20 de fev de 2010

A ditadura do desejo

O menos é mais

Na parede exterior do templo de Apolo, em Delfos, ao lado do famoso lema γνῶθι σεαυτόν (“conhece-te a ti mesmo”), também vai estampada a expressão μηδὲν ἄγαν (“nada em excesso”). Tal princípio condensava o ideal estético, ético e religioso clássico. Era como um complemento necessário da condenação da ὕϐρις (“arrogância, imprudência, destempero”).

A ética aristotélica foi máxima expressão desse critério. Tendo chegado ao Ocidente medieval e renascentista, tornou-se referência para nossos hábitos e atitudes. A virtude está no meio, isto é, harmoniza os extremos (defeito ou excesso): por exemplo, a generosidade esta entre a avareza e a prodigalidade. Esse equilíbrio, contudo, não é fácil de alcançar, não se reduz a uma média aritmética, nem deve espartilhar a liberdade humana com cálculos.

O ideal da moderação obviamente não impediu que o real comportamento das pessoas caísse em excessos de todo tipo. Autorizados publicamente na Antiguidade em festas como as Bacanálias e as Saturnais, temos de reconhecer que o monopólio do excesso não é nosso. Quando muito, nossa diferença é que tendemos a praticá-lo todos os dias do ano.

Comida, sexo e violência

Talvez o grande desenvolvimento econômico do Ocidente tenha feito um rombo no dispositivo de inibição de expectativas das sociedades tradicionais. Antigamente, a hierarquia social se justificava mais facilmente e as privações da vida se aceitavam numa perspectiva religiosa de recompensa após a morte. Hoje, a mola comprimida da “satisfação” pode saltar diante da abundância; a composição e a orientação das necessidades foram ampliados; o consumo tornou-se conquista de uma vida menos ordinária; os desejos foram multiplicados, intensificados e variados.

Isto se nota especialmente em relação ao sexo, e à comida e à bebida.

Comida e bebida tornaram-se cultura, fator de compensação para o estresse da vida cotidiana, um dos temas favoritos de conversa. Paralelamente, seu excesso ou carência tem gerado em grande escala obesidade, anorexia, bulimia. Fora a confusão entre qualidade e quantidade, o que leva muitos a “encher o tanque” a fim de se sentirem satisfeitos ou atordoados.

Por outro lado, o uso de anticoncepcionais — ao eliminar o caráter procriativo ato sexual — minimizou o medo à gravidez indesejada e tornou homens e mulheres mais propensos às aventuras e às transgressões. O eros como finalidade sempre foi fortemente censurado pela moral clássica herdada (e não apenas pela Igreja), mas atualmente alavanca toda uma geração ansiosa, cujos vorazes desejos de prazer crescem sem saciedade.

Por que os desejos não se saciam? Porque, ao desfrutá-los, dizemos: “Isso é tudo?”, “É só isso?” — Pode parecer absurdo, mas o medo do fracasso rotundo e a incapacidade de gerir as frustrações renovam e amplificam os excessos.

Aí pode entrar a violência.
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