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19 de jun. de 2013

Levanta-se o impávido colosso


Para quem não sabe, esse gigante aí em cima é o skyline do Rio de Janeiro visto do mar. A cabeça é a Pedra da Gávea; o pé, o Pão de Açúcar.

Velha é a história do gigante adormecido da Guanabara, cujas maluquices lendárias podem ser lidas nesse site nada recomendável.

Há uma charge da época de Getúlio Vargas, que pode ser vista nos corredores do Palácio Tiradentes (recém-depredado por vândalos que se aproveitaram dos protestos deste mês de junho), na qual aparece o gigante nacional firmando-se nos pés do Pão de Açúcar.


Sem dúvida, precisamos nos levantar do berço esplêndido. Mas para onde, Brasil?

18 de jun. de 2013

Flashmob social

Uns, pois, gritavam de um modo, outros de outro; porque a assembleia estava em confusão, e a maior parte deles nem sabia por que causa se tinham ajuntado (At 19,32).

Eu sonho com a juventude brasileira. Eu sonho com o Brasil. No Brasil encontramos matéria, mas sentimos falta de quem lhe dê forma.

Houve estadistas que acalmaram as convulsões nacionais e souberam unir o país sob a égide do nacionalismo e do romantismo.

Hoje, porém, as convulsões tornam a ser estimuladas por ideólogos que substituem a participação política democrática pela “expressão pública do descontentamento”. Com efeito, é significativa a apatia política em contraste com a capacidade de mobilização social.

Os protestos em nossas cidades são como um “Inverno Brasileiro”, sucedâneo de Primavera Árabe. Alastram-se pelas redes sociais como se fosse a convocação para um flashmob.

Essa balbúrdia parece um estertor social, a externalização da falta de verdadeira participação na vida política, uma reação patológica diante de instituições desacreditadas.

Se a vaia à presidente Dilma no estádio explode naturalmente, organicamente, tais protestos, ao contrário, são organizados para parecerem desorganizados.

O jovem país envelhece defraudado de valores e impulsionado pelo exibicionismo. Renasce um terceiro Brasil. Os dois primeiros já tinham sido apontados por Machado de Assis: o Brasil oficial, dos burocratas, e o Brasil real, dos brasileiros autênticos.

Renasce então o terceiro Brasil, mimetista, panfletário, o Brasil dos que pensam mudar a nação com uma espécie de reedição da Coluna Prestes. Nos anos 20, acreditava-se a nação se incendiaria politicamente graças a um comboio de idealistas. Hoje se espera que internautas descubram novos continentes… sem sair do lugar nem mudar de atitude.

A mobilização é justa, mas os motivos são dúbios e os aproveitadores, numerosos. Elogios a quem faz promessa, bajulação às autoridades, protestos a quem não nos faz as vontades: os políticos conseguiram tudo isso ao mesmo tempo. Só não se entende como se faz história vilipendiando monumentos históricos.

A mobilização demostra que os canais para a manifestação da discordância não se podem reduzir às eleições. E também deixa claro que a juventude universitária brasileira anseia por um ideal, por uma bandeira.

Por isso eu sonho com a juventude brasileira, sonho com o Brasil. Há demanda, embora ainda falte oferta.

30 de mai. de 2013

A ilusão das próprias contradições

A bandeira dos direitos humanos é um salvo-conduto no discurso da vanguarda política, mesmo à custa da coerência.

Bom exemplo é o artigo da promotora Fabiana Dal’Mas Rocha Paes, publicado em O Globo no dia 30/5/2013, que reúne todas as contradições cuidadosamente organizadas como o baralho de um castelo de cartas.

Em primeiro lugar, alude a uma “verdadeira democracia” que protege os interesses de militantes da “diversidade sexual”, mas ridiculariza o massivo protesto da sociedade francesa — liderado inclusive por um homossexual —, o qual foi ignorado pelos parlamentares daquele país.

Em seguida, afirma que a interpretação do artigo 226 da Constituição brasileira deve fugir da literalidade (casamento entre “homem e mulher”). Ora, tal princípio nos faria reféns da insegurança jurídica e permitiria ulteriores desdobramentos, como equiparar ao matrimônio a poligamia, a pedofilia, etc.

Na mesma linha, afirma que impedir o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo feriria o artigo 5º da Constituição, o qual veda a discriminação. Mas incapacidade equivale à privação de direito?

Curioso é que logo depois a promotora ousa dizer que todo o pensamento contrário é necessariamente religioso e, como tal, deve ser excluído do debate. Assim ela acaba de ferir esse mesmo artigo 5º da Constituição e os mais elementares princípios da racionalidade.

Finalmente, declara que o objetivo da militância é a instauração de um ideário de vanguarda tão alheio aos valores brasileiros que se poderia qualificar de totalitário.

Gostaria apenas de indagar à missivista:  O que é o matrimônio? O que é a família? — Somente buscando uma resposta cabal a essas perguntas poder-se-á fortalecer a nossa sociedade e valorizar os verdadeiros direitos civis.

21 de mai. de 2012

Um rábula quixotesco

Dando uma de rábula, gostaria de comentar cinco argumentos (em carmim) que colhi da pena de juristas em discussões recentes de que participei na Internet:

1. O Supremo Tribunal Federal é o intérprete da Constituição Federal, seu porta-voz; em outras palavras, a Constituição Federal é, sem mais, sem menos, o que o Supremo diz que ela é.
— Se a Constituição Federal fosse o que o Supremo diz que ela é, então teria sido mais fácil pedir que os 11 preclaros ministros a tivessem redigido em vez de se convocar uma Assembleia Constituinte.

2. O Poder Judiciário tem entre os seus deveres também o de implementar o Estado onde este está ausente. Bom exemplo disso é o mandado de injunção. Assim, colocado um caso concreto à apreciação do Judiciário, por meio do Supremo Tribunal Federal, pelo alcance nacional da decisão, o que faz a corte suprema é decidir como melhor lhe aprouver. Sendo os ministros do Supremo, pelo menos em tese e por ficção, os donos de todo o conhecimento jurídico nacional, bem assim donos de destacado bom senso e elevada consciência política, dão sua interpretação sobre parte do texto da lei que não possui clareza suficiente. A partir da decisão do Pleno do Tribunal, tal “insuficiência” do texto é suprida, papel maior do Tribunal.

— Se os ministros decidem como melhor lhes aprouver, então estamos no reino da tirania e da arbitrariedade. Os alegados donos de destacado bom senso e elevada consciência política também podem errar rotundamente. Aliás, qualquer juiz pode errar, assim como Pilatos e o Sinédrio erraram com Jesus Cristo.

3. Sob a exegese da ética é que decisões são tomadas, pois a norma também deve ter a sua função social, embora o que tenha sido escrito pelo legislador ipsis literis não tivesse o mesmo ensejo que a sociedade hoje pede e conclama. Por isso, trago a questão para esse aspecto da interpretação de acordo com aquilo que a sociedade espera que o Estado concretize em suas vidas.

— Ora, ora: por um lado, a norma procede da natureza, não das reivindicações. Por outro, não é dever do Estado oficializar ou regulamentar tudo o que se faz.

4. Seria competência do Supremo Tribunal legislar? Penso que não. No entanto, por reivindicação tão digna, sofro a tentação de abandonar o que aprendi na faculdade e sair em protesto pela aprovação! De fato, quem legisla é o Congresso. Nisso, meu lado advocatício diz que você tem razão, mas meu lado cidadão discorda. Quando se decide o destino da nação, tudo é importante!

— É bastante questionável a afirmação de que “a sociedade reclama” esse tipo de coisa. Mais: o destino da nação vai por água abaixo quando o direito é sacrificado em nome de “urgências” desse teor. Sem direito não há justiça e sem justiça não há prosperidade.

5. Se a questão não fosse polêmica, não seria um pedido da sociedade. Resultado de manobra de uma suposta elite intelectual ou não, vejo mais adeptos à ideia que opositores.

— Há na atitude do Supremo Tribunal um mix de soberba com imprudência. Por um lado, os deuses do Olimpo se consideram capazes de expressar a pretensa vontade popular (leia-se o lobby da “elite intelectual” brasileira, que não deixa de ser massa de manobra). Pior, em vez de suspenderem o juízo em questões tão inusitadas e controversas, dão guinadas que contradizem séculos de consenso.

*****

A questão me parece clara: vivemos em tempos de grande insegurança jurídica, em que os debates são farsas midiáticas, os textos legais estão sujeitos a interpretações arbitrárias e a coisa pública está à mercê da opinião da elite de plantão.

O direito hoje sofre duplamente: primeiro, porque é equiparado a mera burocracia jurídica para validar as vontades dos cidadãos; segundo, porque é exigido sem a contrapartida da assunção dos deveres.

28 de abr. de 2012

Discussão intrauterina

A mídia e o Supremo apresentam ao público e ao povo uma altercação na barriga de Rebeca: Esaú e Jacó discutem quem deve prevalecer: o poder de Esaú ou a consagração de Jacó.

Falando sério, penso que não é preciso ter útero para falar de aborto. A não ser que útero aqui se refira a entranhas, à capacidade de se compadecer.

Não é preciso ser mulher para falar de aborto porque o aborto afeta a vida, o ser humano, a esposa, o outro lado do varão. Sendo assunto humano, é prerrogativa tanto da mulher quanto do varão.

Indo além dessa contestação, entendo que essa forma de colocar a questão — a de que a mulher tem no seu útero um fardo que lhe tolhia a liberdade, mas do qual conseguiu se libertar nos últimos decênios através da revolução sexual — é completamente indevida.

Fazendo uma comparação porca, é como alguém que sofre de obesidade botar a culpa na comida, quando na verdade o problema advém da sua gula ou de uma eventual disfunção digestiva.

Pois basta lembrar que a maioria absoluta das mulheres sente-se orgulhosa de ser um sacrário da vida. A maternidade é um dom. A defesa do aborto, porém, torna-a sepulcro da morte, além de apresenta a gravidez como uma doença.

Uma gravidez indesejada, ou forçada, ou arriscada, ou sofrida, não tira à maternidade aquilo que ela tem de misterioso, de participação no poder criador.

Se há mulheres que recorrem ao aborto, nada posso fazer senão lamentar e tentar ajudar. Mas nunca direi que fazer isso é certo, pois estaria sendo um cúmplice e um mentiroso.

A questão é cientificamente simples: qual é a diferença entre o nascituro e o nascido? Ambos têm 46 cromossomos, como nós. Mas o nascituro foi confiado à mulher. Portanto, que grande responsabilidade!

Voltemos à barriga de Rebeca. Cada vez que vejo um bispo do lado da vida (Jacó) e um jurista ou médico abortista de outro (Esaú), constato que nossa mídia laicista continua sendo extremamente clerical. Ponha-se dois médicos (um a favor e outro contra) ou dois juristas (um a favor e outro contra) para discutir lado a lado, ora bolas! E então veremos quem “ganha”.

1 de abr. de 2012

Soluções de longo, médio e curto prazos

Vira e mexe algum amigo se queixa da péssima educação, dos preconceitos, da intolerância laicista e dos maus bofes.

São questões como: Por que sendo o Brasil um país católico, recebe tão pouca acolhida um filme como Homens e Deuses, sobre os mártires da Argélia (vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes em 2010)? Por que o incrível pontificado de Bento XVI recebe tão pífia cobertura jornalística? Por que todo mundo se abstém de carne na Sexta-feira Santa mas quebra o jejum prescrito com um lauto banquete de bacalhau?

Sábado à noite, quando a cabeça já não funcionava direito, veio-me à cabeça uma resposta que tentarei transcrever abaixo. Acho que o amigo que me ouvia (conhecido de outras postagens) ficou satisfeito e espero que lhe seja igualmente útil, independentemente do credo que você professe.

Três armadilhas

É óbvio que essa cristalização na ignorância provém de um longo processo cultural.

Em primeiro lugar, foram sendo acumulados sufocantes sedimentos ideológicos sobre a filosofia cristã, que é nossa matriz cultural originária, estabelecida em solo brasileiro pelos jesuítas. Tais ideologias foram o cientificismo materialista da reforma de Pombal, o liberalismo do século XIX, o materialismo evolucionista da Escola do Recife e o positivismo.

Ainda se poderia acrescentar, em período mais recente, o câncer deletério de Teilhard de Chardin e do marxismo, que afetou a própria teologia.

Em segundo lugar, no batalhão de intelectuais brasileiros (médicos, advogados e assemelhados com nível superior) encontram-se poucas inteligências. Por isso, nossos atuais “clerks” (“clérigos”, letrados, homens de escol, elite acadêmica) não passam de eternos estudantes especializados em investigações sem resposta. Muitos dos assim chamados pensadores brasileiros são meros repetidores enfadonhos de ideias importadas.

Em último lugar, crescemos achando que aprendizado é treino, que ter dúvidas é feio e que estudar é chato. O mapa da ignorância superior brasileira é proporcional às dimensões do país. Para dizer que o Brasil tem problema de memória, é preciso afirmar que antes tenha tentado decorar alguma coisa.

Solução de longo prazo

Para séculos de secularização e engodos filosóficos, serão necessárias algumas gerações aplicadas à reformulação intelectual do país. Esse será um projeto de longo prazo.

Virtude aplicável? Longanimidade. Para longos projetos, início imediato!

Solução de médio prazo

A renovação do quadro docente não se faz da noite para o dia. Enquanto não se formam novos professores desintoxicados, o campo continuará a ser arado pelos bois que leram Marcuse, Jacques Derrida, Nietzsche, Foucault, Simone de Beauvoir, etc.

Enquanto isso, resta-nos obstaculizar democraticamente os projetos nascidos dos juristas (mormente gaúchos) deformados pelo direito criativo aprendido na faculdade.

Solução de curto prazo

Estudar. Estudar. Estudar.

Não há outra fórmula para libertar-se da paralisia intelectual. Questão de tempo, questão de dedicação, questão de prioridade.

*****

E a você? Que temas o espicaçam? O que você tem estudado?

24 de fev. de 2012

Choque de qualidade ou choque de ordem?

A Prefeitura do Rio de Janeiro adora essa história de choque de ordem. É choque de ordem na orla, nos bairros, nas ruas, nos estacionamentos, no banheiro, no carnaval…

Muito já se falou também que o Brasil precisa de um choque de gestão. Um chacoalhão administrativo, desburocratizante, moralizante.

Que seja. No entanto, talvez o que mais seja necessário é um choque de qualidade. Pensemos nessa picaretagem de muitas faculdades de humanas e inclusive de exatas, em que os professores começam a aula mais tarde porque os alunos sempre chegam atrasados. De que adiantaria obrigá-los a chegar na hora se a aula for aquela enrolação de sempre?

Mais eficaz seria um choque de qualidade nas aulas. Bons professores não precisam exigir pontualidade, pois sua qualidade se encarrega de fazer os alunos deixarem o bar mais cedo.

Ordem não traz progresso; ordem traz tranquilidade. A Suíça organizada é exemplo para a confecção de relógios cuco e chocolates, enquanto a Itália bagunçada é exemplo de cultura, arte e criatividade.

Por isso, em vez de “Ordem e Progresso”, nosso moto deveria ser “Qualidade e Progresso”, o que traria a vantagem adicional de sacudir o jugo intelectual do positivismo que tanta miopia conferiu ao país.

Organizar a pouca vergonha nacional equivale a uma mulher safada comer cosmético numa tentativa desesperada de se tornar bonita por dentro.

23 de jan. de 2012

Licitação amorosa

Com oito demônios

Para quem não sabe, a mal afamada Lei 8.666/1.993 determina as modalidades de licitação. Seus meandros são tema recorrente em concursos públicos, assim como em críticas de bar ao Tribunal de Contas quando os juízes resolvem embargar projetos importantes para a nação em nome da lisura dos gastos.

Seu número faz jus à fama: 8 666. Como se oito diabinhos viessem atazanar os que tentam usar os recursos públicos de forma rápida e eficiente.

Será que o que vale para o dinheiro também vale para o amor? Alerto que o que segue abaixo é uma abordagem feita desde uma perspectiva masculina.

Inexigibilidade amorosa

Três coisas dispensam licitação: aquisição de produtor exclusivo, serviços técnicos de natureza singular, contratação de artista consagrado.

Amplie para ver um resumo das modalidades de licitação
Do mesmo modo, não é preciso licitar mulheres quando são a única disponível, uma cozinheira de mão cheia ou uma exímia dona de casa.

Modalidade: concorrência

É a licitação amorosa que se faz entre quaisquer interessadas, com requisitos mínimos de qualificação, possuidoras de dote milionário.

Modalidade: tomada de preço

É a licitação amorosa que se faz entre quaisquer interessadas cadastradas na lista de amigas, com requisitos mínimos de qualificação, possuidoras de dote parrudo.

Modalidade: convite

É a licitação amorosa que se faz entre no mínimo três interessadas cadastradas na lista de amigas, especializadas no ramo pertinente (faxina, comida, etc.), possuidoras de dote mixa.

Modalidade: concurso

É a licitação amorosa que se faz entre quaisquer interessadas, oferecendo prêmios e presentes, conforme critérios avisados com 45 dias de antecedência.

Modalidade: leilão

É a licitação amorosa que se faz entre quaisquer interessadas oferecendo-lhes a aquisição, por maior lance, de nossas características penhoradas, inservíveis ou cristalizadas.

Modalidade: pregão

Essa modalidade de licitação foi acrescentada pela Lei 10.520/2.002. O pregão amoroso seria a licitação de nossas características a lances sucessivos de menor valor às habilitadas em etapa prévia competitiva. Pode ser presencial (numa festa, por exemplo) ou eletrônico (pela Internet).

18 de jan. de 2012

Leopoldina é que era mulher de verdade

A leitura das cartas da Imperatriz Leopoldina me fez saber de forma mais significativa que os príncipes eram preparados para o Estado mediante uma educação tão esmerada que faz parecer nossas melhores escolas uma brincadeira de criança.

Com efeito, a futura Imperatriz brasileira, da casa dos Habsburgos, aprendeu enquanto jovem as lides do campo e da pecuária, foi treinada para vencer a timidez através da oratória e da dramaturgia, capacitou-se para a diplomacia mediante o estudo de diversas línguas, compreendeu a importância das artes e das ciências pelo contato direto com seus métodos, etc.

Ao casar-se com Dom Pedro I, Leopoldina ressentiu-se da inferioridade da educação na corte portuguesa, agravada pela precariedade que supôs a vinda ao Brasil. Além disso, penou com a artificialidade que os lusos revestiam inclusive a piedade e a liturgia.

O fim da monarquia trouxe consigo o rechaço pela pompa. Mas não parou na repulsa à ostentação: seguiu-se uma gradativa diminuição do requinte, do esmero, da delicadeza, do tom.

Sem dúvida, a simploriedade, a pressa e a informalidade tornaram-se as indesejáveis companheiras das liberdades modernas.

8 de abr. de 2011

Fronteira, de Tasso da Silveira


Há o silêncio das estradas
e o silêncio das estrelas
e um canto de ave, tão branco,
tão branco, que se diria
também ser puro silêncio.
Não vem mensagem do vento,
nem ressonâncias longínquas
de passos passando em vão.
Há um porto de águas paradas
e um barco tão solitário,
que se esqueceu de existir.
Há uma lembrança do mundo
mas tão distante e suspensa…

Há uma saudade da vida
porém tão perdida e vaga,
e há a espera, a infinita espera,
a espera quase presença
da mão de puro mistério
que tomará minha mão
e me levará sonhando
para além deste silêncio,
para além desta aflição.

Tasso da Silveira

1 de nov. de 2010

Perdemos outra Copa


A vitória da Dama de Ferro reabriu em meu coração velhas feridas por minha nação. Foi como perder outra Copa. Brasil, mostra tua cara: mostrou sim. Mostrou aquilo que eu teimava em não ver: um câncer de longa data, um vírus metido na alma do povo.

Pessimismo? Não diria tanto. Afinal, o futuro a Deus pertence, os homens põem e Deus dispõe. Todos somos de algum modo fantoches. Ainda que, segundo minha apreciação, os indícios sejam péssimos com relação à moralidade do novo governo, também este estará nas mãos da Providência. Além disso, peronismo e chavismo não combinam com o Brasil.

Pessoas que trabalham intensamente, mas cujo pensamento é da pior categoria; excelentes articuladores políticos, mas cujo custo operacional implica a sangria desonesta dos cofres públicos; gente empenhada em questões sociais, mas de cuja agenda fazem parte torpes propostas; partido que se diz aberto ao diálogo, mas que tergiversa.

A vergonha de um presidente que não sabe falar prosseguirá por mais quatro anos. O medo de uma marionete manipulada é acrescentado. A certeza da corrupção dos três poderes se consolida.

Prezo a vida: a presidente é abortista. Prezo a família: a presidente é um antiexemplo. Prezo a razão: a presidente é voluntarista. Prezo a liberdade religiosa: a presidente é marxista. Prezo a verdade: a presidente é oportunista. Pura política divorciada da moral.

Por outro lado, parte disso foi plantado e regado por elementos da Igreja do Brasil; e agora o temos de colher. Historicamente, sempre que princípios pretensamente religiosos se cristalizaram em política, causaram tristes danos à sociedade.

Encaro esta onda brasil, cor de fogo e de sangue, como uma enchete. Por isso, espero se cumpra na Terra da Santa Cruz o vaticínio que o protagonista do filme O retorno de Don Camillo faz para sua cidade assolada pelo estouro da barragem:

Fratelli!
Non è la prima volta
che il fiume invade le nostre case.
Un giorno però le acque si ritireranno…
…ed il Sole ritornerà
a splendere.
Allora ci ricorderemo
della fratellanza…
…che ci ha unito
in queste ore terribili…
…e con la tenacia che Dio ci ha
dato ricominceremo a lottare…
…perché il Sole
sia più splendente…
…perché i fiori
siano più belli…
…e perché la miseria sparisca
dalle nostre città e villaggi.
Dimenticheremo le discordie…
…e quando avremo voglia di morte
cercheremo di sorridere…
…così tutto sarà più facile…
…e il nostro paese diventerà
un piccolo paradiso in Terra.
Andate, fratelli.
Io rimango qui
per salutare il primo sole…
…e portare a voi lontani,
con la voce delle vostre campane…
…il lieto annuncio
del risveglio.
Che Iddio vi accompagni.
E così sia.

*****

Já rezei uma ave-maria pela nova presidente.

26 de out. de 2010

Felicidade sem vergonha

Em carinha que mamãe beijou ninguém bate!

Isso dizia o condutor do ônibus para o motorista que o desafiava após uma fechada involuntária. “Eu te quebro a cara!” — Que nada, relaxe, não estou a fim de brigar. Quem tem as costas quentes e um amor em casa, é refratário aos desaforos.

Santa desvergonha

Não é questão de extroversão, entusiasmo, técnica propagandística, desfaçatez ou maus modos. É audácia amorosa que confessa seu amor a qualquer um. Sem tal franqueza não se passa de um falso cujas amabilidades são disfarce de torpes grosserias.

Sem pedir licença

— Vida mansa, hein?

— Não posso curtir só porque você está com inveja?

Não existe medo em quem faz o melhor

Quem age bem chega a ser bobo de tão ingênuo. Perde o medo porque confia. Prefere confiar em todos (e ser enganado por alguns) do que duvidar de todos (e se tornar solitário).

Orgulho de estirpe

Protagonismo só é orgulho quando atropela os outros. Além disso, a nobreza obriga.

A melhor banca é ser cara-de-pau

Com verniz facial, até um tolo é rei. A melhor credencial é a coragem; o melhor currículo é uma declaração de intenções, não uma coleção de feitos.

Brasileiro, diminutivos e alma grande

Ai, Brasil, terra vasta e continental, que ama os diminutivozinhos e torna pusilânimes almas que poderiam encher o mundo…

Kantianismo e hedonismo

O mundo vomita o kantianismo com a pílula do hedonismo. Felicidade não é prazer. Prazer não é pecado. Pecado não é felicidade.

***
O Mestre disse: “Aprender algo e colocá-lo em prática no momento certo: não é uma alegria? Receber amigos que vêm de longe: não é um prazer? Não ficar transtornado quando os próprios méritos são ignorados: não é isso a marca distintiva de um cavalheiro?
(Analectos de Confúcio, 1:1).

8 de set. de 2010

Três dilemas brasileiros

Ontem, 7 de setembro, assisti à Missa pela Pátria.

Fiquei comovido quando, na oração coleta, foram pedidos a Deus sabedoria para os governantes e honestidade para o povo. Mais uma demonstração de que tudo o que a Igreja faz e pensa está na contramão da mentalidade vigente.

Tais palavras me  impressionaram pela inteligência e penetração. Fizeram-me pensar três coisas:

Verdade ou mentira

Esperamos que os políticos sejam honestos e achamos que o povo é sábio para escolhê-los. Balela. Estamos cercados de espertinhos e estupidamente aceitamos péssimos representantes.

Um colega de trabalho chegou a dizer que sente pena de o Roberto Jefferson não ser candidato, pois apesar de ladrão, é honesto. Ou seja, ainda que roube, não mente.

É um fato: o desamor à verdade impera entre os cara-de-paus. Ao anti-intelectualismo, segue-se a retórica do sentimento.

Política ou ética

Fazer política da ética é fazer um julgamento político, por exemplo. Em vez de avaliar conforme princípios, avalia-se por conveniências.

Fazer ética da política é impor visões “politicamente corretas” ou justificar finalidades escusas por razões ideológicas.

Com base nessa inversão, agora os tribunais inocentam graves desvios de conduta por verem neles “ideais políticos” (vide a baixaria do PSOL).

— Posso pegar a sua mulher, por uma razão política?

Moralidade ou estabilidade

Alguns justificam o fato de o presidente não ter sofrido impeachment nem os seus correligionários severas punições porque isso afetaria a estabilidade (leia-se econômica) do país.

Ora, o que é mais importante? A moralidade pública ou a estabilidade? Pode uma casa ficar de pé com alicerces apodrecidos?

20 de jul. de 2010

Santos incômodos

Politicamente incorreto

Perdi as estribeiras, furei as algibeiras, calei as carpideiras. Sinceramente? Estou pouco me lixando. Adoro ser politicamente incorreto.

Farei aqui uma lista de Santos. Dos incômodos Santos que podem causar um santo incômodo para essa sociedadezinha hipócrita que se diz liberal e amoral, mas que aponta o dedo em riste na cara dos convictos — porque o único crime vigente é não ser relativista.

Nuvem de testemunhas

Carlos Lwanga e companheiros mártires (†1886): foram queimados vivos, após horríveis torturas, porque se negaram a praticar pederastia a mando do torpe rei de Uganda. Aparecem num interessante filme/livro de Frank Cottrell Boyce, dirigido por Danny Boyle, sobre um assalto a banco, chamado Caiu do Céu (título original: Millions).

Acho que não é preciso dizer que intenções lhe recomendo.

Bem-aventurados protomártires brasileiros André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, sacerdotes, e Mateus Moreira e outros 27 leigos, seus companheiros (†1645): cruelmente assassinados pelos calvinistas, soldados holandeses e indígenas coligados no Rio Grande do Norte, que lhes arrancaram o coração pelas costas durante a celebração da Santa Missa.

Recomendo-lhes uma maior coerência religiosa dos brasileiros, que vá de braços dados com o autêntico diálogo ecumênico.

São Pedro de Alcântara (†1562): padroeiro do Império Brasileiro, foi esquecido como patrono da nação. A catedral de Petrópolis é a ele dedicada, assim como um altar lateral da velha Capela Real, atual igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, no Centro da Capital fluminense. O místico castelhano era tão penitente que, ao andar, se podia ouvir o tilintar dos seus cilícios. Tendo-se proposto por anos não olhar o rosto de nenhuma mulher, já tanto lhe faziam as divas e beldades. Comia um naco de pão a cada três dias e dormia somente uma hora por noite (mesmo assim, sentado, com a cabeça apoiada numa tora de madeira).

Recomendo a ele a reconstrução da alma nacional: menos ócio e mulata pelada, mais trabalho e justiça social. — Ah! E que seja incluído de volta no nosso calendário litúrgico!

Bem-aventurado José de Anchieta, Apóstolo do Brasil (†1579): fundou a cidade de São Paulo, fez a primeira gramática em língua indígena, converteu inúmeros índios.

Recomendo-lhe os povos indígenas, a fim de que se vejam livres dos estrangeiros, das ONGs e ideologias. Também lhe peço pelos professores de história, a fim de que se libertem do ranço marxista. — E espero que os brasileiros se esforcem mais por sua canonização.

Bem-aventurado Pedro Jorge Frassati (†1925): alpinista, fumante, filho de um ateu, fundador do jornal italiano maçon e anticatólico La Stampa. Desprezado pela família porque era de Missa diária, surpreendeu os pais e a high society de Turim quando, por ocasião da morte prematura, seu féretro foi seguido por uma multidão de pobres que tinham sido beneficiados por sua caridade.

Recomendo a ele essa rapazeada sarada que fuma maconha mas é contra o cigarro, que faz esporte mas não reza, que gasta dinheiro nas noitadas mas não dá esmola, que comunga mas não se confessa.

São Thomas More (†1535): humanista, estadista, autor de Utopia, chanceler do reino inglês sob Henrique VIII. O monarca queria que seu casamento fosse declarado nulo por Roma, a fim de se casar com a amante. Ao se autoproclamar cabeça da Igreja na Inglaterra, Henrique VIII foi arrancando dos ombros alheios outras ilustres cabeças, entre elas a da própria amante, feita rainha, Ana Bolena. Thomas More tinha sido o primeiro decapitado, pois se negara a endossar o cisma perpetrado pelo reizete.

Recomendo-lhe o fim do cisma anglicano, assim como o amor à verdade e a probidade administrativa dos nossos governantes.

Uma lista enorme

O elenco poderia ser ampliado indefinidamente. Na verdade, qualquer Santo poderia ser citado, pois todos foram pedra de tropeço para seus contemporâneos, na medida em que estavam à frente do seu tempo.

Suas qualidades, inatas e adquiridas, são parecidas e dessemelhantes: todos se configuraram a Cristo sem, contudo, se constituírem cópias em série. Antes, suas peculiaridades foram realçadas, produzindo personalidades de grande envergadura, simpáticas e amáveis, cujos traços postos em relevo são estímulo para os imitarmos.

*****

Deixe eu lhe perguntar: quais são seus modelos preferidos?

1 de jul. de 2010

Memórias de Niterói


Tributo da memória. Pois fiz meu curso de arquitetura nessas paragens.

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Conhecidas primitivamente como Barreiras Vermelhas, as terras que hoje compõem em Niterói os bairros de São Domingos, Gragoatá e Boa Viagem pertenciam à sesmaria concedida em 1568 ao índio Arariboia e couberam a uma de suas herdeiras, Violante Soares de Souza. Casou-se com esta Domingos Araújo, que se fez fazendeiro na região e ergueu em 1652 a capela de São Domingos de Gusmão no núcleo original do povoado. Em 1898 a antiga capela foi demolida para a construção da atual igreja de São Domingos, inaugurada em 1901 (projeto do arquiteto Bianor de Mendonça).

A importância histórica da área advém do fato de que a ponta de São Domingos era considerada na época de exploração um local muito seguro para desembarque de pessoas vindas do Rio de Janeiro. Como núcleo populacional, as primeiras notícias em registros históricos datam de 1779. Informam da corrida de população à área, tendo sido erguidos vários edifícios notáveis para habitação de numerosas famílias.

O desenvolvimento de São Domingos data de 1816, quando D. João VI se alojou em Niterói, de luto pela morte de sua mãe, D.ª Maria I. Tomás Soares de Andrade lhe ofereceu um elegante palacete para residir.

Os aglomerados do outro lado da baía de Guanabara eram então São Domingos e Praia Grande. Este último foi escolhido como sede por ocasião da elevação dos povoados à categoria de Vila Real da Praia Grande, mais tarde denominada Imperial Cidade de Nictheroy.

São Domingos, por não ter sido escolhido para sediar a Vila, em razão da exiguidade da área, perdeu momentaneamente a importância. O surto de crescimento urbano direcionou-se principalmente para o bairro de São João Batista de Icaraí. Mas em 1821, com o Plano Pallière, e em 1841, com o Plano Cidade Nova, algumas modificações e melhoramentos destacaram São Domingos como um aprazível recanto da nova capital da Província do Rio de Janeiro.

Nesse bairro moraram ilustres personalidades brasileiras, com destaque para: Caetano de Miranda Montenegro, Visconde da Vila Real da Praia Grande (1817); José Bonifácio de Andrade e Silva, Patriarca da Independência (foi para São Domingos após o seu exílio em Paquetá e lá faleceu em 1838); o grande pregador sacro, frei Francisco de Montalverne (1857); o pintor Ângelo Agostini (1888).

Além deles, Carlos Gomes frequentava assiduamente São Domingos, especialmente a residência do embaixador Salvador Mendonça; e também Antônio Parreiras, grande pintor brasileiro, cujas obras receberam inspiração das paisagens de São Domingos, Gragoatá e Boa Viagem.

18 de mar. de 2010

Notícias de um blog

Imagem de http://www.weno.com.br/blog/

Triste notícia: reabriu a clínica da rua Dona Mariana

Não teria havido flagrante quando da batida policial. Como se não houvesse indícios. (O túnel de fuga deve ser um encanamento da NET.)
Alguns dos que agora me leem só encontraram este blog porque procuraram por aborto no Google. Outro indício.
Saia dessa, mas não pelo túnel, que ele não tem saída.
Vi um homem saindo de lá pela porta da frente, com um enorme saco preto na mão e a alma no chão.

O bingo da rua Dona Mariana continua funcionando a todo vapor

Com vizinhos assim, eu mesmo poderei ser preso por engano se não pagar arrego.

A ditadura do desejo prossegue no governo

Sendo o que há de mais volúvel, é de admirar tamanha permanência.
Tudo é questão de saber comprar o voto.

Alerta a Jason Bourne

Para ser católico faz falta ser catequizado pelo Olavo de Carvalho.
Seu curriculo o avaliza: pretenso assessor do Papa, censor do Vaticano II, modelo de caridade pastoral.

Lugar para (quase) todas as opções intelectuais

O relativismo pós-moderno nivela com desempenadeira todas as cabeças: Dawkins, Obama, Hilary, Silas Malafaia. A do Papa está a prêmio.

De #TGIF a #MusicOnMonday

A isto se chama weekend ou servilismo idiomático?
Contracultura é inverter: Thanks Gosh It’s Monday e Music on Friday. A atitude diante do trabalho transforma seu rendimento.

Buraco na Lagoa quebra cubo da bicicleta

Em vez de a Prefeitura do Rio ficar mudando a cor das lixeiras, garis, caminhões, uniformes escolares, placas, etc., para azul, a fim de apagar a memória abóbora do prefeito anterior, invista esse dinheiro nas ciclovias.
Quem paga o cubo da bicicleta que peguei emprestada?

Sérgio Cabral faz sucesso no teatro.

Assista à peça Não adianta chorar pelo petróleo derramado.

Uma ética Global para homens-massa

A neutralidade Global consiste em dedicar vários minutos do seu noticiário a um bloco policial ou sobre saúde, mas citar por apenas alguns segundos graves questões políticas nacionais.
Informar assim gera uma massa de pessoas sem opinião.
É preciso resgatar a cultura do debate em nosso país. Parece que, para o brasileiro, debate equivale a altercação! Seria bom aprender o velho estilo socrático ou o escolástico de disputa: antes de emitir minha opinião, reproduzo a sua com as minhas palavras e lhe pergunto se a expressei bem. Só então poderei lhe expor minha visão da questão, de forma racional e desapaixonada.

14 de jan. de 2010

BBB10, o Haiti e o PNDH

Diante das últimas notícias, fui forçado a abandonar minha pauta pessoal e autista para este blog e externar minha percepção a respeito das últimas três novidades.


Tudo começou quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou, no último dia 21 de dezembro, o Programa Nacional de Direitos Humanos.


Na ocasião e ainda agora, recebi um monte de mensagens de amigos sugerindo que façamos pressão para o governo desistir de impor sua ideologia relativa à bioética.


Confesso que sou reativo para algumas coisas, mas para outras não. Esse assunto enquadra-se para mim no segundo grupo, pois tenho tido menos confiança na nossa capacidade de negociação com os que estão no poder: falam muito de debate, mas fazem o que lhes interessa.


O Programa Nacional de Direitos Humanos é uma artimanha: propõe revisar tudo para que, mesmo havendo chiadeira de todos os lados, algo passe. Naturalmente, quem mais grita são as Forças Armadas e a Imprensa. Mas quem clamará pela família, pelo nascituro?


Direitos humanos: que significa a expressão hoje? Dependendo da antropologia subentendida, direitos diferentes para homens diferentes, em geral direito dos mais fortes, que pontificam a próprio favor, sobre os mais fracos.


Na cultura relativista em que vivemos, uma Comissão de Verdade (um grupo supostamente suprapartidário) faria uma devassa do nosso verdadeiro passado? Não seria mais razoável negociar com os militares a abertura de arquivos em vez de colocar o tema da anistia nesse saco de gatos? 


Falando em Direitos humanos, recebemos a triste notícia de que Zilda Arns morreu tragicamente no Haiti. Uma mulher que trabalhou pela dignidade humana, foi morta na catástrofe que varreu um país que já estava abandonado ao que há de mais vil no homem.


Em paralelo, BBB. É claro que não há um problema intrínseco, especialmente grave, em ficar assistindo (ou mesmo participando) de um programa do estilo do Big Brother. Mas eu me pergunto: isso faz sentido?


Qual é o modelo de homem, qual é a antropologia proposta nesse exibicionismo que fomenta o voyeurismo? Quais serão os direitos desse homem sem intimidade, sem interioridade? A fama?


Conquista da fama para uns, construção da verdade para outros. O que será mais artificial?


Afinal, o que é o homem?


Ruínas. Miséria. Orfandade. Violência. Corrupção. Ódio.


Amor. Generosidade. Acolhimento. Compreensão. Serviço. Caridade.


Os ortopráticos se fazem teóricos. Os levianos, ídolos. Os que amam, santos.


Afinal: o que deve ser o homem? Um retórico, um ícone, ou um santo?

12 de jan. de 2010

Três possibilidades e três riscos do Brasil


1) O Brasil teve um processo civilizatório bem sucedido de miscigenação que estão anulando com o ambientalismo e o indigenismo. É o único país com reservas para seres humanos (por aí as criam para elefantes, ursos, girafas e rinocerontes). Este relativismo antropológico, ao criar um novo falso homem, mantém o colonialismo.

2) O Brasil tem pendor pela inovação, em 50 anos fez a industrialização, detém todo o ciclo do urânio e reservas, e agora o pré-sal. Mas não se busca uma nova eletrificação. Lembra o que acontece quando falta luz no foundy e só sobrou um queijinho?

3) O Brasil tem a maior área de expansão agroalimentar do planeta, mas não rompemos os cartéis alimentares e toleramos os malucos do Greenpeace.

Sem dúvida, há outras possibilidades e riscos. Quais você elencaria?

25 de set. de 2009

Análise pseudo-hegeliana do PT

1. Formação inicial do PT


TESE. Sindicalismo emergente no ABC paulista, que resistiu a participar de um partido, pois se pretendia corporativista e essencialmente antipolítico.

ANTÍTESE. Setores progressistas da Igreja Católica, reunidos nas chamadas Comunidades Eclesiais de Base.

SÍNTESE. Egressos da luta armada ou das tendências que haviam rompido, pela esquerda, com o PCB, todas refratárias à democracia “burguesa”.

• A ideia conjunta seria tolerar a democracia para depois superá‑la.

2. Negação das mediações


TESE. Contra as mediações conceituais que justificam o trabalho e a existência dos intelectuais.

ANTÍTESE. Contra a mediação didática que pressupõe a existência de dois polos: emissor (professor) e receptor (aluno).

SÍNTESE. Contra a mediação político‑representativa, que justifica a existência de instituições democráticas, partidos e políticos, repousados no princípio da soberania popular.

• O conhecimento viria da imersão na experiência, cujo saber não se ensina, apenas se pode testemunhar. Daí que a única pedagogia não-autoritária seria a troca. Daí que a farsa burguesa da democracia representativa devesse ser substituída pela mobilização popular.

3. Metafísica da convicção


TESE. Anti-intelectualismo e glorificação da vontade.

ANTÍTESE. Retórica do sentimento.

SÍNTESE. Capitulação, destino de todo dogmatismo.

• A hipertrofia da ética da convicção suplanta a ética da responsabilidade.

*****

Política exige pensamento, educação e apreço pelas instituições democráticas.

Ética de ocasião, utilitarismo e o lema “os fins justificam os meios” não são exclusividade do PT. Mas como o partido não iria cair nessa agenda com uma formação originária tal qual a acima descrita?

2 de set. de 2009

Ainda existe a família brasileira?

Numa revista em quadrinhos do início dos anos 80, li uma tirinha que vem bem a propósito para o que eu gostaria de falar hoje.

Era Natal, e as crianças mostravam umas às outras os presentes que tinham ganhado.

As meninas, todas vaidosas, exibiam suas bonecas: umas choravam, outras pediam mamá; umas mexiam os bracinhos, outras cantavam.

Aí aparecia a Luluzinha com uma boneca que não fazia nada: nem balançava a cabeça, nem emitia sons. Era uma boneca que não fazia nada.

Nada?!? Coisa incrível! Uma das garotas concluía com uma tirada: “Que mais vão inventar neste mundo, meu Deus? Uma boneca que não faz nada!…”


Falar de “família brasileira” é como falar de uma boneca que não faz nada.

Família: homem e mulher, filhos. Sem essa conversa de homem com homem ou mulher com mulher, ou mesmo outras armações ilimitadas.

Família molécula: com filhos, no PLURAL. Sem essa estrutura de átomo de hidrogênio: próton (às vezes sem nêutron, outras com dois ou três) e um único elétron.

Já foram liberados o divórcio e o concubinato. Houve pareceres favoráveis à adoção de crianças por pessoas homossexuais. A tendência parece ser o reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Daqui a pouco vão propor a poligamia e a poliandria. (Quem não gostaria de ter um harém? Só que deve ser um pouco caro…)

Todo este assunto é muito curioso. Bastante gente que se casa, não o quer fazer de papel passado; mas os homossexuais querem ter tudo assinado. É um sintoma do positivismo jurídico de que padecemos: os que veem nesses trâmites legais algo vazio, desprezam a formalidade; os que reconhecem neles uma oportunidade de afirmação social, defendem a regulamentação com unhas e dentes.

Proponho relançar o projeto da família para o Brasil. Matrimônio monogâmico e INDISSOLÚVEL. Casar sem direito ao divórcio. Já pensou? Gostaria de ver como seria na hora H:

— Vamos nos casar? — diz o noivo para sua pomba.

— Que lindo! Claro que vamos! Mas sob que modelo? — indaga a pretendida.

— Aquele que nos der mais liberdade! Vai saber como será o futuro — contesta o pretendente.

— Mas o que é isso? Você não gosta de mim, então? Eu só caso com você se for de verdade. Os outros casamentos do Código Civil são todos de mentirinha…

Acho que seria muito bom assim. Afinal, por que todas as formas liberais devem ser reconhecidas pela moda, mas o modelo tradicional não pode ser nem mencionado?

O Brasil precisa de projetos nacionais. Um deles, na minha opinião, é o projeto de família. Infelizmente, o único projeto neste campo tem sido: Cada um faça o que quiser: para isso, o Executivo distribui preservativos, o Legislativo legaliza as últimas invenções e o Supremo interpreta do seu jeito e alarga as concessões, se o Legislativo não tiver liberado.

PROJETO FAMÍLIA EM CINCO TÓPICOS:

1. Saber explicar porque casar é diferente de morar junto. A festa de casamento e o sim irrevogável significam: casei para te amar. É importante resgatar o sentido disto, pois é uma questão de linguagem. Quem desconhece o idioma do amor será incapaz de entender.

2. Recuperar três valores do casamento: a firmeza do vínculo conjugal, o rechaço social das aventuras amorosas e a superação da mentalidade antinatalista. Esses valores são atualmente combatidos e estão na origem do desprestígio da instituição matrimonial. Para que casar se as ações da Private valem mais?

3. Distinguir amor oblativo de prazer a dois, reconhecendo a primazia do agape sobre o eros. Amor é doação, sacrifício, entrega. O casamento não depende só da “performance”, como se houvesse um bando de jurados dando nota para o desempenho ao lado do leito conjugal.

4. Conhecer as pessoas ao invés de experimentá-las. Não somos cavalos, computadores, carros ou bicicletas. Muitos namorados têm dificuldade para observar o comportamento do companheiro nos diversos âmbitos da vida, a fim de averiguar se é a pessoa adequada com quem se casar. Contudo, frequentemente optam por relacionamentos íntimos — considerados uma experiência necessária — cheios de obsessão, angústia, insegurança, receios, temores e suspeitas, envenenando a vida em comum.

5. Encarar os filhos como um dom. É preciso reaprender a ganhar presentes. E ainda mais este, que é tão grande.

Minha ideia não é indispor ou contrapor. Minha ideia é PROPOR. Topa o projeto quem quiser. Não quer? Fique à vontade, mas você não sabe o quê e o quanto está perdendo.

Se essa família ainda existe, eu não sei. Eu sei é o que eu quero para mim e para os que me são caros.

Uma boneca que não faz nada? O que mais vão inventar neste mundo, meu Deus?…

Alguma outra sugestão para este projeto?
Você já pensou neste projeto para a sua vida?
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