9 de out de 2009

A poesia de Dante Alighieri



Escola universal de estilo
A poesia dantesca é fácil, comunica antes de ser entendida, cuja impressão, ao ser verificada, se confirma (traz “emoção poética objetiva”). Seu italiano não é fácil, nem o conteúdo, pois para três versos são precisos parágrafos de comentários. A razão é que Dante é em determinado sentido o mais universal dos poetas das línguas modernas. Não equivale a “o maior”, ou a “o mais abrangente”, pois há mais detalhe em Shakespeare. Sua universalidade não é meramente pessoal: o italiano, enquanto produto do latim, supera o inglês em universalidade, e, enquanto mais próximo do latim do que as demais línguas romances, supera o francês em acessibilidade. O latim medieval era um “esperanto literário” em que as idéias filosóficas e abstratas podiam ser compartilhadas por várias culturas. Modernamente, as idéias — exceto a linguagem matemática — estão mais vinculadas às nações que as geraram. Efetivamente, ser florentino fazia de Dante mais europeu que italiano.
Dante tem lucidez poética, pois as associações de idéias não produzem outras associações de idéias que apenas a autoconsciência local pode descobrir. Após a Reforma e a Renascença o estilo poético ficou mais espesso.
O sentido em que ele é mais universal é que é mais fácil de verter a uma língua estrangeira, pois escreveu numa época em que a Europa era unida e inclusive estava mais perto de seu centro do que Chaucer e Villon.
O método alegórico
Além disso, sua simplicidade procedia do método alegórico comum então. A alegoria não é um quebra‑cabeça de palavras cruzadas, mas um efeito especial exercido em direção da lucidez do estilo. Por isso, é melhor não procurar saber de cara quem é a pantera, o leão ou a loba que o cercam na floresta escura do primeiro canto do Inferno.
O objetivo prático da alegoria é prover imagens visuais claras imbuídas de significado. Se hoje temos sonhos, então sabiam ter também visões: “as linguagens variam, mas os olhos são sempre os mesmos”.
Mas sua linguagem alegórica é simples, com poucas metáforas, pois alegoria e metáfora não combinam bem. Suas comparações procuram fazer‑nos ver o que ele via (intensivas), ao contrário das comuns figuras poéticas, que em geral procuram aduzir algo ao que se vê (são expansivas). Por exemplo (Inferno, XV):


16 Eis que de almas um bando, que avançava,
vimos, e cada qual, mais perto, então,
lançava a nós o olhar, e o olhar forçava,

19 como quem busca ver na escuridão,
à lua nova, e fixa atentamente,
tal sobre a agulha um velho remendão.



Sem ler a obra no conjunto não se pode captar seu significado. Há um padrão estrutural nítido em Dante, que em outros autores pode ser maior, mas que em geral lhes é desconhecido ou disseminado pelas obras.
Suas imagens fixam e surpreendem (a surpresa para Poe é essencial à poesia). Seu engenho associa contemporâneos amados e odiados, homens reais e fictícios, lendários e bíblicos, que mais do que escarnecidos ou louvados assumem um posto representativo dos tipos de pecados, sofrimentos, erros e méritos, no conjunto de sua obra.
Seus versos têm alto grau de simplificação e seus personagens apresentam‑se com a naturalidade de um homem vulgar por mais heróicos que sejam. Ao falar da sorte póstuma de figuras legendárias, Dante livra‑se da acusação de mesquinhez ou arbitrariedade na seleção dos condenados: relembra assim que o inferno é um estado que pode ser pensado pela projeção de imagens sensoriais e que a ressurreição dos corpos tem um sentido mais profundo do que se pode captar à primeira vista.
A experiência de um poema assemelha‑se ao conhecimento intenso de outro ser humano, que, após o choque inicial deixa lugar a uma experiência mais prolongada. Se aos poemas os ultrapassamos e superamos, a Commedia só podemos alcançá‑la em sua altura, mas à medida em que nos aproximamos do fim da vida.
Escala da emoção humana
A elegante austeridade literária de Dante torna‑o um paradigma para os que querem escrever. Mas no Purgatorio Dante ensina que uma afirmativa direta filosófica pode ser grande poesia e, no Paradiso, que os estados de beatitudes mais rarefeitos e remotos podem fornecer material para grande poesia. Assim, se Shakespeare compreende a vida humana em maior extensão e variedade, Dante compreende graus mais profundos de degradação e de exaltação, dá a maior altitude e a maior profundidade à paixão humana.
Se o Inferno oferece material afeito à mente moderna, ainda que só se entenda à luz das duas outras partes, estas parecem à primeira vista mais árduas e menos remunerativas. Ao aprofundar na mente de Dante, a danação e mesmo a ventura parecerão mais excitantes do que a purgação.
Antes de se preocupar com a astronomia do Monte do Purgatório, o leitor deverá sofrer com as ilustres almas padecentes. O fogo destes últimos difere do infernal pois não procede da natureza dos danados, mas da aceitação penitente, cheia de esperança.
Nos cantos XXIX-XXXIII já se chega ao mundo do Paradiso. Mas a alegoria começa a obrigar a captar o todo que vai da idéia à imagem, algo passável no Inferno, sem a necessidade de entender a finalidade concreta daquele cortejo de imagens.
Efetivamente, Dante deve a Tomás de Aquino e à filosofia medieval. Mas como hodiernamente é costume diferenciar crença e assentimento poético, seria errado afirmar que há partes da Commedia que só tenham interesse a católicos e medievalistas: o católico poderá movimentar‑se — graças à sua cultura, não à fé — com mais desenvoltura pela obra. Enquanto poeta filósofo, Dante transforma sua crença em coisa diferente ao passá‑la à poesia; outros (Goethe, Lucrécio, Bhagavad‑Gita proporcionalmente menos) acabam deixando na obra a marca peculiar da crença pessoal.
A compreensão da filosofia da Commedia exige a suspensão da crença, adentrar com a humildade de uma pessoa que conhece um mundo novo, com sua própria escala de valores. Dois momentos significativos, que não faz falta erudição para captar a beleza poética: Marco Lombardo fala da liberdade e Virgílio do amor.
Ao chegar ao paraíso terrestre, Matelda — provavelmente a condessa de Canossa, distinguida por sua fé e relevantes serviços prestados à Igreja, na guerra e na paz — explica a natureza do lugar e aparece o “Cortejo Divino”. Isso repugna não só aos que desgostam as pompas cortesãs e as revelações joaninas, mas também aos que alimentam preconceitos pelo purismo formal pré‑rafaelita e os que pensam que a poesia só é possível através da dor e no sofrimento. Com efeito, os estados de aperfeiçoamento e júbilo dantescos estão além do que a modernidade entende como júbilo do que os estados de danação com relação ao sofrimento.
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