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23 de nov. de 2013

Retrofit do casamento


Pouco antes de iniciar o Ano da Fé, que termina amanhã, Bento XVI afirmou: “Há uma clara correspondência entre a crise da fé e a crise do matrimônio. E, como a Igreja afirma e testemunha há muito tempo, o matrimônio é chamado a ser não apenas objeto, mas o sujeito da nova evangelização.” (Homilia, 7/10/2012)

Os próximos dois anos prometem colocar a família e o matrimônio no foco da atenção da Igreja e do mundo. Com efeito, a ONU comemorará os 20º aniversário do Ano Internacional da Família e a Santa Sé patrocinará dois Sínodos sobre o tema. Além disso, em 2015 ocorrerá na Filadélfia o VIII Encontro Mundial das Famílias.

Em vista da ocasião, preparei três apresentações com o objetivo de incentivar uma atitude positiva e pró-ativa com relação ao tema.

A primeira consiste em explicar os objetivos da ONU para a família, os quais, graças aos esforços da International Federation for Family Development, são excelentes. As metas propostas comprovam que a família pode ser um meeting point para as pessoas das mais variadas tendências ideológicas.


A segunda apresentação visa à comunicação estratégica dos argumentos pró-família, vislumbrando as oportunidades de persuasão oferecidas pela ciência cognitiva e pela teoria narrativa, a fim de contornar o revisionismo matrimonial.


Por fim, a outra apresentação sugere iniciativas variadas no campo da família, abrindo para um brainstorming.


Recomendo que você visite e assine o feed de http://thefamilywatch.org/. E também agradeceria receber suas sugestões!

29 de set. de 2013

Meeting point

A família é um dos meeting points nos que se podem pôr de acordo pessoas das mais variadas ideologias e convicções. É opinião majoritária que a estabilidade familiar desempenha um grande papel social, de modo que pega muito bem defender as “famílias que funcionam”. Só quem está muito obcecado por posições ideológicas pode sofrer da “síndrome da orquestra do Titanic” e continuar sem entender algo tão elementar.

Nessa seara, é imprescindível apoiar qualquer argumento, por mais óbvio que seja, em dados sociológicos e em fontes rigorosas, evitando critérios filosóficos, antropológicos e morais, ainda que estejam certíssimos. No máximo, pode-se aduzir argumentos de senso comum, os quais são aceitos porque a experiência costuma convencer mais que os arrazoados.

Com efeito, a sociedade não costuma aceitar atitudes prepotentes ou arrogantes, dando mais peso a estudos de caso, a debates e a reuniões, do que a aulas e preleções. A delicadeza na exposição também implica explorar um jargão de eufemismos e expressões politicamente corretas, mas que supõem cortesia e apreço pelas diferentes opiniões: diálogo intergeneracional, igualdade, exclusão social, etc. Nesses debates, é mister ter presente o ditado: O vencedor é tanto mais honrado, quanto mais o vencido é respeitado. Não importa perder os matizes se ficar claro onde a verdade teima em ficar.

Por outro lado, não se pode esquecer que os organismos, enquanto pessoas jurídicas, não têm opinião. Suas linhas e tendências variam com o tempo, em função do consenso dos membros, cujos critérios oscilam conforme o vai-e-vem dos governos e os oportunismos políticos. Nesse sentido, interessa ficar atento à dinâmica dos órgãos e tratar com cada pessoa em particular.

Muitos dos que propagam erros práticos no campo da família carecem de documentação, de opiniões matizadas, de assessores criteriosos. Ao mesmo tempo, agradecem receber suporte de dados que lhes deem respaldo na defesa dos valores familiares atacados pelos teóricos badalados.

Aqui há um ponto importante: às vezes, o que se chama “família tradicional” é apenas um dos frutos recentes da revolução industrial, que separou a casa do lugar de trabalho. Portanto, defender os valores familiares não é sinônimo de nostalgia. O desenvolvimento social sempre une efeitos positivos e negativos; mas, para haver progresso, a família sempre deve ser protegida em todas as circunstâncias, com as necessárias adaptações a cada época.

Por fim, falar da família supõe ter uma visão positiva e otimista. É paralisante reagir negativamente diante de políticas impositivas equivocadas, de definições deformadas do matrimônio, da legalização de condutas aberrantes, etc. A defesa da família está fadada ao triunfo, embora exija tempo e esforço.

19 de set. de 2013

Misantropia ou Facebook

A misantropia de certo amigo meu desaparece diante de certas garotas. Por isso, já lhe disse, brincando, que ele não é misantropo, mas misândrico.

Contudo, ele tem algo de razão quando critica tanta invasão de privacidade.

— “Sai do meu quadrado!”

De fato, no quadrado do Facebook todo mundo é amigo. Tanto o colega de infância que o esqueceu, quanto a ex-namorada que bem conhece seus defeitos, assim como o chefe intratável e nossa querida genitora.

A culpa do uso tão elástico do conceito de amizade não é exclusiva do Facebook. Pais querem ser amigos dos filhos, maridos de suas mulheres, professores de alunos, políticos de eleitores, etc.

Seria o fim da solidão? Ou a diluição das relações? Lembre-se que, para a mãe do feminismo, Mary Wollstonecraft, a amizade é o termo chave para a renegociação do contrato sexual e para a nova democracia doméstica!

2 de set. de 2013

O poliamor é a bola da vez?

Quando se amputa à realidade seu fundamento, qualquer invenção torna-se válida.

Depois de se legalizar por ativa (nas leis e julgamentos) e por passiva (na opinião pública) aberrações como o aborto, a pederastia, etc., provavelmente o próximo passo será a consagração do poliamor.

Quatro indícios:

Aceitação positiva na mídia

A cobertura jornalística sobre casas de swing e coisas afins é provocativa, mas positiva. Também há reality shows que trabalham sobre o tema da infidelidade.

Eu nasci assim…

Tem se costumado explicar o comportamento sexual humano com base no paradigma dos outros animais, diluindo os aspectos relacionados à liberdade, às virtudes, à comunhão dos espíritos, à comunicação, à relação interpessoal. Sabe-se muito de “técnica” sexual e pouco de amor.

A sexualidade é reduzida ao sexo, e o sexo é reduzido à pulsão, de origem genética, e destituído de sua dimensão pessoal. O homem agora é Homo sapiens polyamorensis, mera expressão de impulsos.

“O que importa é o amor”

União monogâmica e indissolúvel deixou de ser sinônimo de amor para muita gente. Isso lhes soa a restrição, manutenção, falta de criatividade. Muito mais “ético” seria a capacidade de amar sem fronteiras, a abertura de coração, a libertação das amarras dos ciúmes. Ou seja, o que antes se chamava promiscuidade, hoje deveria se chamar honestidade radical.

Em busca de reconhecimento

Como toda minoria reivindica seu direito a não ser discriminada, os poliamoristas estão trabalhando para que a sua opção seja reconhecida. Nesse sentido, já existem trabalhos acadêmicos a respeito.

***

É evidente que a redução do casamento à mera satisfação sexual adulta implica numa sociedade alheia às crianças. Como mais um objeto de satisfação, os filhos ficarão à mercê do estilo de vida de quem as adotarem ou gerarem.

Apesar desse panorama sombrio, há muitas coisas boas que se pode fazer para defender os valores familiares. Por exemplo, 2014 será um ano dedicado pela ONU à comemoração dos 20 anos do Ano Internacional da Família.

A maioria esmagadora das pessoas sonha com um amor limpo, com a castidade, com a família, com os filhos. O que temos feito para valorizar e fomentar em nosso ambiente a capacidade de comunicação, a honestidade, a confiança, a fidelidade, o respeito?

Se assim o fizermos, a família sim é que será a bola de vez!

30 de ago. de 2013

20º aniversário do Ano Internacional da Família

As resoluções das Nações Unidas são expressões formais da opinião ou da vontade dos seus órgãos. Normalmente estão compostas por duas partes claramente definidas: um preâmbulo, com as razões da medida tomada, e outra parte prática, com instruções.

O Conselho Econômico e Social da ONU promulgou uma resolução em 30 de agosto de 2012, acerca dos preparativos e a celebração do vigésimo aniversário do Ano Internacional da Família, de acordo com o informe do Secretário Geral das Nações Unidas de 11 de novembro de 2011. A ideia é pôr em evidência outra vez os objetivos daquele ano, em prol do desenvolvimento social.

Para fomentar o entorno propício à família, a igualdade entre homens e mulheres, o respeito aos direitos e às liberdades fundamentais de todos, e o bem-estar familiar, foram propostos três temas:

   a) Erradicação da pobreza das famílias, causada, entre outros fatores, pelo divórcio.

   b) Pleno emprego e trabalho decente para o equilíbrio entre trabalho e família.

   c) Integração social e solidariedade entre as gerações.

Os Estados Membros são convidados a envidar políticas públicas sobre a família dentro dessas linhas, com a colaboração da sociedade civil.

É sabido, contudo, que muitos países ocidentais tomam tais políticas como ocasião de implementar equívocos práticos de matriz ideológico contra a família. Daí a importância de adiantar-se e propor soluções apropriadas em prol da célula-base da sociedade.

Como exemplo, três sugestões de ações simples, adequadas aos tópicos propostos pela ONU:

   a) Estudar e difundir dados relativos ao custo social do divórcio e seus impactos nas mulheres, nas crianças e nos jovens.

   b) Participar das discussões políticas acerca da flexibilização da jornada de trabalho.

   c) Desenvolver atividades de voluntariado para jovens envolvendo a atenção de idosos.

12 de ago. de 2013

Gandaia tântrica

Ideias deletérias

Há uma leve diferença entre assustar-se e decepcionar-se. Não me assusto com nada; mas às vezes fico decepcionado ao constatar nas ideias e nos lábios de pessoas aparentemente coerentes certos disparates sobre o amor e a família.

Vira e mexe ouço especulações pseudocientíficas sobre poliamor, tantra, etc. E, quando comento a respeito do assunto com a pessoa interessada, costumo receber a seguinte resposta:

— Não se assuste. É bom ler sobre tudo, conhecer opiniões. Apenas isso. Gosto de ler tudo, todos os lados e formas. A gente cresce e vê muita coisa.

É claro que devemos conhecer as diversas opiniões. Mas não é preciso ler tudo para saber dessas coisas. Por outro lado, as opiniões divergem mais quando um tema carece de clareza ou unanimidade. Se o amor e a família são o foco da disquisição, ligue o alerta, pois o que tantos autores badalados defendem é a demolição do amor, da mulher e da família.

E mesmo que alguém tivesse a obrigação acadêmica de ler ou estudar esses escritores, não seria correto recomendá-los.

A família em disputa

— Mas talvez eles nos deem outra visão. Pode ficar tranquilo que textos não mudam essências.

Ora, temos valores humanos a preservar. E, como cristãos, esse compromisso é ainda maior, pois nada que é humano nos é alheio.

Embora a verdade não se esgote na multiplicidade de visões pessoais, é impossível que uma mesma realidade admita interpretações diametralmente opostas.

Estamos numa batalha pela família. Essa turma só não defende abertamente a pedofilia porque ainda pega mal. E são tupiniquins: nem têm o nível de um Freud ou um Marcuse.

É ingenuidade pensar que os inputs da vida não nos transformam. De fato, não mudamos de essência, mas um pouco nos assemelhamos àquilo que acolhemos no coração.

Família bem sucedida não é fruto do acaso, mas de uma urdidura de virtudes e princípios. Efêmeros golpes da sorte formam casais, não famílias.

30 de mai. de 2013

A ilusão das próprias contradições

A bandeira dos direitos humanos é um salvo-conduto no discurso da vanguarda política, mesmo à custa da coerência.

Bom exemplo é o artigo da promotora Fabiana Dal’Mas Rocha Paes, publicado em O Globo no dia 30/5/2013, que reúne todas as contradições cuidadosamente organizadas como o baralho de um castelo de cartas.

Em primeiro lugar, alude a uma “verdadeira democracia” que protege os interesses de militantes da “diversidade sexual”, mas ridiculariza o massivo protesto da sociedade francesa — liderado inclusive por um homossexual —, o qual foi ignorado pelos parlamentares daquele país.

Em seguida, afirma que a interpretação do artigo 226 da Constituição brasileira deve fugir da literalidade (casamento entre “homem e mulher”). Ora, tal princípio nos faria reféns da insegurança jurídica e permitiria ulteriores desdobramentos, como equiparar ao matrimônio a poligamia, a pedofilia, etc.

Na mesma linha, afirma que impedir o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo feriria o artigo 5º da Constituição, o qual veda a discriminação. Mas incapacidade equivale à privação de direito?

Curioso é que logo depois a promotora ousa dizer que todo o pensamento contrário é necessariamente religioso e, como tal, deve ser excluído do debate. Assim ela acaba de ferir esse mesmo artigo 5º da Constituição e os mais elementares princípios da racionalidade.

Finalmente, declara que o objetivo da militância é a instauração de um ideário de vanguarda tão alheio aos valores brasileiros que se poderia qualificar de totalitário.

Gostaria apenas de indagar à missivista:  O que é o matrimônio? O que é a família? — Somente buscando uma resposta cabal a essas perguntas poder-se-á fortalecer a nossa sociedade e valorizar os verdadeiros direitos civis.

28 de abr. de 2012

Discussão intrauterina

A mídia e o Supremo apresentam ao público e ao povo uma altercação na barriga de Rebeca: Esaú e Jacó discutem quem deve prevalecer: o poder de Esaú ou a consagração de Jacó.

Falando sério, penso que não é preciso ter útero para falar de aborto. A não ser que útero aqui se refira a entranhas, à capacidade de se compadecer.

Não é preciso ser mulher para falar de aborto porque o aborto afeta a vida, o ser humano, a esposa, o outro lado do varão. Sendo assunto humano, é prerrogativa tanto da mulher quanto do varão.

Indo além dessa contestação, entendo que essa forma de colocar a questão — a de que a mulher tem no seu útero um fardo que lhe tolhia a liberdade, mas do qual conseguiu se libertar nos últimos decênios através da revolução sexual — é completamente indevida.

Fazendo uma comparação porca, é como alguém que sofre de obesidade botar a culpa na comida, quando na verdade o problema advém da sua gula ou de uma eventual disfunção digestiva.

Pois basta lembrar que a maioria absoluta das mulheres sente-se orgulhosa de ser um sacrário da vida. A maternidade é um dom. A defesa do aborto, porém, torna-a sepulcro da morte, além de apresenta a gravidez como uma doença.

Uma gravidez indesejada, ou forçada, ou arriscada, ou sofrida, não tira à maternidade aquilo que ela tem de misterioso, de participação no poder criador.

Se há mulheres que recorrem ao aborto, nada posso fazer senão lamentar e tentar ajudar. Mas nunca direi que fazer isso é certo, pois estaria sendo um cúmplice e um mentiroso.

A questão é cientificamente simples: qual é a diferença entre o nascituro e o nascido? Ambos têm 46 cromossomos, como nós. Mas o nascituro foi confiado à mulher. Portanto, que grande responsabilidade!

Voltemos à barriga de Rebeca. Cada vez que vejo um bispo do lado da vida (Jacó) e um jurista ou médico abortista de outro (Esaú), constato que nossa mídia laicista continua sendo extremamente clerical. Ponha-se dois médicos (um a favor e outro contra) ou dois juristas (um a favor e outro contra) para discutir lado a lado, ora bolas! E então veremos quem “ganha”.

13 de abr. de 2012

A noiva do Chucky

A intelligentsia brasileira é prisioneira de doxas. Segundo o Houaiss, doxa é “o sistema ou conjunto de juízos que uma sociedade elabora em um determinado momento histórico supondo tratar-se de uma verdade óbvia ou evidência natural, mas que para a filosofia não passa de crença ingênua, a ser superada para a obtenção do verdadeiro conhecimento”.

Um reflexo do doxa feminista radical ficou patente na recente decisão do STF quanto aos anencefálicos (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 54). A ocasião faz o ladrão e nada mais oportuno que aproveitar o ensejo para analisar retrospectivamente a evolução do pensamento feminista.

Origem no século XIX

Mary Wollstonecraft
Embora tenha iniciado com anterioridade (vide, por exemplo
Uma Defesa dos Direitos da Mulher, de Mary Wollstonecraft, publicada em 1790), é possível localizar no século XIX o nascimento do feminismo, cujas origens ideológicas provêm de cinco princípios:

• a razão igualitária iluminista;
• a visão progressista da história;
• o socialismo utópico;
• o liberalismo;
• o cristianismo.

Rapidamente, o movimento assumiu duas derivações:

O feminismo igualitário: visava à imitação do status masculino na sociedade. Ou era liberal, da linha de John Stuart Mill, ou era socialista.

O feminismo reivindicatório: propunha um programa para elevar o nível cultural e profissional das mulheres.

No âmbito católico sublinhou-se o direito ao voto (temido pelos anticlericais e socialistas, pois as mulheres eram conservadoras) e o direito a uma melhor educação, a mais oportunidades profissionais e a um sistema jurídico protetor das famílias e da maternidade.

Contudo, o acesso aos campos de trabalho masculinos às vezes foi defendido desprezando-se o trabalho doméstico e, no bojo das reivindicações, foram incluídas exigências no âmbito da sexualidade. Nessa linha, o liberalismo propunha mormente o divórcio e a contracepção, enquanto o socialismo postulava o fim da família e o amor livre.

Evolução da questão no início do século XX

Simone de Beauvoir
O início do século XX trouxe forçosamente as mulheres ao mercado de trabalho por causa das Guerras. E as ideias neomalthusianas difundiram a opinião de que a exclusão do aspecto procriador da relação sexual seria um “progresso” a ser almejado.

Com tal background, encontraram forte eco a partir dos anos 60 a psicologia freudiana e as teorias sociológicas da Escola de Frankfurt. O ícone desse tempo foi Simone de Beauvoir (1908-1986), companheira de Sartre. Ela defendia o rompimento das algemas biológicas que oprimem as mulheres através da contracepção e do aborto, levando-as à mesma liberdade sexual dos homens. É paradoxal, mas seu igualitarismo considera, portanto, o modelo masculino como normativamente superior.

As cinco correntes atuais

Sulamith Firestone
As principais correntes feministas, agora de índole revolucionária, passam a ser, desde os anos 60:

Kate Millet
Feminismo radical: centrado na sexualidade, afirma que “o pessoal é político”. Sulamith Firestone fará uma interpretação marxista, segundo a qual as mulheres devem controlar os meios de reprodução. Kate Millet defenderá a destruição do patriarcado e das instituições. Muitas feministas radicais rechaçarão a heterossexualidade e defenderão o lesbianismo.

Nancy Chorodov
Feminismo psicanalítico: centrado no combate ao complexo de Édipo, que relegaria a mulher a um posto secundário na sociedade. Nancy Chodorov advogará pela participação das mulheres em trabalhos masculinos. Linhas mais radicais também verão o lesbianismo como principal forma de escapar às consequências do complexo de Édipo.

Juliet Mitchell
Feminismo marxista-socialista: a opressão feminina seria causada simultaneamente pela classe social e pelo sexo. Por isso, Juliet Mitchell defenderá a derrota do homem e de suas estruturas patriarcais e capitalistas.

Betty Friedan
Feminismo liberal-reformador: trabalha dentro das instituições, na linha do antigo feminismo reivindicatório do século XIX, em prol de pretensos “direitos sexuais”. Betty Friedan fará sucesso com sua crítica desapiedada da dona de casa, que compara a um prisioneiro de um “confortável campo de concentração”.

Gertrud von Le Fort
Feminismo teológico: oriundo do meio protestante, quis depurar o alegado “machismo” da tradição bíblica e defender o sacerdócio das mulheres, tornando-se bastante forte em algumas comunidades. Chegou até a propor uma “religião da deusa”, pós-cristã. Produziu seus reflexos negativos na teologia católica germânica e anglo-saxã, mas a Igreja soube reagir com firmeza doutrinal; entre outras coisas, figuras como a santa filósofa Edith Stein, a escritora Gertrud von Le Fort e São João Paulo II apontaram caminhos positivos para a mulher. (Abstenho-me de fazer aqui a necessária menção à problemática muçulmana, bem diversa da ocidental.)

Novas facetas

A ideologia de gênero é a nova cara do feminismo radical. Distingue sexo (biológico) de gênero (papel na sociedade). Transfere as funções femininas tradicionais (maternidade, etc.) para o gênero, que não é visto como algo natural, mas manifestação cultural “biologizada”, passível de evolução histórica.

Daí a defesa das “famílias alternativas” e a releitura heterodoxa dos direitos humanos. Segundo a metáfora leninista, todo comportamento seria mero papel cujo atores são intercambiáveis como as engrenagens de uma máquina.

*****

Essa postagem nasceu depois desse tweet:

6 de mar. de 2012

Leituras maçantes

O livro Lição Final primava por sua ausência entre minhas prioridades. Contudo, forçosas viagens de carro me levaram a “lê-lo” através de sua versão em audiolivro. Quanto mais avançava nos mp3, mais desejava que — de fato — aquilo fosse a lição final.

Numa dessas viagens, fiz um amigo ouvir comigo um pedaço. Ao chegarmos ao destino, ele declarou:

— Esse cara é fundamentalmente um chato!

Que Deus o tenha

Sem dúvida, o professor Randy Pausch foi uma pessoa singular. Informado que teria apenas seis meses de vida devido a um câncer, compareceu a Carnegie Mellon University para sua palestra final, intitulada Concretizando realmente seus sonhos de criança. Apenas cinquenta dias depois, mais de 25 milhões de pessoas já se tinham tornado seus admiradores. No livro em questão, ele deixa um legado para sua família e seus leitores.

Pode parecer chocante chamá-lo de chato, mas sinto a necessidade de concordar com meu amigo. Que eu reze por seu eterno descanso não me proíbe de afirmar que o livro foi um petardo.

Indícios da chatice

Chatice pode ser algo relativo. De qualquer modo, aponto alguns aspectos do livro que levaram a tal veredito:

Em primeiro lugar, vem o American way of life. Essa visão clichê acerca dos sonhos, conquistas e sucessos é demais para a cabeça.

Depois, vem esse tom de autoajuda autorizado pela morte. Se não anima vivo, quanto mais morto.

Por fim, vem esse paradigma de uma pretensa santidade laica. Randy Pausch praticamente é canonizado sem Deus. Não há cristão que o aguente.

O fim da linha

O final do livro é melancólico por duas razões:

Primeiro, o autor se apresenta como homem que sabe curtir a vida porque, próximo à morte, comprou um conversível e fez uma vasectomia. Já se vê quais eram seus valores. Por outro lado, essa aparente paternidade responsabilidade contradiz tudo o que ele afirmou sobre os próprios filhos. É como se dissesse: caso o câncer tivesse chegado uns meses antes, o caçula não existiria.

A segunda razão é sua falta de coerência cristã. É possível inferir da leitura que ele era protestante e que frequentava sua comunidade eclesial. Contudo, faz questão de não citar a Deus. Pior, afirma categoricamente que evitou na sua palestra quaisquer referências à religião para não suscitar divisões. Só que traz uma vaga citação de Krishnamurti: “Diga a seu amigo que quando ele morrer, uma parte de você irá com ele. Aonde quer que ele vá, você também irá. Ele não estará só”. Ou seja, se ele for para o inferno, você irá com ele. Não se entende como uma pessoa que se considera cristã pode pôr entre parênteses a Cristo, renunciar ao zelo pelas almas ou atuar sem esperança na vida póstuma.

Conclusão

Sem dúvida, é possível tirar coisas boas do livro e aprender do autor muitas virtudes. Contudo, diante da profusão de livros para ler, é sempre bom relembrar a distinção entre livros bons e livros inúteis.

3 de fev. de 2012

Três saídas do gueto laicista

Certa mentalidade laicista,
e outras maneiras de pensar

que poderíamos chamar pietistas,
coincidem em não considerar
o cristão como homem íntegro e pleno.
Para os primeiros, as exigências do Evangelho
sufocariam as qualidades humanas;
para os outros, a natureza decaída
poria em perigo a pureza da fé.

O resultado é o mesmo:
desconhecem a profundidade da Encarnação de Cristo,
ignoram que o Verbo se fez carne, homem, e habitou entre nós.
(São Josemaria, Amigos de Deus, n.º 74)


Sair do gueto laicista significa sair do “próprio” gueto. Está encurralado quem voluntariamente foi para o canto do ringue. Por isso, os verdadeiros caminhos de saída são intraeclesiais.

Não há balas de prata que derrubem tais muros, pois as revoluções internas são mais difíceis que as externas. Basicamente, mais do que recuperar a língua latina, a Igreja precisa recuperar a linguagem da santidade.

O desafio lançado pela modernidade laicista reclama uma nova educação que resgate o homo religiosus aprisionado nas masmorras do homo modernus. Ora, a segurança de um crente lhe provém tanto da fé quanto da razão. Por isso, o “como” se transmite é tão importante quanto “o quê” se transmite.

Vejamos primeiramente três rotas de fuga, ou melhor, três pontes para fora do gueto. Numa próxima postagem, três insights cuja luz faz-se necessário difundir. As pontes equivalem ao “como” comunicar; os insights, a “o quê” comunicar.

Relançamento da santidade

À atrofia da liturgia sucede a hipertrofia da ética. O inefável é trocado pelo palpável. Isso é uma espécie de excentricidade eclesiológica.

Se ética é idioma universal, a santidade não o é. Aqui é que mora a diferença e disso não se pode fugir, pois ser só bom é muito pouca coisa.

Transversalidade política

Por hora, satisfaço-me transcrevendo o seguinte trecho de O Sal da Terra, págs. 113s:

“Os sistemas políticos desfazem-se e depois nada muda. (…) Sobretudo nos últimos anos da Democrazia Cristiana insistiu-se muito na unidade política dos católicos e considerou-se um objetivo principal que os católicos também tivessem de se mostrar unidos no domínio político, de acordo com a sua responsabilidade. Isso não impediu a Democrazia Cristiana de se desfazer, de modo que a Conferência Episcopal Italiana teve de desistir desse objetivo. Agora ela se volta mais para a neutralidade e considera como novo objetivo que os cristãos, em todos os partidos, atuem, de acordo uns com os outros, de modo “transversal”, como se diz aqui, para além das fronteiras dos partidos, no que diz respeito às questões éticas essenciais da política, a partir da sua responsabilidade comum. O objetivo é, portanto, um consenso político completamente novo que se deve formar nas questões éticas fundamentais para além dos partidos.”

Projeto generacional

A verdadeira política pró-vida é ter filhos.

Se só os islâmicos prezam a família, em breve o Ocidente será, se não árabe, islâmico. E não exagero. Vide a Holanda: as procissões de Corpus Christi voltaram a ser legítimas após 500 anos só porque cresceu a população muçulmana a ponto de derrubar a proibição a manifestações religiosas públicas do governo laicista local.

Para gerações perdidas, a melhor resposta é uma nova geração sadia.

2 de jul. de 2011

Síndrome de Peter Pan

O psicólogo norte-americano Dan Kiley criou, em 1983, a expressão “Síndrome do Peter Pan” para se referir ao atraso das decisões vitais como forma de evitar as responsabilidades dos adultos. Por sua vez, num artigo de The New York Times, de 10/9/07, David Brooks qualifica a entrada na maturidade como uma odisseia. Como é sabido, Odisseia é a longa viagem, descrita por Homero, que Odisseu — Ulisses — realiza de volta para sua esposa, seu filho e sua casa, após a Guerra de Troia, passando por lutas, monstros, perigos e aventuras amorosas.

O ambiente social influi, não é mera questão de imaturidade. É preciso buscar as razões. Que mudanças sociais estão por detrás dessa dilação? Do ponto de vista externo, são patentes duas conjunturas: por um lado, a democratização do ensino superior, com a consequente prolongação do tempo de estudo; e, por outro, a tendência a permanecer no ninho paterno por conta do atraso do casamento.

A indagação que parece mais candente dentre ambas é: por que atrasar o casamento?

De fato, casar-se significa entrar na vida adulta, coisa de que algumas pessoas fogem, conscientemente. Entretanto, a maioria atrasa o casamento apenas porque transformou-se, na opinião pública, a concepção que se tem do matrimônio.

Tornou-se corrente considerar o casamento não mais como a união de duas pessoas para formar um nós.
1+1=1 (família) 

Pelo contrário, instaurou-se uma nova lógica matrimonial, pela qual os cônjuges se casam sem deixarem de serem independentes.
1+1=3 (tu, eu e nós)

Há várias “justificativas” para essa mudança de paradigma: dificuldade de inserção profissional, aumento da expectativa de vida, revolução sexual. Mas isso justifica tantos concubinatos e mães solteiras?

As grandes vítimas são os filhos dessas uniões que tantas vezes não chegam a constituir família. Vale recordar uma frase (não literal) da animação Os Incríveis: Precisamos salvar nossos pais, para que não lhes ocorra algo pior do que morrer: separarem-se. Ainda por cima, esses órfãos de pais vivos frequentemente carecem do referencial masculino de um pai dentro de casa, ingressando no círculo vicioso da imaturidade afetiva.

O que sonham os filhos acerca de seu pai? Que ele, se tivesse de escolher entre os filhos e a esposa, elegesse a esposa. Esse amor viril seria um garante de estabilidade e inspiraria a confiança de que os pais nunca se separarão.

*****

Reciclo uns tweets antigos:
  • Fases da adolescência? Regressiva, agressiva, transgressiva, construtiva. 18/6/09
  • Fase regressiva da #adolescência: permanecer no ovo que é mais quentinho e seguro. Seu #bolha. 18/6/09
  • Fase agressiva da #adolescência: conquistar o espaço na pancada. Seu porco-espinho. 18/6/09
  • Fase transgressiva da #adolescência: pegar todas, experimentar tudo, quebrar os tabus. Seu inconsequente. 18/6/09
  • Fase construtiva da #adolescência: juntar os cacos para virar homem. Seu cheio de cicatrizes. 18/6/09
  • Muitos adultos ainda estão na #adolescência. Qual a sua fase? Você é um bolha? Um grosso? Um pervertido? Juntou seus cacos ou caiu na fossa? 18/6/09

29 de jun. de 2011

Bate-boca com a mulher de Caim

Discussão às cegas

Recebi uma série de perguntas anônimas no extinto Formspring acerca da Sagrada Escritura. Desconheço o pensamento do meu interlocutor — de quem discordei um bocado, talvez de forma assaz cortante — o qual me ofereceu, porém, ocasião de abundar sobre o tema, pelo que lhe estou bastante grato.

Aproveito para reciclar minhas respostas no blog ao longo de três postagens. Nesta primeira, detenho-me em alguns aspectos concernentes aos relatos das origens. Na segunda, exporei a questão das versões e sentidos do texto. Na última, tratarei da possibilidade de diálogo com os anticatólicos.

Vamos às perguntas

com quem se casou Caim?
Com uma irmã ou com uma sobrinha ou com uma sobrinha-neta, ou com a primeira baranga que apareceu.

a Bíblia omitiu a esposa de Caim... pode haver outras omissões na Bíblia?
Omitiu?!?
— “Caim uniu-se a sua mulher. Ela concebeu e deu à luz Henoc. Caim construiu uma cidade e lhe deu o nome de seu filho, Henoc” (Gn 4,17).
Reparou que a Bíblia omitiu o número de habitantes da cidade de Henoc?

Obrigado p resposta, mas reportei-me à omissão da identidd da tal noiva, que vc mencionou noutra oportunidd como "uma irmã ou com uma sobrinha (...) ou com a primeira baranga q apareceu". Então, Caim pegou Eva (!?) ou havia mais gente por lá?
Caraca, eu já disse cada merda, hein? Que havia mais gente é óbvio, pois Adão “gerou filhos e filhas” (Gn 5,4). Basta ler, pinoia!

(ainda sobre a amante de Caim, após dias sem acesso a internet) obrigado pela atenção. Compreende-se então que, pela Bíblia, foi vontade de Deus que Caim procriasse com a mãe ou alguma irmã? Deus criou o Homem incestuoso?
Devido à sua insistência no tema da mulher de Caim (foram cinco ou seis perguntas a respeito!), faço questão de lhe deixar uma resposta mais cabal, embora ache o tema completamente irrelevante.

1) A questão da história de Caim:
O hagiógrafo parece ter se valido de relatos do seu tempo e tradições orais para ilustrar o tema da origem da violência. Para isso, não hesita em situar na dimensão extratemporal das origens acontecimentos de uma época em que a Terra já está povoada. O mais importante é a relação do homem violento com Deus, não a data dos eventos. Afinal, o Gênesis não é um manual de palenteologia.
Se você aceitar essa transposição, os detalhes da narrativa se explicam sem dificuldades. Reparou que, sendo a família humana apenas constituída de quatro pessoas (Adão, Eva, Caim e Abel), seria desnecessário que Caim levasse Abel a um lugar descampado para cometer o fatricídio? Do mesmo modo, o medo de Caim de encontrar executores da “vendetta” de sangue parece completamente fora de contexto. E a “cidade” que ele edifica para seu filho Henoc se nos apresenta como uma empresa bastante pretenciosa. Nesse sentido, alguns exegetas referiram o “sinal” de Caim a alguma tatuagem tribal dos quenitas, povo cananeu cujo antepassado epônimo chama-se justamente Caim (Nm 24,22).
Pois bem, a ingênua pergunta sobre a mulher de Caim tem sua resposta desde essa mesma ótica. Assim mesmo, tentarei aprofundar nela mais um pouco.

2) A questão do incesto:
O incesto designa uniões íntimas entre pessoas afins, prática que corrompe as relações familiares. Um primeiro passo é determinar até que grau tais uniões seriam admissíveis. Por exemplo, os judeus as excluem até o terceiro grau inclusive, mas a Igreja as permite no terceiro grau em alguns casos.
Se você é adepto do monogenismo, terá de admitir que os primeiros homens necessariamente tiveram de tomar como esposas suas próprias irmãs (segundo grau de parentesco). Ora, não me parece que o “incesto” de Caim com uma irmã corresse o risco de “corromper as relações familiares”, visto que não haveria então outro jeito de alargar a família.

< tentado desvendar a narração da Biblia (Genesis) sobre o Projeto de Deus de uma família incestuosa, com Caim pegando ou Eva ou alguma irmã ?, sem com isso macular a literalidade da Biblia ou a História "sagrada" do "povo escolhido"? >
Tenha por respondida essa questão com base nas respostas anteriores.
Perdoe-me a franqueza, mas prefiro considerar sua pergunta simplória antes de tomá-la por maldosa.
Primeiro, você afirma que Deus quis o incesto. Demonstra pouca compreensão da moralidade, por um lado, e de Deus, por outro.
Depois, faz referência à “literalidade da Bíblia”, sem recordar seus demais sentidos. Cuidado, pois um dos defeitos dos fundamentalistas é serem míopes para o próprio sentido literal.
Finalmente, pensa que a narrativa de Caim faz parte da história do Povo Eleito, coisa que só se inicia com Abraão.

Pode-se entender o mito da criação de Adão como um eventual momento de intervenção divina na evolução darwiniana dos primatas (i.e, proposta conciliatória criacionismo-ciência: Deus incutiu dimensão Humana-Divina a uma espécime da Criação)? melhorei?

Melhorou. ☺
A questão já foi respondida em 1950:http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_12081950_humani-generis_po.html, n.º 36.

você é adepto do monogenismo?

Essa é uma pergunta boa. Confesso que tendo ao monogenismo, mas não tenho uma opinião cabal a respeito. A questão do evolucionismo não me afeta, de modo que aceito o monogenismo como um corolário mais cômodo de outras convicções.

20 de jun. de 2011

Amizade conformista


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Byron qualificou a amizade de união peculiar da juventude, invertendo a visão clássica que apoiava a fidelidade na maturidade e sabedoria. Com a elevação na Modernidade da juventude ao supremo status de melhor e mais autêntico período da vida, a amizade tornou-se objeto de intensa emoção em duas direções contraditórias: o elixir da juventude estaria na desesperada retenção das amizades e a nostalgia seria oriunda das amizades perdidas.

Por outro lado, a crença de que a parte mais significativa da vida emocional ocorre não dentro da família, mas dentro de um grupo de amigos, começou a expandir-se nas companhias artísticas e se tornou geral durante a última metade do século XX.

A cultura da amizade grupal alcançou o apogeu nos anos 60 com a comuna (comunidade de amigos retirados da sociedade corporativizada) e as “bandas” de rock (que evocam a “band of brothers” de Shakespeare e “band of Merry Men” de Robin Hood). Woodstock foi a apoteose conjunta de ambos ideais.

A era da utopia apostava em ir pela vida acompanhado. O fim dos Beatles soou, portanto, como uma incrível tragédia. A nostalgia tornou-se o lema trinta anos após o baby boom. O mundo frio suplicava pelo quente abraço dos amigos.

Nos anos 90, porém, os que chegaram solteiros perto dos quarenta anos reencontraram seu modelo de amizade em Seinfeld, Sex and the City e, claro, Friends. Mas então a noção de amizade já deixou um reduto de resistência moral, uma proteção contra a pressão normativa e uma incubadora de ideais sociais. Os amigos deixaram de ser uma proteção contra o conformismo: eles se tornaram o próprio conformismo.

7 de fev. de 2011

Amizade democrática

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Como vimos anteriormente, ao longo dos tempos o ideal clássico da amizade foi posto em xeque: pelos compromissos de parentesco da Antiguidade; pelas obrigações da suserania medieval; por certo compadrio cristão; e pela vida blasé capitalista.

A consolidação da democracia enquanto ideologia igualitária foi outro fator que, na história recente, também veio a minar a amizade. Mais do que sujeitos, somos cidadãos, diretamente unidos entre nós, sem a mediação de um monarca, porém emocionalmente cegos uns aos outros.

Mônodas políticas, moléculas efêmeras

De algum modo, o nacionalismo agregaria os cidadãos dispersos. De forma mais particular, a “fraternidade” nascida da Revolução Francesa desempenharia tal papel. Não obstante, tanto Wordsworth, na Inglaterra, quanto Whitman, na America, vieram a fazer da “amizade universal” o fulcro de suas ideias democráticas. Para a mãe do feminismo, Mary Wollstonecraft, amizade romântica é a chave para a democracia doméstica e a renegociação sexual.

Daí que a amizade se tenha tornado uma peculiaridade das relações modernas. Igualitarismo, livre escolha e individualismo, três atitudes tão metidas na cultura atual, encontram na amizade uma forma de expandir-se: amigo a gente escolhe, parente a gente aguenta.

Ora, entre amigos não há hierarquia nem contrapartidas. Entre amigos não há contrato, coisa que parece contaminar o próprio matrimônio. Não se pode programar a amizade, definir momentos, formalizar intenções.

Amigos, “a família que eu escolho”

A crueza do anonimato da sociedade industrializada e do desenraizamento urbano em cidades cujas casas são “máquinas de morar” encontra uma válvula de escape na amizade. O trauma da mobilidade acadêmica e da instabilidade profissional, da brecha aberta nas famílias pela chaga divorcista e da “orfandade de pais vivos” procura igualmente na amizade seu consolo. E quando os casamentos são fluidos, a amizade parece prometer solidez.

Mas o ideal clássico da amizade faliu inevitavelmente, pois a ideia de uma “cara metade”, de um único amigo verdadeiro, desapareceu. Temos nossos “melhores amigos”, mas talvez falte “o amigo de verdade”. Além disso, falar de “melhor amigo para sempre” parece soar a homossexualismo para a cultura freudiana.

Carestia de virtude

Do ponto de vista moral, a mútua ligação entre os amigos dentro do ideal clássico era construída pelo pacto da virtude. Faltando esta, faltará a amizade. Amizade não é terapia nem consolo; é compromisso e sacrifício. Amizade não é entretenimento nem diversão; é comunhão e lealdade.

Com a generalização da amizade e a perda de força do ideal clássico, nasceu algo novo: a amizade coletiva. O círculo de amigos pode ser boêmio, artístico, transgressivo; ou seja: é uma sociedade alternativa, uma tentativa de refúgio contra os valores de um mundo velho e falido.

4 de jan. de 2011

Quatro considerações matrimoniais


Investimento, aposta, risco

Se a esperança é a última que morre, a paciência é a primeira. Portanto, crie reserva de paciência e outras virtudes para os tempos de crise. É a melhor forma de enfrentar os riscos.

Casamento não é loteria. Quer que dê certo? Não adianta procurar par perfeito nem almejar condições ideias: mulher cuidadosa, colégio bom, trabalho perfeito, moradia redonda. Quer que dê certo? Tenha virtudes.

Minimize os dramas. Ausência de exigência é tédio. Falta de tempo modera as doenças e até a menopausa.

1) Mentalidade cósmica

Casamento não é coisa privada: isso é concubinato.

Casamento não é papel sobre fato consumado: isso é anistia.

Casamento não é festa para avó: isso é anacronismo.

Casamento não é contrato. Contrato admite distrato; família, só maus tratos. Se você não se separa da mãe nem dos filhos, vai se separar da mulher?

2) Filhos, prole, brotos

Fazer família é muito mais que gerar filhos.

Filho dá trabalho porque você tem de dizer não.

O maior custo com os filhos é o de logística. Pois comida não é problema: talvez o seja o colégio.

Filhos numerosos aprendem a viver na escassez. E que falta sempre faz um pequeno na casa.

3) Mulher, esposa, cônjuge

A mulher dá o seu mais íntimo, seus melhores anos, sua beleza.

Seja feminista.

4) Erros, aprendizado, experiência

A vida em comum exibe as incompatibilidades. Por isso, cultive a fineza e o bom-gosto. E isso se aprende.

Leia muito. Não fale de trabalho em casa. Mais do que “conseguir trabalhar”, deve-se sonhar com o bem dos familiares.

Sempre faça as pazes antes de dormir.

22 de nov. de 2010

Órfãos de lar, estranhos de casa


Os tempos que nos tocam viver parecem tirar às virtudes humanas todas as conveniências. Mais do que uma crise ética, sofremos uma crise de valores: com efeito, alguém pode atuar eticamente em sua profissão (cobrando o justo, evitando a propina, sem falsear dados, cumprindo o horário, honrando os contratos) e carecer de valores (chegar em casa tarde, desatender aos familiares e amigos, etc.).

O contraste evidencia-se sobremaneira nos âmbitos inflados por valores menores (por exemplo, o antitabagismo transformou o fumo praticamente em pecado mortal) ou, pelo contrário, nos campos rarefeitos pela perda total dos mesmos valores (por exemplo, tolerância com a maconha porque não se vê mal na evasão mental).

Ora, um bom modo de recuperar as virtudes é o resgate dos valores que as motivam. A perda dos condicionantes sociais que facilitavam a prática das virtudes apresenta-se-nos como uma grande oportunidade de praticá-las não por conveniência, mas por convicção.

Uma das virtudes que mais se vê desamparada hoje é a castidade. Perdeu sua razão de ser. Antes, servia aos egoístas e mesquinhos como método profilático contra a gravidez. Ela garantia aos preocupados com a própria fama um verniz de honradez. Agora que ninguém se envergonha de mais nada e publica suas indecências para todos ouvirem; agora, que está ao alcance da mão uma profilaxia mais cômoda feita à base de pílulas e borrachas flavorizadas; agora... para que ainda serve a castidade?

Dentro de pouco tempo, pela primeira vez uma grande massa de órfãos de pai vivo chegará à maturidade. O mais provável é que repliquem o modelo aprendido dos genitores: não o modelo de família, que não conheceram e lhes é apresentado como demodée, mas o modelo da “produção independente”, do “casar de penalty”, dos “acidentes de percurso”, dos preservativos ditos 100% seguros mas que furam numa certa porcentagem de casos…

Família se faz com virtudes, não com filhos por aí. Família tem vontade própria e comum, não a vontade egoísta e independente de cada um que vai para o seu canto quando a satisfação começa a minguar.

Por tudo isso, acho que a salvação da castidade virá pelo resgate dos valores familiares. Estará ao alcance da mão desprezá-la, será um sonho de consumo vivê-la. A orfandade do lar será sentida de forma lancinante pelas próximas gerações e recomendará esta virtude como o verdadeiro elixir do amor.

Com uma vantagem: a castidade não tem preço, não é preciso pagar por ela, não está à venda em farmácias nem sexshops.

Lembre-se: você pode começar agora.

29 de ago. de 2010

Amigo especial, único, ímpar, singular

Esta é a parte
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Sejam numerosos os que te saúdam,
mas teu conselheiro, um entre mil.
(Eclo 6,6)

Amizade na Antiguidade

O mundo antigo era organizado por relações de parentesco e soberania. Por isso, as afinidades escolhidas espontaneamente eram coisa excepcional e tida, inclusive, como subersiva: Davi amava Jônatas apesar da resistência de Saul; Aquiles era mais sensível à sina de Pátroclo do que à causa grega.

Tanto para Aristóteles quanto Cícero, a amizade era um chamamento elevado que exigia qualidades extraordinárias de caráter, virtudes sólidas, desejo do bem. Como a amizade fosse vista igual ou superior ao matrimônio, sua expressão muitas vezes alcançava intensidade erótica. Por exemplo, fez-se famoso o Cântico do Arco, em que Davi afirma ter sido o amor de Jônatas “mais caro que o amor das mulheres” (2Sm 1,26).

Interpretações ligeiras e ideológicas procuraram aí uma justificativa para a patologia homossexual. Contudo, embora amigos como Aquiles e Pátroclo não pudessem viver separados, a ponto de dividir a mesma tenda, era com concubinas que dividiam suas camas.

Amizade no Medievo

O advento do Cristianismo eclipsou o ideal clássico da amizade ao transferir a dedicação do coração para o Deus Encarnado, para o amor a Jesus Cristo. Depois, com o surgimento do monaquismo, as “amizades particulares” seriam vistas como perigosas para a coesão da comunidade monástica.

Na sociedade medieval, a amizade revestiu-se de específicas expectativas e obrigações, muitas vezes formalizadas com juramentos: suseranos e vassalos empregavam o mesmo jargão da amizade nas suas relações. Mais especificamente nas sociedades católicas, o compadrio funcionou para estabelecer alianças entre famílias, às vezes mais do que entre afilhados e padrinhos, a ponto de compadre se ter virado sinônimo de amigo.

Amizade depois da Renascença

A noção clássica de amizade foi restaurada na Renascença, ao lado de outras formas antigas de sentimento. A virtuosidade das relações de amizade voltou a ser colocada acima de tudo: do matrimônio, da união sexual, até da paternidade. Afinal, a amizade não seria pautada pelo critério do interesse ou da necessidade: sobressairia diante do oportunismo por ser algo raro. Eis o pano de fundo para personagens como Horácio, de Shakespeare, e Sancho Pança, de Cervantes.

Este estado de coisas perdurou durante o Romantismo. Famosos amigos românticos foram Goethe e Schiller, Byron e Shelley, Emerson e Thoreau, entre outros. Mas o desenvolvimento da sociedade comercial fez com que tal ideal perdesse espaço novamente. David Hume e Adam Smith apontarão como o capitalismo tornou impessoais as relações comerciais, relegando as afinidades para a esfera privada: na vida econômica, contam pouco os vizinhos, os companheiros de paróquia, os colegas de escola e trabalho, os pais dos amigos dos filhos, os concidadãos, etc.

Somos o que escolhemos ser para os outros durante o tempo das nossas escolhas, nesta sociedade blasé.

15 de jun. de 2010

Joan é fanática. Vírgula

Nesses dias, tenho revisto o seriado americano Joan of Arcadia. Recomendo. Pena que pararam de filmar no final da segunda temporada, deixando a história inconclusa.

O argumento é criativo: as dificuldades de adaptação de uma família a uma  nova cidade, tendo por pivô a filha adolescente, Joan, a quem Deus se manifesta e encarrega de uma série de tarefas inusitadas.

Minha postagem sobre Jesus Cristo foi inspirada pelo seriado. Afinal, a música tema é One of us, de Joan Osborne.

Isso me tinha feito pensar por que tanta gente acha Jesus borring, tema tabu, pessoa inconveniente. Como não sou adepto das conveniências, resolvi fazer daquela postagem a coroação de tantas outras que escrevera sobre a fé nos últimos meses.

Talvez o gatilho para eu falar mais sobre a fé tenha sido os recentes ataques injustos ao Papa, com o que tentaram conspurcar sua imagem. Como quer que seja, bastou-me externar meu pensamento a esse respeito no blog ou entrar numas discussões tolas no Twitter para começar a receber perguntas como essa no extinto Formspring:

vc eh católico fanátio? (sic)


Confesso certa contrariedade, pelo que respondi:

Fanático? Não, só sou fanático pelo Flamengo, mas tenho andado um pouco tíbio.

Isso deve ter a ver com uma desilusão amorosa que sofri há três meses. Então resolvi transformar meu blog de variedades num recurso virtual apologético como forma de sublimar sentimentos contraditórios.

Ou pode ser uma questão de fase. Todo mundo tem suas fases: fase gay, fase notívaga, fase zen, fase maconha, fase Internet. Quando eu resolver rodar a baiana e passar da fase atual para outra, sai de baixo.

Agora, sem brincadeira: fanático é quem não vive a caridade e atua de forma irracional. Tenho fé e procuro ser coerente, o que é bem diferente.

*****

Vírgula. Entitulei assim o novo marcador sobre estética. Recorda o cachinho pega-rapaz, aquela mecha de cabelo recurvado sobre a testa ou a face.

Vírgula. A estética pode ser, com efeito, um gancho para a ética, um motivo de esperança para as exigências da vida. Além disso, o tema permite um bom aprofundamento filosófico. Escreverei mais a tal respeito a partir de agora.

Vírgula. Volto a Joan. No seriado, quando a família descobre que ela tem visões, resolve interná-la. É melhor não ver, permanecer cego. Talvez a estética nos abra os olhos. Por que não se fala de Jesus Cristo? Talvez se fale, mas sem estética, com pura ética.

Vírgula. E você? Tem olhos para ver ou só pernas para fugir?
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