21 de abr de 2011

Dieta intelectual

Kant não bebia tereré

Na época em que eu morava em São Paulo, fui com um amigo do Mato Grosso do Sul assistir a uma palestra, dada pelo filósofo alemão Vittorio Hösle, no Instituto Internacional de Ciências Sociais. Meu interesse provinha de ter lido com muito gosto seu livro O Café dos Filósofos Mortos. O livro é bastante interessante e poderei contar algo depois.

A palestra foi em inglês e versava sobre o kantianismo. Qual não foi minha decepção quando um espertinho do público indagou-o acerca do vegetarianismo. — Certamente o fez com a intenção de pôr a descoberto aspectos obscuros do pensamento de Vittorio Hösle.

Com um raciocínio mirabolante, apoiado no conceito dos imperativos categóricos, o alemão tentava nos convencer que, ao comermos uma vaca, comemos oito vezes mais pasto do que comeríamos se fôssemos vegetarianos, causando uma desordem cósmica que exigiria reparação. Daí para impugnar o uso de automóveis e da TV foi um passo. Ele, que entrara aclamado, saiu da conferência desmoralizado.

Meu amigo, que tinha ido comigo à palestra, fã de tereré, gente pé-no-chão, criado em fazenda, exclamou:

— Esse homem tem dois problemas: nunca comeu um churrasco e mora na Alemanha! Se morasse no Brasil e tivesse consciência de quanta coisa ainda está por fazer em nosso país, não perderia tempo com teorias tão desconectadas da realidade.

Plotino ascendeu ao Uno sem tomar uma Kaiser antes

Outro conhecido meu de São Paulo era fã do filósofo Plotino. Ora, entre as coisas curiosas relacionadas com o pai do neoplatonismo conta-se sua prática vegetarianismo, razão pela qual meu amigo também era adepto dessa dieta. A questão para ele era verdadeiramente filosófica, conforme o título da obra de Porfírio: De non necandis ad epulandum animantibus.

Digo que a questão era filosófica porque há quem viva o vegetarianismo por razões ascéticas. Certa tradição monástica relaciona a dieta de carne vermelha com a luxúria e a abstinência é vista como um recurso para cultivar a castidade.

Moisés era vegetariano?!?

A origem da abstinência como recurso ascético remonta à Sagrada Escritura. Muitos surpreendem-se ao saber que o vegetarianismo é um ideal bíblico. Contudo, mais do que uma proposta, o vegetarianismo é símbolo da harmonia e da autoridade de Deus sobre a vida, que está contida no sangue (Gn 9,4s).

Basicamente, o tema desenvolve-se da seguinte forma:

1) Protologia (da Criação ao Dilúvio): tanto os homens quanto os animais teriam sido vegetarianos (Gn 1,30; 9,2s).

2) Tempo de Israel: o povo eleito só podia comer carne sem sangue e uma lista reduzida de animais puros, todos eles herbívoros (Lv 7,22-27; 11,1-47).

3) Tempo da Igreja: os cristãos provenientes do helenismo deveriam abster-se de carne com sangue em atenção aos judeo-cristãos (At 15,20).

4) Escatologia (depois do fim do mundo): homens e animais viverão em harmonia (Is 11,6-9).

Um breve comentário quanto ao item 3: com o tempo, tal normativa caducou, mas permaneceu o costume da abstinência semanal às sextas-feiras e na Quarta-feira de Cinzas (o que, no Brasil, pode ser substituída por qualquer outra prática penitencial).

Vegetarianismo laicista

Por outro lado, tenho encontrado com certa frequência pessoas que praticam o vegetarianismo aduzindo uma argumentação bastante diferente das anteriores. Numa abordagem superficial, parece-me que seguem duas linhas: ou procedem em busca de uma vida mais saudável, ou advogam direitos aos animais.

Tanto num caso quanto noutro, é fácil detectar uma antropologia bastante débil, em que o conceito de pessoa é relativizado e alguns aspectos vitais de menor importância são supervalorizados.

Mal passado

Na raiz dessa miopia filosófica está a ingenuidade de abraçar a intuição bíblica da harmonia, porém sem o suporte do kantianismo, nem do neoplatonismo e, muito menos, do realismo bíblico.

Paradoxalmente, muitos que se privam de prazeres por motivos fúteis e infundados são os mesmos que rechaçam a ascética cristã e se entregam ao desregramento em outros prazeres, no sexo, no álcool ou nas drogas.

Haveria muito que falar dessa miopia que leva até a inverter a polaridade das coisas, a tergiversar. A miopia é tal que torna vesgo! Antes disso, porém, faço minhas as palavras do meu amigo do Pantanal: convido a todos — os que estejam dispostos, claro! — a um almoço na churrascaria!
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