19 de fev de 2010

Alerta aos “católicos oficiais”

Zelotipia da moderna cruzada
Vira e  mexe recebo e-mail “spam” de católicos praticantes, animados de bom espírito, os quais, a meu ver, canalizam seu zelo de forma imprópria.

Sempre dou uma vista d’olhos nessas mensagens antes de invariavelmente apagá-las sem encaminhar a ninguém.

Seu motivo é nobre: defender valores cristãos combatidos por qualquer controvérsia de momento. Pode ser o sensasionalismo da imprensa acerca de uma excomunhão que nem ocorreu, ou mais uma investida ideológica do governo tentando mudar os costumes da nação mediante o fórceps legislativo.

Contudo, não poucas vezes o alvo dessas correntes é a própria hierarquia, que se acusa de omissa, ou os documentos do Magistério autêntico da Igreja, que são taxados de insuficientes ou comprometidos com tendências menos ortodoxas.

Ser heraldo autoproclamado da verdade católica é algo bastante arriscado. E surte o efeito contrário do esperado.

A Igreja é um centro de diálogo, não um partido. A Igreja é um oceano com rica fauna marinha, não um tanque de um só cardume. E o mais importante: cabe aos leigos animar cristãmente o mundo, não à hierarquia.

O que eu quero dizer com isso tudo
Melhor do que reclamar de bispos que não endossaram tal ou qual comunicado contra certo abuso do governo — sabe-se lá o porquê: talvez estivessem viajando, ou alheios ao tema, ou simplesmente porque o mais importante é a maioria moral e não a numérica —, melhor do que reclamar deles é você mesmo se insurgir, valer-se dos recursos da nossa democracia participativa.

Reconheço que não é fácil, que as ouvidorias são surdas, a justiça morosa, a imprensa tendenciosa. Contudo, querer que a Igreja hierárquica assuma posições a toda hora é reduzir o catolicismo a um posicionamento ideológico.

Isso é muito anacrônico. É compreensivel que, na primeira metade do século XX, os Papas tenham incentivado a Ação Católica como braço secular substitutivo do Estado, então tornado liberal. Mas hoje os leigos devem praticar o que sempre lhes coube: atuar com liberdade e iniciativa na configuração cristã do mundo, em virtude de sua própria condição de cristãos e não por mandato de superiores. Tal atuação dos católicos, independente, atomizada e capilar, a modo de fermento, é do que hoje mais necessita a sociedade.

Sou contra o reconhecimento civil da união de homossexuais não por ser católico, mas só por ser homem. Sou contra o aborto provocado ou os experimentos com embriões não por ser católico, mas por conhecer genética e saber que o ovo (óvulo fecundado) tem os mesmos cromossomos humanos desde a sua concepção. Entretanto, os laicistas intolerantes pretendem convencer a Deus e o mundo de que as posturas a favor da vida, por exemplo, são de cunho religioso e não científico.

Esperar que os bispos sempre se manifestem publicamente sobre esses assuntos inegociáveis, que volta e meia vêm à baila enquanto temas muito mais importantes são esquecidos, equivaleria a concordar com os laicistas e trabalhar a seu favor. O clericalismo é um grande mal que sempre surte o efeito contrário do desejado.

A este tema voltarei. [Voltei aqui e aqui.]
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