Mostrando postagens com marcador Andreas Capellanus. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Andreas Capellanus. Mostrar todas as postagens

1 de fev. de 2014

O beijo não vem da boca

Já dizia Ignácio de Loyola Brandão que o beijo não vem da boca. Mas será que ele vem sempre do coração?…

Além disso, nem tudo que sai do coração é bom. O problema é que a mesma boca que te beija pode ser a boca que te escarra.

O problema também é que Deus é amor, mas o amor não é Deus. Ou seja: o amor não coonesta tudo. Quanto vale um amor sem sinceridade? Tanto quanto a liberdade sem a verdade. Podem chamar quaisquer afetos de amor, mas o amor verdadeiro envergonha-se do que a natureza veda, já dizia Andreas Capellanus.

Mas voltemos ao beijo. Existem três tipos:
  • basium, entre conhecidos (são as formas de se cumprimentar socialmente);
  • osculum, entre amigos (ósculo, aquele que faz biquinho);
  • suavium, ou beijo dos amantes, cujo pudor exige discrição.
O cumprimento pode ser hipócrita como o de um fariseu; o ósculo pode ser traidor como o de Judas; e o beijo pode ser mentiroso como o de uma prostituta.

Olavo Bilac pedia:

Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!,
Ferve-me o sangue, acalma-o com teu beijo,
Beija-me assim!

Total: pode-se compor odes ao amor e elogios ao beijo, mas nem sempre encontrá-los, ou buscá-los onde não se encontram. Também o amor e suas manifestações necessitam de purificação!…

7 de nov. de 2011

O amor contra a parede

O homem é seco e quente, enquanto a mulher é fria e úmida.
(Pseudo-Aristóteles, Problemas, IV, §26)

Um velho problema

São Jerônimo chegou a pensar que o semper orare (1Ts 5,18) anularia o débito conjugal (cf. 1Cor 7,13):

Oro te, quale illud bonum est, quod orare prohibet?
— Digo-te: que bem seria aquele que proíbe orar?
(Adversus Jovinianum, I, 7: PL 23, 220)

Seguindo a tendência, ainda na Idade Média, afirmava-se em alguns círculos que “quem ama sua mulher com excessivo ardor é considerado culpado de adultério” (cf. André Capelão, Tratado do amor cortês, Livro I, VI, G: pág. 131).

Tal ideia tinha suas raízes na ética neoplatônica e estoica, inspirada em Sêneca (PL 23,281): Adulter est, inquit suam uxorem amator ardentior (Diz-se que é adúltero quem ama sua esposa com excessivo ardor). Tão sinistra afirmação, com efeito, é retomada por Pedro Lombardo (Liber Sententiarum, IV, 31, 6).

A tentação do encratismo

É recorrente na história a propensão ascética a proibir o casamento e a abster-se de carne (cf. 1Tm 4,3). Taciano o Sírio (120-180 AD) é um expoente dessa tendência, pois se considera o fundador da heresia dos “encratistas” (“autocontrolados”), muito aparentada ao maniqueísmo e ao marcianismo.

Tal inclinação coalhou na moderna crítica ao amor cristão. Contudo, é preciso frisar que esse amor dissociado da carne só foi acolhido pela teologia protestante, como fica patente na obra de Anders Nygren.

E o amor, como sairá vivo entre a espada e a caldeirinha? …aguarde as cenas do próximo capítulo!

25 de out. de 2011

Amor na berlinda

Após apresentar as 31 regras ditadas pelo Rei do Amor e as 12 regras essenciais do amor, coligidas na Summa amoris de André Capelão, penso ser o momento de pôr tal amor na berlinda.

Afinal, quem é o bendito amor??? O que é? Como é?

Amorosamente incorreto

A definição apresentada por André Capelão é: uma paixão natural que nasce da visão da beleza do outro sexo e da lembrança obsedante dessa beleza (I, I, in principio).

Nesse momento é preciso deixar bem claro que o amor só pode existir entre pessoas do sexo oposto. Não pode existir entre dois homens ou duas mulheres: duas pessoas do mesmo sexo não são absolutamente feitas para se propiciarem mutuamente os prazeres do amor ou para realizar os atos naturais que lhe são próprios. E o amor envergonha-se do que a natureza veda (I, II, in principio).

Anzol de corações

Ainda conforme André, amor vem do verbo amar, que significa ‘prender’ ou ‘ser preso’. Pois quem ama fica preso nas malhas do desejo e deseja prender o outro em seu anzol (I, III, in principio).

De fato, segundo Santo Isidoro de Sevilha, amicus vem de hamus, laço [de afeição] (cf. Etimologias, X, L, 5). No mesmo sentido, sentenciou São Pedro Damião (PL 145,965 c):

Hamat amor varios, scindit discordia iunctos.
— O amor fisga seres opostos; o ódio separa os que estão juntos.

E, na mesma linha, Pitra, abade de Solesme (Spicilège de l’abbaye de Solesme, III, 491):

Non amor, infelix, sed amo; non hamo, sed hamor;
Hamor et hoc hamo: pectus inhamat amor.
— Ai de mim! Não sou amado, mas amo; não fisgo mas sou fisgado;
sou fisgado e entendo que o amor fisga o coração.

Gradual, como a extensão do corpo

André Capelão também fala que desde a Antiguidade foram distinguidos quatro graus diferentes em matéria de amor. O primeiro consiste em dar esperanças; o segundo, na oferta do beijo; o terceiro nos prazeres das carícias; o quarto, enfim, tem por termo a doação total da pessoa (I, VI, A).

Sendo algo tão carnal, como não admitir sua obsolescência? Não à toa, Cícero afirma (Tusculanas, IV, 35), num comentário que faz jus à regra XVII do Rei do Amor:

Etiam novo quidam amore veterem amorem tamquam clavo clavum eiciendum putant.
— Acredita-se até que assim como um prego expulsa o outro, o amor novo expulsa o antigo.

14 de out. de 2011

31 regras ditadas pelo Rei do Amor

Regras do amor, lavradas em manuscrito e ditadas pelo próprio Rei do Amor (cf. Tratado do Amor Cortês, Livro II, pág. 260-2):

I. O casamento não é desculpa válida para não amar.

II. Quem não tem ciúme não pode amar.

III. Ninguém pode ligar-se a dois amores ao mesmo tempo.

IV. É certo que o amor sempre aumenta ou diminui.

V. O que o amante obtém sem assentimento da amante não tem sabor algum.

VI. O homem só pode amar depois da puberdade.

VII. Depois da morte do amante, quem sobreviver deverá esperar dois anos.

VIII. Ninguém deve ser privado do objeto de seu amor sem a melhor das razões.

IX. Ninguém pode amar de verdade se a isso não for incitado pelo amor.

X. O amor sempre abandona o domicílio da avareza.

XI. Não convém amar mulher que nos envergonhe desposar.

XII. O verdadeiro amante não deseja estar em outros braços que não sejam os de seu amante.

XIII. Quando o amor é divulgado, raramente dura.

XIV. A conquista fácil torna o amor sem valor; a conquista difícil dá-lhe apreço.

XV. Todo amante deve empalidecer em presença do amante.

XVI. Quando um amante avista de repente a mulher amada, seu coração deve começar a palpitar.

XVII. Amor novo expulsa o antigo.

XVIII. Só a virtude torna alguém digno de ser amado.

XIX. Quando diminui, o amor desaparece depressa e raramente se revigora.

XX. O enamorado sempre tem medo.

XXI. O verdadeiro ciúme sempre aumenta o amor.

XXII. Quando se suspeita do amante, aumentam o ciúme e a paixão.

XXIII. Quem é atormentado por cuidados de amor come menos e dorme pouco.

XXIV. Todo ato do amante tem como finalidade o pensamento da mulher amada.

XXV. O verdadeiro amante não acha bom nada daquilo que não lhe pareça agradar à amante.

XXVI. O amante não sabe recusar nada à amante.

XXVII. O amante nunca se sacia dos prazeres que encontra junto à mulher amada.

XXVIII. A menor desconfiança leva o amante a suspeitar do pior na bem-amada.

XXIX. Quem é excessivamente atormentado pela luxúria não ama de verdade.

XXX. O verdadeiro amante é obcecado ininterruptamente pela imagem da mulher amada.

XXXI. Nada impede que uma mulher seja amada por dois homens e um homem por duas mulheres.

7 de out. de 2011

Doze regras essenciais do amor

Retiradas do Tratado do Amor Cortês, Livro I, VI, E (pág. 98-99):

I. Foge da avareza como de flagelo funesto e abraça o que lhe for contrário.

II. Mantém-te casto para aquela que amas.

III. Não tentes destruir o amor de uma mulher que esteja perfeitamente unida a outro.

IV. Não busques o amor de nenhuma mulher que o sentimento natural de vergonha te impeça de desposar.

V. Lembra-te de evitar absolutamente a mentira.

VI. Evita contar a vários confidentes os segredos do teu amor.

VII. Obedecendo em tudo às ordens das senhoras, esforça-te sempre por pertencer à cavalaria do Amor.

VIII. Dando e recebendo os prazeres do amor, cuida de sempre respeitar o pudor.

IX. Não sejas maldizente.

X. Não traias os segredos dos amantes.

XI. Em qualquer circunstância, mostra-te polido e cortês.

XII. Ao te entregares aos prazeres do amor, não excedas o desejo de tua amante.

26 de dez. de 2010

Summa amoris


Tratado do Amor Cortês (Traité de l’Amour Courtois) é o título dado por Claude Buridant à sua tradução e comentários da obra de André Capelão (Andreas Capellanus). Este clérigo do século XII (embora não esteja totalmente claro que sua clerezia seja a eclesiástica) é o autor do Tractatus de Amore ou De arte honeste amandi.

Aparentemente, essa summa amoris pretende ensinar a arte da cortesia, porém sua conclusão é surpreendente: após páginas dedicadas ao deus amor e à idealização da mulher, condena categoricamente o amor e vitupera a mulher como a origem de todos os males.

O paroxismo da obra não se resolveu. Ainda que a leitura geral pareça indicar certo cinismo em André Capelão, não faltaram críticos que o consideraram um verdadeiro adepto do amor cortês. O clérigo talvez tivesse percebido seus excessos e tentasse com o epílogo negativo contrabalançar seus princípios liberais. Ou, o que seria pior, assumisse conscientemente a duplicidade de vida.

O livro — escrito com estilo, requinte e erudição — interessa porquanto ilustra o ideal aristocrático da cortesia, retrata o período áureo do trovadorismo, e diverte com a descrição de galanteios inventados entre pretendentes de classes sociais diversas.

Por outro lado, a obra decepciona pela apologia do adultério e da luxúria, cuja condenação aparece no texto muito tardiamente. Por fim, deixa um mau sabor de boca com seu desfecho antifeminista.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...