Como vimos anteriormente, ao longo dos tempos o ideal clássico da amizade foi posto
em xeque: pelos compromissos de parentesco da Antiguidade; pelas obrigações da suserania
medieval; por certo compadrio cristão; e pela vida blasé capitalista.
A consolidação da democracia enquanto ideologia igualitária foi outro fator que, na
história recente, também veio a minar a amizade. Mais do que sujeitos, somos
cidadãos, diretamente unidos entre nós, sem a mediação de um monarca, porém
emocionalmente cegos uns aos outros.
Mônodas políticas, moléculas efêmeras
De algum modo, o nacionalismo agregaria os
cidadãos dispersos. De forma mais particular, a “fraternidade” nascida da Revolução Francesa desempenharia tal papel. Não obstante, tanto Wordsworth, na Inglaterra, quanto Whitman, na America, vieram a fazer da “amizade universal” o fulcro de suas
ideias democráticas. Para a mãe do feminismo, Mary Wollstonecraft, amizade
romântica é a chave para a democracia doméstica e a renegociação sexual.
Daí que a amizade se tenha tornado uma
peculiaridade das relações modernas. Igualitarismo, livre escolha e
individualismo, três atitudes tão metidas na cultura atual, encontram na amizade uma
forma de expandir-se: amigo a gente
escolhe, parente a gente aguenta.
Ora, entre amigos não há hierarquia nem
contrapartidas. Entre amigos não há contrato, coisa que parece contaminar o
próprio matrimônio. Não se pode programar a amizade, definir momentos, formalizar
intenções.
Amigos, “a família que eu escolho”
A crueza do anonimato da sociedade industrializada
e do desenraizamento urbano em cidades cujas casas são “máquinas de morar”
encontra uma válvula de escape na amizade. O trauma da mobilidade acadêmica e
da instabilidade profissional, da brecha aberta nas famílias pela chaga
divorcista e da “orfandade de pais vivos” procura igualmente na amizade seu
consolo. E quando os casamentos são fluidos, a amizade parece prometer solidez.
Mas o ideal clássico da amizade faliu
inevitavelmente, pois a ideia de uma “cara metade”, de um único amigo verdadeiro,
desapareceu. Temos nossos “melhores amigos”, mas talvez falte “o amigo de verdade”. Além disso, falar de “melhor amigo para sempre” parece soar a homossexualismo para a
cultura freudiana.
Carestia de virtude
Do ponto de vista moral, a mútua ligação entre
os amigos dentro do ideal clássico era construída pelo pacto da virtude.
Faltando esta, faltará a amizade. Amizade não é terapia nem consolo; é
compromisso e sacrifício. Amizade não é entretenimento nem diversão; é comunhão
e lealdade.
Com a generalização da amizade e a perda
de força do ideal clássico, nasceu algo novo: a amizade coletiva. O círculo de amigos pode ser boêmio, artístico,
transgressivo; ou seja: é uma sociedade alternativa, uma tentativa de refúgio contra os
valores de um mundo velho e falido.
