17 de fev de 2010

Cinzas & jejum

O jejum — que na Antiguidade só tinha sentido religioso ou medicinal — tornou-se ambivalente. Temos hoje uma rica oferta:

JEJUM POLÍTICO: greve de fome para conseguir o que não se alcança com argumentos. Menos razão e mais pressão.

JEJUM IDEOLÓGICO: coisas como o vegetarianismo moderno, quer se baseie numa perspectiva kantiana da vida, quer plotiniana, quer em qualquer outro arrazoado semiesotérico. Total ausência de razão.

JEJUM ESTÉTICO: para manter a linha. Menos gula para alimentar a vaidade.

JEJUM DOENTIO: anorexia. Menos razão e mais loucura.

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Segundo a lei eclesiástica imposta a todos os católicos, Quarta-feira de Cinzas é dia de jejum (uma única refeição completa no dia) e abstinência de carne (no Brasil está autorizado trocar por qualquer outra penitência). Mas existem muitos outros jejuns em que podemos ser generosos, além do da comida e da bebida: o dos caprichos, gostos, apegos, curiosidade, Internet, etc.

Qual é o sentido disso? Estritamente religioso: conversão com relação a si mesmo, desprendimento, consciência da própria condição creatural, dar de esmola o que não consumimos.

Comporta risco de orgulho? Sem dúvida. Com base nesse risco, muitos aconselham a mitigar e até a  abandonar o jejum como recurso ascético. Mas qualquer obra boa comporta o risco de orgulhar-se. Não se deve deixar de fazer o bem por conta de riscos. Viver é arriscado. Jejue e retifique a intenção.

Comporta risco de hipocrisia? Não acredito: autenticidade significa ser autor da própria vida, não significa pôr para fora todas as “neuras” interiores. Na verdade, a penitência exterior já pressupõe o desejo de parecer bom; péssimo seria externar, sem o mínimo pudor, profundas desordens interiores: caras feias, ira, desânimos, orgulho, suscetibilidade, birras, preconceitos, caprichos, irreverências.

E você, do que precisa se abster?
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