10 de out de 2009

A Commedia: da floresta ao inferno

Peregrinação sobrenatural
Na Semana Santa do ano jubilar de 1300, aos 35 anos, Dante se vê perdido em uma floresta escura. Ao tentar escapar, encontra uma montanha que poderia ser a sua salvação, se não fosse impedido de subir por três feras: uma pantera, um leão e uma loba. Prestes a desistir e retornar para a selva, o espírito de Virgílio o surpreende, dispondo‑se a conduzi‑lo por um caminho inusitado: o centro da terra.
O guia fora enviado por Beatriz, paixão da infância de Dante, que desde o céu o vira em apuros e decidira ajudá-lo. Virgílio o orientará pelo inferno e o purgatório, simbolizando a razão que ensina ao homem as quatro virtudes cardeais. Beatriz o guiará até o empíreo, como símbolo da teologia. São Bernardo o levará até Deus, representando o necessário salto místico para se ter acesso à santidade.
Ao longo desse caminho, Dante encontra‑se com as almas, aprendendo sobre os vários aspectos da vida espiritual, que ele descreve como uma comédia (no sentido clássico), porque, apesar dos tantos trágicos males e sofrimentos da vida, a história tem um final feliz se aprendemos as lições corretas e fazemos as escolhas certas.
Para Dante, Deus nos guia não primariamente por um rol de idéias abstratas, mas mediante pessoas e circunstâncias concretas nas que ele nos colocou. Ele revisava cada detalhe de sua vida particular como tendo significação universal, totalmente inserido na história do Cristianismo.
O inferno
A odisséia pelo mundo subterrâneo tem solene início nos umbrais do inferno (canto III):
1 “Por mim se vai à cidadela ardente,
por mim se vai à sempiterna dor,
por mim se vai à condenada gente.

4 Só justiça moveu o meu autor;
sou obra dos poderes celestiais,
da suma sapiência e primo amor.

7 Antes de mim não foi coisa jamais
criada senão eterna, e, eterna, duro.
Deixai toda esperança, vós que entrais”.

Os viajantes percorrem então um vestíbulo e nove círculos, onde conhecem o sofrimento dos condenados, os rios infernais, suas cidades, bestas avernais e outras figuras mitológicas gregas e romanas, até chegar ao centro da Terra, em que Lúcifer encontra sua punição. Os monstros que apareceram nas obras de Homero, Virgílio e Ovídio, ressurgem no Inferno de Dante ora como condenados ora como seres responsáveis pelo funcionamento de algum “serviço” no báratro. Os nomes dos demônios são assaz significativos: Malacoda (cauda má), Calcabrina (pisa neve), Alichino (asa baixa), Cagnazzo (focinho de cão), Barbariccia (barba crespa), Libicocco (libiano), Draghignazzo (dragão feio), Graffiacane (esfola-cães), Ciriatto (porcalhão), Farfarello (duende), Rubicante (vermelhaço).
Inferno faz referência a vários fatos históricos ocorridos no primeiro quartel do século XIV, que Dante põe nos lábios dos defuntos como profecias das almas, que não teriam conhecimento do presente mas veriam o futuro. Através das notas dos primeiros dantianos, como Boccaccio e Andrea Lancia (Ottimo Commento), conhecemos pormenores das muitas personalidades citadas no texto.
Os cantos estão organizados de acordo com os pecados e o círculo onde são punidos. Os círculos mais profundos dividem‑se ainda mais: o sétimo em três, o oitavo em dez e o nono em quatro. Ao todo, são 24 regiões. No Vestíbulo encontram os indecisos e covardes, que não optaram nem pelo bem nem pelo mal (canto III). Depois, no Limbo, deparam‑se com os não batizados que não tinham pecado (canto IV).
A seguir, passam pelos círculos dos intemperantes (pecados da pantera), em que se pagam os pecados de luxúria (canto V); gula (canto VI); avareza e prodigalidade (canto VII); ira e rancor (cantos VII e VIII). Foi imortalizada a cena de Francisca de Rímini e Paulo Malatesta, cunhados e amantes (canto V):
100 “Amor, que a alma gentil no imo surpreende,
prendeu‑o à forma que era minha e viva;
e foi tomada em modo que inda ofende.

103 Amor, que a amado algum de amar não priva,
uniu‑me a ele também, tão doce e forte,
que, como vês, ainda aqui se aviva.

106 Amor nos conduziu à mesma morte,
e certo espera a quem a fez Caim!”
Do jovem par ouvira a infausta sorte.

(…)
127 “Estávamos um dia por lazer
de Lancelote a bela história lendo,
sós e tranqüilos, nada por temer.

130 Às vezes um para o outro o olhar erguendo,
nossa vista tremia, perturbada;
e a um ponto fomos, que nos foi vencendo.

133 Ao ler que, perto, a boca desejada
sorria, e foi beijada pelo amante,
este, de quem não fui mais apartada,

136 os lábios me beijou, trêmulo, arfante.
Galeoto achamos nós no livro e autor:
e nunca mais foi a leitura adiante”.

Mais abaixo, os peregrinos entram no círculo dos hereges (cantos IX e X), entre os quais encontram o gibelino Farinata (canto X):
34 Eu o fiquei atentamente olhando;
e o vi erguer, altivo, a fronte e o peito,
como desprezo a tudo ali mostrando.

Depois entram nos círculos dos violentos (pecados do leão), em que se pagam os pecados contra o próximo, de tiraniaassalto e assassinato (canto XII); contra si, de suicídio e dissipação (canto XIII); contra Deus, de blasfêmia (canto XIV); contra a natureza, de sodomia (cantos XV e XVI); contra a arte, de usura (canto XVII). Entre os sodomitas Dante localiza seu mestre Bruneto Latino, que lhe vaticina seu futuro sucesso e suas iminentes provações.
Ainda mais abaixo, entram nos círculos dos injustos (pecados da loba), em que se pagam os pecados de sedução e rufianismo (canto XVIII); de adulação e lisonja (canto XVIII); de simonia (canto XIX); de magia e adivinhação (canto XX); de corrupção (cantos XXI e XXII); de hipocrisia (canto XXIII); de roubo e furto (cantos XXIV e XXV); de maus conselhos (cantos XXVI e XXVII); de cisma e intriga (canto XXVIII); de falsificação (cantos XXIX e XXX); de traição (cantos XXXII a XXXIV).
Dante encontra‑se com Ulisses (canto XXVI), que lhe recorda sua última navegação e com o trovador Bertrand de Born (canto XXVIII), que leva à mão a própria cabeça decepada, assim como o Mestre Adamo di Brescia (canto XXX), que foi queimado vivo em 1280 por ter cunhado florins de ouro.
Os traidores dividem‑se em quatro giros, conforme os tipos de logro causado: primeiro os culpados de traição caína, isto é, contra os parentes (canto XXXII). São seguidos dos manchados de traição antenora, ou seja, contra a pátria: (cantos XXXII e XXXIII). Aí se narra a terrível história de Ugolino (canto XXXIII), condenado a morrer de fome com dois filhos e dois netos trancado numa torre.
Depois vêm os responsáveis de traição ptoloméia, contra hóspedes (canto XXXIII). Por fim, o último canto do Inferno traz uma imagem grotesca, reduzida, de Satanás, cuja assimilação reclama que se saboreie o último canto do Paradiso. É o lugar dos culpados de traição judeca, contra benfeitores. Nas três bocas de Lúcifer são mastigados Judas, Brutus e Cássius. Suas três faces podem ser identificadas como símbolos opostos à Trindade: o ódio, a ignorância e a impotência ou como uma representação da própria Terra, com seus continentes então conhecidos: Europa, Ásia e África.
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