão, descansa na experiência minha:
Dos lindos frutos livremente come.
E esse medo da morte entrega aos ventos
(Paraíso Perdido, IX, 1260-70; 1302-1310)
Não ser perdoado
O que é mais desafiador conseguir de uma mulher, seu amor ou seu perdão? Dizem que a facilidade que as mulheres têm para amar é proporcional à dificuldade que elas têm de perdoar.Com tal temperamental senhoria, qualquer homem treme.
Era assim que eu sonhava a mulher. Era assim:
Corpo de fascinar, alma de querubim;
Era assim: fronte altiva e gesto soberano,
Um porte de rainha a um tempo meigo e ufano,
Em olhos senhoris uma luz tão serena,
E grave como Juno, e bela como Helena!
(Machado de Assis, Crisálidas, Versos a Corina, I, 19-24)
22 de abr. de 2013
Sheherazade popozuda
Novamente, Rachel Sheherazade caiu na boca do povo de mente aberta e punhos fechados. Dessa vez, a musa do conservadorismo conseguiu bater ao mesmo tempo nos funkeiros, em certo tipo de feministas, na falta de critério da universidade, …e numa acadêmica que dissertou sobre a cultura pelviana.
Curioso é que a loirinha do SBT recebeu de mulheres engajadas até ataques do estilo slut-shaming, pondo em dúvida se ela era bem resolvida; uma verdadeira afronta desde a perspectiva feminista.
Se a Sheherazade sabe fazer o quadradinho de quatro, ou até o de oito, eu não sei. O fato é que a contundência da paraibana tem deixado exasperado todo mundo. Confesso que eu mesmo já escrevi para ela reprovando uma das suas afirmações. Justiça seja feita, porém: a Rachel quase sempre diz o óbvio tantas vezes ignorado por pessoas ilustradas e de “boa reputação”.
Só os profetas veem o óbvio. Mas os jornalistas conseguem transformá-lo num cavalo de batalha. O duro é que a sociedade precisa menos disso e mais de verdadeiros acadêmicos que contribuam positivamente para a nossa cultura.
Enquanto tantos idealizam subculturas, levantam bandeiras ideológicas, transformam a permissividade em ciência, poucos resgatam valores, propõem metas, estudam as fontes da moralidade.
Penso que a denúncia da Rachel faz sentido, mas atropela as devidas nuances. E mais uma vez constato que a massa que se diz intelectual atua em bloco procurando desclassificar quem não compartilha do seu pensamento tolerante.
Espero que ao cabo dessas Mil e Uma Noites de funk cultural, o rei Xariar não pretenda matar Sheherazade por causa da galinhagem de outras popozudas.
Curioso é que a loirinha do SBT recebeu de mulheres engajadas até ataques do estilo slut-shaming, pondo em dúvida se ela era bem resolvida; uma verdadeira afronta desde a perspectiva feminista.
Se a Sheherazade sabe fazer o quadradinho de quatro, ou até o de oito, eu não sei. O fato é que a contundência da paraibana tem deixado exasperado todo mundo. Confesso que eu mesmo já escrevi para ela reprovando uma das suas afirmações. Justiça seja feita, porém: a Rachel quase sempre diz o óbvio tantas vezes ignorado por pessoas ilustradas e de “boa reputação”.
Só os profetas veem o óbvio. Mas os jornalistas conseguem transformá-lo num cavalo de batalha. O duro é que a sociedade precisa menos disso e mais de verdadeiros acadêmicos que contribuam positivamente para a nossa cultura.
Enquanto tantos idealizam subculturas, levantam bandeiras ideológicas, transformam a permissividade em ciência, poucos resgatam valores, propõem metas, estudam as fontes da moralidade.
Penso que a denúncia da Rachel faz sentido, mas atropela as devidas nuances. E mais uma vez constato que a massa que se diz intelectual atua em bloco procurando desclassificar quem não compartilha do seu pensamento tolerante.
Espero que ao cabo dessas Mil e Uma Noites de funk cultural, o rei Xariar não pretenda matar Sheherazade por causa da galinhagem de outras popozudas.
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8 de abr. de 2013
Linguagem inclusiva, burrice exclusiva
Existe uma conhecida campanha legislativa em prol da assim chamada linguagem inclusiva. À época da posse da presidente Dilma, a questão tornou-se até mais debatida.
Adoro as mulheres, mas é uma besteira esse papo de “irmãos e irmãs”, “ser humano” em vez de dizer simplesmente “homem” e outras alternativas. No caso da palavra “homem”, isso é ainda mais ridículo, visto que homo, hominis indica a espécie, enquanto “varão” e “varoa” (tudo bem!: “senhora”) indicam o gênero (o sexo).
Antes de saírem defendendo essa barbaridade linguística, seria bom que fossem estudar gramática. Efetivamente, a ideologia vive de mal com o estudo.
Copio uma explicação acerca do assunto, de autoria do helenista Jorge Piqué (os grifos são meus):
«Embora tenhamos aprendido na gramática tradicional que cada categoria tem um significado bem preciso, isso de fato não acontece nas diversas línguas. Geralmente temos dentro de cada categoria uma oposição entre um termo marcado, isto é, com um sentido bem preciso, e um termo não-marcado, isto é, neutro quanto a distinção apresentada pela categoria.
Tomemos inicialmente como exemplo a categoria gênero em português. A gramática tradicional nos diz que essa categoria apresenta um termo “masculino” (ex.: gato) e um termo feminino (ex.: gata). Na verdade existe apenas o gênero feminino. O que chamamos de “masculino” é apenas o termo não-marcado, ou seja, neutro com respeito a diferença de sexo. O termo “gata” em todos os contextos e mesmo isoladamente indica um animal do sexo feminino, mas “gato”, não. Embora em muitos contextos possa representar um animal do sexo masculino, a forma em si não nos diz nada sobre o sexo. Veja por exemplo a frase “gato é um mamífero.” Obviamente não se refere a um gato macho, mas ao gato enquanto espécie, independente de seu sexo. Justamente pelo fato da forma “gato” ser não-marcada quanto ao gênero é que ela acaba sendo escolhida quando se trata de um animal do sexo masculino. O mesmo vale para termos como “homem” ou “cavalo”. Às vezes, pode ocorrer o contrário, o marcado ser o masculino (ex. “bode”) e o não-marcado o feminino (ex.: “cabra"), embora seja pouco frequente.»
Só um detalhe: “presidente” serve aos dois gêneros (particípio presente do verbo “presidir”) e o feminino “presidenta” também é correto.
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16 de out. de 2012
Ração diária de pornografia
O coração da mulher encerra desejos de amor, de carinho, cuidado, beleza, entrega, confiança. A pornografia, por sua vez, é uma grande rival do sonho e da esperança de amor, pois os transforma em pura fantasia. E, como em todo carnaval, quando caem as máscaras, sobram apenas cinzas.
A pornografia pode ser experimentada de diversas formas, mas não importa como, sempre assusta e machuca.
Sinto-me empurrado a escrever isso por causa duas tristes coincidências: a frequência com que me deparei, recentemente, com mulheres adictas à pornografia, da qual sorvem tragos diários; e a difusão de formas sofisticadas de erotismo, como, por exemplo, a altporn (“baixaria alternativa” que inclui tatuagens, piercings, etc.).
É evidente que isso decorre da cultura permissiva, do feminismo mal entendido, das mentiras propaladas sobre a sexualidade, das facilidades da Internet, etc. Não cabe fazer aqui uma pesquisa de conjuntura ou averiguar o alastramento do problema. Gostaria apenas de traçar quatro linhas para análise.
Em primeiro lugar, estão livros como Comer, rezar, amar. Esse tipo de literatura vazia escorrega facilmente para coisas ainda mais deletérias, como a trilogia dos Tons de cinza. Para quem não sabe, é um romance sobre sadomasoquismo e bondage (tem gente que é amarrada em “amarração”, no sentido literal).
O último grito foi a recém-lançada obra de Regina Navarro Lins sobre o amor, em dois volumes, que é um muito mal intencionado monumento à ignorância. Em minha opinião, aqui se cumpre à letra a definição de Thomas Kuhn para mudança de paradigma, segundo a qual, quando se muda a mentalidade, incapacita-se para a compreensão da mentalidade anterior. Com efeito, a sexóloga reinterpreta toda a história da humanidade com a lente distorcida da libertinagem.
Com base na artificial distinção filosófica entre amor e sexo, a autora projeta essa altercação ao longo do tempo como um embate entre força ou fraqueza, virtude ou pecado, glória ou perdição, domínio ou liberdade, etc. Como não podia faltar, a Igreja sai chamuscada na fogueira inquisitorial da autora, que lhe atribui um pretenso rechaço da sexualidade.
O segundo volume do livro alcança o século XXI, ao abordar o sexo virtual ensejado pela revolução tecnológica.
Aqui nos deparamos com outra linha do problema. A camuflagem virtual pode levar a dedicar muito tempo a estranhos. Lindos avatares escondem carência de virtudes; e singelas trocas de mensagens podem se tornar intermináveis discussões inúteis e possessivas. A webcam tornou-se para muitos uma “webcama”. Desnecessário descer a detalhes a respeito.
Por fim, é forçoso afirmar que sexo não é arte. Com a desculpa da estética, dos sentimentos, da contracultura, dos diabos, gente que se diz inteligente teima em apresentar a falta de pudor como algo natural.
Sexo não é arte porque o amor não é arte. Na verdade, esse tipo de comportamento irresponsável acaba encarando a maternidade e a família como arte mesmo, como peças de museu.
Para terminar de forma positiva, convém deixar aqui uma luz sobre os caminhos para a recuperação. A castidade é uma virtude belíssima, que enche de alegria o coração e purifica o olhar.
Um dos seus mais saborosos frutos é a amizade. Por isso, o altruísmo, a generosidade, o serviço, a criatividade operosa, etc., tudo isso pode ter caráter terapêutico na jornada rumo à harmonização do corpo, da mente e do espírito.
A pornografia pode ser experimentada de diversas formas, mas não importa como, sempre assusta e machuca.
Sinto-me empurrado a escrever isso por causa duas tristes coincidências: a frequência com que me deparei, recentemente, com mulheres adictas à pornografia, da qual sorvem tragos diários; e a difusão de formas sofisticadas de erotismo, como, por exemplo, a altporn (“baixaria alternativa” que inclui tatuagens, piercings, etc.).
É evidente que isso decorre da cultura permissiva, do feminismo mal entendido, das mentiras propaladas sobre a sexualidade, das facilidades da Internet, etc. Não cabe fazer aqui uma pesquisa de conjuntura ou averiguar o alastramento do problema. Gostaria apenas de traçar quatro linhas para análise.
I
Em primeiro lugar, estão livros como Comer, rezar, amar. Esse tipo de literatura vazia escorrega facilmente para coisas ainda mais deletérias, como a trilogia dos Tons de cinza. Para quem não sabe, é um romance sobre sadomasoquismo e bondage (tem gente que é amarrada em “amarração”, no sentido literal).
O último grito foi a recém-lançada obra de Regina Navarro Lins sobre o amor, em dois volumes, que é um muito mal intencionado monumento à ignorância. Em minha opinião, aqui se cumpre à letra a definição de Thomas Kuhn para mudança de paradigma, segundo a qual, quando se muda a mentalidade, incapacita-se para a compreensão da mentalidade anterior. Com efeito, a sexóloga reinterpreta toda a história da humanidade com a lente distorcida da libertinagem.
Com base na artificial distinção filosófica entre amor e sexo, a autora projeta essa altercação ao longo do tempo como um embate entre força ou fraqueza, virtude ou pecado, glória ou perdição, domínio ou liberdade, etc. Como não podia faltar, a Igreja sai chamuscada na fogueira inquisitorial da autora, que lhe atribui um pretenso rechaço da sexualidade.
II
O segundo volume do livro alcança o século XXI, ao abordar o sexo virtual ensejado pela revolução tecnológica.
Aqui nos deparamos com outra linha do problema. A camuflagem virtual pode levar a dedicar muito tempo a estranhos. Lindos avatares escondem carência de virtudes; e singelas trocas de mensagens podem se tornar intermináveis discussões inúteis e possessivas. A webcam tornou-se para muitos uma “webcama”. Desnecessário descer a detalhes a respeito.
III
Quanto ao consumo feminino de pornografia, é preciso apontar algumas especificidades bastante perversas.
A exploração do corpo (somatolatria) é algo que abala especialmente a mulher, pois lhe é inerente a preocupação pela aparência.
A ausência de contexto das cenas eróticas também lhe ferem mais a sensibilidade, que tenderia naturalmente à percepção das referências que dão suporte à relação amorosa.
E a imoralidade desse consumo amplia a vulnerabilidade da mulher, conduzindo-a a uma necessidade doentia de aprovação masculina.
IV
Por fim, é forçoso afirmar que sexo não é arte. Com a desculpa da estética, dos sentimentos, da contracultura, dos diabos, gente que se diz inteligente teima em apresentar a falta de pudor como algo natural.
Sexo não é arte porque o amor não é arte. Na verdade, esse tipo de comportamento irresponsável acaba encarando a maternidade e a família como arte mesmo, como peças de museu.
***
Para terminar de forma positiva, convém deixar aqui uma luz sobre os caminhos para a recuperação. A castidade é uma virtude belíssima, que enche de alegria o coração e purifica o olhar.
Um dos seus mais saborosos frutos é a amizade. Por isso, o altruísmo, a generosidade, o serviço, a criatividade operosa, etc., tudo isso pode ter caráter terapêutico na jornada rumo à harmonização do corpo, da mente e do espírito.
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15 de set. de 2012
A Sibila do Reno
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| Hildegarda com sua pupila Richardis, no filme Vision |
Novos Doutores
Em outubro próximo, iniciará o Ano da Fé. Por essa ocasião, Bento XVI proclamará doutores a São João de Ávila, “Mestre de Santos e a figura de maior destaque num século de gigantes”, e Santa Hildegarda de Bingen, “a Sibila do Reno e Profetiza dos Teutões”.Os requisitos para que se proclame um Santo como Doutor da Igreja são: eminens doctrina, insignis vitæ sanctitas, Ecclesiæ declaratio (doutrina eminente, santidade insigne e declaração eclesiástica). Em termos práticos, a declaração como Doutor torna obrigatório para a Igreja universal o ofício e a Missa do Santo em questão, cujos ensinamentos são apresentados como uma referência.
Portanto, a decisão de inscrevê-lo nessa lista tão exígua (35 no total) é — eminentemente — pastoral. Essa intenção fica ainda mais patente com a escolha de Hildegarda, que nem mesmo tinha sido solenemente canonizada, embora seu culto fosse estendido na Alemanha. Com efeito, a Sibila do Reno cai nas graças de todo mundo, desde adeptos da New Age às feministas mais ideologizadas.
Nada melhor do que resgatar a mística medieval para o conhecimento dos nativos virtuais do nosso século.
Mulher polímata
Hildegard Von Bingen (1098-1179) é uma personagem muito peculiar: a mestra do mosteiro beneditino de Rupertsberg foi mística, fundadora, teóloga, pregadora, naturalista, médica, escritora, poetisa, dramaturga e compositora. Criou inclusive uma lingua ignota, com alfabeto igualmente desconhecido, com a qual descrevia suas fantásticas visões.Além de algumas referências esparsas, Bento XVI já lhe dedicou duas audiências, e o Bem-aventurado João Paulo II escreveu uma breve carta sobre ela, que foi uma das mulheres mais importantes da Idade Média e cujas obras podem ser lidas em latim (e em espanhol).
Dentre as suas obras enumeram-se também peças musicais, compostas por revelação divina. É possível encontrar na Internet uma boa seleção:
A Profetisa nas telas
Em 2010, foi lançado o filme Vision: from the live of Hildegard Von Bingen. A diretora, Margarethe Von Trotta, realizou um belo trabalho, doutrinal e moralmente ortodoxo, o qual vem maculado, contudo, por personagens caricaturescos e estereótipos sobre o feminismo, o naturalismo, a época medieval e as práticas penitenciais. A fotografia e o figurino são excelentes; há inclusive alguns pequenos trechos das músicas de Hildegarda. O resultado final é um tanto heterogêneo: o filme pode parecer pesado a alguns, mas vale a pena.Em compensação, a TV alemã ZDF produzira em 2008 uma série de documentários sobre as 20 maiores personalidades da história germânica, dedicando à Sibila do Reno um dos episódios. Estão disponíveis para download, mas sem legenda.
O verdadeiro feminismo cristão
A figura de Hildegarda é muito apropriada hoje para contestar a difundida falácia feminista de que a mulher teria sido humilhada e maltratada no decurso dos séculos cristãos. É fora de dúvida que, nas antigas civilizações (exceto em parte entre os judeus e os epicuristas), a mulher foi sujeita ao despotismo do varão, era moeda de troca, era vitimada por divórcios arbitrários, submetia-se à prostituição sagrada, etc.Pelo contrário, no seio do Cristianismo, a mulher encontrou uma defesa de seus direitos, obteve a proteção do matrimônio indissolúvel, recebeu um status até então inimaginável, e foi proposta como o mais sublime dos modelos na figura de Maria.
Hildegarda não é figura isolada. Helena e Teodora II, Teodolina, Clotilde e Radegunda, Catarina de Sena e Teresa de Ávila, entre tantas outras, exerceram mais influência do que qualquer mulher dos tempos modernos. Essa visão distorcida do desprezo cristão pela mulher provém da tendência atual a denegrir a Igreja histórica.
Curiosamente, os mesmos que atribuem à Igreja as “antigas faltas da Cristandade” também lhe atribuem as crises atuais, oriundas justamente do abandono que fizeram da mesma Igreja. Em suma: se para muitos não houve filosofia antes de Kant, para tantos outros não houve história antes da Revolução Francesa…
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20 de ago. de 2012
Livros destrutivos
Engordar, idolatrar, fornicar
A gula, a ignorância religiosa e os desejos mais primitivos.
A bizarra aventura de uma mulher recalcada que, apesar de bem-sucedida e realizada, resolveu largar tudo e viajar para o fim do mundo, só para encontrar o que poderia conseguir na esquina: gastronomia, gurus e sexo.
Escrito com ironia, humor e esperteza, o best seller é um relato sobre a importância de colocar o próprio contentamento acima das responsabilidades familiares e profissionais e ao mesmo tempo declarar-se vítima da sociedade. É um livro para qualquer pessoa sem referências, ou que pensa que qualquer merda que fizer sempre será o caminho melhor, só por ser diferente.
Aclamado pelo The New York Times como um dos 100 livros mais rentáveis de 2006 e apontado pela Entertainment Weekly uma das mais lidas obras de não-ficção do ano, Engordar, idolatrar, fornicar originou o roteiro do filme homônimo.
Na margem do rio Piedra eu sentei e…
Quem se deixa levar pela paixão é vitorioso, mesmo que traia a Deus e o mundo. A verdadeira paixão leva ao suicídio moral. Este livro trata da importância desse suicídio. Os personagens fictícios simbolizam os muitos conflitos que nos acompanham na busca da Outra Parte (não me pergunte Parte do quê). Cedo ou tarde, temos de vencer nossos medos, já que o caminho espiritual se faz através da experiência diária da luxúria. — o Autor
A obra segue a linha esotérica cuja relação com o Caminho de Santiago de Compostela ainda não foi esclarecida. É um belo panfleto panteísta e feminista, no qual o protagonista masculino é tão mal descrito que se lhe atribuem três profissões diferentes ao longo da narrativa.
O relato flui como um rio de simplicidade: certo sujeito bem intencionado, que por acaso tem o dom de curas, resolve pedir à Virgem Maria que lhe retire o dom. Seu objetivo é ficar com a garota com quem ele dormiu, embora não se saiba o que tem a ver a cama com o dom medicinal. Letras grandes, gravuras sugestivas, transa bem contada. Digna obra de um Imortal da Academia!
O relato flui como um rio de simplicidade: certo sujeito bem intencionado, que por acaso tem o dom de curas, resolve pedir à Virgem Maria que lhe retire o dom. Seu objetivo é ficar com a garota com quem ele dormiu, embora não se saiba o que tem a ver a cama com o dom medicinal. Letras grandes, gravuras sugestivas, transa bem contada. Digna obra de um Imortal da Academia!
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2 de jul. de 2012
Quem paga a conta?
Dizem que a mulher é vontade, e o homem, inteligência. Mas no restaurante da vida, quem paga a conta?
Antes de tentar responder a essa pergunta, vamos complicar essa mesa, acrescentando o coração. O coração é um certo laço entre a vontade e a inteligência, quase um filho de ambos.
Pois bem, para descobrir quem paga a conta, penso que nos pode ajudar a consideração de como a fé — misto de luz e moção interior, intuição e entrega — é acolhida pelo coração.
Deus se revela mediante sua Palavra Criadora, a Palavra da Aliança, a Palavra Profética e, enfim, por sua Palavra Encarnada: Jesus Cristo. Como se deve ouvir a Palavra? Com a “obediência da fé” (CCE 144).
A fé é, simultaneamente, uma adesão pessoal a Deus e o assentimento à verdade que ele nos traz por Cristo no Espírito Santo. A cláusula “no Espírito Santo” é importante, pois indica que nossa fé se apoia na fé da Igreja, que é o locus do Espírito. Ou seja, não há fé fora da Igreja, mas mera opinião ou crendice, pois não se pode crer senão mediante um fiador ou garante do que se crê.
Embora o motivo da fé seja a autoridade de Deus que revela, e não a inteligibilidade do dado revelado, a fé não “está de mal” com a inteligência. Sem a compreensão da fé, facilmente se vai do pietismo à impiedade. Daí a necessidade de fazer mais inteligível o que se crê.
Contudo, ao longo da história, nem sempre houve uma harmonização satisfatória entre fé e razão. De fato, num primeiro momento, alguns Padres viam a filosofia com reserva, inspirados talvez em leituras bíblicas que dizem da ciência que “também é vaidade” (Ecl 2,15), pois “o temor de Deus é o princípio da sabedoria” (Eclo 1,16[14]). Posteriormente, mas em sentido contrário, alguns pensadores cristãos também se afastaram da racionalidade da fé cativados por teses filosóficas voluntaristas.
Sigério de Brabante (†1284): foi o principal defensor do averroísmo latino, ou seja, da existência de dupla verdade, baseado numa interpretação equivocada de Aristóteles.
Bem-aventurado João Duns Escoto OFM (†1308): ensinava a potentia absoluta de Deus, fundamentando teoricamente as teses voluntaristas daqueles que o sucederam. De fato, ao apresentar a liberdade como qualidade fundamental da vontade, levou seus seguidores a considerar a liberdade como inata e absoluta e a negar à vontade a necessária colaboração do intelecto.
Guilherme de Ockham OFM (†1349): separou o âmbito da fé do da racionalidade, que só serviria para descobrir o que é provável.
Gabriel Biel (†1495): apoiava a salvação no querer de Deus, independentemente do mérito humano.
Martinho Lutero (†1546): seu pessimismo quanto ao homem o levava a pensar que o homem, conforme a natureza não faz nada senão pecar e, conforme a inteligência, nada senão errar. A graça e a fé seriam incompatíveis com a natureza e a razão.
Søren Kierkegaard (†1855): para ele, o cristianismo seria verdade por parte de Deus, mas não a intelectualizada.
Rudolf Butmann (†1976): segundo o teólogo protestante, a fé não diria como foi Jesus, mas qual seria a mensagem existencial do mito criado pela Igreja: a conversão.
Judas Iscariotes representa bem o intelectualismo. Homem frio, calculista, interesseiro, que só se preocupava com o dinheiro, a segurança, as coisas no lugar; ou então com uma preocupação social ineficaz, ou com um nacionalismo terreno. Não lhe entrava na cabeça o caminho da entrega, da generosidade, do esquecimento próprio. Por tudo isso, vendeu Cristo por trinta moedas.
Simão Pedro, porém, encarna o voluntarismo. Homem impetuoso, de coração grande, só se movia por entusiasmos passageiros, por sentimentos favoráveis, por caminhos fáceis e alegres. A renúncia, a abnegação, o passar oculto, custavam-lhe ao coração. Por causa de sua volubilidade acabou por negar Cristo por três vezes.
Só a fé é capaz de iluminar a mente e fortalecer o coração, tornando-se o fundamento da fidelidade.
*****
Afinal, quem paga a conta? Sou muito feminista. Por isso, se elas querem isonomia, penso que quem deve pagar a conta é a gatinha da vontade.
Antes de tentar responder a essa pergunta, vamos complicar essa mesa, acrescentando o coração. O coração é um certo laço entre a vontade e a inteligência, quase um filho de ambos.
Pois bem, para descobrir quem paga a conta, penso que nos pode ajudar a consideração de como a fé — misto de luz e moção interior, intuição e entrega — é acolhida pelo coração.
Fé e razão
Seguindo a Tradição cristã, que tem em Agostinho seu expoente, o homem deseja a Deus, ainda que não o saiba, e pode conhecê-lo através da contemplação do mundo ou de si mesmo.Deus se revela mediante sua Palavra Criadora, a Palavra da Aliança, a Palavra Profética e, enfim, por sua Palavra Encarnada: Jesus Cristo. Como se deve ouvir a Palavra? Com a “obediência da fé” (CCE 144).
A fé é, simultaneamente, uma adesão pessoal a Deus e o assentimento à verdade que ele nos traz por Cristo no Espírito Santo. A cláusula “no Espírito Santo” é importante, pois indica que nossa fé se apoia na fé da Igreja, que é o locus do Espírito. Ou seja, não há fé fora da Igreja, mas mera opinião ou crendice, pois não se pode crer senão mediante um fiador ou garante do que se crê.
Embora o motivo da fé seja a autoridade de Deus que revela, e não a inteligibilidade do dado revelado, a fé não “está de mal” com a inteligência. Sem a compreensão da fé, facilmente se vai do pietismo à impiedade. Daí a necessidade de fazer mais inteligível o que se crê.
Contudo, ao longo da história, nem sempre houve uma harmonização satisfatória entre fé e razão. De fato, num primeiro momento, alguns Padres viam a filosofia com reserva, inspirados talvez em leituras bíblicas que dizem da ciência que “também é vaidade” (Ecl 2,15), pois “o temor de Deus é o princípio da sabedoria” (Eclo 1,16[14]). Posteriormente, mas em sentido contrário, alguns pensadores cristãos também se afastaram da racionalidade da fé cativados por teses filosóficas voluntaristas.
Erros históricos
Tertuliano (†220) defendia o paradoxo credo quia absurdum, contra Clemente de Alexandria (†215), que equiparava a filosofia para os gregos à Lei mosaica para os judeus.Sigério de Brabante (†1284): foi o principal defensor do averroísmo latino, ou seja, da existência de dupla verdade, baseado numa interpretação equivocada de Aristóteles.
Bem-aventurado João Duns Escoto OFM (†1308): ensinava a potentia absoluta de Deus, fundamentando teoricamente as teses voluntaristas daqueles que o sucederam. De fato, ao apresentar a liberdade como qualidade fundamental da vontade, levou seus seguidores a considerar a liberdade como inata e absoluta e a negar à vontade a necessária colaboração do intelecto.
Guilherme de Ockham OFM (†1349): separou o âmbito da fé do da racionalidade, que só serviria para descobrir o que é provável.
Gabriel Biel (†1495): apoiava a salvação no querer de Deus, independentemente do mérito humano.
Martinho Lutero (†1546): seu pessimismo quanto ao homem o levava a pensar que o homem, conforme a natureza não faz nada senão pecar e, conforme a inteligência, nada senão errar. A graça e a fé seriam incompatíveis com a natureza e a razão.
Søren Kierkegaard (†1855): para ele, o cristianismo seria verdade por parte de Deus, mas não a intelectualizada.
Rudolf Butmann (†1976): segundo o teólogo protestante, a fé não diria como foi Jesus, mas qual seria a mensagem existencial do mito criado pela Igreja: a conversão.
Ser cerebral ou ser voluntarista?
O mistério da cruz, com sua exigência radical de fé, redimensiona toda essa questão. Tanto o intelectualismo quanto o voluntarismo caem por terra diante da entrega amorosa de Cristo.Judas Iscariotes representa bem o intelectualismo. Homem frio, calculista, interesseiro, que só se preocupava com o dinheiro, a segurança, as coisas no lugar; ou então com uma preocupação social ineficaz, ou com um nacionalismo terreno. Não lhe entrava na cabeça o caminho da entrega, da generosidade, do esquecimento próprio. Por tudo isso, vendeu Cristo por trinta moedas.
Simão Pedro, porém, encarna o voluntarismo. Homem impetuoso, de coração grande, só se movia por entusiasmos passageiros, por sentimentos favoráveis, por caminhos fáceis e alegres. A renúncia, a abnegação, o passar oculto, custavam-lhe ao coração. Por causa de sua volubilidade acabou por negar Cristo por três vezes.
Só a fé é capaz de iluminar a mente e fortalecer o coração, tornando-se o fundamento da fidelidade.
*****
Afinal, quem paga a conta? Sou muito feminista. Por isso, se elas querem isonomia, penso que quem deve pagar a conta é a gatinha da vontade.
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11 de mai. de 2012
A fêmea do tisiu
Algo parecido ao que me referia quando falei do meu tweet mais sincero tem ocorrido no Facebook. Tenho visto postados cartazes com dizeres inspiradores ou atribuídos a personalidades importantes, mas faltos de conteúdo e deveras enganadores.
Por exemplo, um desses cartazes dizia que se o plano A der errado, fique tranquilo, pois ainda haveria outras 26 letras. Logo, o alfabeto teria 27 letras?!?
(Uma digressão: por isso mesmo, gostaria de ler o livro de George Lakoff: Women, Fire and Dangerous Things, sobre as categorias mentais.)
Mais: animais têm “propósitos”? Ou ainda: os mesmos homens que defendem a escravidão negra (ainda existem?) pretendem mesmo “usar” as mulheres?
Em suma, aquela afirmação feminista-ativista-vegetariana estabelece uma analogia, presumindo uma inferência de baixíssima probabilidade.
Nessas horas sinto vergonha alheia.
Por exemplo, um desses cartazes dizia que se o plano A der errado, fique tranquilo, pois ainda haveria outras 26 letras. Logo, o alfabeto teria 27 letras?!?
Outro, ainda pior, afirmava:
“Os animais do mundo existem para seus próprios propósitos. Não foram feitos para os humanos, do mesmo modo que os negros não foram feitos para os brancos, nem as mulheres para os homens” (Alice Walker, premiada escritora americana, ativista feminista e vegetariana).
Pergunto-me: bichos, negritude e mulheres pertencem à mesma categoria? Fora o idioma dyirbal, dos aborígenes australianos de Queensland (em que as mulheres pertencem ao mesmo gênero de água, fogo e correlatos, violência, criaturas e fenômenos perigosos), desconheço onde mais será feita em sã consciência tão bizarra analogia.
“Os animais do mundo existem para seus próprios propósitos. Não foram feitos para os humanos, do mesmo modo que os negros não foram feitos para os brancos, nem as mulheres para os homens” (Alice Walker, premiada escritora americana, ativista feminista e vegetariana).
Pergunto-me: bichos, negritude e mulheres pertencem à mesma categoria? Fora o idioma dyirbal, dos aborígenes australianos de Queensland (em que as mulheres pertencem ao mesmo gênero de água, fogo e correlatos, violência, criaturas e fenômenos perigosos), desconheço onde mais será feita em sã consciência tão bizarra analogia.
(Uma digressão: por isso mesmo, gostaria de ler o livro de George Lakoff: Women, Fire and Dangerous Things, sobre as categorias mentais.)
Mais: animais têm “propósitos”? Ou ainda: os mesmos homens que defendem a escravidão negra (ainda existem?) pretendem mesmo “usar” as mulheres?
Em suma, aquela afirmação feminista-ativista-vegetariana estabelece uma analogia, presumindo uma inferência de baixíssima probabilidade.
Nessas horas sinto vergonha alheia.
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28 de abr. de 2012
Discussão intrauterina
A mídia e o Supremo apresentam ao público e ao povo uma altercação na barriga de Rebeca: Esaú e Jacó discutem quem deve prevalecer: o poder de Esaú ou a consagração de Jacó.
Falando sério, penso que não é preciso ter útero para falar de aborto. A não ser que útero aqui se refira a entranhas, à capacidade de se compadecer.
Não é preciso ser mulher para falar de aborto porque o aborto afeta a vida, o ser humano, a esposa, o outro lado do varão. Sendo assunto humano, é prerrogativa tanto da mulher quanto do varão.
Indo além dessa contestação, entendo que essa forma de colocar a questão — a de que a mulher tem no seu útero um fardo que lhe tolhia a liberdade, mas do qual conseguiu se libertar nos últimos decênios através da revolução sexual — é completamente indevida.
Fazendo uma comparação porca, é como alguém que sofre de obesidade botar a culpa na comida, quando na verdade o problema advém da sua gula ou de uma eventual disfunção digestiva.
Pois basta lembrar que a maioria absoluta das mulheres sente-se orgulhosa de ser um sacrário da vida. A maternidade é um dom. A defesa do aborto, porém, torna-a sepulcro da morte, além de apresenta a gravidez como uma doença.
Uma gravidez indesejada, ou forçada, ou arriscada, ou sofrida, não tira à maternidade aquilo que ela tem de misterioso, de participação no poder criador.
Se há mulheres que recorrem ao aborto, nada posso fazer senão lamentar e tentar ajudar. Mas nunca direi que fazer isso é certo, pois estaria sendo um cúmplice e um mentiroso.
A questão é cientificamente simples: qual é a diferença entre o nascituro e o nascido? Ambos têm 46 cromossomos, como nós. Mas o nascituro foi confiado à mulher. Portanto, que grande responsabilidade!
Voltemos à barriga de Rebeca. Cada vez que vejo um bispo do lado da vida (Jacó) e um jurista ou médico abortista de outro (Esaú), constato que nossa mídia laicista continua sendo extremamente clerical. Ponha-se dois médicos (um a favor e outro contra) ou dois juristas (um a favor e outro contra) para discutir lado a lado, ora bolas! E então veremos quem “ganha”.
Falando sério, penso que não é preciso ter útero para falar de aborto. A não ser que útero aqui se refira a entranhas, à capacidade de se compadecer.
Não é preciso ser mulher para falar de aborto porque o aborto afeta a vida, o ser humano, a esposa, o outro lado do varão. Sendo assunto humano, é prerrogativa tanto da mulher quanto do varão.
Indo além dessa contestação, entendo que essa forma de colocar a questão — a de que a mulher tem no seu útero um fardo que lhe tolhia a liberdade, mas do qual conseguiu se libertar nos últimos decênios através da revolução sexual — é completamente indevida.
Fazendo uma comparação porca, é como alguém que sofre de obesidade botar a culpa na comida, quando na verdade o problema advém da sua gula ou de uma eventual disfunção digestiva.
Pois basta lembrar que a maioria absoluta das mulheres sente-se orgulhosa de ser um sacrário da vida. A maternidade é um dom. A defesa do aborto, porém, torna-a sepulcro da morte, além de apresenta a gravidez como uma doença.
Uma gravidez indesejada, ou forçada, ou arriscada, ou sofrida, não tira à maternidade aquilo que ela tem de misterioso, de participação no poder criador.
Se há mulheres que recorrem ao aborto, nada posso fazer senão lamentar e tentar ajudar. Mas nunca direi que fazer isso é certo, pois estaria sendo um cúmplice e um mentiroso.
A questão é cientificamente simples: qual é a diferença entre o nascituro e o nascido? Ambos têm 46 cromossomos, como nós. Mas o nascituro foi confiado à mulher. Portanto, que grande responsabilidade!
Voltemos à barriga de Rebeca. Cada vez que vejo um bispo do lado da vida (Jacó) e um jurista ou médico abortista de outro (Esaú), constato que nossa mídia laicista continua sendo extremamente clerical. Ponha-se dois médicos (um a favor e outro contra) ou dois juristas (um a favor e outro contra) para discutir lado a lado, ora bolas! E então veremos quem “ganha”.
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13 de abr. de 2012
A noiva do Chucky
A intelligentsia brasileira é prisioneira de doxas. Segundo o Houaiss, doxa é “o sistema ou conjunto de juízos que uma sociedade elabora em um determinado momento histórico supondo tratar-se de uma verdade óbvia ou evidência natural, mas que para a filosofia não passa de crença ingênua, a ser superada para a obtenção do verdadeiro conhecimento”.
Um reflexo do doxa feminista radical ficou patente na recente decisão do STF quanto aos anencefálicos (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 54). A ocasião faz o ladrão e nada mais oportuno que aproveitar o ensejo para analisar retrospectivamente a evolução do pensamento feminista.
Embora tenha iniciado com anterioridade (vide, por exemplo
Uma Defesa dos Direitos da Mulher, de Mary Wollstonecraft, publicada em 1790), é possível localizar no século XIX o nascimento do feminismo, cujas origens ideológicas provêm de cinco princípios:
Origem no século XIX
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| Mary Wollstonecraft |
Uma Defesa dos Direitos da Mulher, de Mary Wollstonecraft, publicada em 1790), é possível localizar no século XIX o nascimento do feminismo, cujas origens ideológicas provêm de cinco princípios:
• a razão igualitária iluminista;
• a visão progressista da história;
• o socialismo utópico;
• o liberalismo;
• o cristianismo.
Rapidamente, o movimento assumiu duas derivações:
O feminismo igualitário: visava à imitação do status masculino na sociedade. Ou era liberal, da linha de John Stuart Mill, ou era socialista.
O feminismo reivindicatório: propunha um programa para elevar o nível cultural e profissional das mulheres.
No âmbito católico sublinhou-se o direito ao voto (temido pelos anticlericais e socialistas, pois as mulheres eram conservadoras) e o direito a uma melhor educação, a mais oportunidades profissionais e a um sistema jurídico protetor das famílias e da maternidade.
Contudo, o acesso aos campos de trabalho masculinos às vezes foi defendido desprezando-se o trabalho doméstico e, no bojo das reivindicações, foram incluídas exigências no âmbito da sexualidade. Nessa linha, o liberalismo propunha mormente o divórcio e a contracepção, enquanto o socialismo postulava o fim da família e o amor livre.
O início do século XX trouxe forçosamente as mulheres ao mercado de trabalho por causa das Guerras. E as ideias neomalthusianas difundiram a opinião de que a exclusão do aspecto procriador da relação sexual seria um “progresso” a ser almejado.
Com tal background, encontraram forte eco a partir dos anos 60 a psicologia freudiana e as teorias sociológicas da Escola de Frankfurt. O ícone desse tempo foi Simone de Beauvoir (1908-1986), companheira de Sartre. Ela defendia o rompimento das algemas biológicas que oprimem as mulheres através da contracepção e do aborto, levando-as à mesma liberdade sexual dos homens. É paradoxal, mas seu igualitarismo considera, portanto, o modelo masculino como normativamente superior.
As principais correntes feministas, agora de índole revolucionária, passam a ser, desde os anos 60:
• Feminismo radical: centrado na sexualidade, afirma que “o pessoal é político”. Sulamith Firestone fará uma interpretação marxista, segundo a qual as mulheres devem controlar os meios de reprodução. Kate Millet defenderá a destruição do patriarcado e das instituições. Muitas feministas radicais rechaçarão a heterossexualidade e defenderão o lesbianismo.
• Feminismo psicanalítico: centrado no combate ao complexo de Édipo, que relegaria a mulher a um posto secundário na sociedade. Nancy Chodorov advogará pela participação das mulheres em trabalhos masculinos. Linhas mais radicais também verão o lesbianismo como principal forma de escapar às consequências do complexo de Édipo.
• Feminismo marxista-socialista: a opressão feminina seria causada simultaneamente pela classe social e pelo sexo. Por isso, Juliet Mitchell defenderá a derrota do homem e de suas estruturas patriarcais e capitalistas.
• Feminismo liberal-reformador: trabalha dentro das instituições, na linha do antigo feminismo reivindicatório do século XIX, em prol de pretensos “direitos sexuais”. Betty Friedan fará sucesso com sua crítica desapiedada da dona de casa, que compara a um prisioneiro de um “confortável campo de concentração”.
• Feminismo teológico: oriundo do meio protestante, quis depurar o alegado “machismo” da tradição bíblica e defender o sacerdócio das mulheres, tornando-se bastante forte em algumas comunidades. Chegou até a propor uma “religião da deusa”, pós-cristã. Produziu seus reflexos negativos na teologia católica germânica e anglo-saxã, mas a Igreja soube reagir com firmeza doutrinal; entre outras coisas, figuras como a santa filósofa Edith Stein, a escritora Gertrud von Le Fort e São João Paulo II apontaram caminhos positivos para a mulher. (Abstenho-me de fazer aqui a necessária menção à problemática muçulmana, bem diversa da ocidental.)
Daí a defesa das “famílias alternativas” e a releitura heterodoxa dos direitos humanos. Segundo a metáfora leninista, todo comportamento seria mero papel cujo atores são intercambiáveis como as engrenagens de uma máquina.
*****
Essa postagem nasceu depois desse tweet:
Evolução da questão no início do século XX
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| Simone de Beauvoir |
Com tal background, encontraram forte eco a partir dos anos 60 a psicologia freudiana e as teorias sociológicas da Escola de Frankfurt. O ícone desse tempo foi Simone de Beauvoir (1908-1986), companheira de Sartre. Ela defendia o rompimento das algemas biológicas que oprimem as mulheres através da contracepção e do aborto, levando-as à mesma liberdade sexual dos homens. É paradoxal, mas seu igualitarismo considera, portanto, o modelo masculino como normativamente superior.
As cinco correntes atuais
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| Sulamith Firestone |
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| Kate Millet |
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| Nancy Chorodov |
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| Juliet Mitchell |
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| Betty Friedan |
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| Gertrud von Le Fort |
Novas facetas
A ideologia de gênero é a nova cara do feminismo radical. Distingue sexo (biológico) de gênero (papel na sociedade). Transfere as funções femininas tradicionais (maternidade, etc.) para o gênero, que não é visto como algo natural, mas manifestação cultural “biologizada”, passível de evolução histórica.Daí a defesa das “famílias alternativas” e a releitura heterodoxa dos direitos humanos. Segundo a metáfora leninista, todo comportamento seria mero papel cujo atores são intercambiáveis como as engrenagens de uma máquina.
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Essa postagem nasceu depois desse tweet:
A #mulher reinventada por certo #feminismo é uma noiva do Chucky: gostosa pra brincar, feita pra matar, impossível de amar.
abril 12, 2012
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14 de mar. de 2012
Papo de homem também é filosofia
— Acho que vou morrer solteiro. Cada vez mais estou mais preconceituoso… Não é assim que se deve ser, mas estou. Detesto a priori meninas ou mulheres que vão à micareta (incluindo shows na Cinelândia) e que bebem cerveja como homens o fazem… E que têm esse estilo… eu diria… tropical demais… As fotos, as poses, o que está escrito na camisa dela, etc. Somos o conjunto de tudo o que traduzimos, certo? Pois é isso que ela “traduz” pra mim…
— Caraca, não imaginava que essas fotos despertariam tantos sentimentos. Já ficou apaixonado?
— Enfim… vendo essas fotos, por mais preconceituoso que você me chame, não acho que me surpreenda muito saber que ela fez o que fez… (Você sabe do que estou falando). Mas confesso também que ela tem lá sua beleza… como mulher… Mas acho que não estou mais disposto a esse tipo de “adrenalina”… estou velho pra essas coisas…
— Então não apaixonou, desanimou.
— Contudo, devo ainda dizer: sinto que ela parece ser uma boa pessoa. Transmite uma energia boa… acho que vou sonhar com ela… rs.
— Sabia que dentro desse velho ainda lateja um menino amedrontado!
— ?!? Só tenho medo da minha fatura do cartão de crédito… De resto, ainda mais falando de mulheres, não creio que tema mais nada... É… Ela é realmente bonita… Em especial a foto com a latinha de cerveja… cabelos bonitos… me lembra a Luísa do Primo Basílio… rs. Bem, melhor irmos trabalhar… deixa isso pra lá…
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23 de jan. de 2012
Licitação amorosa
Com oito demônios
Para quem não sabe, a mal afamada Lei 8.666/1.993 determina as modalidades de licitação. Seus meandros são tema recorrente em concursos públicos, assim como em críticas de bar ao Tribunal de Contas quando os juízes resolvem embargar projetos importantes para a nação em nome da lisura dos gastos.Seu número faz jus à fama: 8 666. Como se oito diabinhos viessem atazanar os que tentam usar os recursos públicos de forma rápida e eficiente.
Será que o que vale para o dinheiro também vale para o amor? Alerto que o que segue abaixo é uma abordagem feita desde uma perspectiva masculina.
Inexigibilidade amorosa
Três coisas dispensam licitação: aquisição de produtor exclusivo, serviços técnicos de natureza singular, contratação de artista consagrado.![]() |
| Amplie para ver um resumo das modalidades de licitação |
Modalidade: concorrência
É a licitação amorosa que se faz entre quaisquer interessadas, com requisitos mínimos de qualificação, possuidoras de dote milionário.Modalidade: tomada de preço
É a licitação amorosa que se faz entre quaisquer interessadas cadastradas na lista de amigas, com requisitos mínimos de qualificação, possuidoras de dote parrudo.Modalidade: convite
É a licitação amorosa que se faz entre no mínimo três interessadas cadastradas na lista de amigas, especializadas no ramo pertinente (faxina, comida, etc.), possuidoras de dote mixa.Modalidade: concurso
É a licitação amorosa que se faz entre quaisquer interessadas, oferecendo prêmios e presentes, conforme critérios avisados com 45 dias de antecedência.Modalidade: leilão
É a licitação amorosa que se faz entre quaisquer interessadas oferecendo-lhes a aquisição, por maior lance, de nossas características penhoradas, inservíveis ou cristalizadas.Modalidade: pregão
Essa modalidade de licitação foi acrescentada pela Lei 10.520/2.002. O pregão amoroso seria a licitação de nossas características a lances sucessivos de menor valor às habilitadas em etapa prévia competitiva. Pode ser presencial (numa festa, por exemplo) ou eletrônico (pela Internet).
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18 de jan. de 2012
Leopoldina é que era mulher de verdade
A leitura das cartas da Imperatriz Leopoldina me fez saber de forma mais significativa que os príncipes eram preparados para o Estado mediante uma educação tão esmerada que faz parecer nossas melhores escolas uma brincadeira de criança.
Com efeito, a futura Imperatriz brasileira, da casa dos Habsburgos, aprendeu enquanto jovem as lides do campo e da pecuária, foi treinada para vencer a timidez através da oratória e da dramaturgia, capacitou-se para a diplomacia mediante o estudo de diversas línguas, compreendeu a importância das artes e das ciências pelo contato direto com seus métodos, etc.
Ao casar-se com Dom Pedro I, Leopoldina ressentiu-se da inferioridade da educação na corte portuguesa, agravada pela precariedade que supôs a vinda ao Brasil. Além disso, penou com a artificialidade que os lusos revestiam inclusive a piedade e a liturgia.
O fim da monarquia trouxe consigo o rechaço pela pompa. Mas não parou na repulsa à ostentação: seguiu-se uma gradativa diminuição do requinte, do esmero, da delicadeza, do tom.
Sem dúvida, a simploriedade, a pressa e a informalidade tornaram-se as indesejáveis companheiras das liberdades modernas.
Com efeito, a futura Imperatriz brasileira, da casa dos Habsburgos, aprendeu enquanto jovem as lides do campo e da pecuária, foi treinada para vencer a timidez através da oratória e da dramaturgia, capacitou-se para a diplomacia mediante o estudo de diversas línguas, compreendeu a importância das artes e das ciências pelo contato direto com seus métodos, etc.
Ao casar-se com Dom Pedro I, Leopoldina ressentiu-se da inferioridade da educação na corte portuguesa, agravada pela precariedade que supôs a vinda ao Brasil. Além disso, penou com a artificialidade que os lusos revestiam inclusive a piedade e a liturgia.
O fim da monarquia trouxe consigo o rechaço pela pompa. Mas não parou na repulsa à ostentação: seguiu-se uma gradativa diminuição do requinte, do esmero, da delicadeza, do tom.
Sem dúvida, a simploriedade, a pressa e a informalidade tornaram-se as indesejáveis companheiras das liberdades modernas.
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26 de dez. de 2011
Deus e o sexo
O sexo, descontraído
e sedutor, quis saber se a submissão da mulher ao homem fora uma maldição
paradisíaca ou, na verdade, um decreto divino.
Afinal, os decretos
foram feitos para serem desobedecidos e a presença subversiva de mulheres como
Míriam, Débora, Jael, Raab, Rute, Abigail, Abisag, Ester, etc. parecia
contradizer a tese feminista de que a Bíblia fosse um panfleto machista. Logo,
a dúvida era pertinente.
Deus não respondeu,
mas lhe perguntou quais tinham sido as “conquistas” do feminismo e de outras
ideologias semelhantes. O sexo respondeu citando — a par da igualdade de
direitos civis com os homens e outros avanços políticos — o aborto, a
contracepção, o divórcio, o adultério, a fornicação, a prostituição e o
homossexualismo.
Então Deus perguntou
ao sexo se, por causa disso, ele achava a Bíblia distante, anacrônica e
alienada com relação à modernidade. Com efeito, é um livro proveniente de um
longínquo país da Antiguidade.
O sexo gostou da
pergunta, pois percebeu a malandragem, e retrucou: “Ora, essas coisas não são
um problema bíblico. São um problema mundano”.
Então Deus
concordou, afirmando que, de fato, a Bíblia apenas traz uma Palavra iluminadora acerca
desses mesmos temas que também aparecem nas Escrituras: aborto, contracepção,
divórcio, adultério, fornicação, prostituição e homossexualismo.
E o sexo ficou mais
confuso do que no começo. Nos dois sentidos.
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5 de out. de 2011
Sexo dos anjos
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| Detalhe inferior da tilma de Juan Diego |
Os mistérios de Guadalupe
Assisti a um documentário mexicano muito interessante sobre Guadalupe, 1531. Tem a forma de depoimento, e bons atores fazem as vezes dos entrevistados, emprestando sua voz àqueles homens que vivenciaram tão estrondoso milagre no século XVI.
Um dado que me admirou foi acerca do anjo que apareceu estampado na tilma de Juan Diego: é um varão idoso, com asas de águia, que segura com a mão direita o manto celeste da Virgem e, com a esquerda, seu róseo vestido. A razão aduzida no documentário foi a pedagogia divina.
A águia era considerada pelos aztecas ave divina, que levava o sangue dos sacrifícios humanos ao deus Sol; além disso, conta a lenda que uma águia lhes indicara onde deveria ser fundada a cidade do México. Por outro lado, a águia é o símbolo de João Evangelista, que justamente profetizou a aparição de “uma mulher revestida de Sol, com a Lua a seus pés” (Ap 12,1). “Águia que fala” é também o significado do nome indígena de Juan Diego, Cuauhtlatoatzin.
Por sua vez, o homem velho representava a sabedoria indígena. Assim, o anjo indica que a sabedoria de Deus conciliou o céu e a Terra, dando fim à guerra cósmica que tanto afligia a cultura azteca.
Um dado que me admirou foi acerca do anjo que apareceu estampado na tilma de Juan Diego: é um varão idoso, com asas de águia, que segura com a mão direita o manto celeste da Virgem e, com a esquerda, seu róseo vestido. A razão aduzida no documentário foi a pedagogia divina.
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| São Juan Diego |
Por sua vez, o homem velho representava a sabedoria indígena. Assim, o anjo indica que a sabedoria de Deus conciliou o céu e a Terra, dando fim à guerra cósmica que tanto afligia a cultura azteca.
Íncubos e súcubos
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| Um íncubo apoderando-se da presa |
Isso me fez considerar que os anjos costumam aparecer na Escritura de forma masculina. Mesmo na estranha interpretação literalista do relato dos Gigantes, que os entende como fruto do consórcio carnal entre anjos e homens (Gn 6,1-4), os eventuais seres celestes envolvidos eram íncubos, não súcubos. Ou seja: as mulheres eram suas vítimas.
Mas, justiça seja feita, há uma única passagem em que aparece citada uma “anja”: Lilit (Is 34,14). Seria originalmente um demônio feminino do mito assírio‑babilônico. A tradição rabínica tardia apresentou-a como a primeira mulher de Adão, anterior a Eva, madrasta dos filhos de Adão, a quem tenta matar em seus ciúmes.
Essa beldade com “perfume de enxofre” (Jó 18,15) deve ser a grande paqueradora dos homens maus.
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| O demônio feminino Lilit |
Essa beldade com “perfume de enxofre” (Jó 18,15) deve ser a grande paqueradora dos homens maus.
Misandria e o masculino como norma
Quando o feminismo inflaciona, a masculinidade corre o risco de ir para o saco. Existe um sadio feminismo, mas às vezes tenho a impressão de que vivemos em tempos de misandria. Se a escalada da intolerância continuar, dizer que o normal é ser homem poderá virar crime.
Espetadas à parte, tornemos a questão do sexo dos anjos. Acredito que a representação preponderantemente masculina dos anjos tenha alguma relação com a norma bíblica de só atribuir títulos masculinos a Deus. O próprio Cristo é um homem. Embora Deus diga que, “como a mãe que acaricia os filhos, assim vou dar-vos meu carinho” (Is 66,13), por outro lado nunca é chamado “Mãe”, apenas “Pai”.
Isso não é machismo, como tentam defender certas abordagens ideológicas. Em primeiro lugar, as partes do corpo humano sempre serviram para caracterizar os sentimentos. Assim, os úberes, o seio, as entranhas, o regaço femininos representam a misericórdia. Por isso essas partes podem ser usadas para descrever analogicamente as atitudes de Deus para com os seres humanos.
Quanto à representação varonil de Deus, é uma forma de evitar o risco de sua assimilação às divindades telúricas. Vale citar a explicação de Bento XVI (Jesus de Nazaré, págs. 130-1):
“Naturalmente, Deus não é nem homem nem mulher (…). As divindades maternas (…) mostram uma imagem da relação entre Deus e o mundo que é inteiramente oposta à imagem bíblica de Deus. Elas incluem sempre, e mesmo inevitavelmente, concepções panteístas, nas quais desaparece a distinção entre o Criador e a criatura. O ser das coisas e dos homens aparece deste ponto de partida necessariamente como uma emanação do seio materno do ser, o qual se temporaliza na pluralidade dos entes.
“Em contraste com esta concepção, a imagem do pai era e é adequada para exprimir a alteridade entre Criador e criatura, a soberania do ato criador. Somente por meio da exclusão das divindades maternas podia o Antigo Testamento levar à maturidade a sua imagem de Deus, a pura transcendência de Deus.”
Espetadas à parte, tornemos a questão do sexo dos anjos. Acredito que a representação preponderantemente masculina dos anjos tenha alguma relação com a norma bíblica de só atribuir títulos masculinos a Deus. O próprio Cristo é um homem. Embora Deus diga que, “como a mãe que acaricia os filhos, assim vou dar-vos meu carinho” (Is 66,13), por outro lado nunca é chamado “Mãe”, apenas “Pai”.
Isso não é machismo, como tentam defender certas abordagens ideológicas. Em primeiro lugar, as partes do corpo humano sempre serviram para caracterizar os sentimentos. Assim, os úberes, o seio, as entranhas, o regaço femininos representam a misericórdia. Por isso essas partes podem ser usadas para descrever analogicamente as atitudes de Deus para com os seres humanos.
Quanto à representação varonil de Deus, é uma forma de evitar o risco de sua assimilação às divindades telúricas. Vale citar a explicação de Bento XVI (Jesus de Nazaré, págs. 130-1):
“Naturalmente, Deus não é nem homem nem mulher (…). As divindades maternas (…) mostram uma imagem da relação entre Deus e o mundo que é inteiramente oposta à imagem bíblica de Deus. Elas incluem sempre, e mesmo inevitavelmente, concepções panteístas, nas quais desaparece a distinção entre o Criador e a criatura. O ser das coisas e dos homens aparece deste ponto de partida necessariamente como uma emanação do seio materno do ser, o qual se temporaliza na pluralidade dos entes.
“Em contraste com esta concepção, a imagem do pai era e é adequada para exprimir a alteridade entre Criador e criatura, a soberania do ato criador. Somente por meio da exclusão das divindades maternas podia o Antigo Testamento levar à maturidade a sua imagem de Deus, a pura transcendência de Deus.”
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3 de out. de 2011
Mulheres de Xangô
Existe uma tipologia feminina?
Pode-se questionar, com justiça, o realismo de uma classificação biotipológica da mulher. Efetivamente, qualquer abordagem traz no bojo certas escolhas e vieses discutíveis. Por exemplo, a divisão que proponho entre Dona Sofia, Eva e Fake-Doll.
Em seu livro sobre a mulher (págs. 106-116), Edith Stein indaga do mesmo ao eleger três personagens literárias como protótipos femininos: Ingunn Steinfinnsdatter, da obra de Sigrid Undset; Nora, de Ibsen; Ifigênia, de Goethe. A Filósofa conclui pela legitimidade dessas escolhas depois de comprovar o espírito que animava tais autores em sua criação literária. E indica a possibilidade de se ampliar indefinidamente a tipologia desde que se conserve o mesmo fundo:
“Amadurecer (…) na união amorosa que, fecundando, provoca esse processo de amadurecimento e, ao mesmo tempo, estimula e promove também nos outros o amadurecimento (…), essa é a aspiração mais profunda do desejar feminino, que pode manifestar-se nos mais diversos disfarces e mesmo distorções e desfiguramentos. (…) é esse desejo que corresponde à função eterna da mulher” (pág. 113).
Em seu livro sobre a mulher (págs. 106-116), Edith Stein indaga do mesmo ao eleger três personagens literárias como protótipos femininos: Ingunn Steinfinnsdatter, da obra de Sigrid Undset; Nora, de Ibsen; Ifigênia, de Goethe. A Filósofa conclui pela legitimidade dessas escolhas depois de comprovar o espírito que animava tais autores em sua criação literária. E indica a possibilidade de se ampliar indefinidamente a tipologia desde que se conserve o mesmo fundo:
“Amadurecer (…) na união amorosa que, fecundando, provoca esse processo de amadurecimento e, ao mesmo tempo, estimula e promove também nos outros o amadurecimento (…), essa é a aspiração mais profunda do desejar feminino, que pode manifestar-se nos mais diversos disfarces e mesmo distorções e desfiguramentos. (…) é esse desejo que corresponde à função eterna da mulher” (pág. 113).
Utilidade da intuição iorubá
Como outra fonte paralela, parece interessante recorrer à mitologia dos orixás, da qual já trouxe episódios a este blogue. Seus mitos versam sobre a criação do mundo, o nascimento dos orixás e suas relações com os homens.
É notória a dificuldade de sistematização dessas histórias. Elas se apoiam mais em tabus do que em princípios morais. Os orixás muitas vezes encarnam os vícios humanos (aliás, como os deuses gregos): violências, ciúmes, inveja, luxúria, gula, etc.
Entre os orixás destacam-se as mulheres de Xangô, o qual teria sido um rei iorubá divinizado. Cada uma representa um perfil feminino: a esposa, a amante, a mãe.
É notória a dificuldade de sistematização dessas histórias. Elas se apoiam mais em tabus do que em princípios morais. Os orixás muitas vezes encarnam os vícios humanos (aliás, como os deuses gregos): violências, ciúmes, inveja, luxúria, gula, etc.
Entre os orixás destacam-se as mulheres de Xangô, o qual teria sido um rei iorubá divinizado. Cada uma representa um perfil feminino: a esposa, a amante, a mãe.
Obá, Oxum e Iansã
Textos retirados de Mitologia dos Orixás, de Reginaldo Prandi:Obá
Xangô era um conquistador de terras e de mulheres.
Vivia sempre de um lugar a outro.
Em Cossô fez-se rei e casou-se com a velha Obá.
Obá era sua primeira e mais importante esposa.
Obá passava o dia cuidando da casa de Xangô.
Moía a pimenta, cozinhava e deixava tudo limpo.
Mas Xangô era moço ardente, cheio de seiva,
e logo se aborreceu de Obá.
Oxum
Xangô disse a Oxum:
“Se ficares comigo, abro um tapete de outro sob teus pés,
que é para nunca mais pisares o chão.
E todas as minhas mil riquezas serão tuas”.
Logo que ouviu falar em ouro,
Oxum foi embora com Xangô.
Ele era rico, atrevido e charmoso.
É esse o tipo de pessoa que satisfaz Oxum.
E ambos são doidos um pelo outro.
Oxum era conhecida como a amante ardorosa.
Tinha um corpo belo, de formas finas.
Sua cintura deixava-se abraçar por um único braço.
Por muitas noites Oxum teve em seu leito amantes,
aos quais propiciava momentos de raro prazer.
Oxum teve muitos amores,
de quem ganhou presentes preciosícissimos.
Oxum era rica. Tinha joias, ouro, prata,
vestidos maravilhosos, batas que causavam inveja,
e mais, pentes de marfim, espelhos de madrepérola,
e tantos berloques e panos-da-costa.
(…)
De tudo de seu dispôs Oxum, para o conforto de Xangô.
Primeiro as joias, depois os vestidos, as batas,
depois os pentes, os espelhos, de tudo foi de desfazendo Oxum.
Restou-lhe nada mais que seu vestido branco.
De tudo de seu desfez-se Oxum pelo amor de Xangô.
Ficou pobre por amor de Xangô.
Oiá-Iansã
Um dia Xangô foi ao palácio de Iansã determinado a conquistá-la.
Ele a desejava ardentemente,
mas Iansã era uma mulher difícil
e não queria se render às investidas de Xangô.
(…)
Quando Iansã viu que nenhum de seus Exus
poderia deter Xangô, disse:
“Podem deixá-lo entrar, podem deixá-lo entrar”.
Oiá desejava ter filhos,
mas não podia conceber.
Oiá foi consultar um babalaô
e ele mandou que ela fizesse um sacrifício.
(…)
Oiá fez o sacrifício e teve nove filhos.
Quando ela passava, indo em direção ao mercado, o povo dizia:
“Lá vai Iansã”, que quer dizer “mãe de nove filhos”.
Vivia Oxum no palácio em Ijimu.
Passava os dias no seu quarto olhando seus espelhos.
Eram conchas polidas
onde apreciava sua imagem bela.
Um dia saiu Oxum do quarto e deixou a porta aberta.
Sua irmã Oiá entrou no aposento,
extasiou-se com aquele mundo de espelhos,
viu-se neles.
As conchas fizeram espantosa revelação a Oiá.
Ela era linda! A mais bela!
A mais bonita de todas as mulheres!
Oiá descobriu sua beleza nos espelhos de Oxum.
Oiá se encantou, mas também se assustou:
era ela mais bonita que Oxum, a Bela.
2 de jun. de 2011
A mulher, paradoxo e esperança
Nenhum premiado as acusou
ainda de imorais,
como ninguém tachou de má a boceta de Pandora,
por lhe ter ficado a esperança no fundo;
em alguma parte há de ela ficar.
(…)
Quando a loteria e Pandora me aborrecem,
ergo os olhos para eles,
e esqueço os bilhetes brancos e a boceta fatídica.
(Machado de Assis, Dom Casmurro, capítulo 7)
como ninguém tachou de má a boceta de Pandora,
por lhe ter ficado a esperança no fundo;
em alguma parte há de ela ficar.
(…)
Quando a loteria e Pandora me aborrecem,
ergo os olhos para eles,
e esqueço os bilhetes brancos e a boceta fatídica.
(Machado de Assis, Dom Casmurro, capítulo 7)
A sedução do fogo
Ao lado da figura de Lilit (mulher como mera “invenção”), também é útil recordar a descrição que Hesíodo faz de Pandora, a fim de tentar realizar uma mínima demarcação a alma feminina.
O
poeta grego estabelece o tecido labiríntico da existência humana sob o signo da
ambiguidade. Mais do que outra máscara da mulher, Pandora é, em si mesma, o “belo mal” (καλὸν κακόν· Teogonia,
585), uma fantasia criada pelos deuses para ser presenteada aos homens
(παν-δωρα: todos os dons). As deusas
a instruem e adornam: Atena com as lides domésticas, Afrodite com o desejo
devorador.
Prometeu
roubara o fogo dos deuses e o entregara aos homens. Às tramas e rapinas de
Prometeu, Zeus respondeu com um presente de grego: a mulher. Substituta do fogo natural, a mulher é compreendida por
Hesíodo como a cultura em lugar da natureza. É o preço do fogo.
A
mulher é um paradoxo porquanto imitação do já existente. Ambígua, porque ao
mesmo tempo frustra e presenteia. Deleuze diz que a mulher é um simulacro no
sentido de que põe em questão as noções de cópia e de modelo.
A sedução da palavra
Por sua aparição é que os homens se tornam varões. E pelo artifício sedutor da fala articulada (αὐδέν), dom de Hefesto à mulher, fica substituída a linguagem expressiva (φονέν):
πατὴρ
ἀνδρῶν τε θεῶν τε·
Ἥφαιστον
δ' ἐκέλευσε περικλυτὸν ὅττι τάχιστα
γαῖαν
ὕδει φύρειν, ἐν δ' ἀνθρώπου θέμεν αὐδὴν
καὶ
σθένος, ἀθανάτῃς δὲ θεῇς εἰς ὦπα ἐίσκειν
παρθενικῆς
καλὸν εἶδος ἐπήρατον·
…o pai dos homens e dos deuses
ordenou então ao ínclito Hefesto muito velozmente
terra à água misturar e aí pôr humana voz [αὐδέν] e
força, e assemelhar de rosto às deusas imortais
esta bela e deleitável forma de virgem…
(Os Trabalhos e os Dias, 59-63).
ordenou então ao ínclito Hefesto muito velozmente
terra à água misturar e aí pôr humana voz [αὐδέν] e
força, e assemelhar de rosto às deusas imortais
esta bela e deleitável forma de virgem…
(Os Trabalhos e os Dias, 59-63).
A sedução do futuro
A esperança é desnecessária aos deuses imortais, assim como aos animais, que se ignoram mortais. Para os homens, contudo, constitui alento nos trabalhos. Ora, restou na caixa de Pandora apenas a esperança (ἐλπίς) que, porém, também é ambígua, pois os homens podem errar no que esperam.
O
homem, na sucessão dos dias, tem muitas esperanças — menores ou maiores —
distintas nos diversos períodos da sua vida. Às vezes pode parecer que uma
destas esperanças o satisfaça totalmente, sem ter necessidade de outras. Na juventude,
pode ser a esperança do grande e fagueiro amor; a esperança de uma certa
posição na profissão, deste ou daquele sucesso determinante para o resto da
vida. Mas quando estas esperanças se realizam, resulta com clareza que na
realidade, isso não era a totalidade. Torna-se evidente que o homem necessita
de uma esperança que vá mais além. Vê-se que só algo de infinito lhe pode
bastar, algo que será sempre mais do que aquilo que ele alguma vez possa
alcançar. Neste sentido, a época moderna desenvolveu a esperança da instauração
de um mundo perfeito que, graças aos conhecimentos da ciência e a uma política
cientificamente fundada, parecia tornar-se realizável. Assim, a esperança
bíblica do reino de Deus foi substituída pela esperança do reino do homem, pela
esperança de um mundo melhor que seria o verdadeiro «reino de Deus». Esta
parecia finalmente a esperança grande e realista de que o homem necessita.
Estava em condições de mobilizar — por um certo tempo — todas as energias do
homem; o grande objetivo parecia merecedor de todo o esforço. Mas, com o passar
do tempo fica claro que esta esperança escapa sempre para mais longe. Primeiro
deram-se conta de que esta era talvez uma esperança para os homens de amanhã,
mas não uma esperança para mim. E, embora o elemento « para todos » faça parte
da grande esperança — com efeito, não posso ser feliz contra e sem os demais —
o certo é que uma esperança que não me diga respeito a mim pessoalmente não é
sequer uma verdadeira esperança. E tornou-se evidente que esta era uma
esperança contra a liberdade, porque a situação das realidades humanas depende
em cada geração novamente da livre decisão dos homens que dela fazem parte. Se
esta liberdade, por causa das condições e das estruturas, lhes fosse tirada, o
mundo, em última análise, não seria bom, porque um mundo sem liberdade não é de
forma alguma um mundo bom. Deste modo, apesar de ser necessário um contínuo
esforço pelo melhoramento do mundo, o mundo melhor de amanhã não pode ser o
conteúdo próprio e suficiente da nossa esperança. E, sempre a este respeito,
pergunta-se: Quando é «melhor» o mundo? O que é que o torna bom? Com qual
critério se pode avaliar o seu ser bom? E por quais caminhos se pode alcançar
esta «bondade»?
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7 de fev. de 2011
Amizade democrática
Como vimos anteriormente, ao longo dos tempos o ideal clássico da amizade foi posto
em xeque: pelos compromissos de parentesco da Antiguidade; pelas obrigações da suserania
medieval; por certo compadrio cristão; e pela vida blasé capitalista.
A consolidação da democracia enquanto ideologia igualitária foi outro fator que, na
história recente, também veio a minar a amizade. Mais do que sujeitos, somos
cidadãos, diretamente unidos entre nós, sem a mediação de um monarca, porém
emocionalmente cegos uns aos outros.
Mônodas políticas, moléculas efêmeras
De algum modo, o nacionalismo agregaria os
cidadãos dispersos. De forma mais particular, a “fraternidade” nascida da Revolução Francesa desempenharia tal papel. Não obstante, tanto Wordsworth, na Inglaterra, quanto Whitman, na America, vieram a fazer da “amizade universal” o fulcro de suas
ideias democráticas. Para a mãe do feminismo, Mary Wollstonecraft, amizade
romântica é a chave para a democracia doméstica e a renegociação sexual.
Daí que a amizade se tenha tornado uma
peculiaridade das relações modernas. Igualitarismo, livre escolha e
individualismo, três atitudes tão metidas na cultura atual, encontram na amizade uma
forma de expandir-se: amigo a gente
escolhe, parente a gente aguenta.
Ora, entre amigos não há hierarquia nem
contrapartidas. Entre amigos não há contrato, coisa que parece contaminar o
próprio matrimônio. Não se pode programar a amizade, definir momentos, formalizar
intenções.
Amigos, “a família que eu escolho”
A crueza do anonimato da sociedade industrializada
e do desenraizamento urbano em cidades cujas casas são “máquinas de morar”
encontra uma válvula de escape na amizade. O trauma da mobilidade acadêmica e
da instabilidade profissional, da brecha aberta nas famílias pela chaga
divorcista e da “orfandade de pais vivos” procura igualmente na amizade seu
consolo. E quando os casamentos são fluidos, a amizade parece prometer solidez.
Mas o ideal clássico da amizade faliu
inevitavelmente, pois a ideia de uma “cara metade”, de um único amigo verdadeiro,
desapareceu. Temos nossos “melhores amigos”, mas talvez falte “o amigo de verdade”. Além disso, falar de “melhor amigo para sempre” parece soar a homossexualismo para a
cultura freudiana.
Carestia de virtude
Do ponto de vista moral, a mútua ligação entre
os amigos dentro do ideal clássico era construída pelo pacto da virtude.
Faltando esta, faltará a amizade. Amizade não é terapia nem consolo; é
compromisso e sacrifício. Amizade não é entretenimento nem diversão; é comunhão
e lealdade.
Com a generalização da amizade e a perda
de força do ideal clássico, nasceu algo novo: a amizade coletiva. O círculo de amigos pode ser boêmio, artístico,
transgressivo; ou seja: é uma sociedade alternativa, uma tentativa de refúgio contra os
valores de um mundo velho e falido.
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