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5 de jun. de 2011

Em busca do sociologismo

Ciência e método

O termo “sociologia” foi empregado pela primeira vez por Augusto Comte (Cours de philosophie positive, vol. 4) em 1839.

Posto que a sociedade já tivesse sido estudada por Platão (A República), Aristóteles (A Política), Santo Agostinho (Cidade de Deus), Maquiavel (Discursos) e Vico (Ciência Nova), até então recebia tratamento filosófico e normativo. A sociologia enquanto tal nasceu como método experimental.

O método é lícito se não se perde de vista seus limites e sua dependência da Filosofia Social, Antropologia e Ética. Mas Augusto Comte, em seu reducionismo (equiparar as ciências do comportamento humano às ciências da natureza), a considerava a última das ciências a libertar-se das ataduras da teologia e da metafísica.

O positivismo conferiu à sociologia suas características: objetivo fenomênico, pressupostos deterministas, conclusões amorais, afinalísticas e acríticas.

Enfoques sociológicos

Existem diversos enfoques sociológicos: marxista (a vida social é práxis, ação); positivista (de Durkheim, que discutiu a compenetração entre indivíduo e sociedade); da “compreensão” (de Weber, que parte de tipos-ideais e tem caráter probabilístico); formalista (de Simmel, inspirado nas interações); estrutural-funcionalista (de Parsons, que procura fazer uma teoria sociológica sintetizadora, mas de caráter protestante); fenomenológico (de Scheler, de tendência subjetivista); interacionista simbólico (sociedade como representação).

Todos esses enfoques negam a natureza humana e apresentam as instituições como produtos de interações. Consequentemente, tudo deriva da ação e se constitui por regras; os polos da dinâmica social são o totalitarismo e o contingentismo.

“Sociologismo” seria, portanto, a atitude radical dos que procuram explicar o social somente com o social.

12 de nov. de 2009

Utopia romântica

Consumir romance

O mercado é nossa arena. Nele ficam estampadas não apenas nossas diferenças econômicas, mas também sociais, embora a todos estejam franqueadas suas portas.

Com o amor se passa o mesmo: é acessível a todos. Mas também aqui ouvimos o eco das diferenças sociais.

Com efeito, poucos têm os recursos necessários para reduzir a distância entre o romance e a realidade, para fazer da vida um idílio.

Veja-se o cortejo tradicional: é uma característica das classes acomodadas. Visita do pretendente à família da noiva, etc.

Veja-se a atual democratização do romance: as classes inferiores o praticam em espaço público, por falta de salas, bailes e mansões. Seu aliado? O mercado, que oferece a preço módico ócio e consumo cinematográfico.

Percebem-se dois processos: a romantização das commodities e a commodização do romance. O amor se tornou o protagonista de quase todos os filmes das telas do cinema, instaurou-se como utopia visual, reconfigurou a noção de amor de sucessivas gerações.

Amor como utopia

Nos anos 30, o amor se vestia de imagens domésticas. Porém, com as Guerras, a publicidade migrou para a reafirmação do eu, vinculando, em chave hedonista, o amor às emoções, aventuras, exotismo, prazer e experiências intensas.

Mas a aventura só é possível com o consumo de certos bens e práticas de ócio. A propaganda passou a apelar para o glamour, a beleza, a fama, mudando o idioma do consumo. Um casal feliz é o que está recluído numa intimidade bucólica, em puro ócio. A estética da casa romântica ideal renega o quotidiano do trabalho e do mundo industrial urbano.

O ícone da oposição entre trabalho e romance é o turismo. Vincula o romance à escapada. Seu estereótipo é a praia deserta, símbolo do paraíso perdido.

Muitas pessoas duvidam se estão apaixonadas de tanto falar de amor. Muitas pensam não estar por carecer dessas representações.

Amorico e pós-modernidade

Para Simmel, o característico da experiência pós-moderna é a vivência do amor como aventura. A pós-modernidade trocou as histórias românticas totalizadoras e eternas por amoricos, romances episódicos que anulam o sentido de espera e eliminam do amor qualquer traço de tragédia.

Amor e romance se divorciaram. Amor é solidariedade, tolerância e estabilidade. Romance é espontaneidade, distensão, emoção e alegria. As tentativas de reconciliação são malfadadas.

As revistas femininas, por exemplo, tentam incutir nas mulheres um discurso racional: “a alma gêmea se consegue com uma busca profissional dos bons partidos”. “Falta romance porque falta empenho”. E os homens, abdicando da virilidade e das virtudes cortesãs, tentam ser ingênuos, cândidos, delicados, cuidadosos.

Assim, o romance tem servido para neutralizar as diferenças de gênero, com tendência marcadamente feminina.

Amor objeto e amor fiel

O mercado coisificou o amor. É produzido, consumido, comprado, usado, trocado, descartado. Mas o amor é algo eterno que entra no tempo. Por isso reclama fidelidade.

[Esta postagem foi inspirada no livro Consuming the romantic utopia.]

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Por que começa o amor?
Por que termina o amor?
O que o faz perdurar?

10 de out. de 2009

A vida mental na metrópole, por Georg Simmel (II)

Em seu texto «A Metrópole e a Vida Mental», Georg Simmel (1858-1918) relaciona os problemas da vida moderna com a luta da individualidade com as forças sociais, históricas, culturais etc.

Segundo as suas palavras, o liberalismo do século XVIII, avesso às dependências políticas, religiosas, morais e econômicas, foi o degrau para a mais recente transformação da eterna luta pela sobrevivência humana que, se antes fora contra os reveses da natureza, então se dá com traços de modernidade.

A crença iluminista na bondade natural do homem que deveria ser liberto de todas as amarras sociais, quando ao mesmo tempo se lhe exigia maior especialização no trabalho, criou um impasse psicológico: sendo o homem indispensável à sociedade por ser cada vez mais especialista, tornou‑se mais dependente das atividades suplementares de todos os outros, nivelado e uniformizado pelo mecanismo sociotecnológico.
Conforme Simmel, a base psicológica do tipo metropolitano é a intensificação dos estímulos nervosos: a convergência de imagens em mudança e as impressões súbitas da vida urbana exigem mais quantidade de consciência que a vida rural. Assim, uma conscientização crescente assume a prerrogativa do psíquico, o intelecto suplanta o coração, a fim de preservar a personalidade no turbilhão metropolitano.

A cidade sempre foi a sede da economia monetária, pois dá importância aos meios de troca em decorrência da sua multiplicidade e concentração. O intelecto e o econômico se associam, qualificando como prosaico tratar diferenciadamente os homens e as coisas e opondo‑se, por sua racionalidade, à genuína individualidade. Torna‑se difícil avaliar se a «mentalidade intelectualística» promoveu a «economia do dinheiro» ou vice‑versa, afirma Simmel. Nesse sentido é que Londres foi chamada a cabeça da Inglaterra, mas não seu coração.

O calculismo da vida moderna permite o funcionamento da máquina metropolitana integrando todas as atividades e relações. Nesse contexto, caracteres de impulsos irracionais são conflitantes à vida típica da cidade. Ela é uma estrutura da mais alta impessoalidade, o que promove uma grande subjetividade blasé (tédio). O hedonismo torna uma pessoa entediada porque agita os nervos até que percam a reação e a energia apropriada às novas sensações.

A economia do dinheiro contribui para a atitude blasé ao neutralizar o poder de discriminar, pois o dinheiro é a rasoura pela que se nivela todas as diferenças qualitativas em termos quantitativos.

O indivíduo, para se preservar face à cidade, comporta‑se reservadamente com os demais, o que, para Simmel, pode ser mesmo «uma leve aversão, uma estranheza e repulsão mútuas, que redundarão em ódio e luta no momento de um contato mais próximo». Justamente a antipatia é que protegeria o cidadão da indiferença blasé e da sugestibilidade econômica, de modo que o que parece dissociar e destoar no estilo metropolitano de vida é uma forma elementar de socialização.

Tal reserva, entretanto, confere ao indivíduo uma liberdade pessoal inalcançável em quaisquer outras condições. Mesmo a antiga pólis grega teria tido um caráter de cidade pequena, pelo que a ameaça dos inimigos de fora resultou numa estrita coerência quanto aos aspectos políticos e militares, suplantando as iniciativas individuais com as necessidades coletivas. Consequentemente, as formas de vida mais extensivas e gerais estão ligadas às mais individuais. Se a liberdade do homem feudal consistia na sua permanência sob a lei da terra, a do homem metropolitano moderno consiste no seu refinamento e abertura contrastante com a do homem da cidade pequena.

A característica mais significativa da metrópole é a sua extensão funcional para além de suas fronteiras físicas, que a torna sede da mais alta divisão econômica do trabalho. Lá a pessoa precisa enfrentar a dificuldade de afirmar sua própria personalidade no meio da multidão, volvendo‑se às diferenças qualitativas para atrair a atenção do seu círculo social, tentada a adotar extravagâncias especificamente metropolitanas. Fazer‑se conhecido torna‑se o meio de salvaguardar a posição e a auto‑estima.

A razão mais profunda da existência pessoal mais individual para Simmel é a preponderância da objetividade sobre a subjetividade: o indivíduo cada vez menos pode equiparar‑se ao supercrescimento da cultura objetiva. A vida fez‑se mais fácil para a personalidade — entendida por Simmel como sede dos sentimentos — na medida em que os confortos lhe são oferecidos de todos os lados. Portanto, os indivíduos acabam apelando para o exclusivo e o particular, a fim de preservar sua essência mais pessoal num grito que o torne presente para si próprio. Daí o surgimento do ódio amargo à cidade de pensadores como Nietzsche e a sua grande difusão.

A posição histórica das duas formas de individualismo (independên cia individual e elaboração da própria individualidade) está no século XVIII com seu ideal liberal e no século XIX com seu romantismo e a divisão econômica do trabalho, respectivamente. No dizer de Simmel, «os indivíduos liberados de vínculos históricos agora desejavam distinguir‑se um do outro (...). É função da metrópole fornecer a arena para este combate e a reconciliação dos combatentes».

Consequente com seu relativismo histórico, Simmel conclui chamando à «compreensão» de tais conjunturas, não a seu juízo, posto que a brevidade da existência humana e a esfera dos juízos são transcendidas pela a sucessão dos fenômenos da vida.

8 de out. de 2009

A vida mental na metrópole, por Georg Simmel (I)

O século XIX foi a época dos grandes historiadores alemães, a ponto de ser chamado o «século da história». Nesse período houve uma paciente coleta e recuperação dos textos literários e papíricos relativos aos filósofos clássicos (epicuristas, estoicos e pré‑socráticos) e desenvolveu‑se muito a linguística histórica, a história da política, da economia, da religião e da arte, da filosofia e da filologia. Em tal interesse pela história encontra‑se a influência do romantismo, tradicionalista e cultor da consciência coletiva dos povos.

Com base nesses elementos, nas últimas décadas do século XIX e até a Segunda Guerra Mundial, desenvolveu‑se o movimento filosófico chamado historicismo, cujos expoentes foram Max Weber, Wilhelm Windelband, Oswald Splenger, Georg Simmel, entre outros.
O historicismo foi contemporâneo da Primeira Guerra Mundial, da ruína da Alemanha, da Revolução Russa, do nascimento do fascismo e do nazismo e da difusão do marxismo. Suas linhas gerais são: a história como obra dos homens, das suas relações condicionadas pelo processo temporal; a história como distinta da natureza; a compreensão na história como correlata à explicação causal nas ciências naturais.

A vivência histórica só poderia captar como os homens experimentaram interiormente os conceitos, não a verdade ou a falsidade dos seus conteúdos. Daí o método de estudo da história segundo a sucessão de pathos, ou seja, estruturas psíquicas coletivas.

Para Georg Simmel (1858-1918), o critério de escolha dos fatos históricos é o valor que têm. No entanto, esse valor não lhes seria inerente, mas viria dado pelo historiador — pelo que não haveria fatos objetivamente importantes: «um fato é importante porque interessa a quem o considera». O sentido da história seria um problema insolúvel, uma vez que variaria de acordo com as crenças de cada um — Simmel cai no relativismo absoluto por conceber o objeto da história em função do método.
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