12 de dez de 2011

Sabedoria mórbida

O conhecimento é um valor que todos desejam, ainda que alguns o dissimulem: quando aprendemos algo novo logo vamos contar aos amigos e queremos que eles participem da nossa descoberta.

Já a curiosidade é o desvio dessa tendência: ao invés de nos fixarmos no que é importante, deixamos de lado os nossos deveres e gastamos tempo com futilidades (por exemplo, trocar a verdadeira cultura dos livros e da arte por um verniz diário de videoshow).

A curiosidade é sinal de total esterilidade e desenraizamento, de incapacidade de habitar em si próprio. É a fuga de si, pelo tédio da aridez interior. É trilhar caminhos baldados num angustioso egoísmo, em vez de aceitar o sacrifício. Heidegger qualifica-a como ficção de vida intensamente vivida.

1. Se a curiosidade entra na vida alheia, dá-se pasto à maledicência, calúnia, bajulação, adulação, complacência, jactância, ironia, mentira, violação de segredos, juízo temerário, falso testemunho, perjúrio. Ou seja, uma turminha da pesada.

2. Se a curiosidade entra na vida religiosa, recorre‑se à magia, ao ocultismo, ao esoterismo, ao fantástico. Não se deve perder de vista que temas como “4.º Segredo de Fátima”, interpretações atuais do Apocalipse, “profecias de Nostradamus”, parapsicologia, “brincadeira do copo”, horóscopo, método Silva de Controle Mental, autoajuda através da Bíblia, etc., além de estarem bem próximos à heresia, em nada ajudam a piedade e alienam pessoas crédulas.

Um saldo positivo da curiosidade pode ser a erudição. A sabedoria, contudo, exige ir além, mediante dois passos ulteriores: a instrução e a cultura.

Instrução é saber sistematizado, coerentemente estruturado. A insuficiência da instrução como remédio da curiosidade fica comprovada quando a descrição da realidade produz um sistema fechado e inservível, que apenas gera contraste de opiniões sem nunca conduzir à verdade. Caso típico das ideologias.

Cultura é saber assimilado, pensamento sobre conhecimentos. As ideias próprias nascem quando chegamos às mesmas produtos de outros (conhecimentos adquiridos) através de nossos próprios processos (pensamento).

Portanto, para adquirir conhecimento, sistematizá-lo e assimilá-lo, precisamos percorrer esses três passos:

1. Lembrar: reter, colecionar, ampliar.

2. Pensar: considerar, discernir, aprofundar.

3. Estudar: duvidar, idealizar, solucionar.

Cada nível supõe o anterior. E, para chegar a tanto, é preciso aguçar a inteligência com ordem e aproveitamento do tempo.
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