C. S. Lewis foi o rei da alegoria. Mas será mesmo sinal de profundidade ser capaz de criar analogias e parábolas instigantes, ilustrações através das quais procuramos reexplicar o que já sabíamos?
Não é o que parece se pensar nos nossos dias. Alegoria ou é fantasia carnavalesca ou é coisa para crianças. Afinal, para que fantasiar se podemos andar nus?
Por outro lado, quem sabe usar as armas da alegoria facilmente consegue mudar a valência das histórias. Não foi assim que Philip Pullman escreveu a Bússola de Ouro, invertendo os valores de A Crônica de Nárnia?
Por sua vez, Freud e Jung usaram a alegoria para ensinar a sonhar, para descobrir nas imagens diluídas de um sono estranho a vastidão do nosso inconsciente. E Dalí ensinou a pintar, a plasmar em relógios derretidos, a beleza do nosso “algo desconexo” mais íntimo.
No mundo dos sonhos, mais que ambivalência, há contradições, divórcios reatados. Como o malandro que, expulso de casa pela mulher, lhe diz que irá procurar sua ex. Ela fica ainda mais revoltada, mas então ele bate imediatamente à sua porta e diz: — “Aqui estou, minha ex!”
Aqui a beleza é redundante, pois fica encerrada na própria coerência, sem fazer referência linear a quaisquer parâmetros externos previsíveis.
Mas… E o mito? Ah, o mito! O mito está entre o alegórico e o onírico. Ora pende a um, ora pende a outro. Nem Leão, feiticeira e guarda-roupa, nem O homem que foi quinta-feira.
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9 de abr. de 2012
3 de out. de 2011
Mulheres de Xangô
Existe uma tipologia feminina?
Pode-se questionar, com justiça, o realismo de uma classificação biotipológica da mulher. Efetivamente, qualquer abordagem traz no bojo certas escolhas e vieses discutíveis. Por exemplo, a divisão que proponho entre Dona Sofia, Eva e Fake-Doll.
Em seu livro sobre a mulher (págs. 106-116), Edith Stein indaga do mesmo ao eleger três personagens literárias como protótipos femininos: Ingunn Steinfinnsdatter, da obra de Sigrid Undset; Nora, de Ibsen; Ifigênia, de Goethe. A Filósofa conclui pela legitimidade dessas escolhas depois de comprovar o espírito que animava tais autores em sua criação literária. E indica a possibilidade de se ampliar indefinidamente a tipologia desde que se conserve o mesmo fundo:
“Amadurecer (…) na união amorosa que, fecundando, provoca esse processo de amadurecimento e, ao mesmo tempo, estimula e promove também nos outros o amadurecimento (…), essa é a aspiração mais profunda do desejar feminino, que pode manifestar-se nos mais diversos disfarces e mesmo distorções e desfiguramentos. (…) é esse desejo que corresponde à função eterna da mulher” (pág. 113).
Em seu livro sobre a mulher (págs. 106-116), Edith Stein indaga do mesmo ao eleger três personagens literárias como protótipos femininos: Ingunn Steinfinnsdatter, da obra de Sigrid Undset; Nora, de Ibsen; Ifigênia, de Goethe. A Filósofa conclui pela legitimidade dessas escolhas depois de comprovar o espírito que animava tais autores em sua criação literária. E indica a possibilidade de se ampliar indefinidamente a tipologia desde que se conserve o mesmo fundo:
“Amadurecer (…) na união amorosa que, fecundando, provoca esse processo de amadurecimento e, ao mesmo tempo, estimula e promove também nos outros o amadurecimento (…), essa é a aspiração mais profunda do desejar feminino, que pode manifestar-se nos mais diversos disfarces e mesmo distorções e desfiguramentos. (…) é esse desejo que corresponde à função eterna da mulher” (pág. 113).
Utilidade da intuição iorubá
Como outra fonte paralela, parece interessante recorrer à mitologia dos orixás, da qual já trouxe episódios a este blogue. Seus mitos versam sobre a criação do mundo, o nascimento dos orixás e suas relações com os homens.
É notória a dificuldade de sistematização dessas histórias. Elas se apoiam mais em tabus do que em princípios morais. Os orixás muitas vezes encarnam os vícios humanos (aliás, como os deuses gregos): violências, ciúmes, inveja, luxúria, gula, etc.
Entre os orixás destacam-se as mulheres de Xangô, o qual teria sido um rei iorubá divinizado. Cada uma representa um perfil feminino: a esposa, a amante, a mãe.
É notória a dificuldade de sistematização dessas histórias. Elas se apoiam mais em tabus do que em princípios morais. Os orixás muitas vezes encarnam os vícios humanos (aliás, como os deuses gregos): violências, ciúmes, inveja, luxúria, gula, etc.
Entre os orixás destacam-se as mulheres de Xangô, o qual teria sido um rei iorubá divinizado. Cada uma representa um perfil feminino: a esposa, a amante, a mãe.
Obá, Oxum e Iansã
Textos retirados de Mitologia dos Orixás, de Reginaldo Prandi:Obá
Xangô era um conquistador de terras e de mulheres.
Vivia sempre de um lugar a outro.
Em Cossô fez-se rei e casou-se com a velha Obá.
Obá era sua primeira e mais importante esposa.
Obá passava o dia cuidando da casa de Xangô.
Moía a pimenta, cozinhava e deixava tudo limpo.
Mas Xangô era moço ardente, cheio de seiva,
e logo se aborreceu de Obá.
Oxum
Xangô disse a Oxum:
“Se ficares comigo, abro um tapete de outro sob teus pés,
que é para nunca mais pisares o chão.
E todas as minhas mil riquezas serão tuas”.
Logo que ouviu falar em ouro,
Oxum foi embora com Xangô.
Ele era rico, atrevido e charmoso.
É esse o tipo de pessoa que satisfaz Oxum.
E ambos são doidos um pelo outro.
Oxum era conhecida como a amante ardorosa.
Tinha um corpo belo, de formas finas.
Sua cintura deixava-se abraçar por um único braço.
Por muitas noites Oxum teve em seu leito amantes,
aos quais propiciava momentos de raro prazer.
Oxum teve muitos amores,
de quem ganhou presentes preciosícissimos.
Oxum era rica. Tinha joias, ouro, prata,
vestidos maravilhosos, batas que causavam inveja,
e mais, pentes de marfim, espelhos de madrepérola,
e tantos berloques e panos-da-costa.
(…)
De tudo de seu dispôs Oxum, para o conforto de Xangô.
Primeiro as joias, depois os vestidos, as batas,
depois os pentes, os espelhos, de tudo foi de desfazendo Oxum.
Restou-lhe nada mais que seu vestido branco.
De tudo de seu desfez-se Oxum pelo amor de Xangô.
Ficou pobre por amor de Xangô.
Oiá-Iansã
Um dia Xangô foi ao palácio de Iansã determinado a conquistá-la.
Ele a desejava ardentemente,
mas Iansã era uma mulher difícil
e não queria se render às investidas de Xangô.
(…)
Quando Iansã viu que nenhum de seus Exus
poderia deter Xangô, disse:
“Podem deixá-lo entrar, podem deixá-lo entrar”.
Oiá desejava ter filhos,
mas não podia conceber.
Oiá foi consultar um babalaô
e ele mandou que ela fizesse um sacrifício.
(…)
Oiá fez o sacrifício e teve nove filhos.
Quando ela passava, indo em direção ao mercado, o povo dizia:
“Lá vai Iansã”, que quer dizer “mãe de nove filhos”.
Vivia Oxum no palácio em Ijimu.
Passava os dias no seu quarto olhando seus espelhos.
Eram conchas polidas
onde apreciava sua imagem bela.
Um dia saiu Oxum do quarto e deixou a porta aberta.
Sua irmã Oiá entrou no aposento,
extasiou-se com aquele mundo de espelhos,
viu-se neles.
As conchas fizeram espantosa revelação a Oiá.
Ela era linda! A mais bela!
A mais bonita de todas as mulheres!
Oiá descobriu sua beleza nos espelhos de Oxum.
Oiá se encantou, mas também se assustou:
era ela mais bonita que Oxum, a Bela.
25 de mai. de 2011
Oxumarê vai ao cabeleireiro
Tirei os textos abaixo de Mitologia dos Orixás, de Reginaldo Prandi, cuja leitura é extremamente agradável e instrutiva.
“Iporinche” é cabeleireiro. A cabeça era importante para a religião iorubá. Creio que para o homem de hoje também, mas não no sentido do seu pretenso aspecto numinoso. Refiro-me antes à cabeça-feita, para não dizer desfeita, de certa elite intelectual divorciada da verdade.
Não se revolte contra a chuva. A chuva chove tanto sobre os bons quanto sobre os maus. A natureza é sábia, não queira agir contra a natureza.
***
“Iporinche” é cabeleireiro. A cabeça era importante para a religião iorubá. Creio que para o homem de hoje também, mas não no sentido do seu pretenso aspecto numinoso. Refiro-me antes à cabeça-feita, para não dizer desfeita, de certa elite intelectual divorciada da verdade.
Não se revolte contra a chuva. A chuva chove tanto sobre os bons quanto sobre os maus. A natureza é sábia, não queira agir contra a natureza.
***
Oxumarê era filho de
Nanã.
No seu destino
estava escrito que ele deveria ser
seis meses um monstro e seis meses uma linda mulher.
seis meses um monstro e seis meses uma linda mulher.
Aos poucos,
Oxumarê-mulher revoltou-se com a mãe,
pois não conseguia nunca uma relação de amor estável.
pois não conseguia nunca uma relação de amor estável.
Quando estava tudo
bem com ela e seu amante,
ela virava o monstro e afastava o companheiro.
ela virava o monstro e afastava o companheiro.
***
Conta-se que Oxumarê
não tinha simpatia pela Chuva.
Toda vez que ela reunia suas nuvens
e molhava a terra por muito tempo,
Oxumarê apontava para o céu ameaçadoramente
com sua faca de bronze e fazia com que Chuva desaparecesse, dando lugar ao arco-íris.
***
Oxum era mulher de Xangô,
Toda vez que ela reunia suas nuvens
e molhava a terra por muito tempo,
Oxumarê apontava para o céu ameaçadoramente
com sua faca de bronze e fazia com que Chuva desaparecesse, dando lugar ao arco-íris.
***
Oxum era mulher de Xangô,
mas vivia enrabichada por Oxumarê.
(…)
Xangô chamou o
possível rival para um duelo.
Lutaram por três
dias e três noites.
(…)
Xangô matou Oxumarê.
(…)
Tão bonito era
Oxumarê que o Senhor Supremo se condoeu
e transformou Oxumarê no arco-íris.
e transformou Oxumarê no arco-íris.
Oxumarê, o rei dos
astros,
ficou para sempre vivo lá no céu.
ficou para sempre vivo lá no céu.
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1 de out. de 2009
O que os sumérios estão fazendo neste blog
Conforme prometido na postagem sobre o Me, vou falar sobre os deuses sumérios.
Mas não se preocupe: você não entrou no blog errado. É que aqui é meu depósito de ideias e você nem imagina como anda minha cabeça.
Serei breve. Acho que o tema interessa, pois a primeira civilização da história também foi a primeira a propor uma Filosofia do Absurdo.
Cosmogonia e teogonia
O esquema cosmogônico (nascimento do cosmo) comumente atribuído aos mesopotâmicos é o seguinte:
1) No princípio era o Mar primordial.
2) Este magma original eterno gerou a montanha cósmica, An-Ky.
3) A montanha cósmica se dividiu em Céu e Terra, produzindo o espaço vazio.
4) O espaço vazio foi ocupado pelos Ventos e Nuvens.
Posteriormente, isso teria sido transposto ao plano teogônico (nascimento dos deuses):
1) Nammu (Mãe primordial) gerou An (Céu) e Ky (Terra). A Terra (Ky) também é chamada Nimmah (a grande dama), Ninhursag (a dama da montanha cósmica) ou Nintu (a dama geratriz).
2) An e Ky geraram Innana (deusa do amor) e Enlil (deus do ar).
3) Enlil se uniu à sua mãe Terra, gerando o universo organizado (plantas, animais, civilizações).
4) Apareceu Enki (lençol d’água sob a terra) como um quarto elemento, amigo do homem.
O panteão foi crescendo depois, numa estrutura piramidal com mais de 50 grandes deuses (assembleia de notáveis) e uma base multitudinária de servidores. Cada cidade tinha suas tradições girando em torno do seu deus protetor. Por exemplo: Eridu, cidade portuária, onde estava o santuário de Enki, desenvolveu uma mitologia ctoniana (infernal). E em Nippur e Uruk, protegidas respectivamente por Enlil e An, houve tradições celestes cósmicas.
A criação do homem
O homem teria sido criado para trabalhar para os deuses, carregar o seu jugo, sem poder escapar a tal destino.
Não é paradoxal que na origem da civilização humana esteja presente a maior resignação, uma radical consciência de fragilidade, um fatalismo infernal?
Apesar da inocência. Existir já é expiar. Filosofia do Absurdo.
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