2 de jul de 2012

Quem paga a conta?

Dizem que a mulher é vontade, e o homem, inteligência. Mas no restaurante da vida, quem paga a conta?

Antes de tentar responder a essa pergunta, vamos complicar essa mesa, acrescentando o coraçãoO coração é um certo laço entre a vontade e a inteligência, quase um filho de ambos.

Pois bem, para descobrir quem paga a conta, penso que nos pode ajudar a consideração de como a fé — misto de luz e moção interior, intuição e entrega — é acolhida pelo coração.

Fé e razão

Seguindo a Tradição cristã, que tem em Agostinho seu expoente, o homem deseja a Deus, ainda que não o saiba, e pode conhecê-lo através da contemplação do mundo ou de si mesmo.

Deus se revela mediante sua Palavra Criadora, a Palavra da Aliança, a Palavra Profética e, enfim, por sua Palavra Encarnada: Jesus Cristo. Como se deve ouvir a Palavra? Com a “obediência da fé” (CCE 144).

A fé é, simultaneamente, uma adesão pessoal a Deus e o assentimento à verdade que ele nos traz por Cristo no Espírito Santo. A cláusula “no Espírito Santo” é importante, pois indica que nossa fé se apoia na fé da Igreja, que é o locus do Espírito. Ou seja, não há fé fora da Igreja, mas mera opinião ou crendice, pois não se pode crer senão mediante um fiador ou garante do que se crê.

Embora o motivo da fé seja a autoridade de Deus que revela, e não a inteligibilidade do dado revelado, a fé não “está de mal” com a inteligência. Sem a compreensão da fé, facilmente se vai do pietismo à impiedade. Daí a necessidade de fazer mais inteligível o que se crê.

Contudo, ao longo da história, nem sempre houve uma harmonização satisfatória entre fé e razão. De fato, num primeiro momento, alguns Padres viam a filosofia com reserva, inspirados talvez em leituras bíblicas que dizem da ciência que “também é vaidade” (Ecl 2,15), pois “o temor de Deus é o princípio da sabedoria” (Eclo 1,16[14]). Posteriormente, mas em sentido contrário, alguns pensadores cristãos também se afastaram da racionalidade da fé cativados por teses filosóficas voluntaristas.

Erros históricos

Tertuliano (†220) defendia o paradoxo credo quia absurdum, contra Clemente de Alexandria (†215), que equiparava a filosofia para os gregos à Lei mosaica para os judeus.

Sigério de Brabante (†1284): foi o principal defensor do averroísmo latino, ou seja, da existência de dupla verdade, baseado numa interpretação equivocada de Aristóteles.

Bem-aventurado João Duns Escoto OFM (†1308): ensinava a potentia absoluta de Deus, fundamentando teoricamente as teses voluntaristas daqueles que o sucederam. De fato, ao apresentar a liberdade como qualidade fundamental da vontade, levou seus seguidores a considerar a liberdade como inata e absoluta e a negar à vontade a necessária colaboração do intelecto.

Guilherme de Ockham OFM (†1349): separou o âmbito da fé do da racionalidade, que só serviria para descobrir o que é provável.

Gabriel Biel (†1495): apoiava a salvação no querer de Deus, independentemente do mérito humano.

Martinho Lutero (†1546): seu pessimismo quanto ao homem o levava a pensar que o homem, conforme a natureza não faz nada senão pecar e, conforme a inteligência, nada senão errar. A graça e a fé seriam incompatíveis com a natureza e a razão.

Søren Kierkegaard (†1855): para ele, o cristianismo seria verdade por parte de Deus, mas não a intelectualizada.

Rudolf Butmann (†1976): segundo o teólogo protestante, a fé não diria como foi Jesus, mas qual seria a mensagem existencial do mito criado pela Igreja: a conversão.

Ser cerebral ou ser voluntarista?

O mistério da cruz, com sua exigência radical de fé, redimensiona toda essa questão. Tanto o intelectualismo quanto o voluntarismo caem por terra diante da entrega amorosa de Cristo.

Judas Iscariotes representa bem o intelectualismo. Homem frio, calculista, interesseiro, que só se preocupava com o dinheiro, a segurança, as coisas no lugar; ou então com uma preocupação social ineficaz, ou com um nacionalismo terreno. Não lhe entrava na cabeça o caminho da entrega, da generosidade, do esquecimento próprio. Por tudo isso, vendeu Cristo por trinta moedas.

Simão Pedro, porém, encarna o voluntarismo. Homem impetuoso, de coração grande, só se movia por entusiasmos passageiros, por sentimentos favoráveis, por caminhos fáceis e alegres. A renúncia, a abnegação, o passar oculto, custavam-lhe ao coração. Por causa de sua volubilidade acabou por negar Cristo por três vezes.

Só a fé é capaz de iluminar a mente e fortalecer o coração, tornando-se o fundamento da fidelidade.

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Afinal, quem paga a conta? Sou muito feminista. Por isso, se elas querem isonomia, penso que quem deve pagar a conta é a gatinha da vontade.
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