10 de out de 2009

A vida mental na metrópole, por Georg Simmel (II)

Em seu texto «A Metrópole e a Vida Mental», Georg Simmel (1858-1918) relaciona os problemas da vida moderna com a luta da individualidade com as forças sociais, históricas, culturais etc.

Segundo as suas palavras, o liberalismo do século XVIII, avesso às dependências políticas, religiosas, morais e econômicas, foi o degrau para a mais recente transformação da eterna luta pela sobrevivência humana que, se antes fora contra os reveses da natureza, então se dá com traços de modernidade.

A crença iluminista na bondade natural do homem que deveria ser liberto de todas as amarras sociais, quando ao mesmo tempo se lhe exigia maior especialização no trabalho, criou um impasse psicológico: sendo o homem indispensável à sociedade por ser cada vez mais especialista, tornou‑se mais dependente das atividades suplementares de todos os outros, nivelado e uniformizado pelo mecanismo sociotecnológico.
Conforme Simmel, a base psicológica do tipo metropolitano é a intensificação dos estímulos nervosos: a convergência de imagens em mudança e as impressões súbitas da vida urbana exigem mais quantidade de consciência que a vida rural. Assim, uma conscientização crescente assume a prerrogativa do psíquico, o intelecto suplanta o coração, a fim de preservar a personalidade no turbilhão metropolitano.

A cidade sempre foi a sede da economia monetária, pois dá importância aos meios de troca em decorrência da sua multiplicidade e concentração. O intelecto e o econômico se associam, qualificando como prosaico tratar diferenciadamente os homens e as coisas e opondo‑se, por sua racionalidade, à genuína individualidade. Torna‑se difícil avaliar se a «mentalidade intelectualística» promoveu a «economia do dinheiro» ou vice‑versa, afirma Simmel. Nesse sentido é que Londres foi chamada a cabeça da Inglaterra, mas não seu coração.

O calculismo da vida moderna permite o funcionamento da máquina metropolitana integrando todas as atividades e relações. Nesse contexto, caracteres de impulsos irracionais são conflitantes à vida típica da cidade. Ela é uma estrutura da mais alta impessoalidade, o que promove uma grande subjetividade blasé (tédio). O hedonismo torna uma pessoa entediada porque agita os nervos até que percam a reação e a energia apropriada às novas sensações.

A economia do dinheiro contribui para a atitude blasé ao neutralizar o poder de discriminar, pois o dinheiro é a rasoura pela que se nivela todas as diferenças qualitativas em termos quantitativos.

O indivíduo, para se preservar face à cidade, comporta‑se reservadamente com os demais, o que, para Simmel, pode ser mesmo «uma leve aversão, uma estranheza e repulsão mútuas, que redundarão em ódio e luta no momento de um contato mais próximo». Justamente a antipatia é que protegeria o cidadão da indiferença blasé e da sugestibilidade econômica, de modo que o que parece dissociar e destoar no estilo metropolitano de vida é uma forma elementar de socialização.

Tal reserva, entretanto, confere ao indivíduo uma liberdade pessoal inalcançável em quaisquer outras condições. Mesmo a antiga pólis grega teria tido um caráter de cidade pequena, pelo que a ameaça dos inimigos de fora resultou numa estrita coerência quanto aos aspectos políticos e militares, suplantando as iniciativas individuais com as necessidades coletivas. Consequentemente, as formas de vida mais extensivas e gerais estão ligadas às mais individuais. Se a liberdade do homem feudal consistia na sua permanência sob a lei da terra, a do homem metropolitano moderno consiste no seu refinamento e abertura contrastante com a do homem da cidade pequena.

A característica mais significativa da metrópole é a sua extensão funcional para além de suas fronteiras físicas, que a torna sede da mais alta divisão econômica do trabalho. Lá a pessoa precisa enfrentar a dificuldade de afirmar sua própria personalidade no meio da multidão, volvendo‑se às diferenças qualitativas para atrair a atenção do seu círculo social, tentada a adotar extravagâncias especificamente metropolitanas. Fazer‑se conhecido torna‑se o meio de salvaguardar a posição e a auto‑estima.

A razão mais profunda da existência pessoal mais individual para Simmel é a preponderância da objetividade sobre a subjetividade: o indivíduo cada vez menos pode equiparar‑se ao supercrescimento da cultura objetiva. A vida fez‑se mais fácil para a personalidade — entendida por Simmel como sede dos sentimentos — na medida em que os confortos lhe são oferecidos de todos os lados. Portanto, os indivíduos acabam apelando para o exclusivo e o particular, a fim de preservar sua essência mais pessoal num grito que o torne presente para si próprio. Daí o surgimento do ódio amargo à cidade de pensadores como Nietzsche e a sua grande difusão.

A posição histórica das duas formas de individualismo (independên cia individual e elaboração da própria individualidade) está no século XVIII com seu ideal liberal e no século XIX com seu romantismo e a divisão econômica do trabalho, respectivamente. No dizer de Simmel, «os indivíduos liberados de vínculos históricos agora desejavam distinguir‑se um do outro (...). É função da metrópole fornecer a arena para este combate e a reconciliação dos combatentes».

Consequente com seu relativismo histórico, Simmel conclui chamando à «compreensão» de tais conjunturas, não a seu juízo, posto que a brevidade da existência humana e a esfera dos juízos são transcendidas pela a sucessão dos fenômenos da vida.
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